Efeito China, Termos de Troca e Eleições

Depois do choque de preços de 2020, desencadeado pelo colapso da demanda em meio à pandemia, o petróleo fechou o primeiro semestre com forte recuperação, cotado, em média, a US$ 64,80. O barril subiu 51,3% em relação aos seis primeiros meses do ano passado, sustentado pelos sinais de melhora do consumo à medida que a vacinação avança pelo mundo. A continuidade da trajetória de alta dos preços, daqui para frente, vai depender de fatores como o comportamento das variantes da covid-19 e de como os membros e aliados da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (a Opep+) se posicionarão no segundo semestre do ano.

O barril do tipo Brent rompeu, em junho, a barreira dos US$ 70 e atingiu o pico de US$ 76 no dia 25 – a cotação mais alta do petróleo desde outubro de 2018. O otimismo com a recuperação econômica nos Estados Unidos, traduzido nas quedas consecutivas dos estoques, tem dado suporte à escalada recente da commodity.

A recuperação dos preços tem impacto direto no humor das petroleiras, que começam, aos poucos, a ganhar confiança para avançar com novos projetos. No Brasil, em junho a Petrobras, Equinor e a Karoon anunciaram investimentos de cerca de US$ 10,5 bilhões para os próximos anos.

A percepção, no mercado, é o consumo estar se recuperando mais rápido do que a oferta.

O minério de ferro manteve a trajetória de alta no primeiro semestre. A média dos preços da principal matéria prima do aço de janeiro a junho deste ano foi de US$ 184,16 por tonelada, mais que o dobro da cotação média para a commodity observada em 2020, quando ficou no valor de US$ 91,59 por tonelada.

A expectativa de analistas é que o ritmo de crescimento deverá se ajustar no próximo semestre, mas os preços do minério com 62% de teor de ferro devem continuar elevados no restante do ano. Ontem, a commodity encerrou o mês em alta no mercado à vista, confirmando as projeções mais otimistas de que os preços seguiriam elevados no curtíssimo prazo, refletindo a demanda aquecida.

Em junho, a valorização acumulada da commodity ficou em 7,7%. Segundo a publicação especializada Fastmarkets MB, a tonelada de minério com teor de 62% de ferro subiu 0,8% no último dia do mês na China, para US$ 214,08.

O superávit comercial do Brasil com a China atingiu US$ 19,1 bilhões no acumulado de janeiro a maio deste ano. O valor equivale a 70,4% do saldo do país no período, destaca o boletim do Indicador de Comércio Exterior (Icomex), do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (FGV Ibre).

No acumulado dos cinco primeiros meses do ano, o superávit comercial do país somou US$ 27,1 bilhões, o maior valor da série histórica do governo federal. iniciada em 1997.

Os preços comandam o dinamismo das exportações brasileiras para China. A participação do país asiático nas exportações brasileiras passou de 32,5% para 34% entre janeiro-maio de 2020 e 2021. Entre esses dois períodos, a variação no volume exportado foi de 1,4%, e a dos preços, 32,3%.

Para o mercado americano houve equilíbrio maior entre preços e quantidade. Na mesma comparação, o volume embarcado aos Estados Unidos aumentou 12% e os preços médios avançaram 11%.

Para a Argentina, a elevação da quantidade é destacada no boletim. Nas exportações brasileiras de janeiro a maio ao país vizinho, o volume saltou 45,1% enquanto os preços subiram 6,5%. Para os demais países da América do Sul a dinâmica foi semelhante, com avanço de 31,8% no quantum e de 5,8% em preços médios.

Na balança como um todo, os preços continuam liderando o aumento do valor das exportações e os volumes, o das importações. Na comparação entre os acumulados até maio de 2020 para este ano, as exportações aumentaram em 30,6%, com alta de 20,8% nos preços de 7,1% em volumes embarcados.

Já nas importações, o valor subiu 20,9%, com avanço de 17,4% na quantidade e de apenas 3,3% nos preços, sempre de janeiro a maio deste ano contra igual período do ano passado. A maior variação dos preços de exportações comparados com os de importações levou a um aumento de 20,4% dos termos de troca entre os meses de maio de 2020/2021, ressalta o boletim.

A análise por tipo de indústria, aponta o Icomex, mostra que, no acumulado do ano, a indústria de transformação lidera o aumento do volume exportado, com crescimento de 10,3%.

Os dez principais produtos exportados foram açúcar e melaços, farelos de soja, carne bovina, combustíveis, celulose, carne de aves, semi-acabados de ferro ou aço, ouro não monetário, ferro gusa e veículos de passageiro.

Naércio Menezes Filho (Valor, 18/06/21) escreveu uma reflexão política merecedora de leitura. Compartilho-a abaixo para o leitor avaliar se é “economicismo“:  a política sendo determinada diretamente pela economia.

O Ministério da Agricultura anunciou nessa semana que as exportações do agronegócio subiram 34% em maio desse ano com relação ao mesmo mês do ano passado, como resultado do aumento da cotação das commodities, que cresceram 25% no mesmo período. Os preços dos produtos que o Brasil exporta aumentaram bem mais do que os dos produtos que importamos, aumentando os nossos “termos de troca”.

Essa melhora nos termos de troca tende a aumentar a renda real e o bem- estar da população. Em que medida essas mudanças dos preços relativos internacionais também aumentam a probabilidade de reeleição do governante que está no poder? Será que esse aumento dos preços das commodities poderá afetar as eleições do ano que vem aqui no Brasil?

A figura mostra o comportamento da variação porcentual dos termos de troca em abril de cada ano e da renda familiar mediana no Brasil entre 2010 e 2021. A figura mostra, em primeiro lugar, que realmente estamos num momento de grande crescimento dos termos de troca, comparável aos que ocorreram no início de 2011 e 2017.

Além disso, podemos notar que os termos de troca têm uma relação positiva com o crescimento da renda real das famílias, principalmente no período mais recente. Mas, será que os termos de troca afetam as eleições?

A relação entre preços das commodities e eleições foi analisada por Daniela Campello e Cesar Zucco em artigos acadêmicos e em um livro recente (The Volatility Curse). Segundo os autores, em alguns países latino-americanos como o Brasil, a popularidade do presidente em exercício e suas perspectivas eleitorais dependem muito da sorte de terem condições internacionais favoráveis no momento certo. Essas condições podem ser geradas tanto por aumentos dos preços das commodities como por reduções nas taxas de juros americanos.

Recentemente, inspirados por esses artigos, nós analisamos a relação entre variações dos termos de troca no último ano do mandato e a probabilidade de reeleição em 634 eleições que ocorreram em 145 países (1). Nós consideramos como reeleição a manutenção do partido que estava no poder por um novo mandato e não somente a recondução do mesmo líder. Interessante notar como a taxa de reeleição média varia entre os países, desde 38% na América do Norte até 70% na África. Nossos resultados mostram: um aumento de 8,5% nos termos de troca no último ano do mandato aumentam a probabilidade de reeleição em quase cinco pontos percentuais.

Mas esse novo “boom de commodities” poderá influenciar as próximas eleições no Brasil? Em primeiro lugar, devemos notar que ainda estamos longe das próximas eleições presidenciais.

Nosso estudo mostra que o importante é a variação dos termos de troca nos 12 meses que precedem a eleição, que no Brasil será em outubro de 2022. E não temos condições de prever como os preços das commodities se comportarão no futuro próximo.

Mais ainda, apesar dos termos de troca serem importantes para a evolução da renda familiar, eles estão longe de ser seu único determinante. Por exemplo, a figura mostra que a renda familiar cresceu consistentemente (a uma taxa de 5% ao ano) entre 2010 e 2014, mesmo com as grandes variações nos termos de troca que ocorreram no período.

Além disso, estamos vivendo um período bastante anormal, pois a pandemia afetou a vida de todos os eleitores em várias dimensões. Em primeiro lugar, chegamos a mais de 500 mil mortos, bem acima do que seria esperado pelas nossas condições demográficas e sociais. A falta de uma estratégia coordenada para o enfrentamento da pandemia fez com que ela esteja durando bem mais no Brasil.

Enquanto muitos brasileiros estão tendo que ficar em casa ou sair com máscaras e mantendo distanciamento, os habitantes de vários países da Europa e América de Norte já estão podendo sair livremente para trabalhar, ir a festas e eventos esportivos. Mais ainda, as consequências da perda de aprendizado dos nossos alunos, decorrente do fechamento das escolas por mais de um ano, são incalculáveis.

Além disso, a pandemia tem afetado os brasileiros de forma bastante desigual. No ano passado, a situação não foi tão grave porque o generoso auxílio emergencial concedido a quase metade das famílias brasileiras evitou uma queda maior da renda entre os mais pobres, como também pode ser visto na figura.

Mas, a renovação do auxílio com valores reduzidos não está tendo o mesmo efeito, sendo insuficiente até mesmo para aliviar a pobreza extrema em algumas regiões. Assim, a renda familiar não deverá acompanhar o aumento dos termos de troca em 2021.

Mas será que o governo conseguirá reverter essas tendências no ano que vem, lançando um Bolsa Família turbinado ainda esse ano? É difícil prever como seria um novo programa social, mas as restrições fiscais certamente impedirão que muito mais dinheiro seja gasto nessa área.

Por fim, a pandemia acelerou tendências que já estavam acontecendo no mercado de trabalho. Como uma parcela relevante da produção e do consumo passaram a ser feitas de casa, as pessoas menos escolarizadas foram duplamente penalizadas, por não poderem trabalhar à distância, nem terem para quem vender produtos.

Essa deterioração do mercado de trabalho dos mais pobres muito provavelmente continuará nos próximos anos, o que contribuirá para uma queda na sua renda. Assim, embora seja impossível prever resultados eleitorais com tanta antecedência sem saber como se comportarão os preços internacionais no futuro, os efeitos domésticos da pandemia certamente não favorecem Bolsonaro.

1 Do Terms of Trade Impact Election Outcomes? por Silva, Komatsu e Menezes-Filho, Economics Letters.

1 thought on “Efeito China, Termos de Troca e Eleições

  1. Gostaria de compartilhar esse interessante artigo porem não tem a opção de compartilhamento no Whatszap a mais importante rede social.

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