FIB X PIB: Felicidade Interna Brasileira Já Era…

Delano Franco (Valor, 09/07/21) avalia: muito se tem falado sobre a tendência ESG na última década – o abandono, ou ao menos relativização, da ideia de que a melhor forma de uma empresa contribuir para o bem-estar da sociedade é maximizar lucros dentro da lei. Um tema macro correlato, menos abordado no dia a dia da imprensa, mas que deverá ter impacto importante no debate e nas decisões de política econômica nas próximas décadas, é o questionamento sobre se a primazia do PIB como medida de sucesso econômico de um país.

Como comparar, por exemplo, distintos perfis de crescimento com relação a qualidade de vida, coesão social, bem-estar e preservação do meio ambiente?

O PIB é uma estatística engenhosa, inventada nos anos 30, nos EUA, pelo economista bielorrusso Simon Kuznets, que busca comprimir em um único número o fluxo de circulação de bens e serviços em um determinado período.

Os questionamentos sobre o PIB podem tipicamente ser divididos em dois tipos.

O primeiro trata das dificuldades em se medir apropriadamente alguns tipos de atividade. O chamaremos de críticas à precisão do PIB.

O segundo questiona se o fluxo agregado de produção é algo sobre o qual deveríamos primordialmente nos preocupar. A este chamaremos de críticas ao propósito do PIB. Ao passo que este naturalmente envolve um debate mais filosófico, aquele em geral se foca em aspectos técnicos.

Começando pelas críticas à precisão. Elas de tempos em tempos retornam com as tradicionais dificuldades de medição do PIB, tais como melhorias de qualidade (e preço constante ou cadente). Tome, por exemplo, celulares. O iPhone 11 é muito superior à versão inicial em diversos atributos, mas, como o preço é aproximadamente o mesmo, tal melhora não aparece no cálculo do PIB, dado que este soma valores dos bens (e serviços) produzidos/comercializados sem considerar avanços na qualidade.

Considere agora o exemplo de televisores – não só a sofisticação dos aparelhos se eleva, mas o preço de uma TV de mesma quantidade de polegadas cai ao longo do tempo. A produção, digamos, de um milhão de televisores modernos a R$ 2 mil cada, contra um milhão de aparelhos mais antigos a R$ 3 mil cada no ano anterior, contribuiria para uma queda no PIB entre os dois períodos, o que claramente não faz sentido econômico.

Outras fraquezas clássicas são atividades fora do mercado (por exemplo, trabalhos domésticos) e serviços governamentais, que muitas vezes são aproximados por despesas com pessoal. Ocorre que os problemas de medição estão crescendo à medida que a tecnologia da informação avança – como computar serviços gratuitos, por exemplo? Sabemos também que a mensuração de serviços traz muito mais problemas técnicos que a de bens, e hoje estes são muito mais importantes, complexos e intrincados que décadas atrás.

Passando às críticas sobre o propósito do PIB, estas se tornaram particularmente populares após a crise de 2008. Tome-se, por exemplo, o Stiglitz Report, encomendado em 2008 pelo então presidente francês Nicolas Sarkozy aos ganhadores do Prêmio Nobel Joseph Stiglitz e Amartya Sen, dentre outros, de modo a “identificar os limites do PIB como indicador de performance econômica e progresso social”.

Uma de suas principais críticas está relacionada ao fato, baseado em razoável suporte empírico, de que acima de um determinado patamar o PIB per capita e medidas subjetivas de bem-estar tendem a se desconectar (ex.: Layard & Layard – “Happiness: Lessons from a New Science”, 2005) – elevações de renda não necessariamente se traduzem em aumentos de bem-estar no sentido amplo da população.

O problema é que a estimação de indicadores nacionais de felicidade não é trivial, apesar de algum progresso ter sido alcançado nesse campo. O Butão, por exemplo, calcula sua “Felicidade Interna Bruta” (FIB) desde 2012.

Mesmo se nunca chegarmos a ter precisão e comparabilidade no FIB, como existentes no PIB tradicional, formuladores de políticas deveriam levar em conta os “surveys” de bem-estar, crescentemente disponíveis, nas políticas de desenvolvimento. A disponibilidade de dados, que vem crescendo exponencialmente facilita bastante o desafio de criar métricas coerentes e comparáveis.

Em suma, o PIB deve ser celebrado por sua engenhosidade e durabilidade ao longo de tantas décadas – sua abrangência, comparabilidade internacional e histórica, além de facilidade de compreensão por parte do público. Acreditamos que permanecerá sendo um indicador chave ainda por bastante tempo, mas sua primazia como medida de progresso será cada vez mais questionada

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