Economia da Boa Vida em lugar da Economia da Felicidade

Criador do chamado paradoxo felicidade-renda, ao qual foi conferido seu nome, e pioneiro no estudo da relação entre satisfação pessoal e dinheiro, Richard A. Easterlin chega aos 95 anos, completados em janeiro, batendo na mesma tecla que o inspira desde 1974, quando publicou seu primeiro estudo sobre a questão. Um aumento de renda pode significar no curto prazo uma maior sensação de bem-estar, mas a médio e longo prazos não é o dinheiro que traz felicidade, diz ele, que se considera feliz em parte por se dedicar exatamente a esmiuçar o tema, como disse ao Valor, por e-mail.

Seu mais recente livro, “An Economist’s Lessons on Happiness – Farewell Dismal Science!” (“Lições de um economista sobre felicidade – Adeus, ciência triste!”, em tradução livre), entrou na lista das 16 melhores obras de economia do primeiro semestre de 2021 do “Financial Times”, na seleção feita por Martin Wolf, o principal analista econômico do jornal. Wolf destaca: mais e mais pessoas estão aceitando um ponto fundamental das teses de Easterlin – de ser possível medir (e produzir) a felicidade, e é tarefa dos governos promovê-la, em vez de mirar apenas o aumento da renda.

Download:

Richard A. Easterlin – An Economist’s Lessons On Happiness_ Farewell Dismal Science! -Springer (2021)

Engenheiro de formação, com mestrado em Economia e professor na Universidade do Sul da Califórnia, Easterlin baseou-se em pesquisas e estudos demográficos nos seus estudos sobre felicidade. No livro lançado em março último, quase um manual de como perseguir a felicidade, Easterlin enfatiza a importância das pesquisas de opinião feitas nas últimas décadas para se avançar no estudo sobre o que explica a felicidade.

Ele contextualiza o resultado desses inquéritos com a situação macroeconômica do país ou região onde moram os entrevistados e com fatores pessoais, como o estado civil e a idade.

Easterlin diz que as pesquisas mostram que a tendência nos EUA é de os índices de felicidade terem se mantido estáveis ou de queda num período de 70 anos, apesar de a renda em termos reais ter triplicado nesses anos.

Pesquisas como as divulgadas anualmente pela ONU mostram que nos países mais ricos as pessoas se declaram mais felizes – neste ano, a lista foi encabeçada, pela

quarta vez consecutiva, pela Finlândia, seguida por Islândia, Dinamarca, Suíça e Holanda. Easterlin não contesta esses dados, mas afirma que a longo prazo o aumento da renda dos países não traz um aumento proporcional na sensação de felicidade dos seus habitantes. A grande explicação, segundo ele, é a comparação social. Se a pessoa percebe que só ela está ganhando mais, pode no curto prazo se sentir mais realizada e satisfeita, mas, se em média a população como um todo está melhorando de vida, isso não aumenta a sensação de felicidade, mostram dezenas de pesquisas ao redor do mundo.

Por isso, para Easterlin, um fator extremamente importante para uma pessoa se sentir mais ou menos feliz é o quanto ela quer ter. Ele cita, nesse contexto, uma frase do escritor e filósofo americano Ralph Waldo Emerson (1803-1882): “Querer é um gigante sempre em crescimento cujo casaco do ter nunca é grande o suficiente”.

A seguir, como Richard Easterlin responde aos questionamentos sobre fatores que podem ou não influenciar na felicidade:

Casamento e filhos

Mais do que casar, o que aumentaria a felicidade, escreve Easterlin, é encontrar um parceiro. Muitas pesquisas mostram que pessoas casadas são mais felizes do que os solteiros, mas ele pergunta se é o casamento que traz felicidade ou encontrar um parceiro. Detalhamentos dos questionários aplicados em muitos países mostram que é a segunda hipótese. Divórcio e viuvez aumentam a infelicidade, como era de esperar. Já os levantamentos sobre o impacto de ter filhos pode surpreender porque eles ajudam os pais a se sentirem mais felizes, mas essa sensação não perdura muito por preocupações com a volta ao trabalho no caso das mulheres e questões financeiras.

Jovens ou mais velhos

Em geral, estudos empíricos mostram que o ciclo de felicidade na vida de uma pessoa, em países desenvolvidos, assemelha-se a ondas do mar. As pessoas são mais felizes quando jovens e depois dos 70 anos. As fases em que se sentem mais infelizes são em torno dos 50 e depois dos 80, com a deterioração da saúde.

Homem ou mulher?

Pesquisas feitas nos EUA mostram que mulheres e homens relatam idênticos níveis

de felicidade. Outro estudo abrangendo 73 países com homens e mulheres em condições semelhantes entre si de idade, renda, ocupação, saúde, condição marital, indicou que na grande maioria as mulheres são mais felizes. Mas os ciclos de sensação de bem-estar diferem bastante entre eles. Como já se viu, encontrar um parceiro – casando-se ou não com ele – aumenta a felicidade. Como em geral as mulheres encontram mais cedo esse parceiro, o ciclo de felicidade começa também mais cedo para elas do que para os homens. Além disso, também como já se viu, a idade faz diferença e as mulheres vivem mais do que os homens.

Ganhar na loteria

Pesquisas recentes, com um número grande de entrevistados, mostram que, sim, ganhar na loteria aumenta a sensação de felicidade, mas apenas se você ganhar muito. É fácil explicar, escreve Easterlin. A renda das outras pessoas não melhorou, só a do ganhador.

Copa do Mundo vs. catástrofes

Easterlin dedica um capítulo do seu livro para analisar o efeito de eventos excepcionais. Na Copa do Mundo de 2010, quando a Alemanha eliminou a Inglaterra, os ingleses se sentiram deprimidos, mas essa sensação perdurou por apenas quatro dias – o mesmo ocorreu com os espanhóis, que venceram o torneio naquele ano: a sensação de felicidade durou pouco. Já no caso de grandes tragédias, os efeitos sobre a população são muito mais duradouros, afirma, citando pesquisas feitas um ano antes e um ano e quatro anos depois que o furacão Katrina atingiu New Orleans.

Países pobres

Uma das maiores dúvidas em relação à tese de Easterlin refere-se à situação dos países pobres. Ele usa o exemplo de três países que tiveram grandes aumentos no PIB e na renda per capita durante determinados períodos – China (entre 1990 e 2015), Japão (entre 1958 e 1987) e Índia (entre 1995 e 2019, período em que o PIB per capita mais do que quadruplicou). Apesar desses avanços na qualidade, o nível de felicidade apontado nas pesquisas dos três países não aumentou. Na Índia, caiu.

Richard Easterlin é lacônico nas respostas dadas na entrevista, por e-mail, à Célia de Gouvêa Franco (Valor, 10/07/21), talvez seguindo sua própria orientação de que as pessoas devem gastar menos tempo com trabalho (como atendendo a jornalistas) e mais com o que pode trazer satisfação pessoal. A entrevista:

Valor: Como seus estudos sobre felicidade e dinheiro foram recebidos por outros intelectuais e economistas? Eles concordam que, num período mais longo, um aumento da renda real não significa mais felicidade?

Richard A. Easterlin: Muitos economistas relutam em desistir do PIB (cujo crescimento deveria ser a meta principal de governos, na opinião desses economistas). A maioria dos especialistas em economia da felicidade concorda que, com o tempo, a tendência da renda real tem um efeito insignificante sobre a felicidade.

Valor: O sr. escreve sobre outros fatores que podem aumentar ou diminuir a felicidade, como democracia ou religião. E cita estudos que mostram que eles são menos importantes do que a situação econômica, a família ou a saúde. E num país dominado por um ditador ou com um governo que prejudica a economia ou mesmo a saúde?

Easterlin: Políticas de governos ruins como as que você mencionou diminuem a felicidade, qualquer que seja o governo. Políticas de bem-estar social aumentam a felicidade, qualquer que seja o governo.

Valor: É possível aprender a ser mais feliz?

Easterlin: Podemos aprender como aumentar o bem-estar físico, como, por exemplo, desistindo de fumar. Podemos aprender como melhorar o bem-estar mental. Os alunos que fizeram minhas aulas geralmente acham que sabem mais sobre como aumentar a felicidade. Meu livro mais recente cobre praticamente o mesmo terreno das minhas aulas.

Valor: Um país onde mais pessoas se consideram felizes tende a ser mais produtivo? Easterlin: Não existem muitos trabalhos sobre esse assunto, mas há evidências de

que a felicidade aumenta a produtividade.

Valor: Em seu livro, o senhor escreveu que sua esposa, filhos e netos o deixam “muito feliz”. Que outros fatores o ajudam a se sentir feliz?

Easterlin: Eu gosto do meu trabalho sobre felicidade e férias com a família.

1 thought on “Economia da Boa Vida em lugar da Economia da Felicidade

  1. Republicou isto em Iso Sendacz – Brasil and commented:
    Pelos critérios de Easterling, não se pode dizer que o Brasil é um país de gente feliz. Não obstante as crises sanitária, moral e econômica, a concentração da renda e o aumento da miséria dos brasileiros que sobrevivem à Covid-19 faz parecer que há quem viva às custas de milhões de outros, muitas vezes sem morar nem ostentar cidadania no Brasil.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s