Desempenho dos Fundos

As gestoras de recursos fora do bloco dos grandes conglomerados financeiros já detêm a maior parte dos volumes em fundos de ações e multimercados. Os cinco maiores – BB DTVM, Itaú Unibanco, Bradesco, Santander e Caixa – e as fundações com gestão própria, por sua vez, dominam em renda fixa e previdência. Isso é mostrado pelo levantamento feito pela Economática, considerando-se os portfólios líquidos, que estão sob as regras da instrução 555 da Comissão de Valores Mobiliários (CVM), segundo Adriana Cotias (Valor, 12/07/21).

Por meio de uma ferramenta que exclui valores alocados pelos fundos em outros fundos, para eliminar a dupla contagem, os dados trazem que, em ações, as assets classificadas pela plataforma de informações financeiras como independentes já reúnem R$ 404,1 bilhões, ou 74% do bolo de R$ 542,8 bilhões. Em multimercados, as gestoras sem vínculo com cinco grupos financeiros dominantes totalizam R$ 671,5 bilhões, respondendo por 65,2% do conjunto. Os dados são referentes a junho.

Nas independentes, a captação no primeiro semestre foi mais expressiva nas carteiras de ações, com R$ 22,2 bilhões, o equivalente a 53,6% do que o setor atraiu no período. Já em multimercados, os cinco maiores bancos e as fundações receberam R$ 43,1 bilhões, 53% do total. Isso mostra uma reação dos principais bancos para oferecer produtos de maior valor agregado à sua base de clientes e fazer frente à concorrência.

Itaú, Santander, BB e Bradesco, por exemplo, criaram carteiras de alocação com diversos ativos e baixo valor de aplicação que têm feito sucesso nas suas redes de agências. O Itaú também tem investido num pool multimesas para alimentar seus principais multimercados e tem ganhado volume nas estratégias de retorno absoluto, que eram pouco representativas.

Nos fundos de renda fixa, grandes conglomerados e fundações concentram os volumes, com R$ 1,87 trilhão, ou 72,4% do mercado. Também lideram com larga vantagem a captação, com R$ 151,1 bilhões até junho, ou 81,1% do total. Na previdência, os cinco grandes bancos têm R$ 710,6 bilhões (83% do conjunto), mas a captação foi maior nas gestoras independentes, com R$ 17,9 bilhões, 71,9% do que ingressou na categoria.

É na previdência que os ganhos de participação de mercado das casas independentes são mais evidentes, saindo de 13,1% em junho do ano passado para 17% na foto atual. Em ações, a parcela passou de 73,2% para 74,4%, e em multimercados de 65% para 65,2%.

“Uma das coisas mais interessantes do estudo é confirmar o que todo mundo sabe, que os grandes bancos ainda são focados em gestão de renda fixa, dentro desses fundos têm mais de 80% de patrimônio e da captação, e as gestoras independentes são mais focadas em multimercados e ações”, diz Einar Rivero, gerente de relacionamento institucional da Economática, autor do levantamento.

Pelo ranking de maiores volumes nas independentes, o pelotão é puxado por instituições que atuam na gestão de grandes fortunas: CSHG Wealth (R$ 93,6 bilhões), BTG Pactual WM (R$ 89,3 bilhões), Safra Asset (R$ 85,6 bilhões), BNP Paribas (R$ 53,6 bilhões) e Sicredi (R$ 50,9 bilhões).

Em captação, os destaques nesse grupo no ano são Safra (R$ 10,2 bilhões), ARX (R$ 9,8 bilhões), XP Allocation (R$ 6,3 bilhões), XP Advisory (R$ 5,6 bilhões), XP Vista (R$ 4,9 bilhões), além de BTG Pactual Asset (R$ 5,7 bilhões) e BTG WM (R$ 3,4 bilhões).

O mercado brasileiro sempre foi extremamente concentrado e com pouco incentivo a inovar, essa é a história de negócios no mundo todo, os oligopólios não são particularmente inovadores, têm poder de mercado cativo. Quando aparece uma empresa como a XP, e outras também, ela não vai se destacar pelo tamanho. O grande mérito do Guilherme Benchimol [fundador e presidente do conselho] foi a democratização do acesso para produtos de investimentos sofisticados para todo mundo, não só para o cara com fundo exclusivo e não sei quantos milhões.

Na XP Advisory, especificamente, o executivo diz que o trabalho tem sido oferecer alocação personalizada de ativos em fundos exclusivos ou carteiras administradas, valendo-se da equipe local e dos times de Miami e Nova York para trazer as melhoras ideias para as carteiras. Wichmann diz que é difícil ter precisão de onde vem o fluxo, com parte possivelmente saindo dos grandes bancos e parcela de novas riquezas.

A combinação de algum ganho de participação de mercado com aberturas de capital e transações privadas também incrementou o bolo do Credit Suisse Hedging-Griffo. O investidor prossegue na direção de fundos mais sofisticados, como ações, multimercados, crédito estruturado e também ativos offshore. Tem se visto captação de maneira geral.

Previdência é um desses espaços que a casa pretende ocupar, tanto em fundos próprios, em acordo com a Icatu, quanto em gestores externos. Outra via de expansão vem da aquisição de fatia minoritária no Modalmais, que vai permitir que a instituição chegue ao topo do varejo da plataforma.

Embora não veja o investidor reduzindo sua exposição a multimercados e ações, há sim um movimento para fundos de crédito por causa do ciclo de alta de juros. Com a Selic acima de 6%, perto de 7% que se projeta este ano, de fato aumenta o interesse. Com spread de dois [pontos] sobre o CDI já está se falando em pelo menos 8%, 8,5% [de retorno], já acima da inflação.

O BTG se beneficiou muito desse movimento de juros reais perto de zero ou até negativos e tende a seguir nessa toada. Tem procura grande pelos clientes, tanto o de grandes fortunas quanto o de alta renda, com entrada de recursos do private banking ou do varejo qualificado para produtos alternativos e com maior rentabilidade do que só o CDI.

Mesmo com turbulências políticas no meio do caminho, o executivo afirma não ver nada no ambiente macroeconômico tirando o Brasil do prumo, com juros reais baixos e isso levando à sofisticação do mercado de capitais e de investimentos. Com o governo saindo do financiamento do setor privado, esse é um movimento que está só começando, afirma Pessoa. “As empresas, em vez de tomar crédito barato no BNDES vão para o mercado, fazem IPO, emitem debêntures, fundos de participação de infraestrutura via 476 [instrução CVM para ofertas sob melhores esforços] porque estão encontrando demanda para se financiar de forma barata e pulverizada.”

Com o aumento dos juros, o investidor voltou para fundos de crédito líquidos, carteiras de debêntures ou com crédito bancários de médio prazo, que tinham saído de moda depois das perdas com a marcação a mercado em outubro de 2019. “Alguns papéis tiveram abertura de spread e investidor individual está querendo os ativos que ele não consegue acessar sozinho porque não chega ao varejo. Há demanda importante também para fundos com exposição a ações ou referenciados à renda fixa no exterior.

Embora seja um dos maiores bancos europeus e atenda o varejo em outras localidades como nos Estados Unidos, o BNP Paribas conseguiu ocupar espaço no Brasil sem contar com uma distribuição cativa. Considerando-se não só os portfólios que compõem a base Anbima, mas também carteiras administradas e fundos de investidores globais que gere no Brasil, são R$ 78 bilhõe. No levantamento da Economática, no grupo fora dos cinco grandes bancos e das fundações, a asset aparece na liderança em renda fixa, com R$ 42,1 bilhões sob seu guarda-chuva.

Com foco no público qualificado, com patrimônio financeiro a partir de R$ 1 milhão, e profissional, a partir de R$ 10 milhões, Sorge diz que a gestora se beneficia de ter uma grade ampla de produtos que atende o cliente em vários momentos. Naqueles de menor previsibilidade, em que o investidor fica mais avesso ao risco, e nos períodos de bonança, quando há maior disposição à tomada de risco.

Metade dos ativos sob gestão é de fundos de pensão e seguradoras. Uma fatia de 15% está em portfólios usados como caixa pelas empresas, 10% vem da área de fortunas do banco, outros 10% das plataformas e 15% de clientes estrangeiros que estão alocando em ativos locais.

O destaque em renda fixa vem da construção da franquia de crédito privado, privilegiando ativos de qualidade aos de maior retorno e risco. Nos momentos de crise do passado, com alguns efeitos da marcação a mercado, não tivemos problema de ‘default’ nas carteiras, mas trouxe impacto para todos os fundos de crédito. Nos saímos bem depois na recuperação com o fechamento de prêmios nas curvas [de juros] em todo ano passado, isso não ocorreu com todos os nossos concorrentes.

Apesar do bom fluxo para crédito, o mercado não deve voltar para o cenário de dois anos atrás, com carteiras cheias de dívida. O investidor está também distribuindo melhor seus recursos entre ações, fundos imobiliários e classes internacionais.

Entre as assets que não contam com distribuição própria, as mais bem colocadas em tamanho já estão na estrada há tempos: Verde (R$ 50,6 bilhões), Western (R$ 40,5 bilhões) e SPX (R$ 38,4 bilhões).

Sem nenhuma ligação com bancos aqui ou lá fora, a Western é a asset independente estrangeira mais bem colocada no Brasil. A diversidade de produtos e os mais de 15 anos no país têm sido uma combinação poderosa para reter o investidor e atrair novos. O processo de queda de juros nos últimos anos e a pandemia empurraram o investidor de forma mais enfática para a diversificação.

Com cerca de R$ 10 bilhões em fundos de crédito privado, a boa gestão e acompanhamento dos ativos nas carteiras ganhou reconhecimento dos cotistas, acrescenta Lima. A diversificação do passivo também tem ajudado. Isso dá resiliência à Western, o negócio não fica sujeito à direção do mercado como em casas que só têm uma estratégia. Globalmente, a holding do grupo controlador de assets tem US$ 500 bilhões, mas com a venda da operação para a Franklin Templeton, passou a fazer parte de um grupo de US$ 1,5 trilhão.

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