Iceberg Econômico

Diversidade Econômica: Repensando Economia e 
Representação Econômica (por J. K. Gibson-Graham)

Iceberg Econômico (desenho de Ken Byrne)

O iceberg é uma representação econômica usada em projetos de pesquisa-ação para estimular conversas sobre ‘a economia’. Esta imagem é uma forma de ilustrar o geralmente considerado ‘a economia’: trabalho assalariado, troca de mercadorias no mercado e empresa capitalista

Compreende apenas um pequeno subconjunto das atividades pelas quais produzimos, trocamos e distribuímos valores. Ele exprime nosso conhecimento comum das múltiplas maneiras pelas quais todos nós estamos engajados na atividade econômica. 

Ele coloca pouco acima e muito abaixo da “superfície do mar” ao submergir diversas concepções de economia. Coloca a reputação da Economia [enquanto Ciência nomeado com maiúscula], um corpo de conhecimento abrangente e científico, sob suspeita crítica por ter esse foco estreito com efeitos mistificadores sobre o estritamente capitalista.

Pessoas cotidianas em lugares cotidianos (o que na verdade significa apenas qualquer pessoa sem ser um teórico ou pesquisador econômico) são os principais debatedores com os quais Gibson-Graham está envolvido no repensar da Economia por meio de sua pesquisa-ação. O que está em jogo nessas conversas é quem e o que é visto como: 

1) constituindo “a economia” e 

2) contribuindo para o desenvolvimento econômico.

Na parte submersa do iceberg, vemos uma coleção de atividades, locais e pessoas. O aspecto caótico da “lista de roupas sujas” tem um efeito inclusivo: sugere um processo de categorização aberto e, em última análise, arbitrário

As conversas sobre o que incluir em uma representação expandida da economia [enquanto atividade com minúscula] vão desde uma discussão sobre como se maquiar pela manhã (visto como necessário para o desempenho de uma identidade de trabalhador e, portanto, como ‘trabalho’) a considerações da comunidade, isto é, o efeito construtivo de se doar com o altruísmo.

[Altruísmo indica uma atitude de amor ao próximo ou ausência de egoísmo. Também pode ser usada como sinônimo de filantropia. É também considerada uma doutrina ética, cujo interesse pelo próximo é visto como um princípio supremo de moralidade.]

O próprio processo de discutir o que está dentro e o que está fora da concepção de economia é democratizante, envolvendo as pessoas na prática de “fazer economia”, isto é, “economizar”. As discussões ajudam a gerar novos imaginários e estratégias econômicas para os ativistas econômicos locais, agências de desenvolvimento econômico e ONGs interessadas no ativismo econômico.

O diagrama do iceberg é uma versão explicitamente pedagógica do chamado de estrutura de economia diversificada (veja abaixo), uma representação emergente de conversas mais orientadas academicamente com teóricos das diferenças correntes econômicas. Nessas interações acadêmicas, o que está em jogo, para Gibson-Graham, é o “capital-centrismo” [à Polanyi, incrustação da sociedade no mercado ou desincrustração do mercado], a representação hegemônica de todas as atividades econômicas em termos de sua relação com o capitalismo. Pode ser apenas um complemento ou estar contido dentro do capitalismo

Essas tentativas de desestabilizar o “capital-centrismo” incluíram uma série de estratégias teóricas: 

1)      desconstrução de representações econômicas familiares, 

2)      produção de diferentes representações da identidade econômica e 

3)      desenvolvimento de diferentes narrativas de desenvolvimento econômico.

O projeto desconstrutivo está empenhado em desvincular o pensamento econômico da singular Lei do Valor, inscrita no discurso capital-cêntrico. Como em qualquer desconstrução, o primeiro passo foi mostrar como uma representação da ECONOMIA como essencialmente CAPITALISTA depende da exclusão ou supressão de muitos tipos de atividade econômica

Curiosamente, os “outros excluídos”, sobre os quais a aparente coerência do capitalismo se baseia, incluem uma gama de atividades objetos de investigação por não economistas ou analistas econômicos não convencionais. Esses teóricos estão construindo um senso comum alternativo ao da Economia do mainstream

Ele está crescendo em influência em todo o mundo. Envolve inclusive economistas feministas. Elas problematizaram os setores doméstico e voluntário. 

Além disso, há teóricas do setor informal no “terceiro” e no “primeiro” mundo, antropólogos econômicos concentrados nas economias indígenas, baseadas em parentesco ou dádiva, sociólogos econômicos com problematização da inserção cultural e social das empresas, os interessados ​​na economia social e seus “alternativos” empreendedores sociais, redes e organizações econômicas e economistas-políticos marxistas. Todos buscaram uma análise econômica orientada para observar o excedente extraído de diferentes atividades, geridas não por empresas capitalistas, mas sim por familiares, incluindo cooperativas de trabalhadores e outras formas comunais.

CAPITALISMO

  • commodities
  • mercados
  • trabalho assalariado
  • empresários
  • acumulação privada

NÃO CAPITALISMO

  • permuta social
  • trabalho escravo
  • compartilhamento do excedente

CAPITALISMO EXCLUSIVO DE OUTRAS ATIVIDADES

  • doação de presente
  • trabalhadores por conta própria
  • produção doméstica
  • setor informal
  • empreendimentos comunitários
  • troca indígena
  • trabalho voluntário
  • cooperativas

Organizar o trabalho sobre as maneiras pelas quais o valor social é produzido, transacionado e distribuído, indo além daqueles tradicionalmente associados ao capitalismo, transformou o termo subordinado ao binário CAPITALISMO X NÃO CAPITALISMO, tornando-o uma multiplicidade positiva. Mas também tentamos desconstruir o termo dominante, tornando o capitalismo diferente de si mesmo

Em particular, estamos interessados ​​em mapear as múltiplas lógicas e registros de valor, os quais disputam a preeminência dentro das corporações capitalistas. Este trabalho sobre a diferença capitalista é paralelo à rica literatura sobre formas culturalmente incorporadas de empresa capitalista.

O projeto de produzir economias radicalmente heterogêneas motiva nosso compromisso de multiplicar registros de valor, comensurabilidades e estratégias de apropriação e distribuição de excedentes. Encontramo-nos empenhados não em estabelecer uma nova lei de avaliação mais socialmente aceitável, mas em colocar em questão as decisões éticas envolvidas na fixação momentânea de valor, comensurabilidade e apropriação e alocação de excedentes.

Nossa primeira tentativa de conceituar a diversidade radical das relações econômicas é em termos da coexistência de:

•       diferentes tipos de transação com seus múltiplos cálculos de comensurabilidade;

•       diferentes formas de realizar e remunerar o trabalho;

•       diferentes formas de organização econômica ou empresa com suas múltiplas formas de produção, apropriação e distribuição de excedentes. 

Mercado formalMercados alternativos com formas não mercantis de troca e transação
Trabalho assalariadoVárias outras formas de desempenho e trabalho remunerado
Empresa capitalistaOutras formas de empresa, onde a iniciativa privada acumulação de excedentes não é o negócio principal

Uma Economia Diversificada

TransaçõesTrabalhoFormulário Organizacional
MERCADOREMUNERAÇÃOCAPITALISTA
MERCADO ALTERNATIVO
Sistemas de comércio local
Moedas alternativas
Mercado subterrâneo *Intercâmbio cooperativo
Permuta
ALTERNATIVA PAGA Cooperativa
Trabalhadores por conta própria
Endividado *
Em espécie
ALTERNATIVA CAPITALISTA
Ética ambiental
Ética social
Empresa estatal
Sem fins lucrativos 
NÃO MERCADO
Fluxos domésticos
Presentes
Troca indígena
Roubo*
NÃO PAGO
Voluntário
Tarefas domésticas
Cuidado da família
NÃO-CAPITALISTA
Comunitário
Independente
Feudal*
Escravo*

Observação: as duas áreas abaixo representam atividades (excluindo aquelas marcadas com *) possíveis de colocar na ‘economia comunitária’ (veja abaixo).

Observe também a tabela ter sido projetada para ser lida como colunas em vez de linhas. Por exemplo, as empresas não capitalistas participam de mercados e voluntários podem trabalhar no setor capitalista. 

Esta estrutura não tenta ser abrangente, mas está sempre se desenvolvendo e mudando de acordo com o contexto e o uso. É tão provisório até parecer incômodo até mesmo escrevê-lo e divulgá-lo em uma forma textual semipermanente. O que se apresenta são várias listas organizadas em colunas representativas de certos processos econômicos.

Poderia, presumivelmente, continuar adicionando dimensões e, de fato, algumas pessoas aconselharam a adicionar colunas para finanças, recursos e meio ambiente. Conversas podem ajudar a especificar outros processos em torno dos quais a multiplicidade econômica é gerada, por exemplo, maneiras de interagir com o meio ambiente. 

Mas, no momento, os pensamentos mais desenvolvidos giram em torno dos processos de transação, trabalho e organização do excedente apropriação e distribuição.

O que está em jogo nesta representação da economia diversificada é a capacidade de começar a identificar e construir uma economia comunitária na qual as decisões sobre comensurabilidade, remuneração do trabalho e produção, apropriação e distribuição de trabalho excedente são trazidas à tona como práticas éticas. Essas são práticas por meio das quais indivíduos, comunidades, regiões e sociedades são formados e sustentados. 

economia comunitária é, até certo ponto, uma representação normativa da economia diversa, na qual certas éticas são valorizadas em detrimento de outras. Por exemplo, enquanto a economia diversificada reconhece a prevalência contemporânea da escravidão como um modo de organização econômica, ou o trabalho escravo como uma forma de trabalho remunerado, ou o roubo como um modo de transação. 

É difícil, em abstrato, imaginar o lugar destas coisas em uma economia comunitária, onde a ética contemporânea da justiça e da democracia são assumidas para prevalecer. [O autor desconhece as comunidades periféricas do Rio de Janeiro, onde os pobres sofrem extorsão de milicianos-paramilitares no fornecimento de serviços clandestinos.]

Uma questão saliente diz respeito ao papel possível de a empresa capitalista desempenhar em uma economia comunitária. Na tabela, localiza empresas capitalistas com reconhecimento de uma ética ambiental ou social [ESG] e empresas estatais e sem fins lucrativos sem operarem de acordo com a dinâmica de acumulação nas duas seções abaixo, associadas à economia comunitária. 

Nesse sentido, a representação normativa da economia não é anticapitalista. Em vez disso, o autor está interessado ​​em incorporar a compreensão da diferença capitalista na economia da comunidade e na construção de uma variedade de relações (mutuamente transformadoras) entre as práticas econômicas não capitalistas e as capitalistas.

Isso o leva a uma das arestas criativas do projeto de repensar a economia, onde está começando a explorar a dinâmica do desenvolvimento econômico fora de um enquadramento “capital-cêntrico” no qual a (uni) linearidade e o domínio do progresso capitalista ocuparam por muito tempo o centro do palco. Aqui, o autor está indo além da questão de representar a identidade econômica para representar a dinâmica econômica

Cada vez mais somos atraídos por conversas com teóricos do pós-desenvolvimento. Eles rejeitam o controle discursivo do eurocentrismo, da unidirecionalidade e do crescimento nas narrativas de mudança econômica. 

Estamos interessados ​​naquilo possível de aprender com as novas teorias ecológicas de co-desenvolvimento interdependente. O que está em jogo nessas ruminações conceituais é a possibilidade de novas intervenções econômicas, mas também o reconhecimento de elas terem resultados imprevisíveis. 

Isso nos traz de volta às nossas conversas com comunidades, ativistas econômicos locais, ONGs e planejadores. Se abandonarmos qualquer fé na certeza e abraçarmos as implicações da sobredeterminação e da constituição mútua, o que podem ser e se tornar as intervenções econômicas? Como a ética pode entrar nas discussões sobre experimentação e avaliação econômica?

A outra vantagem desse projeto envolve trabalhar na produção de sujeitos não capitalistas.

Nesses projetos de pesquisa-ação, descobriu-se, embora o reconhecimento da diversidade da economia seja fácil para as pessoas, o que é difícil é imaginar-se como um agente ativo capaz de construir e sustentar práticas econômicas não capitalistas. Enquanto a maioria de nós já pode estar operando neste papel em nossas famílias e comunidades, nossa identidade econômica não capitalista como tal não é trazida à linguagem e visibilidade e nossos desejos por não capitalismo não são acesos. 

Na verdade, o desejo de reconhecimento como sujeito do capitalismo é o que parece ser o mais importante. De inúmeras maneiras, as representações populares alimentam o desejo de ser: 

  1. um sujeito consumidor de mercadorias capitalistas, 
  2. um investidor com direitos sobre a riqueza capitalista ou 
  3. um participante de uma empresa capitalista. 

Trabalhar contra e com esses desejos, desvendar seu teor capitalista versus sua incipiente natureza econômica não capitalista, despertar desejos por diferentes tipos de identificação e conexão por meio de práticas econômicas – esses são os objetivos e a substância dessa pesquisa-ação.

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