Tiro no pé: mira do capitão reformado

César Felício (Valor, 06/08/21) fez uma análise da política eleitoreira do populista de direita em busca a qualquer custo de reeleição para ele e sua família não irem para a prisão. Segundo o título de sua coluna “Bolsa Família sozinho não ganha eleição”.

A proposta de um Bolsa Família recalibrado, com um aumento de pelo menos 50% em seu valor, é uma tentativa canhestra de “roubar uma bandeira / marca” do seu maior adversário, criador do programa de transferência de renda aos mais pobres com responsabilidade fiscal.

Mesmo com as restrições de natureza fiscal levantadas dentro do Ministério da Economia, a balança deve pender para o cálculo político em um governo com Ciro Nogueira na Casa Civil, Fábio Faria na Comunicação Social, Rogério Marinho no Desenvolvimento Regional e João Roma na Cidadania. Todos são membros fisiológicos do Centrão… E até mais sensíveis, social e politicamente, do que os ex-ministros militares…

O ganho eleitoral para o incumbente que aposta em programas de transferência de renda já está amplamente demonstrado. O PT converteu em redutos as áreas onde a população foi mais beneficiada pelo Bolsa Família de 2004 para cá, como mostram análises feitas por cientistas políticos. É algo incontroverso.

As pesquisas de opinião pública também não deixam margem a dúvidas: o atual presidente é mais fraco entre as mulheres, no Nordeste, na população de mais baixa renda. Todos segmentos que tendem a ser mais beneficiados pelo futuro Auxílio Brasil. Ele vai crescer nesses segmentos e a sua presença no segundo turno das eleições presidenciais do próximo ano se tornará mais provável.

A questão central é se o Auxílio Brasil por si só representará para ele o que o Bolsa Família foi para Lula em 2006. O ex-presidente perderá os “currais eleitorais” criados com a política de transferência de renda? Há indícios fortes de a resposta ser não. O ganho existirá, mas tende a não ter a mesma potência, a não ser que o atual presidente reformule o seu modo de fazer política.

Um sinal disso pode ser percebido na pesquisa que está sendo desenvolvida pelo cientista político Sérgio Simoni, professor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. “O retorno em popularidade não é automático e depende do discurso do candidato”, observa. Ele usa como exemplo a evolução da aprovação do idiota na presidência no ano passado.

O presidente passageiro implantou por algum tempo um programa muito mais amplo e expressivo financeiramente que o Bolsa Família: o Auxílio Emergencial. Nas pesquisas do Datafolha, a aprovação presidencial (soma dos índices de bom e ótimo) passou de 32% em junho para 37% em dezembro. A desaprovação (ruim e péssimo) variou de 44% para 32% no período. O impacto existiu, sem dúvida, mas foi mais relevante na queda da desaprovação do que no aumento da aprovação, maior indutor de voto.

O estúpido não criou uma narrativa de defesa do benefício. Quem criou foi a oposição, que cobrou a sua manutenção ou o seu aumento, dependendo da ocasião. No dia em que a lei que viabilizou o auxílio foi promulgada, o vereador filhote postou, por exemplo, a seguinte mensagem no Twitter: “Partimos para o socialismo. Todos dependentes do Estado até para comer”. Várias as vezes os membros do clã miliciano-paramilitar criticou o auxílio.

No plano do discurso, o presidente foi coerente com o que ele e seu entorno verbalizaram durante a campanha eleitoral de 2018: a conjugação do ultraconservadorismo com um liberalismo econômico xiita. Na prática, seu governo não conseguiu agir como uma linha reta.

No caso emblemático do primeiro mandato de Lula, vivia-se a situação inversa. O então presidente havia se elegido com uma campanha profundamente centrada na redução da miséria por meio da ação do Estado. A prática do seu governo no primeiro mandato, contudo, foi de ortodoxia econômica. [Esse mito é próprio de quem não entende bastar uma política de crédito para mudar o regime de política econômica.]

As denúncias de corrupção erodiram fundo a sua imagem e produziram uma rejeição nas classes médias e alta jamais superada. [Na verdade, quatro vitórias eleitorais seguidas do PT afetaram emocionalmente a base eleitoral do PSDB com o antipetismo cultivado na imprensa.] Mas ao engatar o programa social, Lula estava com o discurso encaixado para a campanha da reeleição. Plantava em solo semeado.

Há outro fator: uma coisa é aumentar o valor de um benefício, a outra é criá-lo. “É mais importante do ponto de vista eleitoral ampliar o total de famílias beneficiadas”, observou o cientista político Vitor Sandes, da Universidade Federal do Piauí, um dos Estados onde o Bolsa Família é mais decisivo.

Isso porque, ao contrário do auxílio emergencial, o Bolsa Família é um programa focalizado. Oscila entre 12 e 14 milhões de famílias beneficiadas desde 2009. Entre 2004 e 2008, na era Lula, saiu de um piso de 4 milhões de benefícios por programas de transferência de renda para 11,4 milhões de famílias incluídas, um salto de grande impacto.

Sandes lembra, mesmo no Piauí, o voto presidencial passa por outros condicionantes. Estrutura política faz diferença. O governador piauiense Wellington Dias, primeiro petista a ser eleito no Nordeste, junto com Lula em 2002, chegou ao poder e o manteve porque fez muita costura com grupos tradicionais no Estado. Movimentos semelhantes também aconteceram na Bahia, Maranhão, Ceará, Pernambuco.

A questão moral é importante para a base evangélica, mas hoje Lula divide esse eleitorado. A curva da inflação e do desemprego pode ajudar ou prejudicar o presidente que almeja a reeleição.

Para ele transformar o novo Bolsa Família em máquina de votos, ele precisaria se reinventar. O problema é que ele não se reinventa, pelo menos não é o que faz até o momento. Do ponto de vista eleitoral, o idiota parece apostar no mais do mesmo, na repetição da estratégia de 2018. Age como se fosse um candidato antissistema, sendo que ele é o gestor do sistema.

Ele poderia capitalizar a melhora da economia e da vacinação, mas não é isso que estava fazendo até um mês atrás. Seu mote era a cloroquina, era menosprezar o combate à pandemia a ponto de tirar uma máscara de proteção do rosto de uma criança.

Claramente esse não é um comportamento de quem quer ampliar a base. Aparentemente ele pensa em continuar no poder de outra maneira.

De um mês para cá, a sua palavra de ordem era o voto impresso, como ferramenta para deslegitimar todo o processo eleitoral. A proposta foi barrada pela Câmara de Deputados.

Sem o voto impresso, o presidente nunca deixa exatamente claro o que tem em mente, Dá duas pistas: o que quer que possa acontecer envolveria as Forças Armadas e implicaria em não passar o poder para quem vença as eleições.

Agindo dessa maneira, o impacto do novo Bolsa Família no cenário eleitoral será atenuado, uma vez que o presidente dá argumentos para sua rejeição permanecer muito alta. Para ele ser decisivo, é preciso ele o tratar assim, mas sua inteligência não chega a isso…

Tiro no pé

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s