Investimentos do BCB com Reservas Cambiais

Depois de obter a maior rentabilidade em 12 anos, o Banco Central fez alguns ajustes na estratégia de investimento dos US$ 353,448 bilhões em reservas internacionais para se preparar para o ambiente de alta de juros e de inflação internacionais e para se adequar às mudanças no passivo externo do país.

O prazo médio dos investimentos foi reduzido de 2,78 anos para 2,54 anos ao longo de 2020, deixando as reservas internacionais um pouco menos expostas a uma alta na curva de juros de prazos mais longos.

O BC aumentou ainda a sua exposição ao ouro, que passou de 1,2% para 1,94% das reservas no primeiro semestre deste ano. O metal costuma ser usado por investidores como proteção contra os riscos de alta da inflação em países desenvolvidos.

Também diversificou um pouco a aplicação por tipo de moeda. Aumentaram de perto de 1,21% para 1,7% os investimentos em ativos em “outras moedas”, ou seja, fora do grupo das cinco (dólar, euro, libra, iene e yuan) que compõem a cesta de direitos especiais de saque (DES) do Fundo Monetário Internacional (FMI).

No ano passado, o BC obteve uma rentabilidade de 5,57% nas reservas internacionais, a maior desde 2008. O que mais ajudou foi o corte na taxa básica de juros dos principais BCs do mundo para combater os efeitos da pandemia. A queda de juros internacional fez aumentar os valores dos títulos em que estão investidas as reservas.

Outro fator que pesou foi o enfraquecimento do dólar em relação a seus pares. Isso faz com que investimentos do BC nessas outras moedas se valorizem, comparados ao dólar, padrão monetário em que as reservas brasileiras são contabilizadas. Em dezembro, 20,4% das reservas estavam denominadas em moedas diferentes do dólar.

Essas mesmas forças que ajudaram a turbinar a rentabilidade das reservas, porém, tendem a ter um efeito contrário neste ano, com a aceleração recente da inflação nas economias desenvolvidas e a retirada de estímulos monetários precificada pelos mercados na curva de juros.

De fato, no primeiro semestre as reservas tiveram uma perda de US$ 1,665 bilhão devido à queda do preço de papéis em que estão investidas. No ano passado, haviam ganhado US$ 8,710 bilhões no mesmo período. Já a variação de preços de moedas ocasionou perda de US$ 1,875 bilhão.

Como a estratégia de investimento é de longo prazo e leva em conta outros objetivos, como liquidez e segurança, não é possível escapar de todas as perdas mensais. Mas a redução do prazo médio da dívida, embora pequena, é uma forma de o Banco Central se proteger um pouco dos riscos de inflação e alta de juros no exterior. Em fins de 2019, as reservas tinham uma perda de US$ 9 bilhões com uma alta de 1 ponto percentual em toda a curva de juros americana; em fins de 2020, essa sensibilidade caiu a US$ 8,7 bilhões.

Em 2013, num outro período de retirada de estímulos monetários nos Estados Unidos, o BC reduziu o prazo de referência das reservas de 1 a 3 anos. Isso permitiu que o prazo da carteira chegasse a uma mínima de 1,63 anos em 2017. O prazo médio de referência dos investimentos subiu ao intervalo de 1 a 5 anos a partir de 2018. Até agora, o BC não anunciou publicamente discussões ou eventual decisão de redução para o prazo médio de referência dos ativos das reservas.

Entre maio e junho, o Banco Central ampliou em 80% os seus investimentos em ouro, que chegaram a USS 6,873 bilhões. Também nesse caso o BC não forneceu maiores explicações. Alguns ex-funcionários da instituição, envolvidos na gestão das reservas no passado, disseram ser preciso acompanhar a evolução desses investimentos nos próximos meses para entender qual é a estratégia da autoridade monetária.

Uma possibilidade é que seja apenas um ajuste de curto prazo para ampliar o rendimento das reservas, num contexto de maior risco inflacionário e de alta de juros. Outra possibilidade é que o BC tenha tomado uma decisão estratégica de reduzir sua exposição ao dólar, cujos atributos de moeda de reserva internacional vêm sendo crescentemente questionados, e aplicar mais em ouro, que tem uma participação pequena na carteira brasileira comparado com outros países.

Apesar da forte compra, o ouro corresponde a menos de 2% dos ativos das reservas do Brasil, e nesse limite ainda pode ser visto como uma forma de buscar rentabilidade, diz um ex-funcionário do BC. Nos últimos anos, o BC destinou pequenos percentuais das reservas a aplicações com maior risco e retorno, como índices de ações no exterior.

No ano passado, o Banco Central criou um comitê de gestão ativa de curto prazo das reservas, cujo papel é justamente fazer aplicações que se desviam, dentro de certos limites previamente aprovados, da carteira de referência de longo prazo.

Como o Banco Central dá explicações sobre a estratégia das reservas internacionais de forma defasada, não se pode descartar um possível aumento progressivo das aplicações em ouro. Ele lembrou que o BC anunciou uma revisão na estratégia das reservas na sua agenda de reformas BC#, mas nunca divulgou o resultado.

Segundo essa fonte, a autoridade monetária teve nos últimos anos uma estratégia consciente de limitar a aplicação em ouro, que fazia sentido num contexto de juros internacionais mais altos. Agora, com a perspectiva de juros estruturalmente baixos por um tempo prolongado, seria possível uma revisão da estratégia. Alguns BCs, como o da Rússia, têm uma fatia expressiva de suas reservas em ouro, superior a 20%, em parte por questões geopolíticas, para ficar menos exposto ao dólar e ao euro.

Um outro movimento que chamou a atenção foi o aumento da exposição das reservas em moedas que não fazem parte do grupo das cinco que compõem a cesta do FMI. A exposição das reservas a essas moedas subiu para US$ 5,933 bilhões em junho.

O BC chegou a ter investimentos importantes em moedas como o dólar australiano e canadense na década passada, mas reduziu essa exposição para perto de zero. A intenção foi tornar as reservas menos cíclicas. O Canadá e a Austrália são exportadores de commodities, como o Brasil, e suas moedas têm alguma correlação com o real.

As estatísticas do BC não detalham em que moedas foram feitos os investimentos mais recentes, nem sua razão. Como princípio, porém, a distribuição dos investimentos em moedas costuma espelhar a dívida bruta externa do país. Desde fins de 2018, a dívida externa em moedas fora da cesta do FMI subiu de US$ 216 milhões para US$ 3,851 bilhões, na posição de maio de 2021.

Depois de quase nove anos sem mexer nas reservas de ouro – a última compra foi em novembro de 2012 – o Banco Central do Brasil voltou a adquirir estoques do metal precioso. Foram compradas 11,9 toneladas em maio e 41,8 toneladas em junho, somando 53,7 toneladas a mais.

Com isso, o estoque de reservas de ouro do BC chegou a 121,12 toneladas (ou 3,894 milhões de onças-troy), equivalente a US$ 6,873 bilhões. Segundo o World Gold Council, entidade internacional que reúne dados sobre o setor, o BC brasileiro tinha a 42a maior reserva de ouro do mundo em maio de 2021. Se consideramos as compras feitas em junho – e simulando que as reservas dos outros países não se alteraram – o Brasil subiria dez posições nesse ranking, ou seja, para o 32o lugar.

Ainda assim, com suas 121 toneladas de ouro, o Brasil está muito longe dos maiores detentores do metal no mundo. Os Estados Unidos, que lideram a lista, têm 8.133 toneladas. Na sequência aparecem Alemanha (3.359 toneladas), Fundo Monetário Internacional (2.184 toneladas), Itália (2.451 toneladas) e França (2.436 toneladas).page1image2423270528

Em seu mais recente Relatório de Gestão das Reservas Internacionais, publicado em março, o BC fala muito pouco sobre o ouro, lembrando apenas que, de acordo com a Lei 4.595, de 31 de dezembro de 1964, compete privativamente à autarquia ser depositário das reservas oficiais de ouro. A participação do ouro nas reservas internacionais variou pouco ao longo dos anos, passando de 0,50% em 2011 para 1,19% em 2020.

Em 2019, o Valor mostrou onde estão guardadas, fisicamente, as maiores reservas de ouro do mundo. Os principais cofres estão no prédio do Federal Reserve, em Nova York, e na sede do Banco da Inglaterra, em Londres.

No Brasil, uma brochura educativa do BC, editada em 2002, afirma que “uma parte das reservas é guardada nos cofres do Banco Central, na forma de barras ou lingotes de ouro e em moedas e cédulas estrangeiras, protegidas por modernos sistemas de segurança”. “Outra parte da reserva, a mais importante, o Banco Central deposita em bancos no exterior”, acrescentava o documento.

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