Investimentos no Brasil: Cortina de Fumaça da SPE

A expressão cortina-de-fumaça é usada como alusão a técnicas utilizadas por estrategistas militares para esconder suas forças ou veículos por trás de uma nuvem de fumaça, seja ela natural ou produzida artificialmente, para enganar e confundir o inimigo, dando-lhes a oportunidade para empregar uma manobra de contra ataque ou retirada. O recurso também é utilizado por ilusionistas para desorientar o público, desviando sua atenção do momento da execução do truque. Por exemplo, o uso do recurso, mostrado na foto abaixo, faria o inimigo morrer de rir1

A atual equipe econômica instalada no ministério da Economia se especializou em vender ideologia ou “cortina-de-fumaça”. Confira a propaganda enganosa do “discurso oficial” da SPE: só serve para empresários do tipo “me engane que eu gosto”…

O investimento lidera a recuperação da economia após a crise gerada pela pandemia de covid-19, mesmo com a menor participação do setor público, diz a Secretaria de Política Econômica (SPE) do Ministério da Economia. A retomada, acrescenta, está acontecendo a taxas mais altas que nas crises anteriores e o investimento puxa esse processo “a despeito da redução da participação do setor público”, com menores níveis de consumo e investimento estatal.

A secretaria neoliberal, sempre preocupada em criticar a Era Social-Desenvolvimentista, afirma: se até 2013 o investimento era, em grande parte, financiado por recursos públicos, hoje isso se dá majoritariamente via setor privado. “Não se deve comparar taxas de investimento, que naquela época eram mais altas que hoje, mas sim, a qualidade desse investimento, que é melhor atualmente”, diz em nota informativa divulgada no dia 27/07/21.

Para a SPE, o importante não é “quantidade” de FBCF, mas sim a “qualidade”: se for realizada pelo setor privado pode ser muito diminuta! Deveriam devolver os diplomas de economistas!

Veja a estupidez: para a SPE, a redução do direcionamento de crédito é fundamental para retomada do investimento. O documento destaca que até 2015 foi crescente a participação dos recursos direcionados no total do crédito do Sistema Financeiro Nacional (SFN), mas que, a partir de meados de 2017, o crédito livre cresceu em percentual do Produto Interno Bruto (PIB) e houve forte expansão no período da pandemia. Foi o único período com política de crédito emergencial para “as queridinhas empresas privadas” não quebrarem!

É observada ainda grande expansão do mercado de capitais. Ela não estaria ligada à especulação por conta da fuga de capitais da renda fixa para a renda variável, mas está relacionada à capitalização das empresas para investimento, diz o documento.

Essa capitalização contínua se dá pela abertura do capital das empresas com lançamento de ações na Bolsa, assim como pelo financiamento privado por meio de debêntures e outros títulos e por meio dos fundos especializados. As debêntures têm registrado aumento na medida em que ocorre o “destravamento do marco regulatório de setores como saneamento, gás e logística”.

Segundo o texto, ao contrário das últimas retomadas, o setor público, agora, não é o “provedor” do crédito e não direciona o capital para os empreendimentos. “Ao contrário do que muitos advogam, menor ativismo estatal não gerou escassez de crédito, e sim, o oposto: houve forte crescimento das fontes de financiamento no ano passado para as empresas e famílias.”

A secretaria destaca que os investimentos têm uma retomada mais rápida e intensa hoje do que em recuperações de crises anteriores e que esse processo tem sido disseminado entre os setores e regiões do país. “Após 12 meses do pior impacto da crise da covid-19 sobre a produção de bens de capital, nota-se que já se atingiu o mesmo percentual máximo de difusão que era observado antes da crise”, diz o texto.

Para a SPE, “está em curso uma mudança qualitativa nos fundamentos do investimento”, tanto em termos de composição quanto de financiamento, e a política econômica do governo, implementada com o Congresso, tem “pavimentado o caminho para a melhora da qualidade do investimento”. Credo!!! Tanta ilusão oficial…

Dentre as reformas microeconômicas realizadas, o texto destaca pautas como o open banking, sandbox regulatório, cadastro positivo e IPCA como indexador de crédito imobiliário. Cita também o marco legal das startups, além de medidas na área de agronegócio, como o Fiagro. “É fundamental aproveitar este momento da retomada econômica para avançar na agenda de reformas pró-mercado e consolidação fiscal”, acrescenta.

Esse documento da SPE é um verdadeiro epitáfio do neoliberalismo brasileiro. Epitáfio significa “sobre o túmulo”, vem do grego epitáfios. Este termo se refere às frases escritas, geralmente em placas de mármore ou de metal e colocadas sobre o túmulo, ou mausoléus nos cemitérios, com o fim de homenagear seus mortos sepultados naquele local. Estas placas são chamadas de lápides.

Veja os comentários de André Dratovsky, CEO da fintech Elleve, em artigo (Valor, 28/07/21) sobre uma política pública essencial de investimento no chamado capital humano.

Investir em capital humano é um caminho crítico para a evolução sustentável em qualquer sociedade, sobretudo em países em que a educação é altamente dependente dos instáveis e imprevisíveis fundos públicos. O surgimento de soluções inclusivas de crédito, tanto para estudantes quanto para instituições de ensino, tem sido primordial para a quebra de paradigmas fortemente enraizados culturalmente, tais como, a necessidade da graduação tradicional como premissa para inclusão e sucesso profissional e econômico.

Figuramos em último lugar, na 64a. posição, no ranking de competitividade na América Latina, segundo o recente estudo do IMD World Competitiveness Center. O Brasil é uma das menores populações com ensino superior na região, e isso não é louvável para um país em crescente desenvolvimento.

Se de um lado as “edtechs” têm protagonizado em ganho em eficiência, qualidade e redução de custos na educação, por outro, as fintechs estão mudando o cenário pela inclusão socioeconômica brasileira, cujos resultados em inserção no mercado de trabalho e geração de renda são tangíveis e transformadores. O universo de possibilidades é gigante, mas também igualmente desigual na proporção. Importante dizer que dois em cada cem brasileiros contam com financiamento privado.

Jovens de baixa renda, na faixa de 18 a 25 anos, sem garantias, bens próprios, score de crédito e sem histórico de relacionamento com o mercado financeiro, como vão comprovar renda se não conseguem a formação necessária ao primeiro emprego? De que forma convencem uma instituição tradicional de que precisa e é merecedor de crédito para estudar, ou ainda que vai conseguir pagar depois de concluir o curso?

A resposta para isso está na capacidade de enxergar como determinado curso, somado ao esforço e competência, será capaz incluí-los no disputado ambiente profissional. Enquanto não se inventa a famosa bola de cristal ou a resposta para “o ovo ou a galinha”, a solução emerge dos modelos de análise preditiva.

Ao apoiar cursos de curta e média duração, e de alto impacto em empregabilidade, atenua em ritmo muito mais palpável o temível risco de crédito, a burocracia e ineficiências operacionais das instituições financeiras mais tradicionais.

A criação do Fundo de Financiamento Estudantil (Fies), um programa de ações sociais do governo federal que financia cursos de ensino superior, veio com a esperança de solucionar o problema de acesso à educação superior. Sem tirar o mérito, o Fies investiu em duas décadas mais de R$ 100 bilhões por meio de um programa pouco eficiente e nada sustentável do ponto de vista econômico. [Fonte?!]

Regras mal estabelecidas e a ineficiência pública na gestão do programa requereriam orçamento federal eterno e inviável para manter o número de beneficiados, tanto que culminaram na quase extinção da iniciativa.

Atualmente, o Fies acumula um prejuízo na ordem de R$ 13 bilhões [fonte?!], um valor altíssimo para ser custeado pela sociedade, muito provocado pela inadimplência de alunos que, mesmo depois de formados, não tiveram condições de pagar a dívida. O motivo pode ser variado, desde a negligência em quitar as parcelas, ausência de perspectivas quanto à carreira, baixa correlação do currículo educacional com as competências demandadas pelo mercado ou ainda o próprio desincentivo que os recursos públicos trouxeram à competitividade entre as instituições de ensino.

A falta de um olhar holístico que vá na essência do problema e reverta o modelo de financiamento em algo sustentável não é um problema que assola somente o Brasil. Nos EUA, a dívida com crédito estudantil supera US$ 1,3 trilhão, um grande gargalo que os americanos aprenderam a conviver e que, em não raros casos, envolve até mesmo hipotecas de imóveis.

A meu ver, o principal entrave do setor educacional é a ausência de uma análise preditiva baseada no perfil comportamental, no potencial de desenvolvimento profissional, na aposta do conceito de “lifelong learning”: aprendizado ao longo da vida. [Só?! Se fosse assim tão fácil por qual razão não fizeram antes?!]

Outro desafio é avaliar os cursos que trazem uma bagagem das competências atuais que o mercado exige. Inevitavelmente e felizmente, podem trazer reais chances de empregabilidade.

Com o avanço da inteligência artificial é possível criar arquétipos, perfis de alunos que levam em conta suas particularidades, especialmente o potencial de desenvolvimento e visão de carreira. Em outras palavras, uma modelagem de soluções customizáveis e inclusivas, pelas quais as escolas que gritam por alternativas possam abarcar cada vez mais jovens esforçados e carentes economicamente.

A combinação da melhoria da experiência de crédito com o impacto social é um mundo possível. Essa realidade força, no bom sentido da palavra, que mais fintechs apareçam com propostas inovadoras e disruptivas – e isso é extremamente positivo. Essa onda de novos empreendedores, ávidos por inovação, influencia e provoca, de certo modo, o mercado financeiro para que reveja seu modus operandi, visão do modelo de negócio e de atuação.”

O uso de “palavrinhas-mágicas” moderninhas nesse discurso yuppie não resolverá o problema mais profundo: pobreza de 90% da população brasileira. Ganha abaixo de 5 salários mínimos!

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