Administração de Grande Fortuna

Adriana Cotias (Valor, 12/08/21) informa: o primeiro semestre rendeu bem para os serviços de private banking. Mesmo com pandemia e estragos em alguns setores da economia, a dinâmica do mercado de capitais e de transações de fusões e aquisições serviu de combustível para criar novas riquezas.

De janeiro a junho, o volume das fortunas administrado pelos bancos cresceu 8,8%, para R$ 1,768 trilhão, segundo dados da Anbima, associação representante do mercado de capitais e de investimentos. Em 12 meses, o incremento foi de 35,4% contra IPCA de 8,35% no período.

A venda de empresas e de propriedades agrícolas, além de captações secundárias de ações menos concentradas nos centros financeiros têm contribuído para ampliar o volume de fortunas para além do tradicional eixo Rio-São Paulo. Segundo recorte da Anbima, o Centro-Oeste cresceu 7,8%, a R$ 40,4 bilhões, enquanto o Nordeste já reúne R$ 80,8 bilhões, com alta de 12%.

A participação relativa ainda é pequena, porém, com 2,28% e 4,57% do conjunto, respectivamente, porque São Paulo também cresceu (alta de 10,2%), a R$ 1,1 trilhão, representando quase 60% do total do setor. O Rio ficou com fatia de 12,8% do patrimônio, ou R$ 225,6 bilhões e alta de 12% no semestre.

Para o segundo semestre, os executivos à frente de alguns dos principais private banking brasileiros acham esse crescimento deve prevalecer, mesmo com juros em alta na economia e o debate eleitoral antecipado. Com projeções de a Selic terminar 2021 entre 7% e 8%, dos 5,25% ao ano atuais, a avaliação é a via de financiamento pelo mercado de capitais não vai se fechar.

De janeiro a junho, das ofertas de ações que chegaram ao mercado, R$ 24,4 bilhões, ou 35,8% do total, foram secundárias. Ao longo de 2020, a liquidez criada aos donos de empresas ao venderem um pouco da sua participação atingiu R$ 53,5 bilhões, R$ 10 bilhões a menos em comparação às ofertas primárias, nas quais os recursos irrigam o caixa das companhias. Já os volumes de fusões e aquisições cresceu oito vezes chegou a US$ 56,8 bilhões, segundo dados compilados pela “Reuters”.

No BTG Pactual, a captação se mostrou forte em todos os escritórios regionais de private banking. São Paulo e Rio seguem na liderança, mas já há mais fluxo vindo dos Estados do Sul e de Minas Gerais. O Nordeste fica mais atrás. Há cerca de dois meses, o banco abriu um escritório em Campo Grande (MS) para estar mais próximo do segmento agro.

Se chega lá com o discurso da Faria Lima, do CDI, da Selic ou coisas do gênero não tem muito sucesso. O cliente está acostumado a investir o resultado em mais terra, gado, plantação.

No segmento de investidores do topo da pirâmide social, há famílias de várias regiões criando seus próprios escritórios de gestão de fortunas, cujas estruturas ficam em São Paulo. Dos R$ 379 bilhões administrados pelo BTG, pouco mais de R$ 110 bilhões vêm dos “single family office”.

A valorização dos ativos também aumentou o patrimônio. Houve um movimento grande dos investidores ainda perseguiram investimentos mais de longo prazo no setor real da economia. Persistiu ainda aquele tema defasado de os clientes não quererem tanto a renda fixa e sim se expor a ativos de rentabilidade mais agressiva em relação à inflação.

Novos negócios no banco de investimentos e a participação em transações de fusões e aquisições pelo Bradesco BBI ajudaram na captação no private, mas 70% do fluxo veio na base do “rouba monte”. Um pedaço do incremento também veio do acordo para assumir as operações de private banking do J.P. Morgan.

No fim de junho, o Bradesco tinha R$ 370 bilhões no segmento. Há eventos de liquidez para um nicho de clientes. A população sofreu com a pandemia, mas tem um ‘cluster’ ricaço passando por um movimento diferente.

O fato de o banco estar em localidades como Manaus ou no Centro-Oeste ajuda a capturar os movimentos de liquidez com a riqueza se espalhando para além das praças tradicionais.

O Santander investiu no crescimento da equipe no primeiro semestre, com a contratação de 60 profissionais, justamente para ganhar tração em regiões como Norte, Nordeste e interior de São Paulo. O potencial do agronegócio motivou a estratégia.

O Sul, com posições em Curitiba (PR) e Porto Alegre (RS) também terá adições na cobertura. Tem mais riqueza vindo de fora de São Paulo, vide as operações de mercado de capitais no Nordeste, Sul, Norte. Estamos indo para onde a riqueza está sendo gerada.

Maior private banking brasileiro, com R$ 670 bilhões, no primeiro semestre o Itaú Unibanco cresceu 13,4%, uma taxa acima do mercado. O desempenho veio tanto da captação vinda de mais liquidez quanto da valorização dos ativos, com uma parcela maior das carteiras em renda variável, tanto local quanto internacional.

Cerca de 25% do volume está no mercado externo. Nos primeiros meses do ano houve abertura recorde de contas fora do Brasil, quase chegando aos números de 2020.

O cliente tem acompanhado o cenário de juros mais baixos por mais tempo e vê um retorno diferenciado do que estava acostumado. A LCI/LCA [letras dos setores imobiliário e do agro] onde ele sentava em cima e dava retorno de dois dígitos sumiu. Há predisposição para abrir mão de liquidez e explorar classes mais sofisticadas como private equity.

As famílias ao fazerem esse planejamento no começo do ano acabam intensificando os aportes no segundo semestre, o que significa incrementar esses volumes até dezembro. Ao longo do tempo, o plano é ter uma distribuição maior da alocação lá fora, entre 35% e 40%.

O ricaço brasileiro valoriza o olhar global, a atuação como banco universal e o cruzamento com a área de banco de investimentos do Itaú BBA, com IPO ou crédito no Brasil ou fora. O fato de bancos estrangeiros como J.P. Morgan e Goldman Sachs deixarem de atender no private local acabou beneficiando a instituição.

O banco tem conseguido fechar parcerias com butiques de investimentos lá fora para dar acesso ao brasileiro a alternativas mais sofisticadas, trazendo o melhor não só para as grandes fortunas, mas também para famílias com patrimônio de R$ 1,2 milhão. Elas entram com tíquetes menores, entre US$ 100 e US$ 150 mil.

A presença em diversas geografias tem contribuído para o Credit Suisse manter a posição de estrangeiro mais bem colocado na gestão de fortunas dos brasileiros. O grupo cresceu acima da média do mercado no primeiro semestre, com o fluxo vindo de liquidez e do “rouba monte”.

Em junho, quando anunciou a contratação de dez profissionais do Itaú, nove do private, o Credit Suisse reportava um crescimento de 30% no Brasil em ativos sob custódia no ano, a R$ 370 bilhões. A potencial migração de carteiras do concorrente ainda não teve efeito porque a maioria dos executivos está presa ao contrato de trabalho antigo.

O segundo semestre tende a ser tão bom quanto o primeiro. A diversificação de moedas vai continuar.

O viés da internacionalização tem sido responsável pela expansão do private banking do Citi no Brasil. No primeiro semestre, os ativos cresceram 27%.

O investidor percebeu a capacidade de rentabilizar o patrimônio não só no mundinho da renda fixa no Brasil. Ao olhar para fora abre-se um leque absurdo e ao mesmo tempo é muito difícil gerenciar uma carteira global das famílias sentado na Faria Lima.

Com os retornos mais magros na renda fixa, há mais procura por investimentos na economia real, enquanto a preocupação com a inflação tem acelerado a compra de imóveis. Sai de cena o perfil puramente rentista.

O crédito também ganhou espaço no segmento private, enquanto os juros ainda estavam em níveis muito baixos. Muitos clientes viram como oportunidade para usar o crédito pessoal, dando a aplicação como garantia, tipo buy, borrow and die da estratégia típica dos bilionários norte-americanos, para fugir da tributação. Quando fazem isso, os spreads são mais achatados. As carteiras como um todo cresceram 11,4%, a R$ 61,2 bilhões no primeiro semestre.

A expansão foi mais forte no agronegócio (15,6%), onde se alcançou R$ 27,1 bilhões, seguida pelas operações de capital de giro (13,6%), a R$ 12,4 bilhões. Na linha de capital de giro, tem muita operação associada a holdings familiares, enquanto no agro há a compra de máquinas e implementos agrícolas na pessoa física por questões fiscais.

Durante a pandemia, as famílias também direcionaram recursos para a compra de imóveis no exterior. Na lista de desejos dos milionários também entrou o financiamento de aeronaves. 

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