Ficar ou fugir do mercado de ações?

O investidor pessoa física chega à bolsa com valores cada vez mais baixos. Dados da própria B3 mostram: 42% dos novos entrantes em junho investiram até R$ 200, o que resultou em uma mediana de R$ 352, representando o valor mais baixo da série histórica.

Na média, porém, o valor da primeira aplicação dos novos investidores é de R$ 10 mil. Os números evidenciam o “mito” de ser preciso muito dinheiro para investir no mercado financeiro vem caindo por terra.

O levantamento também mostrou as mulheres serem ousadas ao investir e diversificam tanto quanto os homens. A mediana do primeiro investimento mensal feito por elas é de R$ 481, contra R$ 303 dos homens. Além disso, no segundo trimestre de 2021, 51% das mulheres investiam apenas em ações e 12%, só em Fundos Imobiliários (FIIs). Outras 24% investem em ações e FIIs, e 7% em ações, FIIs e fundos de índices (ETFs).

Entre os homens, 50% investem só em ações e 8% somente em FIIs, enquanto 27% investem em ações e FIIs e 9%, em ações, FIIs e ETFs.

Conforme dados da bolsa, o número de contas de pessoas físicas cadastradas na B3 cresceu 43% no primeiro semestre de 2021, totalizando 3,8 milhões, na comparação com o mesmo período de 2020. Já o número de CPFs cadastrados é de 3,2 milhões, alta de 42% na mesma base comparativa.

Essa diferença se dá porque cada pessoa pode ter mais de uma conta cadastrada. São investidores experimentando plataformas e experiências de produtos diferentes, ampliando posição em mais de uma instituição financeira”.

O perfil de novos investidores pessoas físicas chega à bolsa brasileira formado por jovens, entre 25 e 39 anos, e oriundo da região Sudeste (1,907 milhão). Contudo, embora o Sudeste concentre o maior número de investidores, as outras também ganham destaque, de acordo com os dados da B3.

O Norte e o Nordeste, por exemplo, registraram altas significativas de 575% e 486% no número de CPFs cadastrados, respectivamente, somando 94 mil e 369 mil investidores individuais.

A região Centro-Oeste cresceu 399%, na mesma comparação, e o Sul, 373%. “Pessoas cada vez mais jovens e de outras regiões do país vêm percebendo as oportunidades de investir na bolsa.”

O levantamento da B3 mostra: o perfil do investidor pessoa física ainda está em formação, após o “boom” dos últimos anos. Esse movimento de busca por melhor rentabilidade é apenas o início de uma grande mudança de postura, com forte potencial de expansão nos próximos anos.

A perda de atratividade em investimentos conservadores ainda provoca uma migração de pessoas físicas para a bolsa de valores e a tendência é de aprofundamento da diversificação, com o investidor individual buscando experimentar outros tipos de produtos financeiros, como ETFs, recibos de ações de empresas estrangeiras (BDRs) e fundos imobiliários. Uma das principais características desses novos entrantes é a busca por alternativa mais rentável e exploração para conhecer novos produtos.

Ainda no confronto entre o primeiro semestre deste ano e o mesmo período de 2020, houve um salto de 2.982% no total de investidores em BDRs, totalizando 259.252. Em termos relativos, foi o produto financeiro que mais cresceu em relação ao ano passado, com um aumento de 114%.

Com a chegada dos novos investidores pessoas físicas, o valor em custódia investido em renda variável alcançou R$ 545 bilhões ao final do primeiro semestre de 2021, cifra 55% superior à registrada no mesmo período de 2020. Já o volume de negócios diários em renda variável subiu 26% na mesma base de comparação, chegando a R$ 14 bilhões.

O levantamento da bolsa mostrou, ainda, um a cada dois investidores possui mais de cinco ativos na carteira, ou seja, mais de cinco papéis diferentes. Em junho deste ano, 80% das pessoas físicas possuíam mais de um ativo, enquanto em 2016 essa parcela era de 41%.

Para se ter uma ideia, em 2016 (ano mais antigo trazido pelo levantamento), apenas 12% dos investidores tinham mais de um ativo. Desse total, 78% investiam só em ações. Já no segundo trimestre deste ano, o percentual de pessoas que investem apenas em ações caiu para 50%. Segundo o estudo, o total de investidores que fazem pelo menos uma operação ao longo do mês é de 1,5 milhão de pessoas.

Paulo Clini (Valor, 12/08/21) avalia se é momento de fugir da renda variável para a renda fixa.

Não é novidade para ninguém: o Banco Central (BC) brasileiro deve continuar apertando a política monetária nas próximas reuniões do Copom, conforme ficou claro no comunicado divulgado após a reunião do comitê desse mês. Na verdade, o debate entre os especialistas no mercado de juros está centrado atualmente em outro ponto: qual será a taxa Selic no final desse ciclo de aumento de juros.

Apesar de o Copom ter deixado claro em atas anteriores que acreditava que a taxa de juros real (já descontada a inflação) ao final desse ciclo de aperto monetário deveria ficar em torno do que eles mesmos estimam ser a taxa neutra para a economia brasileira (algo em torno de 3,0% a.a.), a sinalização da última reunião deixou claro que a persistência e a intensidade do processo inflacionário corrente forçou uma mudança de planos da autoridade monetária, sinalizando: os juros reais no final do ciclo provavelmente serão superiores aos sinalizados anteriormente. Aliás, os juros reais precificados na curva de juros atualmente já estão entre 4,0% e 5,0% a.a., algo distante dos 3,0% a.a. do próprio BC.

Adicionalmente, esse mesmo comunicado também sinalizou: o passo de 100 bps deve continuar pelo menos na próxima reunião, com aumentos subsequentes ainda em aberto.

Se é “líquido e certo” os juros continuarem subindo ao longo do segundo semestre, menos clara é a consequência desse movimento sobre o mercado acionário local. O senso comum normalmente diz que, quanto mais altos são os juros, menos atrativo o investimento em ações. Seria esse o caso da bolsa brasileira?

Uma forma possível de responder a essa questão seria olhando o diferencial entre 1. os juros reais de longo prazo que o investidor pode obter investindo em um título público (“bond yield”) e 2. o retorno potencial que a bolsa poderia oferecer se houvesse uma distribuição integral dos lucros gerados pelas empresas que fazem parte do mercado (“earnings yield”).

Essa abordagem sugere que existem boas razões para se questionar o diagnóstico que o senso comum indica. Na verdade, o diferencial entre essas duas classes de ativos tem se ampliado favoravelmente ao mercado acionário, mesmo quando se leva em consideração que o Copom deverá ir além do que foi sinalizado em termos de juros reais no final do ciclo.

Isso fica mais claro quando se observa o comportamento recente das NTN-Bs com prazo de vencimento mais longo. Após uma forte alta dos cupons nos primeiros meses do ano, os retornos desses papéis se estabilizaram entre IPCA + 4,20% e 4,5% a.a. desde meados do segundo trimestre. Não houve uma mudança drástica na precificação desses ativos mesmo nos momentos quando o Copom sinalizou mudanças no plano de voo da política monetária local (e não foram poucos).

Por outro lado, o comportamento do “earnings yield” foi bem diferente. Desde o início do segundo trimestre, esse indicador vem melhorando consistentemente, saindo da casa de 9,0% para algo acima dos 11,0% atualmente. Isso se deve às constantes revisões para cima dos resultados das empresas listadas na B3 ao longo desse período, fazendo com que o retorno potencial do mercado melhorasse mesmo quando o índice Bovespa subia.

Olhando por esse prisma, a mensagem aqui parece clara: as revisões para cima das expectativas de resultados das empresas mais do que compensaram o efeito negativo decorrente da perspectiva de juros mais altos no final do ciclo de aperto monetário, tornando o retorno potencial da Bolsa ainda mais atrativo em relação ao seu custo de oportunidade.

Uma abordagem alternativa para essa mesma questão seria olhar o comportamento do “earnings yield” de outros mercados acionários e compará-los ao mercado brasileiro. Afinal, a melhora desses indicadores para a bolsa local pode ter sido inferior à melhora apresentada em outros mercados acionários no mundo. Em outras palavras, o mercado brasileiro poderia ter se tornado mais atrativo ao longo desse período relativamente à renda fixa local, mas não relativamente a outros mercados acionários (como o americano, por exemplo).

Também não é esse o caso. Olhando o comportamento do “earnings yield” para o S&P500, observa-se que o mesmo ficou relativamente constante em torno de 4,5% ao longo desse período considerado. É verdade esse indicador para o mercado americano usualmente ser inferior ao do mercado brasileiro.

Acontece que essa diferença nunca foi tão grande quanto agora. Por um período longo de tempo, o mercado brasileiro negociava, em média, em torno de 50% acima do mercado americano. Atualmente, esse diferencial se elevou para a casa dos 150%. Estatisticamente, esse diferencial está perto de 3 desvios-padrão acima da média histórica. Faz muito tempo que esse diferencial não se encontra em níveis tão favoráveis ao nosso mercado.

Resta perguntar se esses diferenciais favoráveis à bolsa brasileira são sustentáveis no tempo.”

Ora, a pergunta é: caso saia em massa investidores PF isso afetará o Ibovesp, mesmo não afetando o “earnings yield”? PF são ⅕ do mercado de ações brasileiro.

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