Escolha de Portfólio em Turbulência Econômica, Social e Política

O discurso de participantes de O Mercado, louvado seja o divino, é muito tosco ou simplório. Dizem: “o cenário interno traz incertezas nos campos político e econômico, como os rumos da inflação e da dívida pública brasileira. E a aproximação das eleições deve aumentar a volatilidade”.

Em lugar de análises fundamentalistas sérias, o discurso lugar-comum é o seguinte. “A questão fiscal voltou a ser uma das principais preocupações de O Mercado, após um período de boas surpresas com a relação dívida bruta/PIB ser possível encerrar o ano em torno de 80%, bem abaixo das expectativas de 2020, quando os previsores de O Mercado anunciaram ela ultrapassar os 100% do PIB”.

A retomada ao crescimento anterior –1,1% neste ano, além de devolver a queda de -4,1% do produto real no ano passado — da economia e maior da inflação, propiciando aumento nominal do PIB, contribuíram para a melhora do indicador.

Mas agora o receio com o descontrole fiscal voltou a entrar em cena por causa de uma antecipação do processo eleitoral. O temor é de o candidato da extrema-direita adotar medidas populistas, elevando os gastos públicos para se fortalecer para o pleito em busca de uma reeleição pouco provável. A eventual ascensão de um candidato à esquerda, ao propor o abandono da Regra do Teto de Gastos, também tira o sono dos gestores.

Por que? Porque os idiotas extremistas acham, caso isso ocorra será anunciado o fim-do-mundo! Perguntinha: por qual razão antes dessa regra, adotada no governo golpista temeroso, a economia brasileira tinha um desempenho muito superior?

Atitudes antidemocráticas como a seguinte deveria levar o sujeito a devolver o diploma de economista ou pelo menos o banco o demitir para não perder clientes: https://revistaforum.com.br/politica/economista-do-santander-defende-golpe-para-evitar-retorno-de-lula/

Na verdade, o medo real é de uma tributação progressiva dos ricos, especialmente dos dividendos recebidos por posse de ações. Esse cenário macroeconômico e político de incerteza, de maneira pressuposta, acabaria pesando nas cotações. “A postergação de reformas neoliberais e a falta de equacionamento dos problemas estruturais aumenta a insegurança limita a apreciação dos ativos brasileiros”.

Os investidores em títulos com juros prefixados têm grande temor da inflação, isto é, da eutanásia dos rentistas. Defendem no jornalismo econômico brasileiro: “o Banco Central (BC) tem de aumentar os juros o mais rápido possível. Quanto mais rápido for o aumento, menor ele terá de ser”…

Os rumos da inflação são decisivos para todas as aplicações, mas pesam especialmente na renda fixa, cuja rentabilidade real está negativas neste ano. “A percepção de risco dos papéis do governo aumentou, o que tornou a renda fixa menos atrativa. E, no caso dos títulos prefixados, a inflação continua provocando eutanásia do rentista”.

Embora a alta de juros aumente a atratividade da renda fixa pós-fixada, a rentabilidade pode ser ilusória se for corroída pela inflação. A previsão do mercado para o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) em 2021 está em 3,8% (de acordo com o boletim Focus) e a da meta da Selic em 7% ao ano. Se esses patamares se realizarem, os investidores receberiam juros reais da ordem de 3%. Este patamar ainda incentivaria a migração para ativos de risco? Ele torna a renda fixa mais interessante.

A migração para a renda fixa já vem ocorrendo. Os fundos da categoria registraram captação líquida de R$ 140 bilhões no ano, até o último dia 30 de julho de 2021, de acordo com a Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima) – dados sujeitos a ajustes. Os fundos de ações, por sua vez, apontavam entrada líquida de R$ 4,5 bilhões e os multimercados de R$ 92,8 bilhões.

Os multimercados são a melhor alternativa para ambientes voláteis. A maior volatilidade cria distorções nas cotações. Supostamente, os gestores dos multimercados, ao investirem em várias classes de ativos, podem explorá-las de forma mais livre.

Dentre as outras alternativas para obter rendimentos reais mais atraentes, estaria o alongamento dos prazos das aplicações até o vencimento. O investidor vai precisar esticar o horizonte de investimentos para fazer o seu dinheiro render. Com a taxa real de juros ainda negativa, a rentabilidade dos investimentos líquidos é hoje um desastre para os rentistas, inclusive os trabalhadores aposentados.

Para diversificação de riscos, há a alternativa de investir em várias classes de ativos e mercados. A importância da diversificação está cada vez mais evidente. A busca pela diversificação transparece na captação dos fundos para investirem no exterior, dos multimercados, dos fundos de renda fixa de crédito e de debêntures incentivadas. Mas o destaque vai mesmo para os primeiros.

A procura dos investidores ricaços brasileiros por fundos no exterior é um movimento estrutural, porque eles funcionam como proteção ou compensação das oscilações da economia nacional. O cenário externo é considerado mais positivo, dado o ritmo de retomada das economias mundiais e a percepção de os juros americanos deverem subir de forma lenta e permanecer em patamares baixos, mantendo a liquidez ainda farta. Por isso, os multimercados com esses mandatos estão com parcela significativa do risco aplicada lá fora.

Na renda variável, a principal estratégia dos gestores de recursos tem sido a seletividade: apesar de considerarem que a bolsa ainda pode subir até o fim do ano, muitos preferem escolher as companhias com potencial de valorização superior ao do Índice Bovespa (Ibovespa). É uma forma de aproveitar boas oportunidades e, ao mesmo tempo, evitar grandes solavancos causados pela volatilidade do mercado.

Estão otimistas não com o Ibovespa, mas com ações de empresas inovadoras em seus mercados. Os especuladores têm apostado nas teses relacionadas à digitalização dos negócios e à inovação, tidas como alavancas para o crescimento das companhias. A demanda está concentrada em papéis de empresas como Magazine Luiza, Mercado Livre, Banco Inter, XP, BTG, Localiza, Smart Fit e Petz.

Olhando para os próximos dois ou três anos, há oportunidades na bolsa para quem faz uma seleção de bons papéis. Buscam empresas capitalizadas e com autonomia relativa do cenário pessimistas, cujas histórias se sobrepõem aos riscos macroeconômicos no curto e no médio prazo.

A preferência é por ações de setores crescentes apesar das crises, de empresas com boas gestões. Elas obtêm melhores resultados face às concorrentes em processo de reestruturação. No momento, papéis como Via Varejo, BR Distribuidora, Arezzo, Natura e Petz estão na carteira dos fundos de ações.

Os fundos multimercados também estão fazendo apostas seletivas em ações menos dependentes do cenário macroeconômico, menos correlacionadas com o Ibovespa, como as de fintechs, dos setores de saúde, tecnologia, energia e exportadoras.

Nesses casos, há um cenário construtivo para a bolsa, devido à temporada de bons resultados delas poucas. Mesmo sem a abertura total dos negócios, por conta da pandemia, houve o crescimento dos lucros dessas empresas.

Hoje, as ações da bolsa são negociadas a um índice preço/lucro (P/L) próximo de dez, na casa de 120 mil pontos. A estimativa é o P/L chegar a 12 no fim do ano, o que seria condizente com um Ibovespa a 150 mil pontos. Dentre as ações consideradas com mais potencial estão as dos setores de commodities e de varejo.

Apesar de muitos gestores ativos buscarem ações menos correlacionadas com o Ibovespa e capazes de superar o índice, as projeções para este também continuam positivas. Há quem esteja otimista com a renda variável de forma geral ao também projetar o Ibovespa entre 140 mil e 150 mil pontos até o fim do ano. Os papéis do setor financeiro e de shoppings são os preferidos, por serem considerados mal precificados.

Mesmo com a elevação dos juros para algo entre 7% e 8% ao ano, a renda variável continuará sendo interessante porque, com uma boa seleção das ações, é possível obter retorno na casa de 12% a 15% ao ano. As perspectivas são positivas porque as empresas listadas em bolsa ganharam participação de mercado durante a crise e estão pouco alavancadas, isto é, endividadas.

Grande parte dos IPOs recentes foi de ofertas primárias, ou seja, as companhias levantaram recursos para novos investimentos. Um especulador típico vem buscando ações ligadas aos setores de consumo e saúde, pois elas devem se beneficiar mais ainda com a reabertura da economia, e de tecnologia.

A efervescência nas ofertas de ações, tanto as iniciais (IPOs, na sigla em inglês) quanto as subsequentes [follow-on], traz novas oportunidades de investimento e é tida como um fator positivo. No primeiro semestre deste ano, as companhias levantaram cerca de R$ 68 bilhões na B3.

Com tantas ofertas e pouco tempo para analisar as empresas, a seletividade se torna ainda mais importante. Muitas companhias acabaram esticando demais os preços por conta da euforia do mercado.

Essa elevada atividade nas ofertas de ações deve pressionar o Ibovespa. Um “homem prudente” espera a bolsa ficar no patamar de 120 mil pontos até o fim do ano, porque o ritmo de entrada de novos investidores é mais lento em relação ao da realização de ofertas, o que limita a valorização dos papéis.

 

 

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