Desistência de IPOs: Falta Capital ao Mercado ou Informações sobre Empresa para Precificação Adequada?

Mônica Scaramuzzo (Valor, 26/07/21) informa sobre os IPOs fracassados. Mesmo com o mercado de capitais aquecido, porém, 40 companhias desistiram de ir à bolsa em 2021 até o sétimo mês do ano.

Parte das empresas desistentes de fazer oferta pública de ações neste ano está envolvida em processos de fusões e aquisições (M&A, na sigla em inglês). Sem conseguir levantar recursos em bolsa para promover expansão, algumas companhias procuram sócios em transações privadas para impulsionar seus negócios.

Em determinadas situações, as operações têm o objetivo de dar saída a fundos de private equity (adquirentes de participação acionária) do capital dessas empresas.

As ofertas de ações já movimentaram R$ 100,7 bilhões do início do ano até o dia 22 de julho, em 54 transações. Dessas, 35 foram operações de estreantes na bolsa (IPOs) e o restante, de companhias já listadas (ofertas subsequentes ou “follow-on”), de acordo com levantamento do Santander.

Entre banqueiros de investimentos, este ano atingirá a marca recorde de R$ 150 bilhões. Mesmo com o mercado de capitais aquecido, porém, 40 companhias desistiram de ir à bolsa em 2021 até agora, segundo dados da Comissão de Valores Mobiliários (CVM).

As empresas brasileiras levantaram R$ 304,6 bilhões no mercado de capitais entre janeiro e julho deste ano, o que representa alta de 62% em relação ao mesmo período de 2020. O destaque do período está nas emissões de debêntures. Somaram R$ 119,8 bilhões em sete meses de 2021 – montante aproximado do total apurado no ano passado inteiro: R$ 121,1 bilhões.

Entre os demais instrumentos de renda fixa, as emissões de FIDCs (Fundos de Investimento em Direito Creditório) somam R$ 32,8 bilhões no ano. Os CRAs (Certificados de Recebíveis do Agronegócio), no ano, tiveram ofertas aceitas de R$ 9,7 bilhões. Entre os CRIs (Certificados de Recebíveis Imobiliários), foram R$ 15,6 bilhões no acumulado de 2021. Os fundos imobiliários, híbridos entre renda fixa e variável, captaram R$ 28,5 bilhões no ano. Esse subtotal alcança R$ 86,6 bilhões.

Na renda variável, foram emitidos R$ 17,6 bilhões em julho, com destaque aos follow-ons (ofertas subsequentes), pois movimentaram R$ 16,2 bilhões. No resultado acumulado do ano, os IPOs (ofertas iniciais) e follow-ons somam R$ 89,4 bilhões, o que representa alta de 76,04% sobre o mesmo período de 2020 — e cerca de 30%. Ainda são previstos para o ano mais de R$ 13 bilhões em ofertas iniciais em andamento. O valor mencionado garantiria até o momento R$ 54 bilhões em IPOs no ano.

Quanto ao perfil dos subscritores de ações, os fundos de investimento (46,6%) e investidores estrangeiros (36,7%) seguem os maiores detentores de ativos de renda variável no país em 2021.

Parte das ofertas – em geral, IPOs – deixadas pelo caminho está engrossando as operações de M&A. Até o dia 21, foram movimentados US$ 54,8 bilhões em 286 transações, ante os US$ 11 bilhões (253 operações) no mesmo período do ano passado, segundo a consultoria Dealogic.

Por exemplo, a rede de móveis e decoração Tok&Stok está em busca de um investidor privado para o seu negócio. A empresa tem 60% de seu capital nas mãos do fundo Carlyle (cujas operações foram transferidas para a SPX) e adiou os planos de ir à bolsa no início do ano “por não ter encontrado as condições ideais de mercado.” O Carlyle adquiriu o controle da companhia por R$ 700 milhões em 2012 e já vem há algum tempo buscando uma porta de saída para esse investimento.

Uma das principais empresas de decoração do país, a Tok&Stok tinha planos de fazer IPO em 2019, mas não levou o processo adiante. No fim do ano passado, fez o registro na CVM, de olho na movimentação de concorrentes, como MadeiraMadeira, Mobly e Westwing.

Contudo, diferentemente dos competidores, a companhia fundada em 1978 não tão estava tão bem preparada para a venda digital. Com a troca de gestão no ano passado, a rede tem investido no e-commerce e conversado com potenciais interessados em fazer um aporte. Uma volta ao mercado de capitais não é descartada.

Sob a gestão do Carlyle, há também a rede de restaurantes Madero de um empresário bolsonarista, endividado como outros de sua estirpe reacionária. Está se preparando para ir à bolsa, e muitos torcem por seu fracasso — e quebra, levando junto “o véio da Havan”…

Concorrente da Tok&Stok, a Westwing levantou R$ 1,1 bilhão na bolsa no início do ano, mas a performance de suas ações desde então é negativa. Os papéis fecharam antes a R$ 9,03, queda acumulada de 30,5% desde o dia 10 de fevereiro, quando estrearam na bolsa. A companhia “está em conversas com concorrentes” para avaliar alternativas – Lojas Renner e Riachuelo foram procuradas, mas não levaram a conversa adiante.

Assim como a rede de móveis e decoração, a empresa LG Informática, especializada em tecnologia para gestão de recursos humanos, decidiu interromper o processo de IPO. A empresa pretendia levantar R$ 900 milhões com a operação. Contratou o banco Rothschild para encontrar um comprador para seu negócio. Em julho, a empresa anunciou a aquisição da Norber, para reforçar o ecossistema tecnológico da companhia, tornando-se mais competitiva para um potencial controlador de seus negócios.

A busca por um investidor privado também está nos planos da rede de materiais de escritório Kalunga. Ela desistiu de levar adiante seus planos de abertura de capital neste momento. A empresa faturou R$ 1,8 bilhão no ano passado e está atrás de recursos para crescer e também para reduzir seu endividamento. Somava quase R$ 738 milhões no fim de 2020. Os controladores não descartam retomar o processo de IPO num momento mais favorável.

A Kalunga, por meio de sua assessoria, declarou ter optado pela desistência da oferta, mas manteve registro de companhia aberta. A empresa afirmou estar se “adaptando durante esse período a sua governança para o Novo Mercado e se colocando apta a acessar o mercado de capitais de forma pública ou privada e que acompanha as oportunidades e captação de recursos em linha com seu plano de estratégia.”

O movimento de IPO não deve ser visto “como um início nem como um fim” do ciclo para uma empresa. Com a desistência de abertura de capital, as empresas podem buscar aporte privado e depois retomar os planos de ir à bolsa. O preço das ações reflete muitas vezes o cenário de curto prazo. IPO dá o preço, não o valor.

É um caminho natural as empresas buscarem o mercado de capitais para se financiar. Contudo, a transição para o M&A depois de uma tentativa frustrada de ir à bolsa pode ter uma dinâmica diferente, uma vez que o valor do ativo já foi testado pelo mercado.

Há casos também de companhias privadas com possibilidade de se fundir com outras listadas na bolsa, em um processo conhecido como ‘IPO reverso’.

Até o fim do ano, a perspectiva é as ofertas de ações e operações de fusões e aquisições se manterem firmes. Vimos um movimento grande de empresas de consumo, varejo e saúde indo à bolsa, criando um valor de referência no mercado.

Há uma tendência de consolidação forte nos próximos meses. Os processos de M&A envolvendo empresas, eventualmente desistentes de um IPO, são mais fáceis porque essas companhias já passaram por diligências.

É o caso da Compass, empresa de gás do grupo Cosan. Recebeu em maio um aporte de R$ 810 milhões liderado pela gestora Atmos, meses depois de desistir do IPO. A operação foi bem vista pelo mercado, criando maior valor à companhia. A Compass é apontada como a favorita para levar a Gaspetro, pertencente à Petrobras.

Há cerca de um mês, o PicPay desistiu de realizar uma oferta pública inicial de ações (IPO, na sigla em inglês) na Nasdaq, ao não aceitar o desconto pedido pelos investidores. Agora, os controladores – a holding J&F, da família Batista – se comprometeram a investir até R$ 3 bilhões na companhia até 2023.

Quando o IPO foi adiado, os controladores dobraram a aposta no PicPay. Estão dispostos a colocar o dinheiro necessário para executar nosso planejamento estratégico da mesma forma caso o IPO tivesse ocorrido.

Com uma base de 55 milhões de usuários, a carteira digital PicPay já tinha um bom ponto de partida para aproveitar as mudanças vividas pelo mercado financeiro com a implementação do open banking no Brasil. Ainda assim, sentiu lhe faltar expertise e foi procurar justamente um dos precursores na área de compartilhamento de dados no Brasil, a plataforma de gestão financeira Guiabolso.

O PicPay anunciou, no fim de julho de 2021, a compra de 100% da fintech, em uma operação de valor não revelado. O negócio será pago majoritariamente em dinheiro, com uma parte pequena em ações.

“Ter uma base de clientes grande é bom para tudo, mas não basta. O open banking dará acesso a muitas informações, mas transformar isso em algo valioso para o cliente é bem mais difícil. Até poderíamos construir isso, mas demoraria para ganhar expertise, por isso fomos atrás da maior e melhor plataforma de open banking. Ela é o Guiabolso”.

Thiago Alvarez, fundador do Guiabolso, se juntará ao time do PicPay como diretor responsável por open banking. Ele disse: simplificar a vida dos usuários passa por consolidar diversos produtos e serviços em um só lugar, algo que tanto a fintech quanto o PicPay já vinham fazendo.

O Guiabolso tem 6 milhões de usuários e já concedeu mais de R$ 1 bilhão em crédito por meio de parceiros na sua plataforma. Seu marketplace tem mais de dez instituições, como Creditas, BV, Digio, Icatu e Órama.

“A aquisição visa posicionar o PicPay como protagonista do open banking, além de acelerar a nossa operação de marketplace financeiro. Ela já conta com cartão, crédito pessoal e empréstimo entre pessoas”, disse em nota José Antonio Batista, presidente do PicPay.

Atualmente, a área de carteira digital ainda responde pela maior parte da receita do PicPay, mas o marketplace de serviços financeiros e a loja — vendedora de todo tipo de produtos — devem acelerar a expansão no médio prazo e ganhar mais relevância nos resultados. O modelo é de plataforma aberta.

“Começamos a oferecer crédito pessoal em parceria com o Banco Original, parte da mesma holding, porque era mais fácil, as APIs já estavam prontas, mas estamos integrando outros dois parceiros e em negociações com mais sete”.

Por enquanto, nada muda para os usuários do PicPay e do Guiabolso. Os aplicativos continuarão operando de forma separada, mas em breve haverá novos recursos e sinergias, segundo os executivos.

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