Pobreza e Baixa Instrução dos Pais

Lucianne Carneiro (Valor, 18/08/21) informa: os pais e responsáveis das atuais crianças e jovens pobres no Brasil ainda têm grau de instrução limitado, o que compromete o futuro dessa geração e aumenta os riscos de perpetuação da pobreza. Mais da metade (56%) das crianças e jovens pobres viviam em 2019 com responsáveis sem ensino fundamental completo.

A falta de pais com ensino médio completo na família era ainda mais crítica: se dava em três quartos (76%) desse grupo. Um quinto (19,1%) das crianças e adolescentes pobres estava em famílias em que o adulto tinha menos de quatro anos de estudo. Já o percentual vivendo com responsáveis analfabetos era de 12,5%.

Os números são de estudo exclusivo do Instituto Mobilidade e Desenvolvimento Social (IMDS), que mostra que, apesar de melhora em anos recentes, a parcela de crianças e jovens pobres em lares com responsáveis com baixa escolaridade ainda é elevada.

Em 2012, a parcela das crianças e jovens pobres que viviam com responsáveis sem ensino fundamental completo era de 71,1%. Entre aqueles que não tinham completado o ensino médio, a taxa era de 86,9%. A fatia dos que viviam com um responsável analfabeto, por sua vez, chegava a 20,4%.

Os dados dessas crianças e jovens pobres são ainda mais expressivos quando comparados aos de crianças oriundas de famílias entre as 20% de maior renda no país. Nesse grupo mais privilegiado financeiramente, apenas 9% viviam, em 2019, com responsáveis sem ensino médio, 4,6% sem o ensino fundamental, 0,5% com menos de quatro anos de estudos e 0,1% com analfabetos.

“Olhar para a educação é antecipar a história de renda do indivíduo. Se a pessoa acumula pouco capital humano, a tendência é de uma produtividade menor, o que aumenta a chance de ter uma renda menor”, diz Paulo Tafner, diretor do instituto e responsável pelo estudo.

Ele ressalta que crianças de famílias com responsáveis com pouca instrução tendem a ter menos estímulos para o aprendizado, embora reconheça que há exceções. “Pais menos instruídos têm menos elementos e ferramentas para estimular em direção ao aprendizado. Na média, não há essa noção tão clara da importância da educação, especialmente nos primeiros anos de vida”, pondera.

Apesar do recuo das taxas mais negativas em relação à educação dos responsáveis por esta nova geração e da universalização do ensino fundamental, na sua avaliação o atraso ainda é forte e a educação pública ainda tem muito a avançar, acredita Tafner.

O número de dias úteis é inferior ao de outros países – são quase 90 dias sem aulas por ano no Brasil frente a menos de 40 dias nos Estados Unidos e na Europa -, a carga horária diária é baixa (cerca de 4 a 5 horas) e a infraestrutura nas escolas também está aquém da necessidade.

“Nosso sistema educacional não está dando conta de reduzir as diferenças originais e nossas desigualdades”, afirma ele, que defende políticas de reforço escolar e de busca ativa de alunos para evitar que os prejuízos de curto prazo trazidos pela pandemia – e ainda não captados pelo estudo – se perpetuem, o que diz não ver no momento.

“É óbvio que imediatamente as crianças pobres têm perda de aprendizado e a desigualdade aumenta. É uma situação recuperável, só que precisa de muitas iniciativas e não tenho visto isso de forma conjunta, só coisas isoladas”, diz Tafner.

Pesquisador na área de educação na consultoria IDados, Guilherme Hirata lembra que a escolaridade de um indivíduo está muito ligada à renda e ao chamado “ciclo intergeracional de pobreza”.

Pais menos escolarizados tendem a alternar períodos de desemprego e emprego, com renda flutuante, abrindo menos espaço para investimentos em educação dos filhos, diz ele.

“Esse filho tende a estudar menos, está mais sujeito a uma situação de evasão escolar por precisar trabalhar, por exemplo. Há exceções, mas a regra ainda é a falta de mobilidade social”, diz ele.

Mesmo com os avanços na educação brasileira nos últimos anos – maior presença de crianças nas escolas, políticas de cotas em universidades públicas e de financiamento em universidades privadas, por exemplo -, persistem as desigualdades por causa da origem familiar. “Ainda há diferenças entre a escolaridade de crianças de famílias mais pobres e a das pertencentes a famílias mais ricas”, destaca Hirata.

Para além das informações sobre o grau de instrução dos responsáveis das famílias, o estudo traz ainda dados sobre as próprias crianças, que sinalizam as diferenças entre aquelas de famílias mais pobres e das mais ricas.

Na faixa etária de 8 e 9 anos, o percentual de analfabetos é de 13,5% entre crianças pobres, enquanto é de apenas 1,1% para as crianças entre as 20% maiores rendas domiciliares per capita.

No grupo de 10 a 14 anos, a defasagem idade-série de 2 anos ou mais é de 17% entre os pobres, muito acima da taxa de 2,4% entre os que moram nas casas com as 20% maiores rendas domiciliares per capita. Este indicador aponta para atraso escolar. Quanto mais atraso, maior é a chance de evasão escolar ao longo da vida de estudante.

O levantamento traz ainda outras informações que apontam que a pobreza entre crianças e adolescentes no país se mostra não apenas na renda dos domicílios, mas também nas condições desses lares.

A maioria dos pobres (55,7%) vive em domicílios com esgotamento sanitário inadequado, quase um terço (27,3%) está em lares com acesso inadequado à água e um quinto (21,9%) moram em casas com adensamento domiciliar excessivo, com mais de três moradores por dormitório.

Entre os mais pobres, um terço (27,9%) daqueles a partir dos 10 anos vive em domicílios sem acesso à internet enquanto e 87% em casas sem microcomputador.

Os números contrastam com as taxas daqueles das famílias com 20% maior renda (0,7% e 9,4%, respectivamente).

“Na sociedade atual, a falta de acesso à internet compromete o desenvolvimento das crianças e seus estudos. Isso já era uma questão antes da pandemia e se tornou ainda mais importante no novo cenário”, afirma o diretor do Instituto Mobilidade e Desenvolvimento Social.

Outro indicador da desigualdade entre os que vivem nas famílias mais abastadas e os pobres é o de gasto excessivo com aluguel. Por um lado, aumentam o risco de despejo e, por outro, reduzem o orçamento disponível para investimentos em educação.

Entre crianças e adolescentes pobres que vivem em domicílios alugados, 63,9% estão em lares que comprometem 30% ou mais da renda domiciliar destinada a aluguel, frente a 3,7% das crianças nas casas entre as 20% maiores rendas domiciliares per capita.

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