Efeito Seca sobre Sociedade, Economia e Política

O nível dos reservatórios que abastecem a região metropolitana de São Paulo está baixando – o Cantareira já entrou em nível crítico – e medidas para frear o consumo já deveriam estar em curso para evitar um cenário de falta mais generalizada de água, segundo especialistas. Com a perspectiva de um verão mais seco à frente, há riscos de uma crise como a dos anos 2014 e 2015 se repetir. Naquela ocasião, a Sabesp teve de retirar água do chamado volume morto, abaixo do sistema de captação.

“Temos uma situação comparativamente pior e o cenário climático é muito ruim em relação à ocorrência de chuvas até o fim do ano. E esse cenário avança para o início de 2022. Não teremos água suficiente para recarregar os reservatórios”, afirma o professor Pedro Luiz Côrtes, da pós-graduação do Instituto de Energia e Meio Ambiente (IEE), da USP.

A crise que esvaziou os mananciais há sete anos começou em 2013, com níveis de água maiores que os existentes hoje. O prognóstico é ruim. Chama atenção para a mais recente projeção do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden), do Ministério da Ciência e Tecnologia, que prevê que o sistema Cantareira chegaria ao fim de dezembro com nível de 36%, se as chuvas ficarem na média histórica. Mas o tempo deve ficar mais seco por causa da ocorrência do La Niña. Com chuvas 25% abaixo da média, o nível chegaria a 27%, entrando na faixa de “restrição”.

Nos últimos dez anos, diz o professor da USP, o Cantareira teve apenas um ano com chuva acima da média histórica. Nos outros, choveu menos que o esperado.

No Alto Tietê, o segundo maior manancial da Grande São Paulo, foram dois anos de superávit e oito de déficit. A última vez que o sistema esteve perto dos 100% foi em 2010. Sem uma sucessão de anos com chuvas volumosas, é improvável que se veja esse nível tão cedo.

De imediato, seria importante a Sabesp e o governo do Estado reconhecerem a existência de uma crise, para servir de alerta para a população. Além isso, seria preciso retomar a política de bônus, em que quem reduz consumo tem redução de tarifas, diz. Ele também defende a suspensão dos chamados contratos de demanda firme, que são ofertados a grandes consumidores uma tarifa diferenciada conforme o consumo. “Isso não é favorável ao uso racional.”

Samuel Barreto, gerente nacional de água da The Nature Conservancy (TNC) e do Movimento Água para São Paulo (MApSP), observa que as medidas de redução de consumo tomadas em 2014-2015 significaram quase um Guarapiranga em economia de água, o terceiro maior manancial entre os sete que abastecem a Grande São Paulo. “Isso mostra que é uma política que deveria ser permanente”.

A apresentação de um plano de contingência pelos gestores públicos também seria importante para informar sobre a situação. A sociedade tem de se preparar porque não sabemos quanto vai durar essa escassez.

A situação atual difere da crise anterior porque existe uma “robustez” maior do sistema. Os mananciais estão mais integrados e a população atendida pelo Cantareira baixou de 9,5 milhões para 7,2 milhões de pessoas.

Houve a abertura de um novo sistema, o São Lourenço, e a conexão com o rio Paraíba do Sul, entre outras ações. Mas, se a seca persistir, essas intervenções terão um limite. Estamos vendo uma seca excepcional se ampliar dentro do Estado de São Paulo.

Se as medidas adotadas na crise anterior deixaram o sistema mais resistente, outras ações necessárias avançaram pouco, como a ampliação do reúso da água, a redução das perdas no abastecimento, que chegam a 30%, a despoluição de mananciais e bacias hidrográficas. Temos um sistema inteiro, a Billings, em que a maior parte da água não está apta para consumo.

O reflorestamento das áreas possíveis também precisa ser ampliado. O custo de não avançar nessa agenda é alto. Apenas a implantação do reservatório São Lourenço, que opera desde 2018, custou R$ 2 bilhões. A crise de sete anos atrás fechou a hidrovia Tietê-Paraná por dois anos. Empresas fecharam as portas. “Não adianta só fazer obras de engenharia, água não dá em tubo.”

Com as mudanças climáticas, esse tipo de crise tende a se tornar mais frequente. Só em São Paulo já é a terceira em 20 anos. Por isso, a situação pede ações complexas e de longo prazo, diz Angelo Lima, secretário-executivo do Observatório da Governança das Águas. Neste sentido, o problema extrapola São Paulo.

A escassez hídrica atinge boa parte da bacia do Paraná, que abrange mais cinco Estados. Curitiba, por exemplo, vive há meses sob racionamento.

O grande desafio em termos de gestão é ter um olhar mais integrado e sistêmico para os problemas que provocam a escassez hídrica no país. Estamos em um ciclo de crises que já estava se anunciando.

É preciso investir fortemente na gestão da água no país. Essa imagem de o Brasil ser o paraíso das águas não existe mais.

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