Clima Extremo: Calor, Crise Hídrica e Demais Catástrofes Naturais

Em 2012, as autoridades chinesas emitiram um grave aviso em relação à escassez de água. No alerta, elas advertiam a situação piorar a cada dia e mais de dois terços das cidades do país estarem afetados. A segunda maior economia do mundo já estava lutando para enfrentar os custos da degradação ambiental acompanhante do crescimento econômico.

Novos recordes de temperatura foram quebrados pelo mundo no mês de agosto de 2021, com a Sicília (Itália) estabelecendo a nova marca europeia de 48,8o C, e a Espanha atingindo recorde nacional de 47,4o C.

Embora o calor não seja incomum no Mediterrâneo em agosto, uma nova modelagem indica que ondas de calor se tornarão mais longas e intensas se as emissões de gases-estuda aumentarem.

O impacto seria especialmente forte no Hemisfério Sul. No fim do século, o número de dias com temperaturas acima de 35o C pode subir em mais de 200 por ano em partes da América do Sul, no cenário de aumento das emissões. No entanto, num cenário com queda rápida das emissões, o aumento é muito menor: cerca de 58 dias adicionais com temperaturas acima de 35o C até o fim do século.

O relatório do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), divulgado no mês passado, destacou a diferença entre cenários climáticos possíveis dependendo de quanto o mundo aquecer. Se o planeta aquecer 4o C, então um evento de calor extremo que ocorreria uma vez em 50 anos, teria 39,2 vezes mais probabilidade de ocorrer. Se aquecer 1,5o C, o mesmo evento teria 8,6 vezes mais probabilidade de ocorrer, em comparação com o período de referência, de 1850-1900.

Nos meses de verão as pessoas costumam migrar para o litoral para aproveitar o calor, mas as temperaturas extremas registradas recentemente na Europa também podem ser fatais.

O Met Office (serviço meteorológico) do Reino Unido alertou recentemente que a Europa precisa se preparar para um clima mais quente, no qual as temperaturas ocasionalmente ultrapassarão os 50o C. “As chances de os verões apresentarem temperaturas realmente extremas são muito altas agora”, disse Peter Stott, cientista- chefe do Met encarregado de modelagem do clima.

Mais de 356 mil pessoas morreram em 2019 como resultado do calor extremo. Esse número tende a crescer. É o que aponta um estudo publicado na revista científica “The Lancet”.

A análise da Global Burden of Disease, financiada pela Fundação Bill & Melinda Gates, descobriu que, embora as temperaturas frias ainda causem mais mortes, a mortalidade atribuível ao calor está crescendo mais rápido, especialmente nas regiões mais quentes.

“Isso é muito preocupante, especialmente considerando que o risco de exposição a altas temperaturas parece estar aumentando constantemente há décadas”, disse Katrin Burkart, da Universidade de Washington e coautora do estudo.

As descobertas são parecidas com a de outro relatório, de duas partes intitulado “Calor e Saúde”, também publicada na “The Lancet” na semana passada. Alerta que o aquecimento global deve ser limitado a 1,5°C, em linha com o Acordo Climático de Paris, para reduzir a mortalidade relacionada ao calor no futuro. Caso contrário, as mortes aumentarão ainda mais e o calor extremo também diminuirá a produtividade do trabalhador e agravará outros desafios ambientais, como incêndios florestais, disseram os pesquisadores.

“Os efeitos que a exposição ao calor extremo pode ter no organismo representam um claro e crescente problema de saúde global”, disse Ollie Jay, professor da Universidade de Sydney e coautor do relatório “Calor e Saúde”.

Além de insolação, as altas temperaturas resultam em aumento de hospitalizações e problemas de saúde mental. Pessoas mais velhas e outros grupos vulneráveis, como aqueles com baixa mobilidade, correm maior risco. As altas temperaturas também podem reduzir a produtividade. Cerca de 1 bilhão de trabalhadores, muitos envolvidos em trabalho manual, geralmente relatam produção menor devido ao estresse térmico.

Mesmo com a adoção de estratégias para desacelerar as mudanças climáticas e reduzir as emissões de carbono, um mundo cada vez mais quente terá de se adaptar. Entre as medidas que podem ser tomadas para mitigar os piores efeitos do calor extremo na saúde estão: aumentar a quantidade de áreas verdes nas cidades, colocar revestimentos de parede que possam refletir o calor nos edifícios e usar mais ventiladores de resfriamento e nebulização. Embora o ar-condicionado esteja se tornando cada vez mais disponível, nem todos podem pagá-lo e seu uso pode prejudicar o meio ambiente.

“Com a estimativa de que mais da metade da população global estará exposta a mais semanas de calor perigoso todos os anos, até o fim deste século, precisamos encontrar maneiras de resfriar as pessoas de forma eficaz e sustentável”, disse Kristie Ebi, professora da Universidade de Washingon e coautora do estudo “Calor e Saúde”.

Alguns aeroportos e empresas aéreas começam a se planejar para um futuro quando os voos serão afetados com mais frequência por condições meteorológicas extremas, uma vez que as mudanças climáticas aumentam a probabilidade de grandes tempestades e temperaturas fora do comum.

No mês passado (agosto de 2021), tempestades levaram ao cancelamento de mais de 300 voos nos aeroportos de Chicago O’Hare e Dallas/Fort Worth, no Texas. Em julho, 8 voos em Denver foram cancelados e outros 300, adiados em razão da fumaça de incêndios florestais no Noroeste Pacífico dos Estados Unidos. O calor muito acima dos níveis geralmente registrados afetou as decolagens em Las Vegas e no Colorado neste verão americano.

Tais problemas fazem parte de uma tendência: os cancelamentos e atrasos relacionados ao clima vêm aumentando nos últimos 20 anos nos EUA e Europa segundo as agências reguladoras. Embora seja difícil relacionar qualquer tempestade ou onda de calor isolada às mudanças climáticas, estudos científicos mostram que esses fenômenos se tornarão mais frequentes ou intensos à medida que as temperaturas na Terra ficarem mais quentes.

Em pesquisa da Organização de Aviação Civil Internacional (Icao), órgão ligado à Organização das Nações Unidas (ONU), feita em 2019 com seus membros, 75% informaram que o setor de aviação já enfrenta algum tipo de impacto com as mudanças climáticas.

Coincidindo com a pior crise hídrica dos últimos tempos no Brasil, a Organização Mundial de Meteorologia (OMM) publica relatório alertando que o número de fenômenos meteorológicos, climáticos e hidrológicos extremos vai continuar a avançar, com prejuízos enormes para a economia mundial.

A OMM calcula que o Brasil sofreu perdas de US$ 41,7 bilhões (R$ 215,5 bilhões) nos últimos 50 anos com catástrofes de origem meteorológica, representando 40% dos prejuízos na América do Sul. Nos últimos dez anos, as perdas econômicas alcançaram US$ 3 bilhões em média por ano na região, o dobro do montante da década anterior (2000-2009).

Segundo a entidade, pelo menos uma catástrofe — como seca, inundação, deslizamento de terra, temperatura extrema — foi registrada no mundo em cada dia dos últimos 50 anos, provocando mortes e prejuízos econômicos diários de 115 pessoas e US$ 202 milhões.

No total, mais de 11 mil catástrofes atribuídas a esses fenómenos foram detectadas nos últimos 50 anos no mundo, provocando a morte de mais de dois milhões de pessoas e estragos materiais que somam US$ 3,64 trilhões.

O número de catástrofes foi multiplicada por cinco nas últimas cinco décadas sob efeito da mudança climática e da multiplicação de fenómenos meteorológicos extremos, que um sistema de informação mais eficaz permite hoje de sinalizar mais sistematicamente.

“Devemos esperar mais ondas de calor, períodos de seca, fogo na floresta como o que vimos recentemente na Europa e na América do Norte”, afirmou Petteri Taalas, secretário- geral da OMM.

“A taxa mais elevada de valor da água na atmosfera exacerba as precipitações extremas e as inundações mortais. Além disso, o aquecimento dos oceanos tem incidência sobre a frequência de ciclones tropicais mais intensos, e sobre as zonas que eles atingem”, acrescentou.

Para Pitteri, “as perdas econômicas aumentam na medida em que a exposição a esses fenômenos se intensifica”. Atualmente, o mundo está melhor armado para prevenir essas catástrofes, mas ainda há muito a fazer, por exemplo nas redes de observação meteorológica e hidrológica, que são insuficientes em certas zonas da América Latina.

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