Energia Hidrelétrica X Eólica ou Solar

O Comitê da Bacia Hidrográfica do São Francisco, com governos estaduais e usuários do rio entre seus integrantes, criticou duramente as mudanças de vazão nas usinas hidrelétricas do Velho Chico a fim de ampliar o fornecimento de energia do Nordeste para o subsistema Sudeste/Centro-Oeste.

Uma das ações tomadas nesta semana pelo Ministério de Minas e Energia, que acabou sendo ofuscada pelo aumento da bandeira tarifária e pelo bônus dado aos consumidores para uma redução voluntária da demanda, foi liberar mais água das usinas hidrelétricas no curso do São Francisco.

Com isso, o objetivo do governo é gerar mais energia na região Nordeste e transferir esse excedente para o subsistema Sudeste/Centro-Oeste, onde está a pior situação dos reservatórios no país.

Para o comitê, no entanto, essa estratégia pode trazer de volta a ameaça de colapso hídrico vivenciada pela bacia há poucos anos e colocar em risco a segurança no abastecimento de 2022 em diante.

O presidente do comitê, Anivaldo Miranda, encaminhou ofício à Agência Nacional de Águas (ANA) alegando “grande preocupação quanto à forma como vem sendo gerida a operação do sistema e o deplecionamento dos reservatórios da bacia”. Ele escreveu para a agência no dia 26 de agosto, após as primeiras mudanças de vazão, cobrando estudos mais aprofundados antes de novas alterações.

Após reunião da Câmara de Regras Excepcionais para Gestão Hidroenergética (CREG), o ministério anunciou que a usina de Três Marias (MG) passará a liberar até 650 litros por segundo nos próximos três meses. Já a represa de Sobradinho (BA) terá uma defluência máxima de 1.500 litros por segundo em setembro, chegando a 2.500 litros em outubro e novembro.

Para ter uma ideia do que significam esses volumes: na década passada, em meio à seca que levou a bacia do São Francisco a uma situação dramática, a vazão foi reduzida para menos de 100 litros por segundo em Três Marias e apenas 550 litros por segundo em Sobradinho. Seus reservatórios atingiram uma marca, respectivamente, de 6% e 2% no auge da estiagem em 2017.

Foram anos de restrições no uso do rio – incluindo até proibição para captar água todas as quartas-feiras – com o objetivo de evitar o esvaziamento das represas e uma lenta recomposição do volume útil, principalmente em Sobradinho. Graças às chuvas de 2020, o reservatório se estabilizou acima de um nível de 50%.

Agora, diante da ameaça de racionamento, o governo resolveu virar pelo avesso a tática e maximizar a produção de energia nas usinas do Velho Chico. “Em pouco tempo, isso pode levar a bacia ao caos. É como se a calha do São Francisco estivesse sendo transportada de helicóptero para o Sudeste”, diz Anivaldo Miranda.

“Nós, aqui, comemos o pão que o diabo amassou. Não queremos passar pelas mesmas restrições de uso novamente. Os reservatórios do São Francisco demoram anos para se recuperar. Basta um atraso relevante na volta das chuvas ou um período úmido muito abaixo da média que logo voltaremos a ter problemas graves.”

O especialista em recursos hídricos Leonardo Mitre entregou um parecer ao comitê no qual conclui que as autoridades do setor elétrico estão assumindo um “risco alto” ao permitir o aumento das vazões. Na avaliação dele, o governo deveria considerar cenários de chuvas inferiores à média histórica e o reservatório de Sobradinho poderá retornar a uma situação “bastante crítica” em dezembro.

Procurado, o Ministério de Minas e Energia não se pronunciou até a conclusão desta edição. A pasta divulgou ontem que a entrada em funcionamento das linhas de transmissão Bom Jesus da Lapa-Janaúba e Pirapora 2, na Bahia e em Minas Gerais, permitirão aumentar em 1.300 megawatts o escoamento de energia da região Nordeste ao subsistema Sudeste.

O Nordeste já tem produzido excedente de energia graças à geração recorde de energia eólica nesta época do ano – a chamada “safra de ventos”. Na terça-feira, ao informar sobre a mudança de vazão nas usinas do São Francisco, o ministério explicou que ela valerá até a represa de Sobradinho atingir 15% do volume útil. Ela está com 48% da capacidade máxima.

O Brasil deve encerrar o ano com 12,5 gigawatts (GW) de potência operacional em geração de energia solar fotovoltaica, de acordo com a Associação Brasileira de Energia Solar Fotovoltaica (Absolar), alta de 60% em relação a 2020. Até agora, o país já ultrapassou a marca de 10 GW de potência, com adição de 2,2 GW à matriz até meados de agosto.

As usinas de grande porte representam 3,5 GW de capacidade instalada, o equivalente a 1,92% da matriz energética do país. O segmento de geração distribuída, que inclui pequenos e médios sistemas de painéis instalados em telhados, fachadas e terrenos somam 6,5 GW.

Considerando as duas modalidades, os investimentos previstos para este ano na geração de energia fotovoltaica são de R$ 22 bilhões, um valor recorde. Desde 2012, os investimentos em energia solar somam R$ 52,7 bilhões.

Rodrigo Sauaia, CEO da Absolar, disse que os investimentos acelerados têm por meta atender a demanda aquecida. “Com a crise hídrica, os brasileiros têm buscado alternativas para reduzir os gastos, e a energia solar aparece como uma opção econômica e que dá mais autonomia para o consumidor”, disse Sauaia.

Atualmente, dos 87,5 milhões de consumidores atendidos pelas distribuidoras de energia, 700 mil fazem uso da geração própria de energia solar, ou 0,8% do total. Já avançamos, mas ainda temos muito a avançar. Na Austrália, por exemplo, uma em cada cinco casas gera a própria energia.

De acordo com dados da Agência Internacional de Energia Renovável (Irena, na sigla em inglês), o país em 2020 era o 16o em capacidade instalada de geração de energia solar no mundo. Com o aumento registrado neste ano, o país sobe para o 14a lugar. Esse ranking é liderado por China, Estados Unidos, Japão, Alemanha e Índia.

No Brasil, a energia fotovoltaica é a quinta em capacidade instalada no país, respondendo por 1,92% da matriz energética, segundo dados da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel). Ela fica atrás da energia hidrelétrica (57,76%), termelétrica (25,03%), eólica (10,6%) e pequenas centrais hidrelétricas (3,10%).

Mas, se forem considerados os empreendimentos em construção, a energia fotovoltaica responde por 19,07% dos projetos, perdendo para termelétricas (28,85%) e eólicas (38,91%). “Até 2050, a projeção dos analistas de mercado é que a energia solar será a fonte número um da matriz energética do Brasil, respondendo por 32%, ante 30% das hidrelétricas”, afirmou Sauaia.

Para os próximos anos, disse o executivo, a expansão dos investimentos em energia fotovoltaica vai depender de dois fatores: realização de novos leilões de compra de energia renovável pelo governo federal e do marco regulatório para a geração própria de energia.

Na semana passada, a Câmara dos Deputados aprovou por 476 votos a 3 o projeto de lei 5.829/2019, que cria o marco legal da geração distribuída. O texto segue para aprovação no Senado. A expectativa da indústria é que o projeto seja aprovado neste ano.

Em relação aos leilões, a Absolar considera que o governo federal tem contratado pouca energia solar em relação a outras fontes, apesar de ter o menor preço. Os preços da energia solar nos últimos quatro leilões variaram entre R$ 67,48 e R$ 136,31 o megawatt-hora (MWh). A Aneel autorizou a compra de energia de termelétricas a preços que chegam a R$ 1,5 mil por MWh.

O governo trabalha com preços de referência de energia solar antigos. O governo precisa atualizar seus modelos de cálculo. Hoje a energia solar é a fonte mais competitiva que o Brasil tem.

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