China à luz de Schumpeter (por Leonardo Burlamaqui)

Como explicar o progresso econômico da China nas quatro últimas décadas, não apenas em termos de aumento do PIB, mas também de inclusão de cerca de 800 milhões de pessoas, que saíram da pobreza, e de desenvolvimento tecnológico inovador? É possível replicar o modelo chinês de forma que países como o Brasil, que estão estagnados economicamente, possam voltar a crescer?

Para o economista Leonardo Burlamaqui, professor da Uerj e pesquisador do Levy Economics Institute do Bard College, em Nova York, a explicação para o fenômeno chinês deve ser procurada fora dos cânones neoliberais que propugnam o menor governo possível. Para o especialista em inovação, competição e Ásia, a resposta para o crescimento excepcional da China é o Estado empreendedor, que planeja, financia, orienta e delimita espaços, mas não sufoca a iniciativa privada nem a concorrência.

Esse papel do Estado não configuraria um “big government”, como defensores de um Estado menor possível poderiam rotular, mas um exemplo de “big governance”. Para Burlamaqui, os países só conseguem crescer de forma acentuada e constante se o Estado orientar, financiar e der o tom das prioridades – e ele diz que o presidente americano, Joe Biden, está nesse caminho, seguindo a trilha de outros países no passado, como a Inglaterra e a Alemanha e, mais recentemente, as potências emergentes da Ásia.

“O que se vê na China hoje? Não existe expropriação da propriedade privada, existe concorrência, há inclusão social”, diz Burlamaqui

Burlamaqui publicou recentemente um estudo de discussão teórica em que faz uma releitura da obra do economista austríaco Joseph Schumpeter, usando o exemplo da China dos últimos 40 anos na sua tese de que o socialismo pode ser considerado não uma ruptura com o capitalismo, mas uma continuidade. Ele lembra que alguns podem argumentar que o progresso chinês acontece por causa do regime autoritário do país, mas essa é outra discussão – “passou para uma conversa sobre regime político”, não sobre o econômico.

Burlamaqui deu uma entrevista ao Valor. A seguir, os principais trechos:

Uma das discussões mais quentes do momento envolve a guerra comercial entre EUA e China e suas consequências, que não ficam apenas entre os dois países, mas são globais. Tenho envolvimento há algum tempo com a Ásia porque parte do meu doutoramento foi feita no Japão. E uma ligação também muito antiga com (Joseph) Schumpeter. Tive uma formação que podemos chamar de neoclássica, convencional, que hoje predomina nas faculdades de economia, e ficava muito frustrado porque via pouca aderência empírica ao que acontecia, os modelos não explicavam algumas questões, entre elas o crescimento da China nas últimas quatro décadas. Os modelos matemáticos usados na economia são muito complexos, quase uma forma de arte, mas, para usar uma expressão do Nelson Rodrigues, na hora de ver a vida como ela é, a economia como ela de fato é, a coisa começa a complicar.

Transformação da Ásia

Schumpeter foi um autor que me chamou muito atenção, embora seja pouco discutido e não devidamente respeitado na formação de economistas. Continua sendo subestimado. Schumpeter me diz algo sobre o desenvolvimento asiático. A China entrou na rota do crescimento mais recentemente, mas outros países – Japão, Coreia do Sul, Taiwan e, depois na segunda onda, Malásia, Indonésia e Tailândia – já tinham feito uma transformação assombrosa tanto do ponto de vista estrutural da economia como de inclusão social.

Socialismo e Schumpeter

Quando comecei a estudar mais profundamente a China, me voltei para os escritos de Schumpeter sobre socialismo. A forma como ele caracteriza o socialismo é muito diferente de como normalmente se entende esse conceito. Quando alguém pensa sobre socialismo, lembra logo expropriação dos meios de produção, fim da propriedade privada e do mercado. Num dos seus livros, Schumpeter faz uma provocação em forma de perguntas: Pode o capitalismo sobreviver para sempre? Não, mas

https://valor.globo.com/eu-e/noticia/2021/09/03/a-china-a-luz-de-schumpeter.ghtml Página 4 de 10

não por caso dos seus fracassos, mas sim por conta dos sucessos. Pode o socialismo funcionar? Pode, claro que pode. E pode funcionar melhor que o capitalismo em termos de aceleração do progresso. Mas a concepção dele de socialismo não tem nada a ver com a concepção tradicional, que vem da escola marxista.

Interesse público

Schumpeter entende que as grandes questões da sociedade são de interesse público e, portanto, devem estar sob o controle do Estado. Ideias como a expropriação da empresa privada não estão necessariamente aí. O ponto central é este – questões como crescimento econômico e redução da pobreza são de interesse público e devem estar sob o controle do Estado. É o que se chamaria de socialização da gestão das grandes questões da sociedade. Você pode entender isso como o Estado redesenhando as fronteiras entre o público e o privado. Cabe ao Estado a tarefa de supervisão, mas a concorrência não é eliminada. Ao contrário, é estimulada.

China como potência

Vou ser atrevido. A moldura conceitual do Schumpeter é o que permite se entender o que acontece na China, sem dizer coisas que são grosseiramente equivocadas. A China foi o país que mais cresceu nas últimas quatro décadas; tirou 800 milhões de pessoas da linha da pobreza; acabou com a pobreza extrema; entre os dez maiores bancos do mundo, quatro são chineses (e são bancos de desenvolvimento); as bolsas de valores chinesas somadas já são o segundo maior mercado financeiro do mundo – só perdem para os EUA -; as empresas chinesas na área de tecnologia estão disputando em inovação com as maiores do mundo. Em qualquer área, a China está no topo. A teoria econômica convencional não tem como explicar esse fenômeno, assim como quem tem uma pegada marxista não tem como tratar do assunto. A China não pode ser enquadrada nem de um lado nem do outro. É outra coisa.

Socialismo com características chinesas?

As próprias autoridades chinesas tentam explicar o fenômeno do seu país classificando-se como socialismo com características chinesas. O que se vê na China hoje? Não existe expropriação da propriedade privada, existe concorrência, há inclusão social; questões fundamentais para o país estão sob o controle governamental. É um exemplo acabado do Estado empreendedor.

Financiamento

A grande máquina de desenvolvimento econômico da China é movida principalmente – não totalmente, mas em grande medida – pelos bancos públicos. Foi assim em especial nas duas primeiras décadas do arranque chinês. O país está coalhado, além disso, de empresas públicas. Existem muitas empresas privadas, mas foram financiadas inicialmente pelos bancos públicos. E aqui no Brasil há quem diga que o Estado não pode funcionar porque é sempre ineficiente. Há quem diga que precisamos acabar com o BNDES (Banco Nacional do Desenvolvimento Econômico e Social). Será que essas pessoas não ouviram falar na China? A Coreia do Sul teve um sistema bancário público que perdurou até os anos 1990. Em Taiwan, a mesma coisa.

Outros países, mesma toada

O que a China fez estava claramente plantado em países que a precederam nesse processo. A China não inventou esse caminho. O país pegou uma receita de bolo que já existia no qual o Estado tem um papel central. Nós, aqui no Brasil, já tivemos essa situação. Praticamente todos os países que se industrializaram tiveram o Estado à frente do seu processo de modernização. As pessoas que negam isso não conhecem história ou vão pela via ideológica. Veja o que o Estado inglês fez antes da Revolução Industrial, especialmente do ponto de vista financeiro, de racionalização administrativa, de montagem de uma burocracia extremamente eficiente. Sem isso, não se consegue entender a Revolução Industrial na Inglaterra, que é considerado o país liberal por excelência. Liberal depois de 1850, 1860. E mesmo assim o Estado britânico ainda tinha uma ingerência muito grande nas colônias depois disso. A Alemanha é outro exemplo.

Função empreendedora

O mais importante, segundo Schumpeter, é o papel do empreendedor, que pode ser exercido por uma pessoa, como o Thomas Edison, o Jeff Bezos, o Bill Gates. Mas a função empreendedora também pode ser levada a cabo por uma empresa depois da saída do gênio inovador. Ninguém sabe quem é a equipe que toca uma companhia como a Microsoft ou a Toyota. Para Schumpeter, pode-se considerar que houve uma socialização da gerência dessas companhias, depois da saída do fundador. É uma equipe que tem a função empreendedora. Esse papel de empreendedor também pode ser assumido pelo Estado. Quem iniciou o processo de modernização e industrialização da Alemanha? Foi o Estado, responde Schumpeter. Hoje se associa Schumpeter ao empreendedorismo privado. Uma leitura pente-fino da sua obra mostra que ele diz, ousadamente e de forma iconoclasta, que o empreendedorismo pode ser função governamental.

Biden e um paradoxo

Há hoje um paradoxo muito interessante no mundo, especialmente nos Estados Unidos. A administração americana não se cansa de acusar a China de não seguir as regras internacionais do jogo comercial e de negócios. O governo de Washington está dizendo que os chineses têm que ser mais parecidos com os americanos, com os mesmos regimes econômico e político. Por que os EUA, que têm 250 anos, se acham no direito de ditar regras para a China, que tem 3 mil anos de civilização? Há 50 anos, o argumento americano poderia ser de que a China era muito pobre, mas isso não é mais verdade. Dá para entender muito melhor as reformas econômicas feitas pelo Deng Xiaoping [que liderou a China entre 1978 e 1992] a partir dos conceitos de Schumpeter. O que Deng fez? Ele começou a redesenhar as fronteiras entre o público e o privado, com a criação, por exemplo, das zonas econômicas especiais, onde se permitiu que as empresas tivessem lucro. É o Estado criando mercados. É o mesmo que está acontecendo hoje, com os reguladores chineses colocando regras para as fintechs, à frente do restante do mundo. O que o [presidente americano Joe] Biden quer com seus projetos econômicos? Adaptar às condições americanas um tipo de projeto que não deixa de ser parecido com o chinês no sentido de que os grandes temas de interesse da sociedade americana, como inovação, investimento em infraestrutura, combate à pobreza e política industrial, estão sendo organizados pelo Estado. Administrados, supervisionados, dirigidos pela esfera pública. Assim, ao mesmo tempo que fazem críticas às vezes ácidas à China, os americanos estão seguindo uma trilha parecida.

Fonte: A China à luz de Schumpeter | Eu & | Valor Econômico 04/09/2021

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