“Tempestade Perfeita”: Crise Pandêmica Sistêmica

Joe Biden obteve promessas do Walmart e das empresas de remessas UPS e FedEx de que aumentarão seu expediente de trabalho para tentar atenuar os gargalos da cadeia de suprimentos que estão emperrando as recuperações econômicas dos EUA e mundiais.

As três empresas se comprometeram a adotar um modelo de 24 horas e sete dias por semana de trabalho, como parte de um esforço para eliminar o descompasso entre o forte crescimento da demanda e a recuperação mais lenta da oferta e atenuar a escassez.

Autoridades do governo Biden observaram que, juntas, a UPS e a FedEx, remeteram 40% das encomendas americanas, em termos de volume em 2020, e que sua iniciativa levará outras a fazer o mesmo. Elas também solicitaram a Target, a Home Depot e a Samsung para adotar medidas para tirar mais contêineres dos portos.

O governo Biden tem pressionado empresas de frete ferroviários, transporte rodoviários e de portos a aumentar sua capacidade a fim de atender à demanda crescente. Mas muitos enfrentaram dificuldades para encontrar mão de obra suficiente e a escassez de espaços de armazenagem próximos aos portos exacerbou os gargalos.

As perspectivas para a economia mundial estão mais sombrias, com uma série de dados da Europa e da Ásia sugerindo que o crescimento foi mais fraco no terceiro trimestre, afetado pelos problemas com cadeias de suprimentos globais, forte aceleração da inflação e impacto da variante delta da covid-19, altamente contagiosa.

Da Suécia ao Reino Unido e da Alemanha ao Japão, portos congestionados e gargalos no fluxo mundial de matérias-primas e componentes abalaram os fabricantes, interrompendo a produção das fábricas e levando as empresas a alertarem seus clientes que terão de esperar por produtos de que precisavam com urgência.

Dados divulgados ontem mostram que o Reino Unido – uma das poucas grandes economias a publicar mensalmente números sobre seu PIB – teve uma modesta expansão de 0,4% em agosto, depois de contrair em julho.


“A melhor parte da recuperação com a reabertura provavelmente veio no início deste ano”, disse David Oxley, economista da Capital Economics, em Londres.

O setor de serviços foi o principal motor do crescimento em agosto, quando os britânicos voltaram aos restaurantes, bares, hotéis e teatros com o fim de quase todas as restrições relativas à covid-19 no país em julho.

O setor manufatureiro pouco acrescentou à expansão, já que as fábricas enfrentavam dificuldades com as cadeias de fornecimento, como escassez de matérias-primas e altos preços de energia.

Rowan Crozier, CEO da C. Brandauer & Co, disse que tem uma carteira de encomendas volumosa, mas não consegue que metais e outras matérias-primas de que precisa sejam entregues com rapidez suficiente para atender à demanda. A C. Brandauer & Co, que tem sede em Birmingham (Reino Unido), é uma empresa de engenharia de precisão que fabrica conectores de metal usados em vários tipos de produtos, de chaleiras elétricas a dispositivos médicos e drones militares miniaturizados.

Crozier contou que normalmente a empresa leva de 6 a 12 semanas para entregar uma encomenda, mas agora avisa seus clientes que podem ter de esperar entre 30 semanas e mais de um ano. Ele disse que seus fornecedores têm aumentado a capacidade lentamente, mas prevê que a escassez de matérias-primas não vai amainar até março/abril de 2022.

A falta de caminhoneiros no Reino Unido provocou gargalos em Felixstowe (Inglaterra), o porto de contêineres mais movimentado do país. Por causa do seu espaço limitado para navios gigantes, a A.P. Moeller-Maersk começou a descarregar os contêineres com destino ao Reino Unido em outros portos no país e na Europa e a enviá-los a Felixstowe em navios menores, para limitar atrasos.

O Fundo Monetário Internacional (FMI) reduziu sua previsão de crescimento de 2021 para a economia mundial esta semana, para 5,9%, citando a deterioração das perspectivas com as dificuldades das cadeias de fornecimento globais em atender a demanda dos consumidores nos países ricos.

No Japão, dados de ontem apontaram queda de 2,4% nas encomendas de máquinas em agosto, contrariando as expectativas de aumento. Dados recentes da Suécia e da Alemanha também mostram pressão sobre os fabricantes.

A economia da Suécia se contraiu 3,8% em agosto – o que a deixou abaixo de seu tamanho pré-pandemia -, refletindo a queda das exportações por causa de problemas com transporte e de escassez que fizeram a produção do setor de manufatura cair 4,5%.

A Volvo suspendeu a produção em agosto, a mais recente montadora a sofrer os efeitos de uma escassez global de semicondutores. A falta de chips se intensificou no terceiro trimestre, com um surto de casos de covid-19 no sudeste da Ásia, onde a maioria dos chips é feita, testada e embalada.

A economia da Alemanha, a maior da Europa, desacelerou drasticamente enquanto suas empresas voltadas à exportação enfrentam gargalos nas cadeias de suprimentos mundiais, aumento dos preços da energia e desaceleração econômica na China, seu maior parceiro comercial.

O governo alemão informou neste mês que a produção industrial caiu 4% no mês em agosto, refletindo a queda na produção de veículos e peças automotivas. Na China, o maior mercado das montadoras alemãs, dados publicados na terça-feira indicam que as vendas de automóveis caíram quase 20% em setembro, em comparação com o mesmo período do ano anterior, em meio à escassez de semicondutores e de energia.

Por causa da escassez de semicondutores, a alemã Opel Automobile anunciou no fim de setembro a suspensão das operações em sua fábrica de Eisenach pelo menos até o fim do ano, e colocaria seus funcionários em licença.

Quase metade das cerca de 3,8 milhões de pequenas e médias empresas alemãs enfrentam problemas com as cadeias de suprimentos, aponta uma pesquisa de setembro do banco KfW. A escassez não é apenas de microprocessadores, mas também de aço, alumínio, cobre e outros metais, de plásticos e materiais para embalagens, e de madeira para os setores de construção e moveleiro.

Nos EUA, segundo a IHS Markit, a expectativa é de uma desaceleração do crescimento para 1,4% no terceiro trimestre, de uma expansão média de 6,5% no primeiro semestre. A IHS Markit revisou os números para menos por causa de uma forte queda nos gastos dos consumidores.

Segundo dados divulgados ontem, a inflação dos preços ao consumidor nos EUA subiu 0,4% no mês em setembro (veja o gráfico acima). Na comparação anual, a alta foi de 5,4%, a maior em 13 anos, com a escassez de bens e mão de obra elevando os preços de mantimentos, veículos novos e móveis.

A economia da China também deve desacelerar no terceiro trimestre, quando foi atingido por surtos esporádicos de covid-19 e falta generalizada de energia, assim como pelo esfriamento do mercado imobiliário. A expectativa é que a economia da China cresça 5,1% no terceiro trimestre, em relação a um ano atrás, segundo uma pesquisa do “Wall Street Journal”. O país registrou um crescimento de 7,9% no segundo trimestre.

As vendas de imóveis residenciais na China estão em queda, com restrições ao crédito e temores sobre a saúde financeira das incorporadoras desestimulando os compradores e jogando uma sombra sobre um setor que é fundamental para a economia chinesa.

Grandes incorporadoras registraram volumes de vendas mais baixos em setembro e várias tiveram reduções de 20% a 30%, em comparação com o mesmo período de 2020. É uma queda brutal no mês que precede o feriado chinês do Dia Nacional, em 1o de outubro, quando promoções costumam fazer dele um dos períodos de vendas mais fortes do ano.

Se essa forte queda for mantida, pode ter consequências econômicas graves. Nos últimos anos, o mercado imobiliário teve papel descomunal na economia chinesa. As famílias colocaram grande parte de sua riqueza em imóveis residenciais e para investimento.

Uma desaceleração nas vendas pode afetar a construção, com o risco de prejudicar o crescimento, o emprego e as finanças de governos locais. Os descontos para estimular vendas podem aviltar os preços e impactar a riqueza das famílias.

Incorporadoras como a China Evergrande têm tido dificuldades para se adaptarem a uma série de mudanças, que incluem as regras chamadas de “três linhas vermelhas” – lançadas no ano passado para conter o crescimento da dívida de empresas mais frágeis -, assim como limites para empréstimos imobiliários de bancos. Algumas não conseguiram fazer o pagamento de juros no prazo e os preços das ações e títulos caíram drasticamente em todo o setor. A notícia alarmou os compradores, especialmente porque as incorporadoras vendem muitos apartamentos antes da construção.

O mercado de imóveis residenciais da China, incluindo a atividade de construção e serviços, respondeu por 23% do PIB em 2018, segundo o Goldman Sachs. Os economistas do banco estimam que uma queda de 15% nas vendas de terrenos e de 5% nas vendas de propriedades e nos preços dos imóveis residenciais tiraria 1,4% do PIB do país em 2022. Segundo eles, na pior das hipóteses uma queda de 30% nas vendas de terrenos e de 10% nas vendas de imóveis poderia reduzir o PIB em até 4,1%.

Por enquanto, as quedas nas vendas contratadas refletem mais o encolhimento do volume de vendas do que uma redução dos preços. Na Sunac China Holdings, por exemplo, o preço médio de venda caiu 1,4%, para o equivalente a pouco menos de US$ 200 por pé quadrado. Mas a área de vendas contratada encolheu 31%.

Os consumidores mostram que acreditam que os preços podem cair. No terceiro trimestre, a proporção de depositantes de bancos do país que esperam alta nos preços dos imóveis caiu para 19,9%, segundo pesquisa do banco central da China. O percentual, que era de 25,1% há um ano, é o menor desde 2016.

O menor volume de vendas também pode levar mais incorporadoras – que buscam recursos para pagar dívidas – a oferecer descontos maiores. Em setembro, pelo menos oito cidades proibiram as incorporadoras de fazerem cortes que consideraram excessivos nos preços de imóveis residenciais e, em alguns casos, instituíram preços mínimos, segundo os meios de comunicação estatais chineses.

As exportações da China subiram para um novo recorde em setembro de 2021 em meio à forte demanda antes das festas de fim de ano e alta dos preços que compensaram o efeito da crise energética no país.

As exportações cresceram 28,1% em dólar em setembro em termos anuais, atingindo o recorde de US$ 305,7 bilhões, segundo dados oficiais divulgados ontem. Por outro lado, as importações cresceram apenas 17,6%, para US$ 240 bilhões, bem abaixo do aumento de 33% de agosto, sinalizando fraqueza na demanda interna.

O superávit comercial chinês mensal subiu a US$ 66,8 bilhões, enquanto o politicamente sensível superávit comercial com os EUA subiu para US$ 42 bilhões em setembro, de quase US$ 38 bilhões em agosto.

Analistas da Nomura apontaram a alta dos preços como uma razão para os números de exportações mais fortes da China. Os custos mais altos de produtos industriais podem ter contribuído com mais de 5 pontos percentuais para o crescimento das exportações.

Países que vão da Ásia a Europa e aos EUA têm observado uma alta na inflação superior à habitual neste ano. Desde almôndegas de carne bovina em Tóquio até enroladinhos de filé de frango em Londres, os consumidores começam a sentir o impacto da escalada dos custos que tomou conta da economia global em uma “tempestade perfeita” formada pela ruptura nas cadeias de suprimentos, crise energética, escassez de mão de obra e forte demanda de consumo.

Em mais uma indicação da crescente pressão inflacionária no mundo, EUA e China reportaram ontem as maiores altas nos preços ao produtor em décadas. Diante desse cenário, o Comitê do Fundo Monetário Internacional (FMI), colegiado dos 24 membros que define as diretrizes políticas do Fundo, alertou ontem os bancos centrais a monitorar de perto a dinâmica da inflação em seus países, para que possam agir rapidamente se a pressão nos preços se mostrar mais duradoura do que transitória.

A forte alta dos preços do carvão e de outras commodities levou o índice de preços ao produtor na China a subir 10,7% ao ano em setembro, ritmo mais acelerado dos últimos 26 anos, o que potencialmente aumenta a pressão inflacionária global caso as empresas locais comecem a repassar os custos mais elevados aos consumidores.

Há poucas evidências, ainda, de que as fábricas estejam repassando a alta dos custos dos insumos para os clientes. Os preços ao consumidor na China subiram num ritmo modesto de 0,7% no mês em setembro. Mas isso poderá mudar, à medida que os produtores veem seus lucros se comprimirem e da alta dos preços da energia elétrica, em meio à crise energética no país.

“O aumento da diferença entre os preços ao produtos e os preços ao consumidor significa maior pressão para que setores da cadeia produtiva repassem os custos para os do ponto de vendas”, disse Bruce Pang, diretor da China Renaissance Securities Hong Kong.

Como o maior país exportador do mundo, os preços da China são outro fator de risco para o panorama inflacionário global. Mas os economistas consideram de modo geral que sua influência é modesta, uma vez que as cestas de produtos usadas pelos países para calcular a inflação ao consumidor tendem a conter mais serviços gerados localmente do que produtos de consumo originários da China. Pesquisa do banco Standard Chartered detectou um grau apenas moderado de correlação entre o IPC chinês e os preços ao consumidor dos EUA nos últimos anos.

Em todo o mundo, a recuperação da atividade econômica em relação às restrições impostas pela covid-19 expôs episódios de escassez em toda a cadeia de suprimentos, com as empresas enfrentando dificuldades para encontrar funcionários, navios e até combustível para movimentar as fábricas.

Nos EUA, o índice de preços ao produtor subiu 8,6% ao ano em setembro – maior alta desde o início da série em 2010. Entre os fatores que têm alimentado a inflação americana está a escassez de insumos que encarecem o custo das mercadorias e a pressão salarial diante da falta de mão de obra.

Os novos pedidos de seguro-desemprego, um indicador das demissões, caíram para 293 mil na semana passada, informou ontem o Departamento do Trabalho. Foi a primeira semana desde o início da pandemia de covid-19 em março de 2020 que os pedidos ficaram abaixo de 300 mil. O número de americanos que recebem seguro- desemprego também caiu para o menor nível da pandemia.

“As empresas estão tentando contratar e reter trabalhadores”, disse Joel Naroff, economista-chefe da Naroff Economics. “Os salários estão subindo acentuadamente. E a inflação ainda é mais rápida do que os ganhos salariais.”

O problema, segundo Naroff, é que os problemas nas cadeias de suprimentos – em parte por causa da falta de mão de obra – estão colidindo com gastos extraordinariamente elevados. “Você pode abrir [o porto de Los Angeles] por 24 horas, mas ainda não tem os motoristas de caminhão”, disse. “Enquanto continuar a ruptura nas cadeias de suprimentos, estaremos nessa situação.”

O aumento de 0,5% nos preços ao produtor nos EUA no mês passado em relação a agosto foi impulsionado pelo aumento dos preços de alimentos e energia, que tendem a ser mais voláteis, mas também reflete a alta nos preços de uma gama muito mais ampla de bens. O rápido crescimento dos preços cobrados por atacadistas e varejistas sinaliza um maior poder de precificação entre as empresas, disse Stephen Stanley, economista-chefe da Amherst Pierpont.

Dados dos EUA divulgados na quarta-feira apontaram uma aumento anual de 5,4% no índice de preços ao consumidor em setembro. Foi a maior alta desde 2008.

No Reino Unido, a maior produtora de frango alertou que a bonança de preços baixos dos alimentos está acabando e que a inflação dos preços dos alimentos poderá chegar aos dois dígitos devido à alta dos custos.

Mesmo no Japão, onde os preços de muitas coisas – inclusive salários – não subiram muito devido ao crescimento fraco, os consumidores e empresas enfrentam um choque nos preços de produtos básicos, como café e almôndegas de carne bovina.

O núcleo da inflação dos preços ao consumidor do Japão deixou de cair só em agosto, encerrando um período de 12 meses de deflação. Economistas e autoridades preveem ver os recentes aumentos dos preços se refletirem nos dados oficiais nos próximos meses.

Com o inverno no hemisfério Norte se aproximando de algumas partes do mundo, as perspectivas são de pressão nos custos de energia diante da atual crise energética, especialmente na China e na Europa. Até agora há poucos sinais de

qualquer alívio dos custos da energia, tanto que os preços do petróleo voltaram a subir ontem, com a queda maior que o previsto dos estoques comerciais americanos de gasolina e de diesel e óleo para aquecimento.

A alta também foi sustentada por expectativas de que a disparada dos preços do gás natural, levará muitos consumidores a usar o petróleo a fim de atender à demanda por calefação. Os preços do petróleo tipo Brent subiram ontem a US$ 84 o barril.

A Agência Internacional de Energia (AIE) disse que a crise energética deverá impulsionar a demanda por petróleo em meio milhão de barris/dia (b/d) e que poderá acirrar a inflação e desacelerar a recuperação mundial da pandemia da covid-19.

“O aumento dos preços da energia também estão elevando as pressões inflacionárias, que, juntamente com os apagões, poderão baixar o nível de atividade industrial e desacelerar a recuperação da economia”, disse o órgão, em seu relatório mensal de petróleo.

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