Hiato do Produto e Outras Mazelas Econômicas Brasileiras

PIB Potencial 2022-2030

Apesar das projeções elevadas para os índices de preços no Brasil, o entendimento de que ainda se tratam mais de pressões pelo lado da oferta do que da demanda e de que o Banco Central vai impor um freio à atividade para tentar trazer a inflação de 2022 para a meta fez analistas postergar a perspectiva de fechamento do hiato do produto, uma importante medida de ociosidade da economia.

Em questionário do BC a economistas antes da reunião do Comitê de Política Monetária (Copom) de setembro, a mediana das respostas indicava um hiato de -2% ao fim deste ano, ante -1,8% no questionário de junho. Para 2022, a projeção de setembro está em -1,5%.

O hiato do produto refere-se à diferença entre o PIB efetivo e o potencial – aquele possível de ser alcançado usando de forma plena todos os fatores de produção, como mão de obra e capital. Se o PIB potencial está muito acima do PIB efetivo, nem todos os recursos são empregados de maneira eficiente, e o hiato é negativo. Quando essa ociosidade dos fatores da economia é ocupada, diz-se que o hiato fechou.

Em junho, a maioria dos respondentes do questionário pré-Copom (37 de 73) esperava fechamento do hiato em 2022, sendo que o terceiro trimestre concentrava as apostas (13). Agora, 30 de 68 casas esperam o fechamento em 2023 – e 13 delas somente no último trimestre -, enquanto 17 passaram a ver essa possibilidade apenas em 2024, contra quatro estimativas similares em junho.

O hiato do produto é uma variável não observável, ou seja, economistas partem de outros indicadores existentes para chegar a ela e não há um método único de cálculo. Quando, em julho, escreveram relatório sobre as diversas metodologias, os economistas do Bradesco, Ederson Schumanski, Thiago Angelis e Myriã Bast estimavam o fechamento do hiato entre o fim de 2022 e o início de 2023, com maior chance de ser no ano que vem. Naquele momento, porém, a indicação do BC era de normalização da taxa básica de juros para patamar neutro (aquele que não estimula nem contrai a economia).

“De lá para cá, o BC virou a mão e falou que vai levar para o terreno contracionista. No fundo, o que ele está dizendo é que vai ter que colocar um freio na atividade. Quando ele leva o juro para 9% entre o fim deste ano e início do próximo, ele joga a atividade do segundo semestre de 2022 para baixo e o hiato começa a abrir devagar de novo”, diz Schumanski.

Em dado momento do ano, aqueles economistas anteciparam o fechamento do hiato, em meio à onda de melhora das projeções para o PIB de 2021. Agora, com a ideia de Selic contracionista, volta para aquele patamar, talvez, de 2023.

Para calcular o hiato, o Bradesco combina filtros “mais fechados”, que captam melhor a dinâmica de curto prazo de aceleração da inflação, e outros “mais abertos”, que trazem indicações de longo prazo. Hoje, no segundo para o terceiro trimestre, vê um hiato perto de -2,5%

A visão ainda é de uma ociosidade grande no mercado de trabalho, mesmo com os sinais recentes de recomposição. No setor de bens, o hiato parece mais fechado, mas há ressalvas. Não dá para assumir, na sua opinião, esse hiato permanecer fechado por muito mais tempo, porque imperam alguns elementos que certamente não são permanentes, como gargalos de oferta mundial e um deslocamento para o consumo de bens

Déficit em Habitação Popular

Enquanto isso, uma política pública fundamental — a habitacional — foi desmantelada. Os programas Minha Casa, Minha Vida e seu sucessor mal-sucedido, o Casa Verde-Amarela, precisam de mais R$ 5,8 bilhões em recursos do Orçamento para novas contratações, informou ontem o secretário Nacional de Habitação, Alfredo Eduardo dos Santos, em reunião em comissão da Câmara.

Desse valor, R$ 3,6 bilhões são para obras vigentes destinadas à faixa 1 (renda familiar de até R$ 2 mil). Outros R$ 870 milhões são necessários para obras retomadas, e R$ 1,3 bilhão, para o Minha Casa Minha Vida – Entidades.

O valor da necessidade de recursos foi confrontado com o que foi desembolsado nos programas de habitação de 2019 até agora: R$ 6,2 bilhões para a faixa 1, R$ 20,9 bilhões em subsídios do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS) e R$ 103,5 bilhões aplicados em recursos do FGTS para financiamentos.

A pasta do Desenvolvimento Regional espera também que o Conselho Curador do FGTS aprovar a ampliação do orçamento plurianual, até 2024. Isso dará previsibilidade para O Mercado.

Ao falar sobre os dois programas, o programa Minha Casa Minha Vida foi “exitoso”. No entanto, enfrentava o problema do déficit habitacional com apenas uma política: a construção de imóveis. Ora, isso gera emprego além de estimular o multiplicador de renda!

A diferença, segundo ele, é que o Casa Verde-Amarela oferece outros instrumentos para atacar o déficit habitacional. Um exemplo é o programa de aluguel social. Isso não gera emprego nem renda!

O Ministério do Desenvolvimento Regional criou recentemente um departamento para tratar dessa modalidade, que atenderá a famílias com renda de até R$ 4 mil por mês. A ideia é que unidades habitacionais destinadas a aluguel sejam construídas por meio de Parcerias Público- Privadas (PPPs) entre empresas privadas e entes públicos, como prefeituras e governos estaduais.

Perto de metade do déficit habitacional, estimado em 5,9 milhões de imóveis, decorre do fato que a família compromete mais do que 30% de sua renda para pagar o aluguel, o que é um nível de comprometimento muito elevado, comentou.

Outra parcela do déficit se refere a famílias que vivem em imóveis inadequados. O ministério trabalha para oferecer um programa de melhoria de habitações existentes. São financiamentos para famílias com renda de até quatro salários mínimos, com juros baixos e assistência técnica.

Há, porém, uma parcela do déficit que deve ser atacada com a oferta de novos imóveis. Nessa frente, uma novidade é a dispensa do pagamento da entrada do valor do imóvel – Estados e prefeituras as ajudam a pagar a entrada.

A oferta de novos programas é positiva, mas é preciso dar mais clareza a eles e estabelecer um cronograma, disse Karla França, analista de Planejamento Territorial da Confederação Nacional dos Municípios (CNM).

A descontinuidade dos programas de habitação, com queda na contratação de novas unidades foi criticada pela coordenadora da comissão de Política Urbana do Instituto de Arquitetos do Brasil, Claudia Teresa Pereira Pires. Ela defendeu a vinculação de recursos federais, estaduais e municipais para os programas de habitação.

1 thought on “Hiato do Produto e Outras Mazelas Econômicas Brasileiras

  1. Republicou isto em Iso Sendacz – Brasil and commented:
    Nos parece que o “hiato do produto” brasileiro é muito superior aos dois, três pontos percentuais indicados pelos economistas dos bancos, vez que o desemprego abarca 14 milhões de pessoas em idade de produzir e há o pelo menos o dobro disso uberizada.
    Talvez a razão técnica repouse na falta de capital. Mas entendo que falta planejamento, é questão de dirigir parte da mão-de-obra para a produção de bens de produção, multiplicadores do PIB ao transferir trabalho braçal às máquinas.
    Dinheiro para pagar os salário, tem, e flui generosamente aos cofres dos rentistas. E, se faltar, basta imprimir mais.
    O Brasil já cresceu 7% ao ano durante décadas, nas últimas foi a vez da China dobrar o tamanho do seu PIB a cada plano quinquenal ou dois.
    Mas vamos às lições do doutor Fernando Nogueira Costa, que não se limitam às pobres expectativas dos banqueiros.

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