Estados Desunidos da América

James Green (foto na reportagem), biógrafo do Herbert Daniel, ativista no Brasil e nos EUA.

Assembleias das unidades federativas com maioria republicana aprovam legislações intolerantes e retiram liberdade de cátedra. O novo front da guerra cultural gira em torno de uma teoria acadêmica criada nas Faculdades de Direito nos anos 1990, segundo a qual o racismo é muito mais do que preconceitos pessoais, está impregnado em leis e incorporado às instituições. Sustentam até hoje a segregação dos negros e a supremacia branca.

Necessitamos comparar as táticas da extrema-direita conservadora de lá com a daqui. A matriz do pensamento dela está sob o trumpista Steve Bannon de lá e domina as ações do clã militar atualmente de passagem no governo federal brasileiro.

Helena Celestino (Valor, 07/01/22) informa: a disputa pela memória histórica dos Estados Unidos chegou aos tribunais, levou a discussões inflamadas e ameaças de morte, impactou a política nacional e foi pretexto para a criação de listas de livros proibidos em bibliotecas escolares ao redor do país. Da noite para o dia, inocentes reuniões de pais e professores transformaram-se em batalhas nas quais se disputa a versão sobre o país que vai prevalecer.

O novo front da guerra cultural explodiu em torno de uma teoria acadêmica criada nas faculdades de direito nos anos 1990, segundo a qual o racismo é muito mais do que preconceitos pessoais, está impregnado em leis e incorporado às instituições que sustentam até hoje a segregação dos negros e a supremacia branca.

“Não é a teoria crítica da raça que assusta as pessoas, é a ideia de que os pretos e pardos americanos acharam uma linguagem para desafiar o mito de que raça não importa”, aponta Kendall Thomas, professor da Faculdade de Direito da Universidade Columbia, com contribuições importantes nesse campo do conhecimento.

“É o último dos pânicos dos conservadores”, diz Todd Gitlin, professor da Universidade Columbia, cujo curso do último semestre foi sobre os movimentos de extrema direita.

Foi um pesquisador e ativista conservador que transformou a teoria crítica da raça em arma de guerra. Christopher Rufo, com um passado de trabalhos sobre a pobreza para o Manhattan Institute (um think-tank de centro-direita), percebeu que os republicanos estavam lutando contra essa visão progressista sobre o racismo desde o fim do governo Barack Obama, mas sem maiores repercussões. Intuiu que a teoria crítica da raça era o vilão perfeito para congregar a extrema direita nesse combate.

“Tem uma conotação hostil, acadêmica, divisiva, elitista e antiamericana”, disse à revista “The New Yorker”. E aproveitou bem seus três minutos de fama num programa na Fox News, quando se disse assombrado como a teoria crítica da raça impregnou todos os aspectos do governo federal. “É uma ameaça existencial aos Estados Unidos e aos seus valores”, enfatizou, usando entonação e expressões bem treinadas.

Era setembro de 2019, fim do governo de Donald Trump. Na manhã seguinte, Rufo recebeu um telefonema do chefe de gabinete do presidente convidando-o para ir à Casa Branca. No fim do mesmo mês, ele voltou à sede do governo já para testemunhar a assinatura da medida provisória 3.951, proibindo as agências americanas e as empresas contratadas de promoverem cursos para estimular diversidade, assim como banindo a divulgação de conceitos divisivos sobre sexo e raça – ou, mais explicitamente, acusações de que os Estados Unidos são um país racista com um passado racista.

Assim que assumiu, o presidente Joe Biden anulou a medida provisória, mas a teoria crítica da raça já se transformara em algo tóxico capaz de agregar todos os delírios conservadores. Segundo a Pen America, organização que trabalha pela defesa da liberdade de expressão, desde janeiro projetos semelhantes aos de Trump foram replicados em 24 estados americanos que propuseram 54 diferentes leis proibindo ou banindo dos currículos das escolas públicas os tais conceitos divisivos, a maioria sobre raça, racismo e gênero. A censura valeria para turmas do jardim de infância ao ensino médio e atingiria também as agências estaduais.

“Querer conter juridicamente o debate de raça e racismo é uma maneira de tentar evitar que o racismo ao longo da história americana seja desmascarado”, diz Camila Daniel, professora visitante da Universidade Columbia — Foto: Pedro Kirilos/Agência O Globo

“Essas medidas são ameaças à liberdade de expressão garantida pela Primeira Emenda”, critica o mesmo documento da Pen America. Até agora, 11 desses projetos viraram leis, em nove estados, outros 18 serão votados em 2022 e outras seis estão ainda em fase de discussão.

Foi a virada de chave para transformar os conselhos das escolas em campos de batalha. As reuniões, até então pouco frequentadas, viraram espaços para protestos numerosos e violentos, atraíram militantes da extrema direita nacionalista do grupo Proud Boyso mesmo que atacou o Capitólio em 6 de janeiro de 2021 para evitar a posse de Biden – e desde outubro passaram a ter guardas para garantir a segurança de professores e participantes.

A tensão, os assédios e ameaças transbordaram nas redes sociais com a formação de mais de 100 grupos com dezenas de milhares de participantes, liderados por pais contra o que chamam de agenda política tóxica, na qual incluem da obrigação do uso de máscaras nas salas de aulas à discussão sobre racismo e às políticas de integração de transgêneros.

“Querem ensinar as crianças a odiar os brancos”, “Minha filha chegou em casa passando mal, contaram sobre a escravidão e ela se sentiu culpada”, repetem mães e pais brancos em entrevistas nas mídias. Nos colégios de maioria negra, a irritação é pelo apagamento da história e o medo do assédio de seus filhos por brancos. Sob pressão da polarização política dos pais, está difícil para as escolas cumprirem o papel de transmitir valores e crenças. Sob estresse constante, os professores estão abandonando os cursos e antecipando aposentadorias.

O brasilianista James Green, professor na Universidade Brown, rebate: “Ninguém ensina teoria crítica do racismo nas escolas, isto é invenção da direita. Estão impondo leis para proibir temas, é uma espécie de novo macarthismo”.

Na esteira da onda de controle sobre os currículos escolares, a pressão política chegou às bibliotecárias, que receberam listas de perguntas sobre os livros mantidos nas estantes das escolas, expressando a desconfiança de que pornografia estaria entre eles. Um republicano com pretensões à presidência listou 850 livros sob suspeição e, entre eles, constavam clássicos da literatura americana, livros da escritora canadense Margaret Atwood, do pensador negro americano Ta-Nehisi Coates, de Andrew Solomon e outros.

Dois livros da Prêmio Nobel Toni Morrison – “Olhos azuis” e “Amada” – entraram na lista dos proibidos, assim como dezenas de biografias de personagens LGBTQIA+ foram temporariamente excluídas dos programas escolares.

Num sinal de que a luta política é para valer, as campanhas para a eleição de representantes nos conselhos escolares passaram a ser irrigadas por torrentes de dólares – um dos financiadores investiu US$ 500 mil para eleger republicanos de sua confiança – e alguns dos recém-eleitos empossados pediram proteção à polícia depois de receberem ameaças de morte e estupro. Com medo, uns poucos se demitiram.

“Se as pessoas acreditam que as instituições falham no cumprimento de suas obrigações, falham na educação das crianças, falham em satisfazer e escutar os pais, se as pessoas também não confiam nas instituições encarregadas de manter a ordem, a tentativa de agir contra isso inclui ações violentas. Elas facilmente acreditam que a tarefa de reformar as escolas está nas suas mãos e tentam assumir a tarefa de botar ordem”, diz Gitlin. Elas passam a acreditar que o Estado é ilegítimo e o governo é hostil à liberdade. Existe uma longa tradição americana de usar armas e a resistência à violência política erodiu-se, acrescenta.

A abordagm das escolas sobre história racial vem mudando há décadas e isso ficou mais aparente depois da eclosão do Black Lives Matter em 2020. “A velha maneira de ensinar as glórias americanas na História já perdeu a legitimidade e a universalidade. Agora continua o desafio às ortodoxias históricas e uma tentativa de melhorar a compreensão da história americana”, diz Gitlin.

Apesar disso, o outro inimigo a ter apontada contra ele as armas dessa guerra cultural é o Projeto 1619, uma pesquisa monumental coordenada pela jornalista Nikole Hannah Jones publicada no “New York Times” há dois anos, ampliada e recentemente lançada em livro. Ganhou o Pulitzer, o maior prêmio de jornalismo internacional, provocou a fúria dos conservadores – inclusive de Trump – e batalhas no Twitter.

Talvez seja o único livro proibido nas escolas por lei estadual e que, ao chegar às livrarias, encontra quatro outros textos opondo-se às suas teses. “The 1619 Project – A New Origin Story” cria um novo marco inaugural dos Estados Unidos: não foi a chegada do Mayflower – como está sacramentado pela História -, e sim de escravizados no cargueiro White Lean os primeiros a desembarcar na Virginia e, assim, iniciar a história americana. “O país ainda não enfrentou essa ancestralidade”, disse Hannah Jones, num debate da Abraji no Brasil.

Com ela concorda a brasileira Camila Daniel, professora visitante da Universidade Columbia, na qual deu um curso em 2021 sobre “Raça na América Latina”. Com um trabalho sobre a construção da subjetividade nas populações negras, ela começou a lecionar em 2011 na Universidade Rural do Rio, no início do processo da implantação de cotas, e tem a experiência de dar aulas ao norte e ao sul do Atlântico. Nos EUA já foi também pesquisadora na Universidade de Nova York, na Universidade Estadual Morgan e deu um workshop em Baltimore, todas cidades onde a diversidade está enraizada e o debate sobre raça pulsa no coração da vida urbana.

Nos EUA, diz, os alunos já têm letramento e vocabulário para entender conceitos como racismo estrutural e epistemológico, por exemplo, já no Brasil apenas alguns estão num processo de construção de identidade racial, preta ou branca. Os dois países sempre tiveram aproximações diferentes em relação à raça, mas os grupos dominantes nos EUA parecem querer se aproximar de mecanismo bem antigo da realidade brasileira e americana.

“Essa reação de querer conter juridicamente o debate de raça e racismo é uma maneira de tentar evitar que o racismo ao longo da história americana seja desmascarado. No Brasil, a lei reproduz as desigualdades e apela para um discurso universal para esconder o racismo, é o mesmo que os conservadores estão fazendo aqui: usam um discurso universal como escudo para esconder o racismo”, diz Daniel.

O primeiro reflexo dessa guerra na política nacional foi a vitória do governador republicano Glenn Youngkin na Virginia, estado tradicionalmente democrata, onde Biden ganhou com 10 pontos percentuais de diferença. Ele prometeu proibir o ensino da teoria crítica da raça no primeiro dia de seu mandato e 86% dos eleitores disseram que a abordagem sobre educação definiu o voto deles. Como bem intuiu Christopher Rufo, do Manhattan Institute, a teoria crítica da raça, refeita e deformada para alimentar o medo, virou o vilão do momento.

2 thoughts on “Estados Desunidos da América

  1. Prezado Fernando,

    a evolução histórica dos Estados Unidos teve como pano de fundo o uso extremo do trabalho escravo, no Brasil foi a mesma coisa, mas com uma conotação diferente. Aqui é usado um tapume jurídico que institucionaliza a escravidão que permanente nas entranhas da sociedade, oculta e latente em um Brasil cuja maioria da população é negra e indígena. Não há dúvidas de que a nossa população é em sua maioria negra com mesclas indígenas, quando viajamos do Sul para as regiões norte e nordeste do Brasil, notamos que a expressão social é constituída em sua maioria pelas populações parda e negra com mesclas indígenas. Abs.

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    Book cover The 1619 Project The 1619 Project – Nikole Hannah-Jones, The New York Times Magazine

    https://pt.b-ok.lat/book/18165336/5c976d

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