Queima do Capital Excedente: Fusões e Aquisições

O capitalismo vai bem, mas a economia e o povo vão mal… Mudou em relação ao dito pelo ditador militar na época do chamado “milagre econômico brasileiro”. 

O mercado de capitais não reflete sempre os fundamentos microeconômicos, setoriais ou macroeconômicos. Por exemplo, A Apple estabeleceu uma nova marca no mercado acionário mundial, no início de 2022, ao se tornar a primeira empresa de capital aberto a ultrapassar o valor de mercado de US$ 3 trilhões. Impressiona o ritmo com o qual a empresa chegou ao valor menos de 500 dias após alcançar a marca de US$ 2 trilhões.

O valor de mercado da Apple subiu cerca de US$ 2 trilhões desde a baixa causada pela pandemia em março de 2020. Para comparar, o valor de mercado de 398 companhias abertas na bolsa de valores de São Paulo atingiu R$ 4,5 trilhões (52% do PIB brasileiro de R$ 8,6 trilhões) ou US$ 815 bilhões em 30/12/21. Valem pouco mais de ¼ da Apple…

A queima de estoque tem o objetivo de estimular o giro de mercadorias. Afinal, quanto mais tempo elas ficam armazenadas nos depósitos, maior é o período no qual o dinheiro fica sem rendimentos – e o capital de giro é usado em pagamentos sem retornos.

Com o estoque de ações acontece o mesmo se as sociedades abertas não distribuem bons dividendos de seus lucros apurados periodicamente. Daí surgem as oportunidades de “queima do capital excedente”, concentrando e centralizando para novo ciclo.

Vamos entender a lógica desse Processo de Fusões e Aquisições. Primeiro, trata-se do uso de dinheiro de outras pessoas em benefício próprio: conseguir associados, manter o controle da gestão, dando em troca participação acionária com divisão de lucros / prejuízos e evitando o compromisso de pagar juros e amortizar empréstimos,

O início do processo se dá com a Abertura de Capital: IPO (Oferta Pública Inicial) de parte minoritária do capital com cotação atribuída por mercado de ações. Toma-se dinheiro emprestado, para alavancar o processo de fusões e aquisições, somente depois da elevação do valor de mercado e enriquecimento pessoal dos sócios-fundadores.

A capitalização das empresas se dá via lançamento de ações. O
controlador faz divisão dos lucros esperados ou prejuízos inesperados sem o risco de ser devedor. 

Já a tomada de empréstimos ocorre para aumentar a escala do negócio e a rentabilidade patrimonial do capital próprio com o uso de capital de terceiros. É quando
o devedor assume o risco de o lucro operacional esperado não se confirmar, e o novo faturamento ficar abaixo dos juros dos empréstimos assumidos contratualmente.

Uma garantia patrimonial como colateral do empréstimo é solicitada pelo credor ao devedor para compensar o risco da inadimplência. Além deste, ele assume o risco de variações do valor das garantias patrimoniais com a volatilidade das cotações dos ativos. 

Quais são os interesses do comprador de ações? Primeiro, avalia a política empresarial de distribuição dos dividendos. Verifica se há risco de diluição de sua participação acionária com contínuas emissões de novas ações em follow-on [Ofertas Subsequentes].

Os investidores buscam a obtenção da maior taxa de retorno possível de suas ações, considerando sua aversão ao risco. A taxa de retorno de uma ação em dado período depende de três fatores: da cotação no início do período; do valor dos dividendos líquidos distribuídos durante o período; e do valor do potencial ganho ou perda de capital, descontados impostos e custos de transação com ações, resultante da alteração de sua cotação nesse período.

As cotações dependem da predominância entre as diversas especulações sobre futuro. Uns acionistas acham a precificação refletir, de imediato, as expectativas dos especuladores quanto aos dividendos e aos ganhos futuros de capital.

Nessa avaliação, pensam como “fundamentalistas” e não como “grafistas”. Estes buscam se antecipar aos outros em análise técnica da tendência de baixa ou alta das cotações. A cotação de qualquer ação dependerá mais das expectativas correntes dos participantes do mercado de ações sobre suas próprias expectativas futuras.

Em determinadas conjunturas, a diretoria de uma companhia aberta pode avaliar a necessidade de aumentos de capital através de incorporações de reservas com lucros obtidos anteriormente em lugar de distribuição de bonificações.

Pode decidir também fazer novas emissões, destinadas a trocas de ações de outras companhias em processo de fusão/incorporação ou de aquisição. Essas emissões, para obtenção de “dinheiro novo”, visando sua capitalização, inicialmente, pode
dar preferência aos acionistas atuais para a subscrição dessas novas ações.

As ofertas subsequentes de ações, como fonte de financiamento secundária, tem a inconveniência os custos (administrativos e de corretagem) implicados. Não são apreciadas
pelos acionistas, devido à diluição da participação acionária. Tende a derrubar as cotações e infringir uma perda de capital a eles.

No entanto, se a nova emissão, destinada a novo investimento ou fusões e aquisições de ativos existentes, resultar em melhoria das expectativas sobre fluxos de retornos, tenderá a elevar o preço da ação a ponto de anular a esperada tendência declinante da cotação. Esse será o caso de O Mercado acreditar em o “dinheiro novo emitido” ser aplicado em determinado projeto lucrativo com potencial de futuro ganho de capital.

Essa crença exige os investidores estarem bem informados sobre a possível lucratividade do projeto de investimento da empresa. A Oferta Subsequente [Follow-on] de ações visa obter capital-dinheiro para esse investimento.

O limite de endividamento da empresa torna necessário aumentar os lucros retidos até serem suficientes para autofinanciamento do restante. Mas esse uso de capital próprio pode implicar em uma acentuada redução da taxa de distribuição de dividendos.

Nesse caso, uma nova emissão de ações com possibilidade de subscrição seria menos prejudicial aos interesses de seus acionistas. Lembrando sempre de a avaliação de companhia aberta depender, não só de seus fundamentos, mas também dos ciclos da Bolsa de Valores, ou seja, das sequências de boom-crash.

Em boom (alta), quanto maior for o preço da ação, menos ações necessitarão ser emitidas, e reduzirá a diluição das participações dos atuais acionistas. Em ciclo baixista, o menor preço das ações eleva a quantidade delas dadas em garantia de empréstimos.

Nessa situação, a recompra de ações reduz a quantidade em circulação e ajuda a elevar o lucro por ação. É uma alternativa aos dividendos para devolver capital aos acionistas.

As transações de fusões e aquisições (M&A, na sigla em inglês) totalizaram US$ 90,7 bilhões (R$ 517 bilhões) em 2021, quase o dobro do movimentado em 2020. Em volume, foram fechados 706 negócios, alta de 26% sobre o ano anterior, um recorde dos últimos 10 anos. Por isso, o capitalismo vai bem, enquanto a economia e o povo vão mal.

O número de negócios envolvendo grupos brasileiros somaram US$ 69,8 bilhões (R$ 397,8 bilhões), com 571 acordos, e as operações de companhias estrangeiras comprando empresas nacionais atingiram US$ 20,8 bilhões (R$ 119,1 bilhões), com 135 operações. No mundo, o valor das operações de M&A chegou pela primeira vez à marca de US$ 5,6 trilhões no ano passado, com crescimento de 27% em relação a 2020.

Entre os segmentos com maiores negócios em M&A, em 2021, destacaram-se: Tecnologia da Informação (TI); Telecomunicações e Mídia; Hospitais e Laboratórios de Análises Clínicas da Saúde; Instituições Financeiras; Alimentos, Bebidas e Fumo; Companhias Energéticas; Transportes; Educação; Produtos Químicos e Farmacêuticos.

As Ofertas Iniciais de Ações [IPOs], segundo relatório da B3 (em novembro de 2021), alcançaram 45 ofertas. Captaram R$ 65,2 bilhões, uma alta de 48,5% em comparação a 2020, quando aconteceram 29 IPOs. Se incluir as operações de Follow-Ons, totalizaram 71 e alcançaram o montante de R$ 130,1 bilhões.

Há uma tendência de parte das empresas desistentes de fazer abertura de capital (IPO), nos últimos meses, busque como alternativa investidores privados. Outras companhias abriram capital, mas suas ações apresentaram forte desvalorização durante 2021, assim poderão virar alvo de potenciais grupos consolidadores.

Há cautela dos potenciais compradores em relação às empresas desistentes de ir à bolsa a buscarem um investidor no mercado. A referência de preço dos seus ativos era alta e elas iam a mercado para pagar dívida e reduzir alavancagem.

Decisivo no capitalismo periférico é os fundos estrangeiros de private equity (compradores de participações em companhias abertas) estarem mais dispostos a comprar ativos no Brasil. Estão baratos por conta da depreciação da moeda nacional. Os capitalistas vão bem quando há desnacionalização, pois vendem seu patrimônio, enriquecem mais, e pouco se importam com geração ou não de empregos para o povo.

1 thought on “Queima do Capital Excedente: Fusões e Aquisições

  1. Republicou isto em Iso Sendacz – Brasil and commented:
    O profícuo arrazoado sobre movimentação de capitais do professor Nogueira da Costa traz, ao lado dos truques operacionais da espiral capitalista, uma avaliação do crescente mercado de fusões e aquisições em 2021.
    Ele explica como funcionam o mercado primário e outras alternativas de capitalização de empresas sem transferência de controle e a variante secundária que, em última instância, faz concentrar riqueza e capacidade de produção em cada vez menos mãos, em geral de nacionalidade distinta daquelas que antes geriam os negócios na periferia global.
    Os profissionais do ramo olham, como bem tipifica o professor da UNB, basicamente para o retorno monetário do investimento e o valor futuro de venda do patrimônio adquirido, deixando em plano bem inferior a produção de utilidades e a geração de empregos.
    No Brasil, para a alegria de ex-empresários agora rentistas, o movimento do mercado acionário atingiu R$ 400 bilhões, a quarta parte disso relativa a antigo movimento desnacionalizante. As ofertas iniciais de ações marcaram, no ano, meros R$ 65 bilhões, cerca de a metade do que o país perdeu em gestão de patrimônio produtivo.
    Nessa toada, qual será o destino das quase 400 empresas de capital aberto que ainda operam no país?

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