Fim da Euforia com IPOs, Pânico no Mercado de Ações com a Reversão da Fuga da Renda Fixa

Depois da euforia que levou a um número recorde de aberturas de capital (IPOs, na sigla em inglês) em 2021, o comportamento das ações das empresas novatas no mercado mostra um quadro bastante negativo. Das 45 empresas que estrearam na B3 no ano passado, 33 acumulam um desempenho inferior ao do Ibovespa desde a listagem, segundo levantamento da Trafalgar Investimentos feito a pedido do Valor (20/01/22).

A predominância de performance decepcionante nessa safra de novas listagens pode indicar que algumas das operações foram feitas a preços excessivamente altos num período em que os investidores estavam muito mais complacentes com o risco. Mas esse desempenho negativo reflete, sobretudo, o impacto da alta da taxa básica Selic e dos juros de longo prazo sobre o mercado de ações.

Antes, em 2020, o ambiente de juros muito baixos no Brasil e no mundo levou a uma postura pouco crítica entre investidores.

Boa parte dos IPOs aconteceu em um período de grande euforia ilusória (sem fundamentos reais) de O Mercado, o que levou a um “rali” do Ibovespa de 45% entre novembro de 2020 e junho de 2021. Esse comportamento tinha como pano de fundo a expectativa da reabertura da economia e também de a taxa de juros permanecer baixa por muito tempo, com inflação ainda ancorada. 🙂

Foram 41 das ofertas até julho, quando a fuga da renda fixa ainda prevalecia. No momento quando começaram a surgir indicadores econômicos piores que o esperado, a bolsa passou por um ajuste.

A primeira surpresa negativa, para desavisados, veio da inflação. Ela levou o Banco Central a subir os juros com muito mais força do que se esperava. O Mercado estúpido começou 2021 projetando um IPCA de 3,32% e uma taxa Selic de 3% para o encerramento do ano. O que de fato aconteceu foi uma inflação de 10,06% e uma alta da Selic para 9,25%, com chances de chegar a 12% nos próximos meses.

Prêmio de Risco jan2020-jan2022

A nova onda da pandemia, o desmantelamento do teto de gastos e a instabilidade política, com a antecipação do debate eleitoral, pressionaram diretamente a curva de juros, ou seja, as taxas nos diversos prazos dos contratos de DI) e, como consequência, o valor de mercado das companhias, que se baseia nas taxas de longo prazo. Para se ter uma ideia, o DI com vencimento em janeiro de 2029 começou o ano abaixo de 7% e atingiu a máxima de 12,28% em outubro do ano passado, no auge do debate sobre o futuro do teto de gastos.

A alta do juro longo afeta ainda mais o ‘valuation’ [definição de valor] de empresas de tecnologia ou de crescimento, que eram maioria entre as que fizeram IPO no ano passado. Empresas de tecnologia responderam por cerca de 20% das ofertas do ano passado, e as de comércio e serviços, por aproximadamente 16%.

Boa parte das ações dessas empresas é vítima do cenário macroeconômico. Dito isso, algumas dessas companhias talvez não estivessem preparadas para ir a mercado.

As companhias novatas vão ter de começar a construir credibilidade, com bons resultados em seus balanços, para que suas ações voltem a se recuperar, de acordo com Miras. É um processo de médio e longo prazo a partir dos resultados melhores para que as ações fiquem mais atrativas.

Muitas dessas empresas poderiam ter passado por um processo anterior ao IPO, com a entrada de fundos de private equity (que compram participação em empresas) antes de recorrer ao mercado de capitais.

Mas a queda de ações que estrearam na bolsa em 2021 não é um fenômeno exclusivamente brasileiro. Nos Estados Unidos, dois terços das mil empresas que fizeram IPO também estão em queda.

Aqui no Brasil tem a característica de que 77% dos investidores foram gestoras locais e pessoas físicas. E vemos nos últimos meses uma forte reversão de tendência, com a migração da renda variável para renda fixa.

O desempenho negativo de parte das ações dessas empresas pode estimular operações de fusões e aquisições (M&A, na sigla em inglês).

A piora do ambiente econômico e político e, principalmente, a alta dos juros, levaram a uma onda de resgates dos fundos de ações que castigou o mercado como um todo. As ações recém-lançadas acabam sofrendo muito mais pela baixa liquidez. Muitos fundos passaram a ter performance ruim e tiveram resgate. Nessa hora, tem de vender um percentual da carteira. Os papéis novos, com pouca liquidez, acabam caindo mais.

Como em qualquer período de grande entusiasmo no mercado de ações, existe também o risco de alguns papéis serem ofertados a preços altos demais, o que leva a uma correção nos meses que sucedem a operação.

Neste ano, por conta das eleições, a expectativa é de que haja poucos IPOs – o período deverá ser mais promissor para ofertas subsequentes de ações (“follow-on”). 

Terminou o ano 2021 com juros reais negativos pelo segundo ano consecutivo. Com o CDI acumulado em 4,42% contra um IPCA de 10,06%, divulgado no último dia 10, fica fácil notar a “surra” que os juros tomaram da inflação em 2021, maior inclusive que a sofrida em 2020.

Juro real negativo não é bem uma novidade para quem viveu nos tempos de hiperinflação no Brasil, quando as aplicações mal conseguiam alcançar os galopantes índices inflacionários da época. Porém, isso mudou desde o Plano Real. Até que veio a pandemia…

Em países desenvolvidos, juros negativos não são propriamente uma novidade. O precursor dessa política é o Japão, depois veio a Europa e, mais recentemente, os EUA se juntaram ao clube.

O combate aos efeitos da pandemia na economia exacerbou essa prática pelos bancos centrais mundo afora, inclusive aqui, a tal ponto que, em certos países como na Suíça, os bancos chegaram a pagar ao mutuário para tomar recursos. Em vez de pagar juros, quem financiou um imóvel recebeu para comprá-lo.

No Brasil pós-Real, o CDI foi o campeão de rentabilidade por muito tempo. Tanto que, nos 20 anos terminados em 31 de dezembro, a rentabilidade bruta do CDI (780%) foi superior à do Ibovespa (672%) e 5,5 vezes à do dólar (141%). Se retroagíssemos aos anos 90, essa conta ficaria ainda mais favorável para o “campeão”.

Grande parte desse incrível retorno ocorreu nos primeiros 10 anos desse período, quando várias e sucessivas crises ocorreram antes que o modelo econômico brasileiro (baseado no tripé metas de inflação, câmbio livre e responsabilidade fiscal) estivesse consolidado. Crises como a da Argentina, a da queda das torres gêmeas e a das eleições no Brasil (2001-2002) e, mais tarde, a grande crise financeira mundial (2008) exigiram muito da política monetária naqueles tempos.

A opção do Brasil foi usar muito mais os juros para atrair capitais e, dessa forma, estabilizar o câmbio e mitigar a transmissão da forte desvalorização cambial havida para a inflação – o país tinha uma situação fiscal frágil e ainda não possuía reservas cambiais acumuladas no II governo Lula, o que foi conquistado aos poucos, graças ao super ciclo de commodities naquele decênio.

Na medida em que a economia brasileira se tornou menos vulnerável, fazendo superávits fiscais e acumulando reservas por sucessivos anos, houve espaço para praticar juros mais modestos. O até então “campeão” CDI perdeu o lugar mais alto do pódio para o dólar, que partiu de uma cotação deprimida no final de 2011 e foi impulsionado pela política de juros reais negativos durante a atual pandemia.

Nos últimos 10 anos até dezembro de 2021, a moeda americana subiu impressionantes 198%, enquanto o CDI teve “um belo rendimento” de 123%, mais do que a bolsa (85%) e suficiente para gerar um juro real expressivo de 43% (no mesmo período, o IPCA acumulado foi de 80%).

Mas e agora que o CDI está às portas de retornar ao apogeu dos dois dígitos? O “campeão” voltou? Há boas razões para apostar que sim, se não por muito tempo, pelo menos no biênio 22-23.

Em 2022, o Banco Central do Brasil (Bacen) vai precisar da Selic “lá em cima” pelo ano inteiro para debelar a inércia inflacionária. A se confirmarem as previsões do mercado para o IPCA do ano (perto de 5%), o CDI deverá proporcionar juros reais ex- post ao redor de 6%, algo colossal para uma aplicação de baixo risco (um título público, por exemplo).

Projetando a conjuntura do início de 2023, é quase certo que os juros no mundo já terão começado a subir, tanto nos EUA quanto em várias outras economias. Mesmo que neste ano persista um ambiente global de juros ainda muito baixos, a tendência para 2023 é de mais aperto monetário, o que aumentará a competição pelo capital estrangeiro.

Depois de um 2022 de PIB muito fraco, não faltarão em 2023 pressões sobre o Bacen para começar a derrubar a Selic. Porém, o Bacen terá que ser muito cauteloso ao fazê-lo, pois, no contexto projetado, qualquer descuido poderá desencadear uma retomada mais acentuada do dólar e, com isso, colocar em risco todo o esforço de combate à inflação empreendido até então.

Em resumo, a autoridade monetária terá uma margem de manobra relativamente estreita para baixar os juros em 2023. Nesse cenário, são grandes as chances de o CDI proporcionar ótimos rendimentos no ano que vem também, tanto em termos nominais quanto reais.

A volta do CDI de dois dígitos não é exatamente algo para ser comemorado sob o prisma do desenvolvimento do país, pelo contrário, seria algo a lamentar. Porém, devemos olhar para o ressurgimento do “campeão” como um remédio amargo, aquele que ninguém gosta de tomar, mas sabe que precisa.

Diante do inevitável, a hora é de aproveitar o momento e manter uma parcela elevada dos investimentos em renda fixa, seja qual for o seu perfil de investidor. Afinal, não é sempre que podemos ter o privilégio de auferir rendimentos elevados com baixo risco, não é mesmo?

A volta do “campeão” deve ser temporária, para o bem do próprio país.

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