Aposta na Apreciação da Moeda Nacional para Combate à Inflação

O Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), inflação oficial medida pelo IBGE ficou em 0,73% em dezembro de 2021, após alta de 0,95% em novembro. Com isso, o acumulado do IPCA em 2021 foi de 10,06% a taxa mais alta desde 2015 (10,67%).

Quando se somam os principais impactos em pontos percentuais (p.p.) — alimentos e bebidas (1,68 pp) + habitação (2,05 pp) + transportes (4,19 pp) = 7,92 pp — o resultado é esses três componentes terem causado 79% da taxa de inflação. A política de preços dolarizados de combustíveis, adotada pela Petrobras voltada para seus acionistas e se lixando para os consumidores brasileiros, representa quase metade (42%) da responsabilidade da inflação brasileira em 2021!

A inflação do ano extrapolou a meta de 3,75% definida pelo Banco Central, cuja margem de tolerância para cima ia até 5,25%.

Em carta aberta para justificar o estouro da meta, o presidente do BC, Roberto Campos Neto, afirmou a estiagem obrigou o país a acionar usinas termelétricas “de custo mais elevado”, o que “resultou em aumento expressivo das tarifas de energia elétrica”.

A carta menciona também os gargalos na produção de bens por escassez de insumos industriais e a grande demanda por bens de consumo, em virtude do isolamento causado pela pandemia.

A inflação de 2021 se deve à alta de custos de produção e ainda não pode ser atribuída ao aumento da demanda por produtos na saída da pandemia.

A alta da taxa de câmbio leva à moeda nacional depreciada. Ela mantém os preços dos importados elevados, mas sem uma retomada da atividade que justifique esse processo.

Sobre a demanda, no desempenho no segundo semestre houve arrefecimento da pandemia. Segundo ele, isso fica claro na variação da inflação, que ficou em 3,77% no primeiro semestre e avançou a 6,07% no segundo.

O chamado Índice de Difusão mede a proporção de bens e atividades que tiveram aumento de preços, subiu de 63,1% em novembro para 74,8% no mês passado, segundo cálculos do Valor Data considerando todos os itens da cesta. É o maior percentual desde fevereiro de 2016 (77,2%).

Excluindo alimentos, grupo considerado um dos mais voláteis, o indicador também mostrou uma maior abrangência das altas de preços, de 66,0% para 75,6%, maior nível desde outubro de 2004, quando a inflação havia se espalhado por 76,6% da cesta do IPCA por esses parâmetros.

Todas as nove classes de despesas usadas para cálculo do IPCA tiveram aceleração de novembro para dezembro. As maiores taxas de inflação ocorreram em estuário, 2,06%, que acelerou em relação a novembro (0,95%), Artigos de Residência (1,37%) e Alimentação e bebidas (0,84%) – grupo que contribuiu com o maior impacto no índice do mês (0,17 p.p.).

Além disso, destacam-se as variações de Habitação, 0,74%, e Transportes, 0,58%, inferiores às observadas no mês anterior, de 1,03% e 3,35%, respectivamente.

A desaceleração observada no grupo Transportes, de 3,35% em novembro para 0,58% em dezembro, é consequência principalmente da queda no preço dos combustíveis (-0,94%), depois de sete meses seguidos de alta. A gasolina caiu 0,67% no mês e também houve recuo no etanol, de 2,96%, e no óleo diesel (-0,33%).

O Índice Nacional de Preços ao Consumidor (INPC), que mede inflação para famílias com renda entre um e cinco salários mínimos mensais, foi de 0,73% em dezembro e fechou 2021 com alta de 10,16% após subir 5,45% em 2020.

A pandemia sincronizou os ciclos econômicos ao redor do globo e, em menor grau, os impulsos inflacionários. Ainda que com pesos e dinâmicas diferentes, os motivos que levaram o IPCA no Brasil a atingir 10,06% em 2021 são basicamente os mesmos que levaram o CPI a 6,8% (novembro) nos Estados Unidos e o HICP a 4,9% na zona do euro.

São eles: 1. aumento vertiginoso de commodities, em especial, petróleo, 2. distúrbios nas cadeias de produção, com a demanda se deslocando para bens e recuperação dos serviços, com a maior mobilidade propiciada pela vacinação em massa. No caso brasileiro a inflação foi mais longe não só por 3. resquício persistente de indexação da economia, mas, principalmente, por 4. movimento altista do dólar que, pela lógica de situações semelhantes do passado, deveria cair.

Os índices de difusão não deixam dúvidas de que o cerne original de propagação dos preços – valorização das commodities alimentícias, energéticas e minerais em dólar – se disseminou pelos demais bens. Em dezembro, 75% dos itens coletados para o cálculo do IPCA tiveram aumento.

No entanto, apenas a variação de preços de seis deles (etanol, gasolina, gás de botijão, energia elétrica, automóveis novos e usados) somou 4,29 pontos percentuais do IPCA. A disparada dos combustíveis se alastrou pela economia, porque é um insumo básico que influi nos custos de todos os produtos e serviços.

Por grupos, a influência desses itens no índice cheio foi ainda maior em 2021. Transportes, habitação (puxada por energia elétrica e gás) e alimentos contribuiram com 7,92 pontos percentuais dos 10,06% do resultado final.

Essas constatações não diminuem o tamanho da encrenca inflacionária em 2021, a maior desde 2016 e a terceira mais alta do século. Mas sugerem limites para as intervenções convencionais da política monetária e para as condições de reversão dos preços.

Na zona do euro, a inflação, sem energia e commodities agrícolas, representam metade do índice cheio, de 4,9%. Nos EUA, sem os mesmos itens, a inflação seria de 4,9% e não 6,8%.

Realidades específicas do Brasil jogaram o índice mais para cima no curto prazo. O setor de serviços começou a se recuperar mais tarde, dado o atraso inicial na vacinação. Em dezembro, a variação de seus preços quase triplicou (de 0,27% para 0,79%) e no ano atingiu 4,75% – ainda assim abaixo da média de evolução dos preços.

A inflação subjacente de serviços avançou de 5,45% para 5,91%, segundo a consultoria MCM. A falta de matérias primas, peças e componentes fez com que bens industriais subissem 12% no ano, bem acima dos 4,52% em 2020, durante a pandemia.

Com o ritmo forte de alta dos juros, a inflação cairá em 2022, mas a intensidade e a velocidade são incógnitas. Para a baixa contam a queda da atividade da indústria, do comércio, que retirarão a pressão dos bens industriais.

Haverá recuo também na inflação de serviços, setor castigado pela perda de renda e, agora, pela rápida propagação da nova variante ômicron. O ritmo geral da economia amortecerá o IPCA, com a conjugação de menor atividade, renda em queda (exceto para os que dependem dos programas sociais do governo), desemprego alto e menor oferta de crédito.

Os preços de energia residencial subirão menos, a julgar pelas previsões de um início de ano chuvoso. Os preços do petróleo e derivados, apesar da previsível volatilidade, podem mitigar a inflação, pois ainda que haja espaço para altas é difícil que elas ocorram muito além do pico alcançado em 2021.

Mesmo assim, derrubar o IPCA abaixo de 5% parece uma proeza difícil de alcançar, a menos que o real se valorize ou as cotações do dólar estabilizem.

Quase metade da inflação é efeito do dólar que se valorizou quando normalmente tomaria o rumo contrário. Mas o cenário não é favorável ao real e a desinflação pode ser mais lenta do que poderia.

Os juros nos Estados Unidos devem subir mais do que o previsto, dando sustentação à moeda americana. Estripulias fiscais do governo Bolsonaro parecem ter criado um piso para o recuo do dólar. Eleições em que o favorito é um candidato da esquerda também não são propícias a um comportamento comedido do câmbio.

Com os principais itens de pressão inflacionária fora do alcance da política monetária, o Banco Central talvez não precise ir além do que se espera com a Selic (11,75%). No curto prazo, o jogo está definido. Janeiro é mês típico de pressão nos índices e o IPCA em doze meses até fevereiro ainda estará perto dos 10%.

Depois, com a economia rastejando, a inflação dependerá da depreciação do dólar, isto quando o Fed elevará sua taxa de juro básica…

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