Avaliação do Primeiro Ano do Mandato Biden no Governo dos EUA

Edward Luce (FT, 20/01/22) avalia o primeiro ano do mandato presidencial de Biden no seguinte artigo.

Na política, como na vida, um único momento de verdade é coisa rara. Uma série de eventos decisivos que se acumulam é mais comum. Apesar disso, as eleições de renovação do Congresso dos EUA neste ano tendem a ficar próximas de ser uma exceção. Se, como indicam as pesquisas, os democratas perderem a maioria no Congresso em novembro, o presidente Joe Biden enfrentará um profundo acerto de contas. Os republicanos deixaram claro que usarão esse poder para deter sua agenda no exato ponto em que se estiver. Mas ficarão tentados a ir muito além disso.

Instigados por Donald Trump, os conservadores pretendem paralisar a Casa Branca de Biden com investigações. Poderão chegar até a abrir um processo de impeachment contra Biden, em retaliação às duas fracassadas iniciativas democratas contra Trump em 2019 e 2021. Estará pronto o clima para uma segunda disputa existencial Biden-Trump na eleição de 2024.

Esse é o cenário sombrio para os EUA, mas o mais provável. O alternativo é Biden reverter seus infortúnios no primeiro semestre deste ano e conseguir produzir uma surpresa na eleição para o Congresso. Como isso poderia acontecer?

O fato novo mais importante seria aquele sobre o qual Biden não tem nenhum controle: uma mudança de direção da parte do Partido Republicano. Ao contrário das esperanças generalizadas que rodearam a posse de Biden, os republicanos dobraram a aposta em Trump e, em grande medida, apoiaram as acusações de que Biden é um presidente ilegítimo.

Longe de ser uma mácula no histórico democrático dos EUA, a insurreição fracassada de 6 de janeiro de 2021 é vista por muitos republicanos como um protesto legítimo contra uma eleição fraudada. Outros desqualificam a invasão do Congresso como uma operação disfarçada desfechada pelo Estado profundo. Alguns republicanos concordam com as duas narrativas: a coerência não é marca registrada dos conservadores trumpistas, mas a vontade de poder, sim.

Biden precisará de uma obsessão equiparável para revitalizar o cenário para seu partido. Assim como quando ele assumiu, a pandemia segue sendo seu maior desafio. Em mais alguns meses, o número de americanos mortos pela covid-19 vai superar 1 milhão, um terrível lembrete da incapacidade dos EUA de conter a doença.

Boa parte da culpa é dos cerca de 20% de americanos que se recusam a se vacinar e da parcela bem maior da população que rejeita o distanciamento social. Biden não pode ser responsabilizado por atos de governos republicanos de grandes Estados, como Texas e Flórida, que proibiram regras de uso de máscara e vacinação obrigatória. Também não pode ser cobrado pelas teorias da conspiração malucas que alimentam os antivacina.

Mas Biden também cometeu erros. O maior deles foi apostar todas as fichas na vacinação. Quando ficou claro que muitos americanos se recusariam a tomar a vacina, ele poderia ter elevado a capacidade de testagem dos EUA. Não o fez. Um ano após sua posse, ainda é difícil encontrar kits de teste LFT, para identificar pessoas assintomáticas, mas que transmitem o vírus. Outras democracias conseguiram garantir uma oferta regular.

Biden teve ainda desempenho medíocre em fornecer vacinas a países de baixa renda. A variante ômicron, que levou os casos de covid para níveis recordes, veio da África do Sul. Uma nova variante tende a surgir vinda de uma parte não vacinada do mundo, a menos que os EUA e parceiros consigam disponibilizar vacinas ao mundo.

Tudo isso tem consequências econômicas. Enquanto a pandemia não estiver sob controle, as chances de deter a inflação impulsionada pelo lado da oferta serão fracas. O aumento dos preços, por sua vez, vai enfraquecer a sensação de bem-estar econômico, o que tende a prejudicar os democratas nas eleições de novembro.

Além de medidas mais duras na abordagem da pandemia, as duas maiores iniciativas que Biden poderia tomar para mudar a narrativa seria conseguir a aprovação de seu pacote Reconstruir Melhor, de US$ 1,75 trilhão, e de seus dois projetos de lei de reforma eleitoral. Ficará cada vez mais difícil aprovar isso no período de contagem regressiva para o pleito de renovação do Congresso, e o destino deles deverá ficar claro bem antes disso.

Mas a capacidade de Biden de gerar resultados é limitada. Com o Senado dividido em 50 a 50, ele tem, de alguma forma, de convencer dois senadores rebeldes de seu partido – Joe Manchin e Kyrsten Sinema – que essas reformas, e as manobras políticas que sua aprovação exigirá, os beneficia.

A chance de aprovar o Reconstruir Melhor ainda parece razoável, desde que Biden consiga achar um meio termo aceitável. Isso pode significar tirar o pretendido aumento do incentivo fiscal por filho, o que irritará a esquerda democrata. Mas seria um resultado melhor que nada. Somado ao pacote de infraestrutura, de US$ 1,2 trilhão, o US$ 1 trilhão a US$ 2 trilhões do Reconstruir Melhor, se aprovado, elevará o crescimento e colocará dinheiro no bolso da classe média.

Já aprovar os projetos de lei Liberdade para Votar e Avanço dos Direitos de Voto será mais difícil, ainda que muito mais importante para o país. Juntas, essas medidas visam tolher os esforços de Estados republicanos de adotar restrições ao exercício do voto. Sua aprovação, pelas regras do Senado, exige maioria de ao menos 60 a 40, a menos que se possa convencer democratas centristas como Manchin e Sinema, a derrubar ou suspender a regra. Mas ambos sinalizaram sua oposição a uma tática tão radical.

Com o empate no Senado e uma considerável minoria de eleitores (mas a maioria entre os republicanos) acreditando que a eleição de 2020 foi roubada, a democracia americana continuará disfuncional. Não é preciso ter muita imaginação para vislumbrar Trump voltando ao poder em 2025, ajudado pela leis de restrição ao voto aprovadas em Estados republicanos.

Se isso ocorrer, ele terá 78 anos e se tornará a pessoa mais velha a assumir a Presidência dos EUA. Mas, por enquanto, esse recorde é de Biden, que, duas semanas após as eleições para o Congresso, será o primeiro presidente em exercício a completar 80 anos. O destino da democracia americana dependerá, em parte, da capacidade de seu idoso líder de instilar um novo senso de vigor no ato de governar.

A inflação ao consumidor nos EUA registrou a maior alta em 39 anos no fim de 2021 e provavelmente continuará a subir nos próximos meses antes de começar a ceder, sobrecarregando ainda mais os americanos e aumentando a pressão sobre as autoridades para agir, avaliam economistas.

O índice de preços ao consumidor subiu 7% ao ano em dezembro, a maior alta desde 1982. Mas em termos mensais, a inflação subiu menos que o esperado, apenas 0,5% em relação a novembro.

Embora muitos economistas prevejam que a inflação irá se moderar para cerca de 3% ao longo de 2022, os consumidores americanos provavelmente estão a meses de um alívio significativo, especialmente porque a variante ômicron piora a escassez de mão de obra e impede que os produtos cheguem às prateleiras das lojas.

Se as expectativas de moderação da inflação não se concretizarem, o Federal Reserve (Fed, o banco central americano) poderá ser forçados a embarcar em um ciclo mais forte de aperto monetário e de redução do seu balanço patrimonial. Também pode tornar ainda mais difícil para o presidente Joe Biden e os democratas manter suas maiorias no Congresso nas eleições legislativas de novembro ou aprovar seu pacote de aumento de impostos e gastos.

Por outro lado, os salários dos trabalhadores não estão acompanhando a alta dos preços. Apesar de uma série de fortes aumentos salariais no ano passado, com as empresas buscando preencher uma infinidade de vagas, os salários ajustados pela inflação caíram 2,4% ao ano em dezembro.

“A amplitude dos ganhos nos últimos meses dá uma inércia inflacionária que será difícil de quebrar”, disse Sarah House, economista sênior da Wells Fargo & Co. “Esperamos que a inflação ao consumidor permaneça próximo de 7% nos próximos meses.”

“Os gargalos da cadeia de suprimentos em meio à forte demanda manterão a taxa de inflação elevada pelo menos durante o primeiro trimestre, antes que os desequilíbrios de oferta e demanda diminuam gradualmente, e a inflação se modere no segundo semestre”, disse a Kathy Bostjancic, economista da consultoria Oxford Economics para os EUA.

Embora acreditem que a inflação ao consumidor vá desacelerar neste ano, muitos economistas estimam que a taxa ainda ficará acima da meta de 2% do Fed.

James Knightley, economista-chefe internacional do ING, avalia que alguns fatores podem continuar a pressionar os preços ao longo do ano: custos trabalhistas mais altos, maior poder de precificação das empresas, alta dos aluguéis e tensões prolongadas nas cadeias de suprimentos devido a restrições relativas à covid-19 na Ásia. “Os riscos provavelmente estão inclinados para uma inflação mais prolongada, com o Fed respondendo de forma mais agressiva para mantê-la sobre controle”, acrescentou.

Segundo declarações mais recentes das autoridades monetárias americanas, o Fed já vem discutindo ações mais decisivas para combater a inflação.

Ontem, o Fed informou que a economia americana cresceu em um ritmo modesto nas últimas semanas de 2021, com problemas contínuos na cadeia de suprimentos e falta de trabalhadores disponíveis paralisando a produção.

Mas a demanda permaneceu forte e os gastos do consumidor cresceram, antes de um aumento nos casos de covid-19 causados pela variante ômicron, segundo o mais recente relatório econômico do Fed, conhecido como “Livro Bege”. Os dados usados no relatório foram coletados até 3 de janeiro, quando novos casos de covid estavam começando a disparar. Desde então, os EUA registraram novos recordes de infecções, o que pode provocar uma desaceleração da atividade econômica.

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