Dívida Global com Rendimentos Negativos

O encerramento gradativo da política monetária da Era da Pandemia derrubou os níveis mundiais de dívida com taxa de retorno negativa para US$ 10 trilhões pela primeira vez desde abril de 2020. Os preços dos bônus governamentais em todo o mundo têm caído desde o início deste ano, à medida que os investidores se preparam para que os bancos centrais aumentem as taxas de juro e encerrem as compras de ativos em grande escala na tentativa de conter a inflação em alta.

As taxas de retorno dos bônus sobem à medida que os preços caem. Elas saltaram para seu patamar mais alto desde antes de a pandemia do coronavírus se espalhar em muitos mercados.

Na zona do euro e no Japão, parcelas de dívida do governo têm sido negociadas com taxas de retorno inferiores a zero nos últimos anos – um cenário que ocorre quando os preços sobem tanto que os investidores têm certeza de que perderão dinheiro se mantiverem seus bônus até o vencimento. Mas uma queda nos preços dos bônus fez muitas dessas taxas de retorno voltarem a ser positivas.

Isso é um reflexo da mudança dos tempos e do cenário da política monetária. Uma redução na dívida com taxa de retorno negativa é um símbolo desse desejo de voltar ao normal.

No fim de 2020, o montante de dívida com taxa de retorno inferior a zero disparou para US$ 18,4 trilhões, segundo um índice de renda fixa da Bloomberg que é acompanhado atentamente, porque os bancos centrais compraram grandes blocos de bônus soberanos para escorar os mercados atingidos pela pandemia. Algumas dívidas corporativas têm taxas de retorno negativas, mas a maioria desses bônus é emitida por governos.

O valor da dívida com taxa de retorno negativa caiu para menos de US$ 10 trilhões em 7 de janeiro e permaneceu abaixo desse nível até o dia 12, quando voltou aos poucos para a casa dos US$ 10 trilhões. Um movimento de venda de bônus do Tesouro dos Estados Unidos, iniciado em dezembro, teve um papel importante na redução da pilha mundial de dívida com taxa de retorno negativa – embora os custos de tomada de crédito nos Estados Unidos só tenham ficado negativos por um breve período em algumas dívidas de curto prazo – por causa da tendência dos principais mercados de bônus do mundo a se moverem em conjunto.

As taxa de retorno dos bônus do Tesouro subiram para seus níveis mais altos desde o início da pandemia quando o Federal Reserve (Fed, o banco central dos EUA) anunciou que encerraria suas compras de ativos mais rapidamente e indicou que pode estar preparado para começar a reduzir o tamanho de seu balanço patrimonial, o que empurrou as taxas de retorno para cima em todo o mundo.

O Fed está ansioso para começar a remover suas ferramentas experimentais de política monetária. Ele até quer começar a encolher seu balanço patrimonial este ano.

Os investidores também reagiram à redução planejada pelo Banco Central Europeu (BCE) no ritmo de seu programa de compras de ativos, anunciada no mês passado, e até passaram a apostar que as taxas de juro da zona do euro podem subir em 2022.

A taxa de retorno do bônus de dez anos da Alemanha subiu para seu nível mais alto em quase três anos e ficou apenas um pouco abaixo de zero, enquanto os custos de tomada de crédito de longo prazo de Berlim se tornaram positivos.

Uma inflação alta na área do euro levará O Mercado a se mover preventivamente nessa direção.

Mesmo no Japão, onde a expectativa é a de o Banco Central manter as taxas de juro em -0,1% no futuro próximo, os custos de tomada de crédito aumentaram. Na última semana, a taxa de retorno do bônus de sete anos do governo ficou acima de zero pela primeira vez desde abril.

No geral, a quantidade de dívida com taxa de retorno negativa caiu em US$ 2 trilhões desde o início do ano. Agora a dívida com taxa de retorno negativa representa cerca de 18% do índice de bônus Bloomberg Global Aggregate, em comparação com 30% há um ano, em uma mudança que alguns investidores consideram como o início de uma volta à normalidade nos mercados de bônus.

O que é importante lembrar é: quando você compra renda fixa não deveria ter taxas de retorno negativa.

À medida que o aumento nos rendimentos do Tesouro dos EUA torna as telas de negociação de títulos vermelhas em todo o mundo, dois países em particular enfrentam um ano tempestuoso pela frente: Brasil e Colômbia. Os títulos das duas nações sul-americanas caíram este mês e devem permanecer com baixo desempenho em meio a eleições polarizadas, dívidas fiscais crescentes e, no caso da Colômbia, um déficit em conta corrente cada vez maior.

Enquanto os títulos em moeda local em alguns países provavelmente reduzirão as perdas assim que a atual onda de reprecificação terminar, depois que seus bancos centrais aumentaram as taxas de juros no ano passado, Brasil e Colômbia podem cair ainda mais.

O rendimento dos títulos em moeda local de 2025 da Colômbia saltou para mais de 8% nesta semana, de 7,4% no início do ano. Ao mesmo tempo, os rendimentos das notas domésticas do Brasil com vencimento no mesmo ano subiram de 10,65% para mais de 11,50%, antes de devolver parte do movimento. Só a Rússia se saiu pior, em meio ao pessimismo sobre as negociações com os EUA.

“As manchetes podem ficar desagradáveis e todos nós estaremos fartos das campanhas eleitorais dentro de alguns meses”, disse Victor Szabo, da Aberdeen Asset Management, em Londres. “O ruído político será alto.”

As preocupações dos investidores também podem ser observadas nas taxas do CDS de cinco anos, um indicador da percepção do risco-país. Na Colômbia, os CDS de cinco anos subiram 73 pontos base no acumulado do ano, saltando 69 pontos apenas nos cinco primeiros pregões, o maior movimento semanal desde o início da pandemia, em março de 2020. O contrato de CDS do Brasil com vencimento em janeiro de 2027 subiu até 88 pontos base, antes de reduzir o movimento para 56 pontos na semana passada.

Enquanto os mercados de títulos no México, Peru e Chile acompanharam declínios globais, na Colômbia e no Brasil o aumento dos rendimentos nos EUA somou-se a uma série de preocupações locais.

A Colômbia enfrenta o primeiro turno das eleições presidenciais em maio, com pesquisas mostrando uma clara vantagem para o esquerdista Gustavo Petro. O candidato disse que o governo deve pedir dinheiro emprestado ao banco central a taxas de juros zero, em vez de explorar os mercados, e interromper a exploração de petróleo.

“Por causa das condições fundamentais subjacentes, a Colômbia não pode se dar ao luxo de ter uma mudança de regime”, disse Patrick Esteruelas, chefe de pesquisa da Emso Asset Management. “Ele precisa de uma âncora fiscal confiável após perder o grau de investimento.”

Tanto a Fitch Ratings quanto a S&P Global Ratings cortaram a Colômbia para status de “junk” no ano passado, depois que uma onda de protestos de rua forçou o governo a recuar nos aumentos de impostos.

Ao mesmo tempo, o déficit em conta corrente da Colômbia, uma preocupação de longo prazo dos investidores, aumenta cada vez mais com a saída de dólares da economia. O déficit aumentou para 5,1% do Produto Interno Bruto (PIB) do país no terceiro trimestre de 2021, de 4,3% nos três meses anteriores. Provavelmente atingiu cerca de 5,6% no quarto trimestre, segundo o banco central.

“A ampliação do déficit em conta corrente torna a Colômbia ainda mais vulnerável ao aperto das condições externas do que outros países da região”, diz Olga Yangol, chefe de pesquisa de mercado emergente do Credit Agricole em Nova York, em nota.

O Brasil pode estar em situação ainda pior. Espera-se que sua economia cresça 0,75% este ano, menos do que qualquer outro par próximo emergente, de acordo com economistas consultados pela Bloomberg. Ao mesmo tempo, operadores terão que lidar com uma eleição presidencial polarizada em outubro e constantes ameaças às regras fiscais do governo.

A eleição deve colocar o atual presidente Jair Bolsonaro contra o ex-presidente Luís Inácio Lula da Silva. Os investidores nem têm certeza de em qual dos dois o mercado deve apostar.

Embora Lula tenha adotado políticas amplamente favoráveis ao mercado durante seus dois mandatos, isso pode mudar se ele receber um terceiro mandato, já que seu partido deu indicações de que poderia revisar a reforma trabalhista e o teto de gastos, aprovados nos últimos seis anos.

Ao mesmo tempo, Bolsonaro não conseguiu convencer os investidores de que ele é uma aposta segura quando se trata de finanças do governo, após mudar as regras fiscais para permitir mais gastos sociais que melhorem suas chances na corrida presidencial.

“No Brasil, esperamos um ambiente barulhento e polarizador até as eleições presidenciais de outubro de 2022”, disse o diretor de investimentos da Gramercy Funds Management, Robert Koenigsberger, no relatório trimestral publicado recentemente. “Os investidores buscarão sinais sobre as prioridades da política econômica dos principais candidatos no contexto de estabilidade do PIB projetado e uma perspectiva fiscal desafiadora.”

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