Fim do Carro do Povo [Volks + wagen]

A Volkswagen, pioneira do “carro popular”, o símbolo da obsessão da indústria automotiva pelo crescimento, vai cortar dezenas de modelos com motores a combustão até o fim da década e passar a vender uma quantidade menor de unidades, para priorizar a produção de veículos de alto padrão, de maior lucratividade.

“O objetivo principal não é o crescimento”, disse Arno Antlitz, diretor de finanças da empresa, dando meia-volta em relação à mentalidade de ex-executivos da Volkswagen. “Estamos [mais empenhados] na qualidade e nas margens, do que no volume e na participação de mercado.”

Nos próximos oito anos, segundo o executivo, a Volkswagen reduzirá em 60% sua linha de carros a gasolina e diesel na Europa – que consiste em pelo menos 100 modelos das várias marcas.

A nova estratégia da Volkswagen é sinal de transformações profundas no setor automotivo como um todo, que há décadas usa como estratégia para elevar os lucros a venda de uma quantidade cada vez maior de carros, ainda que para isso precisasse oferecer fortes descontos.

Martin Winterkorn, ex-executivo-chefe da Volkswagen, que renunciou na esteira do escândalo das emissões de seus carros a diesel, tinha traçado como objetivo superar Toyota e General Motors como a montadora “número um em volume [unidades]” até 2018.

Nessa busca pelo domínio mundial, a empresa de Wolfsburg manteve grandes presenças nos mercados deficitários da América do Norte e América do Sul, inundando-os com novos modelos mesmo diante de pesados prejuízos.

No entanto, a grave falta de chips provocada pela pandemia da covid-19 obrigou as montadoras a reduzir a produção em 2021, apesar do crescimento na demanda. Isso permitiu a marcas como Mercedes-Benz e BMW cobrarem mais por seus modelos, com o que registraram lucros recorde em 2021, apesar de venderem menos unidades.

Uma estratégia similar catapultou a Volkswagen para a liderança no ranking dos maiores lucros entre as empresas integrantes do índice acionário Dax, referencial do mercado alemão, ao ter contabilizado lucro, antes dos impostos, superior a € 20 bilhões. A empresa priorizou veículos mais caros, produzidos por suas marcas Audi e Porsche, que foram responsáveis por grande parte do lucro.

Executivos das três marcas fizeram questão de enfatizar que a prática persistirá mesmo depois que os gargalos na cadeia de abastecimento forem suavizados. “Gostaria de realmente enfatizar que não estamos conduzindo uma estratégia de volume”, disse em 2021 o executivo-chefe da BMW, Oliver Zipse.

Antlitz disse que mesmo a Volkswagen – que se orgulhava de ser a maior montadora do mundo antes de perder a “coroa do volume” para a Toyota e cujos executivos costumavam, reservadamente, traçar como meta a venda de 11 milhões de veículos em um único ano – não vinha mais tentando expandir-se apenas por expandir-se.

“Temos uma base de custos fixos [bem] menor, portanto, somos menos dependentes do volume e menos dependentes do crescimento”, disse o executivo, destacando o fato de a Volkswagen ter conseguido, antes do previsto, reduzir em 10% os custos fixos, que em 2019 somavam € 41 bilhões, investindo no desenvolvimento de softwares e em novas instalações.

Mesmo o investimento de € 52 bilhões da Volkswagen em veículos elétricos – o maior do tipo – não adicionará volume desnecessário, acrescentou Antlitz. “Não estamos aumentando a capacidade: retrabalhamos fábrica por fábrica”, disse, referindo-se às unidades em Zwickau e Emden, onde as linhas de produção de motores a combustão foram convertidas para montar carros elétricos, enquanto os trabalhadores vêm sendo recapacitados.

O executivo também admitiu, contudo, que o alto custo das matérias-primas das baterias colocou em dúvida o cálculo de que os veículos elétricos seriam em breve tão lucrativos para a Volkswagen quanto os modelos de motores a combustão.

“[As] cotações do níquel a US$ 50 mil por tonelada não foram basicamente levadas em conta nos preços, porque temos a esperança de que a guerra termine em breve e, em seguida, que os preços das matérias-primas recuem, pelo menos, um pouco mais”, disse Antlitz.

Ele acrescentou que o princípio de redução de custos ao longo do tempo permanece “intacto” e que novas tecnologias das baterias reduziriam preços no longo prazo.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s