Indústria Automobilística no Brasil

A direção da Anfavea prepara-se, agora, para entregar aos candidato à eleição presidencial detalhes das três prioridades que, entende, devem estar no programa do próximo governo: reforma tributária, redução do custo Brasil e descarbonização. Mas esse é um trabalho que fica, agora, para o mineiro Márcio de Lima Leite, diretor jurídico e de relações institucionais da Stellantis, que assumirá a presidência da Anfavea a partir de maio. Moraes continuará no cargo de diretor de assuntos governamentais da Mercedes-Benz. Abaixo, os principais trechos da entrevista que Moraes concedeu a Marli Olmos (Valor, 08/04/22).

No fim de 2020 começaram a faltar aço, borracha, resina plástica. Aí se percebeu o verdadeiro impacto da pandemia na desorganização da cadeia global de produção. Entramos em 2021 com a falta de semicondutores, que se agravou depois. Por falta desses componentes, em 2021 se deixou de vender 300 mil veículos no Brasil e 10 milhões no mundo.A prova está nas filas de espera e no aumento de procura por carros usados.

Na previsão conservadora, haverá crescimento de 8,5% nas vendas internas e 9,4% na produção. Percebemos que mesmo que tivéssemos o abastecimento de peças regularizado agora teríamos o efeito da alta nos juros, da renda que não cresceu, de um desemprego ainda elevado… E agora entrou um fato novo: a guerra na Ucrânia. Isso confirma que a recuperação ainda será lenta no nosso setor.

Reajustes em itens como pneus, aço e resinas afetaram o custo e repassamos parte disso aos preços. Além disso, os veículos hoje têm mais conteúdo.

Precisamos ter produção de semicondutores no Brasil. A indústria desses componentes vai quintuplicar de tamanho no mundo. Então, chamamos a Abinee (Associação Brasileira da Indústria Elétrica e Eletrônica), a academia, e estamos conversando sobre como criar um ambiente de negócios que permita a ampliação da indústria de semicondutores no Brasil. Não se trata de resolver o problema deste ano, mas de criar a base para daqui cinco ou dez anos e não sermos tão dependentes. É um exemplo concreto do que podemos fazer em conjunto na indústria de transformação.

Temos capacidade em torno de 4,7 milhões de veículos por ano (a previsão para 2022 é de 2,4 milhões). Esse excesso continua sendo um problema. E é por isso que queremos reduzir o IPI. Para ter poder ter mais consumidores com poder de compra.

Hoje entre 60 milhões e 70 milhões de pessoas no Brasil compram carros todos os anos, incluindo os usados. Como trago mais gente para o novo? Com uma taxa de juros 26%, 27% fica difícil. Há coisas que a Anfavea não consegue resolver – crescimento do país, nível de desemprego e renda são coisas da economia. O que cabe a nós é apontar como carga tributária ou condições de financiamento podem ficar mais aceitáveis.

O banco cobra um spread adicional porque demora dois anos, em média, para retomar o bem em caso de inadimplência. É um custo adicional que todo o mundo paga quando faz o financiamento. Existe uma ineficiência estrutural legal no Brasil que traz um custo adicional para todos. Por causa de um grupo de inadimplentes, toda a sociedade paga. Nos Estados Unidos, se a pessoa atrasa o pagamento 60 dias lhe tomam o carro.

A Anfavea apresentou ao governo um estudo sobre descarbonização. Como reduzir os gases efeito estufa e poluentes locais até 2035. Simulamos cenários, com indicações de que até lá 30% dos carros vendidos no país terão algum tipo de eletrificação, sejam híbridos ou 100% elétricos. Levamos em conta necessidades de pontos de recarga e de aumento de geração de energia.

É a nossa contribuição para criar uma política pública. Eu não imagino o Brasil importando 2 milhões de veículos elétricos por ano. Temos que preparar a indústria, a cadeia de fornecedores, os concessionários… Com a guerra na Ucrânia, que não estava prevista nesse estudo, o debate ganhou relevância. À questão climática somou-se a geopolítica.

A China está usando o setor automotivo para fazer uma grande transformação tecnológica através da eletrificação. Nós vamos continuar exportando apenas minério de ferro e soja?

Pretendemos falar com os principais candidatos para pedir que eles incluam em seus programas de governo três prioridades: descarbonização, reforma tributária e redução do custo Brasil. É nesses três temas que a Anfavea continuará trabalhando.

A decarbonização, a transformação da mobilidade e o avanço tecnológico trarão muita pesquisa e preparação da mão de obra para um emprego muito melhor não só com o olhar no Brasil, mas para o pais se tornar uma base de exportação. Essa transformação não está só no ambiente da indústria, mas da infraestrutura, no desenvolvimento de biocombustíveis, baterias. São coisas que podem agregar outras áreas, além do fornecedor tradicional.

O próximo ciclo de investimentos do setor vai somar R$ 40 bilhões entre 2022 e 2028. O último, que foi de 2019 a 2021, somou R$ 34 bilhões.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s