Uso do Mercado como Arma

O ex-presidente do Banco Central da Índia Raghuram Rajan defende uma nova arquitetura global que comece com a reforma da Organização das Nações Unidas (ONU) após a invasão da Rússia na Ucrânia. O uso de ferramenta financeiras como arma nesta guerra, diz, é a prova de que o sistema internacional não está mais funcionando.

É neste contexto, segundo o ex-economista-chefe do Fundo Monetário Internacional (FMI), que se deve discutir uma nova ordem financeira mais democrática e métricas claras para que empresas decidam se querem, ou não, manter-se presentes em determinados países. Mais de 200 companhias anunciaram a suspensão ou encerramento de operações na Rússia nos últimos dias.

“Há circunstâncias em que a justiça e o Estado de direito importam mais. Mas temos de ter um sistema que determine quando isso ocorre. Não podemos depender da raiva que se tenha de um determinado país. Isso levaria ao colapso dos investimentos transnacionais globais, porque neste caso poderia haver um tipo de sanção que levaria companhias a fazerem complôs umas contra as outras, para eliminar a concorrência”, afirma o professor da Universidade de Chicago em entrevista ao Valor (14/03/22).

Rajan, 59 anos, critica o que chama de hipocrisia dos países ricos para lidar com o dinheiro sujo de cleptocratas. “Os grandes países são cúmplices nisso. Falam de corrupção, paraísos fiscais e países emergentes, mas sabem perfeitamente que oligarcas não querem manter seus ativos em países do Terceiro Mundo. Querem manter seu dinheiro em Londres, Miami ou Milão.” Rajan destaca que a pandemia ainda é um dos principais desafios da economia global e que a guerra deve aprofundar a preocupação com a inflação.

Valor: A economia esboçava os primeiros sinais de recuperação pós-pandemia de covid-19 até a guerra na Ucrânia. Quais os maiores desafios para o mundo?

Raghuran Rajan: No curto prazo, tentar lidar com a pandemia, que não acabou. Algumas partes do mundo ainda enfrentam perturbações. Como Hong Kong, em especial, dado o sucesso que teve [no início da crise sanitária]. Tem-se a impressão no mundo de que a pandemia acabou na variante ômicron, mas não se pode ser tão blasé. A sensação geral é a de que a ômicron foi a vacina para acabar com as vacinas, porque imunizou grande parte da população. Não sei se é verdade. Não podemos baixar a guarda. Temos de prestar atenção ao vírus e nas perturbações nas cadeias produtivas que causa.

Claro que a guerra acentuou o problema crescente da inflação. Mas ela também tende a reduzir o crescimento ao impor limitações de suprimento. Muitas cadeias passam pela Ucrânia e pela Rússia. A Rússia é um dos maiores exportadores do mundo de paládio, níquel, importantes matérias-primas para a produção de semicondutores. Essa é uma cadeia que já está sob estresse. Se isso durar muito tempo, pode criar problemas nesse front. O mais imediato é petróleo e gás natural. Há algum tipo de esperança de que, mesmo com a Rússia sob sanções, haverá novas fontes de fornecimento. As três mais importantes em que se pensa são as reservas estratégicas, que podem ser usadas pelo menos no curto prazo; Irã; e, potencialmente, a Venezuela.

Outra opção que pode vir mais à frente, daqui a alguns meses, é a produção de gás de xisto. Há maneiras de o mundo se ajustar com o tempo. No curto prazo, pode haver picos, o que pode ser um problema grande, em termos de preço. Os preços da calefação na Europa subiram, porque os preços de gás natural dispararam. Isso afeta as famílias, sobretudo aquelas que são mais pobres.

Se rejeitar Putin, a oligarquia russa terá de encontrar um substituto que não ponha em risco sua própria legitimidade”

Valor: Temos como mensurar o impacto no crescimento?

Rajan: A economia da Rússia corresponde a apenas 1,5% do PIB mundial, e a da Ucrânia, um décimo disso. Mas se juntarmos suas contribuições para as várias cadeias produtivas e o fato de que os inventários já estão relativamente magros, vemos um efeito mais dramático para o crescimento. Dito isso, se essa guerra não se espalhar e continuar limitada aos dois países, se a situação se acalmar para algo que não seja ainda mais terrível, o mundo tem como superar e retomar o processo de recuperação que já estava em curso.

Há demanda forte o suficiente para fazer o crescimento ser retomado depois deste choque inicial. Algumas das restrições de fornecimento serão aliviadas com o tempo. A inflação, embora mais alta do que se imaginaria antes desta guerra, também vai começar a cair. Mas vai continuar sendo motivo de preocupação. O crescimento não vai diminuir a ponto de fazer com que a inflação deixe de ser um problema. O melhor que podemos esperar agora é que não haja novos desdobramentos deste conflito, que os ataques parem, que se permita ajuda humanitária e se comece a conversar.

Valor: Depois de tantas negociações fracassadas, será que Putin não precisa de algo para mostrar ao público interno?

Rajan: Acho que estamos diante da receita para uma mudança no regime. Alguns milhares de soldados russos estão morrendo. Você pode criar desinformação sobre isso por um tempo. Mas os russos não são burros. Em algum momento vão começar a vazar números sobre a quantidade de gente que morreu e por que razão. As mães russas são uma força. O Kremlin vai ter de mostrar algo. A pergunta é o que ele vai considerar suficiente. Pode ser que, se a Ucrânia oferecer o compromisso implícito de não integrar a Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), ou de se tornar parte de outra aliança que a Rússia considere hostil, isso seja suficiente.

Valor: No seu livro “The third pillar: how markets and the state leave community behind” (O Terceiro Pilar: Como mercados e o Estado deixam a comunidade para trás, em tradução livre), o sr. fala que a comunidade é fator de equilíbrio para a democracia. Analistas dizem que Vladimir Putin ficará no cargo até que os russos tentem tirá-lo ou que as elites decidam que tem de sair. A população pode derrubá- lo?

Rajan: Acho que as duas coisas seriam possíveis. O problema é que, ao rejeitá-lo, as elites estariam destruindo a sua própria legitimidade. Essa pessoas ganharam muito dinheiro no regime de Putin. Estamos falando dos oligarcas. Por isso, não está claro se qualquer regime mais popular que venha em seguida será mais simpático aos oligarcas. Este é o problema com qualquer oligarquia, que deve sua legitimidade ao regime no poder. Existem muitos rumores sobre um golpe palaciano e isso não é impossível de ocorrer. Mas, se acontecer, os que mantêm Putin terão de achar um substituto que assegure sua legitimidade. Não vejo grandes mudanças.

Valor: Mas essas elites estão perdendo dinheiro…

Rajan: Estão perdendo dinheiro. Mas, lembre-se, se perdem a legitimidade, perdem tudo. Ou seja, podem não ter outra alternativa a não ser a de apoiar o seu homem no cargo, para o bem ou para o mal. Mas há o papel das massas, assim como o as forças armadas, quando começarem a surgir divergências nos batalhões, sobre como essa guerra foi terrível, mal calculada, mal executada, que tem um preço alto demais a ser pago, que soldados foram mortos. Esse tipo de impressão pode criar um movimento maior… O maior medo de Putin (nos últimos anos) tem sido as “revoluções coloridas”, o que parece ser um padrão da Europa Oriental. O que leva à questão: será que os russos vão ter acesso ao que está acontecendo. A verdade é que a desinformação está em todos os lados da guerra. Mas quando as informações começarem a aparecer, como as pessoas vão se sentir?

Valor: Qual o impacto desta guerra na velocidade dos projetos de transição energética?

Rajan: Vai trazer questionamentos sobre qual é o tipo de transição adequada? A Europa vai achar que é muito dependente da Rússia para gás natural. Por isso, quando considerar construir novas plantas, será que a ênfase estará em fontes de energia renováveis? Não dará para se livrar de gás, da energia atômica ou do carvão como fontes principais por algum tempo, até que tecnologias melhores estejam disponíveis. A noção de que boa parte disso deve ser substituída por renováveis vai se fortalecer.

Um dos efeitos da pandemia foi sinalizar que essas catástrofes impensáveis podem acontecer e devemos estar preparados. O relatório do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) vai ter mais receptividade para investimentos verdes. Mas também temos de reconhecer que a dependência mundial de petróleo, gás e carvão não acabou. Parte da excessiva dependência da Alemanha em gás natural se deve à decisão de fechar usinas nucleares. Foi uma decisão sábia? Olhando retrospectivamente, pode não parecer. Você reduziu uma ameaça de catástrofe nuclear, mas aumentou a dependência da Rússia.

Valor: Rússia e Ucrânia são grandes produtores de trigo, óleo de girassol e milho. A Rússia fornece grande parte dos fertilizantes usados pelo agronegócio brasileiro. Além de preços, a guerra pode afetar o abastecimento mundo afora?

Rajan: Sim e não. Vai depender de quanto tempo isso vai durar. Se demorar, e as colheitas e exportações da Ucrânia não acontecerem, e as exportações russas estiverem sob sanções, aí pode haver desabastecimento. Temos de lembrar uma coisa sobre as exportações russas: o fato de existirem sanções não quer dizer que não vão acontecer. Elas podem seguir para a China, Venezuela, Coreia, lugares que podem passar a comprar menos de outros países. Ou seja, não seria um desabastecimento do tamanho do que haveria se as exportações russas fossem suspensas por completo. Por isso, temos de ter cuidado.

A China é grande compradora. A Índia, se estiver aberta ainda, pode comprar também. De maneira geral, se durar muito tempo, todos esses problemas que você mencionou, inclusive o dos fertilizantes, se os preços de trigo subirem de maneira significativa, vamos ver outros preços subirem também, porque as pessoas vão passar a usar como substitutos arroz, cevada etc. Mas há países com reservas de estoque, como a Índia, com trigo, arroz. Pode ser um momento para se vender no mercado global, com esses preços altos. Pode haver caminhos no curto prazo em que essas reservas estratégicas ajudem a conter os preços.

Valor: As sanções financeiras despertaram, em emergentes sobretudo, preocupação com o grau de dependência da maioria dos nações de um sistema comandado por poucos. A ordem financeira como se conhece será questionada? Podemos ter um novo Breton Woods?

Rajan: Parte das razões para que as finanças tenham sido usadas dessa maneira se deve ao fato de que o sistema internacional não está funcionando. A ONU foi totalmente incapaz de agir. O governo do mundo, que é o que a ONU deveria ser, deveria ter alguma capacidade de impôr sanções por atos que violaram soberania de uma nação. Se há uma coisa que a ordem mundial deveria poder fazer é proteger pequenas nações pacíficas da agressão de uma entidade externa. Isso está rompido. Quando vemos o uso de ferramentas financeiras como armas, é porque as armas tradicionais não funcionam mais. A menos que estejamos falando de guerra em escala total.

Eu diria que temos de começar discutindo novamente a estrutura das Nações Unidas. Vamos imaginar: se a China atacar Taiwan, Pequim também tem poder de veto na ONU. A China diz que isso é um problema interno, que não é ato de agressão contra outra nação independente. Nesse sentido, temos que repensar a arquitetura global com a reforma da ONU. E o uso de finanças, sistema de pagamentos e reservas, como armas deve ser parte dessa discussão. Certamente, todas as partes têm de querer discutir, dado que os países do Ocidente se beneficiam de ter suas dívidas mantidas como ativos nas reservas de países emergentes. Mas esses mercados podem ser mais relutantes porque sabem que isso pode ser usado como arma contra eles. Quais os limites?

O que precisamos é de um pacto. Não vamos impedir países de usar suas reservas de divisas, a não ser que exista uma grande supermaioria que concorde. Ou seja, tem de ter estrutura mais democrática que evite o abuso. E ainda assim seria possível aplicar sanções. E o medo do abuso, embora não tenha havido abuso, cria a relutância. O problema agora é que o que eles poderiam ter no lugar de bônus do Tesouro americano. Não podem acumular tanto ouro, e ainda que possam, teriam de ter onde guardar. A alternativa não está clara. Mesmo assim, acho que é do interesse de todos começar essa discussão.

Valor: A globalização já vinha sendo questionada, e isso piorou com a pandemia e as perturbações nas cadeias produtivas globais. A guerra vai aprofundar as dúvidas sobre essa excessiva interdependência das economias?

Rajan: A tendência existia. Por conta das fraturas políticas do mundo, havia uma tendência de trazer as cadeias produtivas para dentro dos países e não mais de terceirizá-las em outras nações. Mas havia enormes vantagens de custo em mantê- las fora. O que acho que vai acontecer é mais a diversificação, do que trazê-las onshore. Tenho uma cadeia produtiva que passa pela China, outra pelo México, e uma terceira pela Europa Oriental. Se uma falha, me reposiciono. Claro que é mais fácil para grandes fluxos.

Valor: Empresas fecharam ou suspenderam posições na Rússia. Estamos falando de ESG, uma decisão empresarial. Isso não tem forte impacto em seus balanços?

Rajan: Tem. E eu me preocupo um pouco com isso. De novo, quando as corporações são usadas como arma, é porque estão procurando as regras do jogo. Vimos que a China, ao ter uma disputa com o Japão, começou a usar as suas compras de automóveis japoneses como arma. Você não pode ter empresas sujeitas aos ventos ou tendências do humor vigente entre os países. Isso tende a reduzir o tipo de negócios transnacionais que podem ser feitos. Perde-se em eficiência.

Há circunstâncias em que a justiça e o Estado de direito importam mais. Mas temos de ter um sistema que determine quando esses valores importam mais. Não pode depender da raiva que você tenha de um determinado país. Isso levaria ao colapso dos investimentos transnacionais globais, porque eu poderia ter um tipo de sanção que levaria companhias a fazerem complôs umas contra as outras, para eliminar a concorrência. Podemos imaginar todo tipo de cenário. É importante ter uma métrica clara.

Valor: As empresas querem reagir depressa às redes sociais. A internet complicou esse processo?

Rajan: Claro. Mas temos de nos perguntar: a quem eu estou agradando aqui? Quem é mais vocal? Quem fala mais alto na internet? Não está claro. Há estruturas de governança. Será que essas decisões são tomadas de acordo com os melhores interesses dos fundos ou estão reagindo a fatos? Isso vai ter desdobramentos. Qualquer coisa que aconteça no calor do momento parece justificável. Mais tarde, você se dá conta do tamanho das injustiças que pode ter cometido.

Valor: Relatório do centro de pesquisas Chatham House indica que cleptocratas usam brechas na lei para esconder dinheiro com o conhecimento de muitos países ricos. As sanções contra os oligarcas vão chegar a quem deve?

Rajan: Os grandes países são cúmplices nisso. Falam de corrupção, paraísos fiscais e países emergentes, mas sabem perfeitamente que oligarcas não querem manter seus ativos em países do Terceiro Mundo. Querem manter em Londres, Miami ou Milão. Há tantas brechas que criaram para manter os títulos de propriedade escondidos. O Hyde Park número 1 [um dos endereços mais caros de Londres] tem um monte de apartamentos que pertencem a homens de negócios muito ricos. Quem são eles? O dinheiro veio pelo caminho certo? Todas as propriedades prime no mundo têm muitos nomes desconhecidos, são muitos apartamentos fechados, usados meramente como investimentos de pessoas que não podem explicar a origem do dinheiro.

É preciso expor a hipocrisia dos países industrializados. Se você realmente está atrás da corrupção, esteja preparado para correr atrás dos ativos, estejam eles em Miami, Paris, Londres ou Nova York. E não fique pregando que é preciso combater a corrupção e pegar esses ativos, se você não está disposto a correr atrás deles.

1 thought on “Uso do Mercado como Arma

  1. O uso de ferramenta financeiras como arma nesta guerra, é a prova de que o sistema internacional não está mais funcionando. E preciso ser reformado para quem quer evitar a 3 guerra mundial, que será com certeza o fim da humanidade.

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