Fatores Determinantes do Voto

Um amigo, Liszt Vieira, também membro participante ativo do Fórum 21, grupo de debate entre intelectuais de esquerda, discorda com razão da explicação simplória de resultado eleitoral: “é a economia, estúpido!”

Argumenta, “na atual campanha eleitoral no Brasil, vemos um outro quadro. A inflação disparou, o preço dos alimentos, da energia, dos combustíveis e de praticamente todas as mercadorias vêm subindo de forma consistente. No caso dos alimentos, ultrapassa 20%: a inflação da cesta básica saltou de 13% para 21% em março último, no acumulado de 12 meses. No entanto, a posição de Bolsonaro nas pesquisas não parece ser afetada por isso”.

Para o debate, contra-argumentei: “economicismo” é a má (e falsa) crença de a Política só ser determinada pela Economia, embora fatores econômicos (desemprego, inflação, renda baixa etc.) também influenciem a formação de opinião política. Assim como, ao contrário, decisões políticas governamentais e/ou legislativas influenciam o desempenho da economia.

Somam-se, no entanto, outros fatores determinantes: opção ideológica, religiosidade, gênero, faixa etária, nível de escolaridade, nível de renda e riqueza, local de residência etc. São tantos os fatores a ponto de só pesquisa quantitativa não ser suficiente, para estabelecer uma média ponderada, sendo necessária ser complementada com pesquisa qualitativa.

Segundo Aquiles Mosca (Valor, 28/09/18), por ser impossível submeter uma amostra representativa do eleitorado a um escaneamento cerebral em um aparelho de ressonância magnética, para colher dados precisos de intenção de votos, as pesquisas tradicionais falham em apontar resultados eleitorais com total certeza…

A Neurociência dá duas explicações, além de testar a Teoria da Socialização Familiar – os pais acabam, ainda de forma inconsciente, incutindo seus valores e orientação política aos filhos –, para a postura política e a capacidade de processar tais informações. De acordo com a Teoria da Estrutura Cerebral, responsável por processar informações relativas à risco e incerteza, usualmente associadas às decisões políticas, ela difere entre liberais e conservadores, democratas e republicanos, esquerda e direita.

Liberais usam com maior intensidade o córtex interior singular; conservadores usam com mais ênfase a amígdala. Essas regiões cerebrais possuem funções distintas, devido à diferença da infraestrutura cerebral utilizada no processamento das informações relacionadas a riscos e incertezas. Cada processamento resulta em conclusões diferentes (output), em análise do mesmo conjunto de fatos objetivos (input).

Mas a Teoria da Função Cerebral ao lidar com simulações de resultados eleitorais teve melhor resultado face a essas duas teorias. Demonstrou os esquerdistas terem reações mais intensas nas regiões do cérebro responsáveis pela interação social e autoconsciência. A atividade cerebral dos conservadores, relacionada à política, concentrou-se nas regiões do cérebro relacionadas a temores e conflitos.

O posicionamento de direita baseia-se na ideia de a vida em sociedade reproduzir 
a vida natural, com sua violência e hierarquia. Se os Homens são seres biológicos desiguais, devem se submeter à 
Lei do Darwinismo Social: “seleção dos vencedores se não ter sido já feita por ‘sorte do berço’, seja feita por mérito julgado pelos dominantes”.

Segundo a concepção da direita, a sociedade mercantil faz a seleção, neste caso “social”, entre os indivíduos capazes de evoluir — “os vencedores” — e 
os incapazes de sobreviverem por si só — “os perdedores”. A regra de ouro da direita é:
quem melhor se adapta ao meio ambiente econômico enriquece a si e à sua dinastia. 

O homem de direita, acima de tudo, preocupa-se com a defesa da Tradição, Família e Propriedade, ou seja, da herança e dos costumes conservadores. Contrapõe sua defesa (positiva) da liberdade individual à sua defesa (negativa) da desigualdade natural.

Para a esquerda, os homens são todos iguais entre si. Para a direita, cada indivíduo “por definição” é particular e diferente dos demais.

Quem busca aquilo comum capaz de unir os homens em uma coletividade com boa convivência, está na margem esquerda e pode ser chamado de igualitário. Quem acha relevante, para a melhor convivência, a diversidade e/ou a competitividade, está na 
margem direita e pode ser chamado de individualista.

São de esquerda as pessoas defensoras da eliminação das desigualdades sociais. A direita insiste na convicção de as desigualdades serem naturais e, enquanto tal, não são elimináveis.

A esquerda prioriza a proteção contra a competição social. Na escolha entre
a competitividade e a solidariedade, enfatiza esta última. A direita confia as desigualdades sociais só serem diminuídas quando se favorece
a competitividade geral. Minimiza a proteção social e maximiza o esforço individual.

Quem acredita a condição humana ser fundada pela negação da herança natural, contra as forças cegas da natureza, é de esquerda. Quem acredita na essência humana como essencialmente egoísta e imutável é de direita.

Acima apresento duas tabelas com contrapontos da esquerda e da direita em temas econômicos e comportamentos.

Como fator determinante do voto, há ainda o fator emocional, por exemplo, impacto sobre a opinião pública de um acidente como uma facada explorada na propaganda eleitoreira. Ou uma onda sistemática de crítica da imprensa, como o antipetismo em 2018 e o antibolsonarismo em 2022, propagado em muitos canais da “grande” (sic) imprensa brasileira como TV Globo, Valor e FSP.

Acho adequado o conceito de Éthos para caracterizar cada Casta de Natureza Ocupacional. Constitui o conjunto dos costumes e hábitos fundamentais, no âmbito do comportamento (instituições, afazeres etc.) e da cultura (valores, ideias ou crenças), característicos de uma determinada coletividade, época ou região. Determina o voto.

Por exemplo, o Éthos do Poder Militar da Casta dos Guerreiros-Milicianos da Farda é a Lógica Militar: violência, vingança, coragem, fama, glória etc., aliás como é o dos esportistas profissionais. Declarantes do imposto de renda devem ser os oficiais dessa casta. Em 2020, foram 803.762 militares, sendo 55.430 da Aeronáutica, 136.198 do Exército, 77.367 da Marinha, 464.406 da Polícia Militar, 70.361 Bombeiros. Levando em conta ainda a Polícia Civil, controlada pelos governadores, as Unidades Federativas brasileiras somam 499 mil policiais na ativa.

O GFP Index posiciona o Brasil como o 13º maior do mundo em pessoal ativo nas Forças Armadas, com 360 mil militares. É o segundo maior do mundo em militares da reserva, com 1,3 milhão de pessoas. A brasileira seria a quinta maior população “pronta para o serviço”, tendo prestado serviço militar obrigatório, com mais de 86 milhões de cidadãos. Teriam em todas suas mentes sido incutidos só valores militares?

O Éthos do Poder Trabalhista da Casta dos Trabalhadores (do Macacão ou Colarinho Azul) é a Lógica Corporativa. Os trabalhadores organizados defendem o igualitarismo e têm ceticismo quanto ao livre-mercado. Subtraindo de 102 milhões da força de trabalho, os 6,7 empregadores, os 360 mil militares das Forças Armadas e os 570 mil policiais e bombeiros, há cerca de 94 milhões de trabalhadores brasileiros segundo a PNADC.

O Poder Econômico da Casta dos Mercadores do Colarinho Branco segue a Lógica de Mercado: neoliberalismo, empreendedorismo, competitividade, eficiência em custos / benefícios. Antes, o Poder Midiático da Casta dos Sábios-Jornalistas da Pena ou do Microfone seguia a Lógica de Negociante: neoliberalismo, sem pluralismo no debate público, golpismo etc. Agora, com o desastre recente, parte dela está em dissidência.

O Poder Religioso da Casta dos Sábios-Sacerdotes da Batina ou do Púlpito também está dividida quanto à aplicação da Lógica Religiosa (conservadorismo em costumes, moralismo, disciplina etc.). Afinal, é contraditório apoiar o armamentismo violento.

Entre as Castas dos Sábios, há diversos outros Éthos. Por exemplo, o do Poder Educacional, isto é, da Casta dos Sábios-Educadores (do Jeans e Camiseta) é a Lógica Cívica: tolerância, defesa de direitos civis, sociais e políticos das minorias.

O Poder de Celebridade da Casta dos Sábios-Criativos (Superstar) segue a Lógica de Artista e/ou Artesão: autonomia, autoexpressão, liberalismo cultural, criatividade etc.

No Poder Executivo, a Casta dos Sábios-Tecnocratas do Terno-e-Gravata, com Lógica de Especialista (educação, titulação) de técnicos e gestores pragmáticos, não suportam o atual mandatário. No Poder Judiciário, a Casta dos Sábios-Juristas da Toga, com Lógica da Meritocracia (nomenclatura com mais bem dotados, regras, autoridade) está sendo antagonizada ou ameaçada pelos seguidores fanáticos da extrema-direita.

Apoiando a direita está agora o Poder Político ou Legislativo da Casta dos Oligarcas da Gravata, ou seja, o “Centrão” com sua Lógica Paroquial (paternalismo, localismo bairrista etc.) e Lógica Familiar (respeito, herança, primogenitura etc.) dos clãs dinásticos. Como é fisiológica e oportunista, poderá mudar de lado com a perspectiva da derrota eleitoral frente à grande maioria de rejeição do atual desgoverno.

Publicado originalmente em: https://jornalggn.com.br/economia/fatores-determinantes-do-voto-por-fernando-nogueira-da-costa/

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