Comentários sobre Neuroeconomia (por Ariel Rubinstein)

ARIEL RUBINSTEIN (The University of Tel Aviv Cafes and Department of Economics, New York University) escreveu os seguintes comentários, traduzidos parcialmente.

A Neuroeconomia é examinada criticamente usando dados sobre os tempos de resposta de indivíduos solicitados a expressar suas preferências no contexto do Paradoxo de Allais. Diferentes padrões de escolha são encontrados entre os respondedores rápidos e lentos. Isso sugere tentarmos identificar tipos de agentes econômicos pelo tempo usado para fazer suas escolhas. No entanto, Rubintstein argumenta ainda estar longe de ser claro se e como a Neuroeconomia mudará a Economia com essa descoberta.

1. LINHA DE FUNDO

Rubintstein começa esclarecendo a linha de fundo: a Neuroeconomia continuará sendo um tema quente na Economia durante a próxima década, provavelmente um dos mais quentes. Isso não é por causa de qualquer verdade à espera de ser descoberta ou algum problema urgente do mundo real necessário ser resolvido. Em vez disso, a evolução da Economia (e provavelmente também de outras disciplinas) está sujeita a forças semelhantes às ditadas pelo surgimento de qualquer outra tendência da moda.

A ascensão da Neuroeconomia está chegando em um momento quando a teoria econômica não está produzindo nenhum insight empolgante. A revolução da Teoria dos Jogos na Economia está completa – provavelmente foi longe demais ao deixar de lado outros modelos econômicos. Agora, os economistas já reconhecem os limites da racionalidade e estão cada vez mais interessados ​​em modelos de Racionalidade Limitada.

No entanto, esses modelos são quase inteiramente devidos à introspecção e conveniência de modelagem e, como tal, são percebidos como arbitrários. A Neuroeconomia está nos oferecendo a ilusão de os resultados alcançados pela introspecção podem ser apoiados por evidências concretas. Para muitos economistas, obcecados pelo desejo de se tornarem cientistas, esta é uma oportunidade de se associarem à ciência real.

Rubintstein não é um grande fã de Neuroeconomia. Ouviu falar disso pela primeira vez no outono de 2000 em uma pequena conferência organizada em Universidade de Princeton. Mesmo assim, lhe foi atribuído o papel de crítico.

No entanto, sua atitude em relação à Neuroeconomia é mais complicada e, de certa forma, acha a Neuroeconomia atraente. Acredita em julgar o trabalho acadêmico por um critério subjetivo: se é interessante ou não – e a Neuroeconomia certamente atende a esse critério.

Então, por qual razão acha difícil aceitar a Neuroeconomia? Pode pensar em duas razões.

A primeira é sua posição sobre o problema mente-corpo. Teme a abordagem da Economia na qual os tomadores de decisão se tornam máquinas sem alma. [O que é isso?!]

A segunda razão (discutida em Rubinstein, A. 2006. Comments on Behavioral Economics. In Advances in economic theory. 2005 World Congress of the Econometric Society. ed. R. Blundell, W. K. Newey and T. Persson Vol. II, 246–54. Cambridge University Press. e Harrison, G. W. 2008. Neuroeconomics: a critical reconsideration. Economics and Philosophy 24.) é o estilo e a retórica da Neuroeconomia. As conclusões são tiradas apressadamente com base em dados escassos. A falta de conhecimento e a incerteza são varridas para debaixo do tapete. Diagramas coloridos nada significam para os economistas, mas são apresentados como evidência clara.

Para Rubinstein, eles parecem uma jogada de marketing como aquelas usadas para vender um novo produto no supermercado. As estatísticas utilizadas não são bem compreendidas pela grande maioria dos usuários. Os pesquisadores do cérebro estão correndo para usar termos econômicos sem entender completamente suas sutilezas. O campo sofre com a falta de autocrítica e relutância em discutir “detalhes”.

Em conversas informais após um seminário, Rubinstein escuta um ceticismo considerável – não ouvido no próprio seminário. Participei de dezenas de seminários e li provavelmente uma centena de artigos sobre Neuroeconomia e quase sempre tenho a sensação de ser (sem querer) manipulado.

Sua sensação é a dura competição ter levado a baixos padrões de rigor científico. Um pesquisador sabe: se ele não publicar uma nova “descoberta”, alguém o fará e os riscos em um novo campo são muito altos.

No entanto, deixa de lado os problemas de estilo, retórica e pretensão por um momento e assume o seguinte cenário: somos capazes de mapear todos os cérebros em um cérebro canônico. As funções das diferentes áreas do cérebro são claras para nós.

As máquinas usadas nos experimentos são baratas o suficiente para milhares de sujeitos ser experimentados. E, finalmente, os dados são claros e verificados novamente. A questão ainda permaneceria: qual é o papel potencial dos estudos do cérebro na Economia?

Quando Rubinstein lê artigos de Neuroeconomia, não tem a impressão de aqueles a fazerem reivindicações para a importância da Neuroeconomia sabem como isso mudará a Economia. McCabe, K. A. 2008 “Neuroeconomics and the economic sciences”. Economics and Philosophy 24) afirma isso de forma bastante explícita.

Parte do problema é muitos pesquisadores do cérebro não entenderem o significado de Economia. Imagine caso os estudos do cérebro descobrissem existir um centro do cérebro determinante se preferimos Bach a Stravinsky ou Stravinsky a Bach e atualmente 1% da população geral prefere Stravinsky. Esta seria uma descoberta realmente importante. Também seria uma informação muito importante para um fabricante de discos de Stravinsky, mas nem todos os neuroeconomistas entendem isso não ter importância para a Economia.

Parece mesmo pesquisadores de Neuroeconomia com um bom entendimento de Economia estão no escuro sobre como isso será capaz de reformular a Economia. Há um ano, Rubinstein desafiou vários fervorosos defensores da Neuroeconomia a lhe mostrarem até mesmo um artigo de Neuroeconomia capaz de, provavelmente, mudar a Economia. Ainda não recebeu uma resposta satisfatória.

No entanto, não vai argumentar “a Neuroeconomia não terá efeito sobre a economia, mas apenas a atual literatura da Neuroeconomia não nos ajuda a imaginar qual será esse efeito”.

2. O QUE PODE FAZER A NEUROECONOMIA?

A maneira padrão pela qual modelamos um tomador de decisão em Economia é por meio de uma função de escolha atribuindo a cada problema de escolha, no domínio relevante, um único elemento. A afirmação significa o tomador de decisão escolhe somente quando o conjunto de alternativas disponíveis é dado.

Alguns de nós estudam uma estrutura um pouco mais rica onde a função de escolha recebe como entrada não apenas o dado conjunto de alternativas, mas também informações adicionais considerada antes irrelevantes para as preferências mentais do tomador de decisão. Em Salant e Rubinstein (2008), chamamos essa informação de frame. Um quadro pode ser, por exemplo, a ordenação pela qual os elementos em A são apresentados ou uma alternativa padrão.

No mundo da Neuroeconomia, um tomador de decisões é apresentado a uma função de escolha. Recebe como entrada um problema de escolha e produz como saída um par de soluções, consistindo de uma alternativa e um conjunto de parâmetros.

O tomador de decisões enfrenta o problema de escolha e escolherá uma e produzirá um vetor de indicadores medidos e registrados durante o período entre o momento quando lhe foi apresentado o conjunto de escolhas e no momento quando ele pressionou o botão para selecionar uma (e provavelmente até depois disso).

A pesquisa atual em Neuroeconomia toma o acréscimo como um vetor muito longo de números representantes das atividades em várias áreas do cérebro do sujeito durante o período de deliberação. Mas também pode ter outros significados.

Por exemplo, há quem o considere como uma descrição dos movimentos oculares do sujeito enquanto olha para uma tela onde o problema de escolha está sendo apresentado. Para avaliar a agenda de pesquisa da Neuroeconomia, Rubinstein (2007. Instinctive and cognitive reasoning: response times study. Economic Journal 117: 1243–59) observa outro caso ainda mais simples, onde há apenas um único número representativo do tempo de resposta do tomador de decisões.

A plataforma para os experimentos de Rubinstein foi seu site didático http://gametheory.tau.ac.il. Milhares de estudantes de cursos de Teoria dos Jogos e Microeconomia em cerca de 30 países usaram o site, onde foram confrontados com problemas de decisão e situações de jogo. Além da escolha feita, o computador também registrava o tempo de resposta (RT), ou seja, o tempo decorrido desde o momento em que o servidor enviou a pergunta até o momento em que a resposta foi recebida.

Esse tipo de pesquisa tem alguns méritos óbvios: é barato e facilita a participação de milhares de sujeitos de uma população muito mais ampla face ao habitual. Por outro lado, pesquisas desse tipo têm uma grande desvantagem, pois o tempo de resposta é uma variável ruidosa (embora os indicadores cerebrais também sejam medidos por meio de fMRI). No entanto, o enorme tamanho da amostra parece suavizar as coisas.

A hipótese básica afirma: o tempo de resposta é um indicador da forma como as pessoas pensam sobre um problema. Suponha os tomadores de decisão devam escolher entre A e B e que seus tempos de resposta na escolha de A estejam concentrados em torno de 20 segundos, enquanto o tempo que levam para escolher B é de cerca de 40 segundos. Podemos então concluir: a escolha de A é mais instintiva, enquanto a escolha de B envolve mais deliberação e é mais cognitiva. Pensar rápido, pensar devagar…

3. A LINHA DE FUNDO (MAIS UMA VEZ)

A grande visão da Neuroeconomia é usar as informações adicionais obtidas nos estudos do cérebro, combinadas com a escolha feita pelo tomador de decisão, para melhor compreender o processo de deliberação e usar os resultados para melhorar os modelos econômicos capazes de apontar as melhores decisões. No entanto, está longe de ser claro se e como isso pode ser feito.

Uma analogia na mente de Rubinstein quando ele pensa em Neuroeconomia é a de uma agência de inteligência capaz de rastrear a atividade inimiga monitorando continuamente os movimentos de veículos ou sinais de rádio. Descobrir correlações entre as táticas inimigas e um alto nível de atividade em uma determinada área ou detectar uma sequência de altos níveis de atividade em diferentes locais permite a agência de inteligência entender a estrutura do exército inimigo.

Saberá onde estão localizados os centros de comando, através de quais canais o inimigo transmite informações e assim por diante. Isso aumentará sua compreensão do processo de decisão do inimigo. Também pode permitir a antecipação dos movimentos do inimigo e a previsão de um ataque surpresa.

A Neuroeconomia também funciona dessa maneira? Na verdade, enquanto uma agência de inteligência está interessada em apenas um “cérebro”, o do inimigo, a Neuroeconomia está interessada em entender todos os cérebros.

Enquanto uma boa inteligência fornece dados sobre o inimigo em tempo real, as técnicas atuais (felizmente!) não nos permitem coletar dados em tempo real sobre os tomadores de decisão. Se o fizessem, viveríamos, então, em um mundo inteiramente novo e presumivelmente também teríamos uma Nova Economia.

Como Rubinstein demonstrou na seção anterior, a abordagem da Neuroeconomia provavelmente poderia ser útil de duas maneiras.

Em primeiro lugar, caso tenhamos enriquecido os modelos econômicos de racionalidade limitada, faria sentido não simplesmente inventar procedimentos de cima de nossas cabeças, mas usar modelos baseados em nossa compreensão da mente (ver Rubinstein, A. 1988. Similarity and decision-making under risk. Journal of Economic Theory 46: 145–53.). A esse respeito, imagino os dados neuroeconômicos confiáveis ​​poderiam servir a um propósito, fornecendo-nos informações sobre quão difundido é o uso de um determinado procedimento de tomada de decisão.

Em segundo lugar, pode-se imaginar os estudos do cérebro nos permitirão identificar tipos de indivíduos, os quais compartilham modos de comportamento para uma ampla gama de cenários de decisão. Se este for realmente o caso, estaríamos motivados a construir modelos onde a distribuição de tipos é a contribuição de cada modelo. Usando tais modelos, provavelmente poderíamos obter resultados analíticos mais fortes.

Mas, a prova está na prática. Estamos longe de mostrar qualquer uma dessas duas utilidades poderia produzir novas ideias econômicas.

Para concluir, os estudos do cérebro são naturalmente fascinantes e, embora Rubinstein tenha ainda dificuldade para encontrar um único insight relevante produzido por esses estudos, ele diz: “pode ser eles acabarem mudando a Economia”. No fim das contas, a Neuroeconomia provavelmente influenciará a Economia porque a Economia é uma Cultura e não uma Ciência.

Por “cultura” quer dizer uma coleção de ideias e convenções aceitas serem usadas em nosso pensamento. A Psicologia Cognitiva e a Economia Comportamental mudaram a Economia ao introduzir conceitos e convenções tornados parte do discurso dominante na Economia.

Rubinstein não ficaria surpreso se a Neuroeconomia se infiltrasse na Economia de maneira semelhante. Isto seria possível se a Neuroeconomia fizesse reivindicações menos pretensiosas e adotasse maior precisão. Aí sim pode se tornar algo mais além de apenas uma linha marginal divertida.

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