Repetição da Herança Maldita de Regime Militar: Regime de Alta Inflação

Nos EUA, há também um “choque do petróleo” para lembrar dos anos 70 com crise internacional e o estertores da ditadura militar brasileira. Pior, deixa um legado para penalizar nosso futuro!

Os preços ao consumidor nos EUA subiram a uma taxa anual de 8,3% em abril, acima das expectativas dos economistas, e se mantiveram na maior alta das últimas quatro décadas. Daí a urgência do Federal Reserve (Fed, o banco central dos EUA) jogar a economia em recessão para acabar com a inflação. Isto embora o índice de preços ao consumidor (IPC) tenha caído pela primeira vez em oito meses – ficou um pouco abaixo do aumento de 8,5% registrado em março.

No Brasil, IPCA subiu 1,06% em abril, após alta de 1,62% em março. Ainda assim, foi o pior resultado para o mês desde 1996 (1,26%). No acumulado em 12 meses, os números também impressionam. Até abril, o índice sobe 12,13%, vindo de 11,3% em março. É a maior taxa, por essa medida, desde outubro de 2003 (13,98%).

O resultado do Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) de abril reforça o cenário de espalhamento para a inflação. É mais um índice de preços a mostrar pressões inflacionárias espalhadas pela economia, com altas fortes das cotações de alimentos, combustíveis, bens industriais e serviços. Isso aponta para a necessidade de mais aperto monetário, com os juros devendo ser mantidos elevados por mais tempo.

A alta do IPCA em abril ficou em 1,06%, mesmo com a deflação de 6,27% do item energia elétrica. Em 12 meses, o indicador sobe 12,13%, o nível mais alto desde outubro de 2003. Nos primeiros quatro meses do ano, a variação já é de 4,29%, 0,79 ponto percentual superior à meta perseguida pelo BC para 2022.

O índice de difusão trouxe mais uma vez más notícias. O número, que mostra o percentual de itens em alta no mês, ficou em 78,25%. É o maior desde janeiro de 2003, segundo a MCM Consultores Associados. É uma inflação altamente disseminada. Há efeitos da guerra entre Rússia e Ucrânia, que pressiona os preços de commodities e afeta as cadeias globais de suprimentos, além do impacto da reabertura da economia, resultado do relaxamento das medidas de restrição social, devido à melhora dos números da pandemia da covid-19.

A alta dos preços da alimentação no domicílio teve uma pequena desaceleração no mês passado em relação aos 3,09% do mês anterior, mas ainda assim o aumento foi muito forte, de 2,59%. Em 12 meses, a variação da alimentação no domicílio passou de 13,72% para 16,11%. Os combustíveis tiveram outro aumento expressivo, com os preços da gasolina subindo 2,48% no mês.

A trajetória de aumento dos preços de bens industriais impressiona. Em abril, aumentaram 1,22%, o nono mês seguido de alta na casa de 1% ou mais, aponta a MCM. Em 12 meses, esses produtos avançam 14,22%. Há dois anos, em abril de 2020, a inflação de bens industriais nessa base de comparação era de 0,05%.

Os problemas nas cadeias globais de suprimentos, devido à pandemia e à guerra no Leste Europeu, pressionam as cotações desses produtos. O dólar mais barato poderia aliviar parte dessas pressões, mas a moeda americana voltou a subir nas últimas semanas, sendo negociada nesta quarta-feira acima de R$ 5,15.

Há, por fim, a inflação de serviços, que acelerou de 0,45% em março para 0,66% em abril, o que levou o acumulado em 12 meses de 6,3% para 6,94%. No caso da inflação subjacente de serviços, que exclui os grupos de serviços domésticos, cursos, turismo e comunicação, o quadro é ainda pior. A alta no mês passado foi de 0,79%, fazendo o acumulado em 12 meses passar de 6,98% para 7,74%. Essa medida se concentra nos itens mais sensíveis à demanda, pressionada no setor de serviços pela reabertura da economia.

Esse quadro inflacionário é a grande fragilidade do presidente Jair Bolsonaro em sua busca pela reeleição, por causar estragos no poder de compra da população. E novas pressões sobre os preços estão em curso. A alta dos preços do óleo diesel anunciada na segunda-feira, de 8,87% nas refinarias, não terá grande impacto direto sobre o IPCA, mas tem um efeito importante sobre a economia, por aumentar custos em

diversos setores. A inflação tão alta por tanto tempo é um dos principais motivos para a popularidade baixa de Bolsonaro, que critica pesadamente a política de preços da Petrobras.

epresentante da Agência das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) no Brasil, o mexicano Rafael Zavala vê com preocupação a situação da fome e da insegurança alimentar no país e diz que isso é “inadmissível” em um país que funciona como “cesta de pão” ou “motor de alimentação” para o mundo. Ele defende mais apoio às políticas sociais e diz que o Brasil sabe como enfrentar a fome, como já demonstrou em outros momentos.

O próximo governo, não importa a filiação política, precisa dar mais atenção às políticas sociais para a segurança alimentar”, afirma ele, reforçando que os preços dos alimentos continuarão em patamar elevado. Zavala também acredita que seja necessário mais rigor no controle da questão do desmatamento no país, provocada principalmente por atividades ilegais como o garimpo, e defende avanço da legalização fundiária.

A seguir os principais pontos da entrevista ao Valor:
Valor: Quais principais efeitos da guerra na Ucrânia no Brasil?

Rafael Zavala: O problema no Brasil, diferentemente da América Latina, é mais a dependência dos fertilizantes que o preço dos alimentos. Ucrânia, Belarus e Rússia produzem mais de 50% dos fertilizantes do mundo. A soma da alta dependência dos fertilizantes com os altos preços do petróleo significa um cenário de uma estabilidade de altos preços. A solução não vai ser se alarmar, é reagir e gerar caminhos.

Valor: O que pode ser feito?

Zavala: Um dos desafios e das respostas para esta época de alto preço dos alimentos e dos fertilizantes é a inovação. Inovação no caso dos solos e da melhor utilização da água. Temos que racionalizar melhor a agricultura. Um dos pontos que se pode avançar é com uma radiografia dos solos: a Embrapa pode aprofundar as análises do solo, para poder diagnosticar qual é a melhor medida do fertilizante. Estudos como os da Aliança Mundial pelo Solo mostram que estamos utilizando mais fertilizantes que precisamos. Há uma avaliação clara de que é possível usar uma quantidade menor, que signifique menos gastos. Além disso, no caso do Brasil, é muito importante a grande oportunidade de reduzir e melhorar a utilização da água. Existe a oportunidade de modernizar várias regiões com sistemas que possam utilizar menos fertilizantes e menos água.

Valor: Quais outros pontos devem ser levados em consideração?

Zavala: Estou seguro que, em dez anos, a globalização será diferente. O discurso das vantagens comparativas será um pouco mais discreto. Ficou claro que não podemos depender do que acontece a 12 mil quilômetros, que é a distância entre o Sul do Brasil e a Ucrânia e Belarus, onde estão os portos para saída dos fertilizantes. Será lançada uma versão de globalização, mais dirigida a blocos regionais. Depois dessa experiência, haverá mudança no discurso de que a distância não importa. Sim, distância importa sim. Brasil, Argentina, Chile, os países mais agrícolas, têm que fazer novo esforço para diminuir a dependência de outros continentes. Vamos nos dirigir a uma rerregionalização, uma adequação globalizada regional.

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