Marcação-a-Mercado dos Afoitos e Prazos de Vencimentos dos Conservadores em Finanças Pessoais

O Crash de Março de 2020, depois do início do pandemônio da pandemia, mostrou na prática o dano da Marcação a Mercado (MtM) até em Fundos RF DI (pós-fixados) e FCP (Fundos de Crédito Privado carregadores de Debêntures indexadas a CDI). Motivou a fuga dos investidores com grande volume de recursos a perder (mais idosos) para os CDB 100% do CDI sem MtM.

Isso se deu quando havia tendência firme de baixa dos juros básicos (CDI/SELIC). Agora, com tendência inversa, dado o encarecimento do passivo bancário, os “conselheiros financeiros” sugerem os investidores saltarem fora para beneficiar seus patrões…

No entanto, o mercado de crédito privado começa a se preparar para uma importante mudança que será implementada no início do próximo ano, com potencial para provocar ajustes nas decisões de investimento. De acordo com resolução da Anbima, títulos de dívida privada que estão nas carteiras de pessoas físicas terão que ser marcadas a mercado a partir do dia 2 de janeiro de 2023. Isso significa que as oscilações de preço que esses papéis sofrem terão de ser informadas aos clientes.

A medida vale para debêntures – incentivadas ou tradicionais -, CRAsCRIs títulos públicos comprados por meio do sistema Selic. A nova regra pode até dar um susto em alguns investidores, menos acostumados à dinâmica de preços desses ativos. Mas é considerada muito oportuna, ao conferir mais transparência e permitir que o investidor decida se deve ou não seguir na posição

Neste momento, apenas os fundos de crédito privado têm a obrigação de fazer a marcação a mercado. Com isso, o investidor consegue visualizar, dia a dia, se suas cotas ganharam ou perderam valor. Para a pessoa física, a informação disponível por enquanto é apenas a chamada marcação na curva, ou seja, quanto o papel vai render se for carregado até seu vencimento (levando em conta também a variação do CDI ou do IPCA).

Essa nova norma deve, portanto, trazer mais equidade entre esses dois grupos: os fundos e os distribuidores. “Hoje, a pessoa física tem a falsa sensação de que só ganha. Com essa informação, vai olhar a alocação com outros olhos, e isso vai ser bom para todos”, diz o gestor de um fundo de crédito .

A partir de dados relativos ao desempenho do mercado secundário disponibilizados pela Anbima, é possível dizer: o investidor poderá ter perdas no resgate dos papéis em boa parte dos casos.

Hoje, as debêntures incentivadas são negociadas, no conjunto, a 96,8% de seu valor de face, em média. Isso significa que, se fossem resgatadas hoje, a perda seria de, em média, 4,2%. No caso dos CRAs, esse desconto está hoje em 2,3%, e dos CRIs, em 1,9%.

Existem papéis com perdas ainda mais acentuadas. Um exemplo é o papel da Rumo, emissor AAA – de baixo risco de crédito, portanto. Marcado pela curva, o retorno do investidor que comprou o papel emitido em 2021 estaria hoje ao redor de 18%. Na marcação a mercado, ele teria uma perda de 0,4%. Essa diferença, neste caso, tem a ver com a dinâmica de oferta e demanda do mercado, que pode alterar os spreads (taxa paga acima do CDI ou da NTN-B) de cada papel.

O volume de negócios no mercado secundário de debêntures, CRA, CRI e Letras Financeiras atingiu o recorde de R$ 27 bilhões em março deste ano. Para se ter uma ideia, em janeiro o giro ficou em R$ 15,8 bilhões.

Apesar de os multimercados, na média, terem entregado retornos abaixo do CDI no ano passado, a troca para estratégias de renda fixa premiou investidores que fizeram essa transição apenas num intervalo curto de tempo: entre 27 de maio de 2021 e 15 de julho de 2021, e para alternativas que assegurassem retorno de 100% do CDI. Para todos os outros intervalos, a mudança não se mostrou vantajosa, considerando-se os resultados até o fim do primeiro trimestre de 2022.

É o que mostra um exercício feito pela gestora de recursos carioca JGP. Intrigado com a movimentação dos investidores conforme as taxas de juros foram subindo, Ilan Parnes, sócio integrante da área de relações com investidores da casa, considerou cada data como a potencial para a transferência de recursos. Tomou como base o índice de hedge funds (IHFA), referência para o segmento de fundos mistos, e o IMA-Geral, que representa uma cesta de títulos do Tesouro Nacionalsemelhante à composição da dívida pública interna, ambos calculados pela Anbima.

Quem saiu dos multimercados para carteiras renda fixa em 31 de dezembro de 2020, ponto de partida da amostra, estava com retorno 4,8% menor, na média, do que se tivesse permanecido investido na primeira classe até março de 2022. Aqueles que aguentaram por mais tempo e, por exemplo, fizeram a mudança no fim de outubro de 2021, estariam ganhando 1,6% a menos do que se ficassem onde estavam. Isso, sem considerar o imposto de renda pago no resgate para fazer a transferência dos recursos.

Já no primeiro trimestre de 2022, os multimercados tiveram, em média, retorno equivalente a 267% do CDI. Em 2021, tinham apresentado rentabilidade equivalente a 94% do indexador. Ou seja, os fundos se recuperaram rapidamente este ano e compensaram a parcimônia dos investidores que permaneceram aplicados. Nos últimos anos, o mercado tem tentado educar os investidores, que assim como em outros países, mais retorno representa mais risco também no Brasil. Não adianta achar que o título público livre de risco a 1% ao mês vai se perpetuar..

Com a rápida subida da Selic do início de 2021 para cá, de 2% para os atuais 11,75% ao ano, e a disparada antecipada das taxas futuras prefixadas, o investidor voltou a ver, com alguma facilidade, alternativas pagando 1% ao mês, incluindo títulos incentivados, em que há isenção de imposto de renda para a pessoa física.

Mas é um erro de análise comparar o retorno passado versus o projetado. Da mesma forma, pregar com base na fácil sabedoria a posteriori…

Quando o gestor de multimercados capta o dinheiro, ele coloca em caixa e já roda em CDI, ou seja, quando a taxa sobe, os fundos conseguem se apropriar desse novo patamar. E é a partir dessa remuneração base que vai buscar alternativas que proporcionem retorno adicional.

Em ano cheio de incertezas, como a correção monetária pelo Federal Reserve (Fed, o BC dos EUA), guerra entre Rússia e Ucrânia e eleições no Brasil, as carteiras podem ser direcionadas para isso. “Se a eleição for horrorosa, [a gestão] vira [a carteira] para o outro lado, tem essa flexibilidade, faz o investidor capturar o bem e o mal do que vem pela frente.”

Os resgates dos multimercados se aceleraram no segundo semestre de 2021, quando o investidor sacou R$ 44,7 bilhões dessas carteiras, enquanto os fundos de renda fixa atraíram R$ 98,4 bilhões. Os fundos de ações, por sua vez, perderam R$ 10,6 bilhões, segundo cálculos da JGP, excluindo dessa conta os portfólios do tipo “investimento no exterior”, que podem ter uma parcela maior do patrimônio em ativos estrangeiros.

Pelos dados mais recentes da Anbima, considerando todas as categorias, os fundos de renda fixa captaram R$ 135,6 bilhões neste ano até 20 de abril. Os multimercados, porém, acumulavam saques de R$ 43,5 bilhões e as carteiras de ações perdiam R$ 36,9 bilhões.

Nessa dança do fluxo, o comportamento do investidor é meio natural, porque nenhum outro país assegura o juro que o Brasil paga. “O aplicador voltou para o grande benefício de ser bem remunerado para não tomar risco e tem dificuldade em pensar em retorno real, pensa no nominal, tem dificuldade de calcular a inflação da sua cesta de consumo.”

Na média, a Selic proporcionou retorno pouco acima de 4% no ano passado, mas o investidor já encontrava títulos bancários como CDBs, pagando remuneração mais alta à medida que as taxas futuras empinaram para cima . Agora esse gap entre pré e Selic acabou e tem um monte de fundos [multimercados] em quatro meses dando retorno entre 13% e 15% no ano” afirma.

“O investidor olha pelo retrovisor. A migração grande que se viu a partir de setembro de 2021 não parou ainda, só diminuiu. Com certeza, quando olhar os números da indústria, ele vai correr atrás, mas vai ser tarde.”

Dados compilados pelo Valor Data mostram: ao longo do ano passado, os bancos captaram R$ 141,1 bilhões via Certificados de Depósitos Bancários (CDB), mas até o início de abril havia um fluxo de saída de R$ 5,6 bilhões. O estoque de letras de crédito imobiliário e do agronegócio (LCI e LCA) e de certificados de recebíveis ligados aos dois segmentos, que tiveram incremento de R$ 135,1 bilhões em 2021, nos primeiros meses de 2022 somaram mais R$ 92,8 bilhões.

Pular de galho em galho, mudando de fundos ou de indústria conforme o desempenho de curto prazo e os vaivéns da política monetária é a forma de obter resultados ruins para a carteira. Quando faz alocação, o investidor precisa ter resiliência, esperar o rendimento de longo prazo, porque do contrário não aufere aquele ganho que só vem com o tempo.

Alguns vão contra o discurso de que multimercados performam pior em períodos de alta de juros. “Se o gestor achar que é o momento para ter só renda fixa, ele vai para a renda fixa no multimercado. O investidor pode ter o benefício da classe ficando aplicado, só que em vez de escolher títulos do Tesouro Direto vai ter um profissional escolhendo para ele.”

Há potencial para a classe ver a volta do investidor dado o desempenho mais recente. Os resultados do primeiro trimestre mostram que os multimercados são uma alternativa interessante de investimentos num ambiente de volatilidade.

Esse é um fluxo que ainda não se vê, mas em conversa com alocadores ele percebe disposição para testar o apetite dos clientes para os fundos mistos. “Até porque existia propensão de migração da bolsa e dos multimercados para a renda fixa, os alocadores não estavam ativamente nesse esforço.”

Mesmo multimercados que exibiram resultados fantásticos sofreram com a onda de saques.

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