Evasão no Ensino Superior

Há progressos relevantes, mas localizados. A qualidade geral do ensino no Brasil continua baixa e o atraso e o abandono são a regra.

Nos últimos 40 anos, o produto por trabalhador no Brasil cresceu somente 0,5% ao ano, valor em torno de um terço do observado em países que já eram ricos em 1980. Comparativamente ao mundo desenvolvido, o Brasil retrocedeu. O pior é que os principais determinantes do desenvolvimento econômico – educação e eficiência produtiva – avançaram pouco, quando não retrocederam no passado recente.

A figura – construída a partir da base de dados Barro-Lee – mostra a evolução da educação primária e superior no Brasil e Coreia do Sul da população entre 30 e 34 anos, uma amostra da força de trabalho. Em 1950, a proporção de pessoas nessa faixa etária com no máximo educação primária era semelhante nos dois países, 94% do total. Já a parcela com alguma educação superior era ínfima em ambos países, cerca de 1%. Em suma, Brasil e Coreia apresentavam o mesmo quadro educacional muito ruim.

A evolução até o presente, entretanto, foi muito diferente. Em 2010, menos de 0,5% dos coreanos entre 30 e 34 anos não haviam completado o equivalente ao Ensino Fundamental, mas no Brasil essa cifra ainda era muito alta: 36,4%. Quanto ao ensino superior, cerca de 70% dos coreanos entre 30 e 34 anos o possuíam, enquanto somente 13,5% dos brasileiros haviam chegado à universidade.

Alunos do ensino superior na rede privada que não contam com financiamento estudantil têm mais probabilidade de abandonar os estudos. A evasão de estudantes de universidades particulares sem financiamento chega a 60%, dez pontos percentuais a mais do que dentre alunos que têm financiamento ou que estudam na rede pública.

Os dados são de um levantamento realizado pela consultoria IDados. O estudo, feito pelos economistas Guilherme Hirata e Matheus Gomes, mostra que a diferença de evasão entre os dois grupos é perceptível desde o primeiro ano do aluno no ensino superior e alcança dez pontos percentuais nos anos seguintes.

Para a pesquisa, os economistas selecionaram mais de 2 milhões de estudantes que ingressaram na universidade em 2010 e acompanharam sua trajetória até 2017.

“Ao fim de oito anos, 60% dos alunos do setor privado sem financiamento evadiram. Por outro lado, é pequena a diferença entre o setor público e aqueles do setor privado com algum tipo de financiamento que não seja o Fies ou o Prouni”, ressalta o estudo.

Quando são comparados os alunos de instituição privada com e sem financiamento, a diferença é de dez pontos percentuais.

O Fies, programa federal de financiamento estudantil, foi criado em 2001. O Prouni, criado em 2004, é também um programa federal e oferece bolsas de estudo parciais ou integrais em instituições de ensino superior privadas.

“Tentamos mostrar que o financiamento estudantil funciona, mas não é uma bala de prata”, afirma Hirata. “A evasão no Brasil é muito alta. Um em cada dois que entraram na universidade não terminou. O financiamento funciona, mas quando o problema da evasão é a falta de renda.”

Gregório Grisa, do Instituto Federal do Rio Grande do Sul (IFRS), lembra que a evasão no setor privado é um fenômeno multicausal e difere muito do que ocorre no setor público. “De modo geral, o setor privado é ultradependente da dinâmica da economia. Variáveis como emprego, inflação e queda da renda incidem muito na evasão das particulares”, afirma ele.

“Quando observamos a classe média que teve acesso ao ensino superior e paga mensalidade, a fronteira é muito tênue entre subsistência, aluguel e ensino superior, que deixa de ser prioridade quando o estudante não tem segurança futura. Como essa dinâmica ficou mais forte ultimamente, esse cenário se tornou mais claro”, diz.

Os resultados da pesquisa, que serão publicados no artigo acadêmico “Determinantes da evasão no ensino superior: uma abordagem de riscos competitivos”, mostram que mulheres, brancos, ingressantes mais velhos e quem utiliza o ProUni ou o Fies têm menor risco de evasão.

Após quatros anos de curso, enquanto a probabilidade de evasão para mulheres chegava a 30%, para os homens era de 34%. E enquanto a evasão acumulada no setor público alcança quase 50% ao fim do período, a evasão fica em torno de 35% para modalidades Prouni e Fies, segundo o estudo.

Os economistas responsáveis pelo estudo apontam que a evasão no ensino superior representa um custo tanto para o indivíduo quanto para a sociedade.

“Para o indivíduo, os custos estão principalmente associados à perda potencial de capital humano. Ao evadir, o indivíduo provavelmente não irá trabalhar na área de formação cursada, e o conhecimento específico acumulado tende a se perder ao longo do tempo. Some-se a isso a ausência de retorno (financeiro ou não) aos recursos investidos e ao tempo dedicado aos estudos”, argumentam.

A conclusão é que auxílios financeiros são parte da solução, mas há outras variáveis por trás da evasão do ensino universitário.

“Há também causas internas ao sistema e às instituições. Podemos elencar currículos defasados ou muito alongados. Na rede pública, há o problema de falta de formação continuada dos professores, questões de estrutura, pré-requisitos muito rígidos ou falta de apoio em questões pedagógicas”, diz Grisa. Ele menciona, por exemplo, que a evasão é maior em cursos de exatas, o que pode indicar deficiências na educação básica.

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