Macroeconomia 2023-2026

Lucianne Carneiro (Valor, 27/05/22) informa: a construção de um grande pacto político para os próximos anos, baseada em alguns pontos de consenso para a economia, pode ajudar a trazer a confiança e as condições necessárias para garantir uma retomada de crescimento sustentado em ritmo em torno de 2% ao ano, aproveitando a capacidade ociosa da economia, mesmo diante das restrições macroeconômicas atuais do país.

O cenário é detalhado no artigo “A macroeconomia de 2023/2026″, que abre o livro “O labirinto visto de cima: saídas para o desenvolvimento do Brasil” (Editora Lux), organizado pelos economistas Fabio Giambiagi e Ricardo de Menezes Barbosa.

A publicação reúne textos de técnicos de diferentes áreas do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) com propostas para o futuro do país e acaba de ser lançada em homenagem aos 70 anos da instituição – que serão completados no mês que vem – como um projeto pessoal de alguns funcionários de carreira. O livro não reflete o pensamento do BNDES e deve ser interpretado como uma contribuição dos técnicos do banco para a agenda econômica e socioambiental do país neste ano eleitoral.

Neste primeiro artigo, que é assinado pelo próprio Giambiagi e por Leticia Magalhães, também economista no banco, o panorama traçado para os próximos quatro anos é de um crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) que acelera de 1,5% em 2023 para 2% em 2024, 2,5% em 2025 e 2,77% em 2026.

Os autores apontam que, ainda que a projeção para o próximo ano possa ficar comprometida devido a fatores conjunturais recentes, não muda a perspectiva promissora para os anos seguintes. Com o desempenho do período, vislumbra-se um crescimento paulatino do emprego, que permita que a taxa de desemprego volte a ficar em apenas um dígito em meados da década.

Para chegar a essas estimativas, o estudo considera algumas premissas. Uma delas é uma razão entre capital e produto de 2,5 – que indica a relação entre o estoque de capital e o produto potencial, que é capacidade de crescimento da economia sem gerar desequilíbrios (como inflação). Inclui ainda alta do investimento de 4% ao ano em 2023 e aumentando 0,5 ponto percentual ao ano até 2027, aumento da força de trabalho ao mesmo ritmo da expansão da população entre 20 e 64 anos e uma variação da produtividade da economia (Produtividade Total dos Fatores, PTF) que sai de 0,2% em 2023 para 0,8% em 2026, entre outras condições.

“A ideia do artigo é vislumbrar a viabilidade de um processo de crescimento que respeite as restrições macroeconômicas do Brasil no momento, de conseguir um crescimento sustentado, devagar e sempre, em torno dos 2%, 2,5%”, afirma Giambiagi, que já foi economista-chefe do BNDES e é um dos grandes especialistas em finanças públicas e previdência no país. “Não estamos condenados a crescer em um ritmo raquítico de 1% ao ano, mas por outro lado há limitações físicas para um crescimento de 3%, 4%, 5% ao ano. Todo o processo complexo que o Brasil passou nos últimos 12 anos trouxe muito pessimismo, mas não há porque se curvar a isso [uma taxa de 1%].”

Leticia Magalhães reforça a avaliação de que o crescimento sustentado da economia brasileira é possível nos próximos anos e destaca que “é preciso fortalecer as bases” para essa expansão, citando, por exemplo, o compromisso de uma inflação em patamar em torno de 3% ao ano – a despeito das altas recentes – e com a questão fiscal.

Como pontapé inicial do que os autores chamam no texto de “uma nova construção política”, é defendida uma “grande pactuação” em torno de quatro pontos: mudança na regra do teto de gastos, elevação modesta da carga tributária, adoção de um programa social voltado para os trabalhadores informais e medidas de ajuste que reforcem o compromisso com a austeridade fiscal.

Na avaliação de Giambiagi, defensor de longa data do controle de gastos públicos, alguma mudança no teto de gastos “será a forma de impedir que o crescimento das despesas do INSS, que continuará ocorrendo, prossiga achatando o espaço para as despesas discricionárias [não obrigatórias, sobre os quais o governo tem alguma margem de manobra], já muito comprimidas nos últimos anos”.

Além disso, os economistas argumentam que alguma elevação de impostos é necessária para alcançar um resultado primário [receitas menos as despesas, sem considerar o pagamento de juros] mais robusto, dada a rigidez existente na estrutura das despesas. E citam a importância de “uma política social inteligente e adequadamente dosada” como um aprendizado da pandemia, que “deu mais visibilidade ao fenômeno do trabalho informal”.

Para evitar, no entanto, que essas três iniciativas sejam interpretadas pelo mercado “como uma espécie de ‘licença para gastar´”, eles são a favor de medidas de ajuste como “uma peça importante do programa econômico”.

Giambiagi e Magalhães defendem uma mudança do modelo de operação da economia brasileira, pautado por três condicionantes. A primeira delas é de uma relação crescente com a sustentabilidade, de maneira que a preocupação com a mudança climática se torne uma fonte de dinamismo transformador. Além disso, o reconhecimento de que a desigualdade “é uma chaga moral da sociedade e precisa ser atacada com vigor”.

Por fim, a convicção de que é necessário realizar um intenso programa de obras de infraestrutura voltadas para a maioria da população, com ênfase em mobilidade urbana, construção e acessibilidade tecnológica.

Para eles, o arcabouço geral da política econômica deve se guiar por três grandes princípios: competição, oportunidades e estabilidade. No primeiro campo, o texto cita iniciativas como intensificação do programa de concessões e ampliação da exposição da economia à abertura do comércio internacional, além de melhoria da qualidade da infraestrutura brasileira.

Já no que se refere às oportunidades, os economistas destacam a importância de “prioridade absoluta à educação”, que deve ser encarada como “passaporte para a redução das desigualdades”. Isso se dá, segundo eles, pela melhora das condições de chegada ao mercado de trabalho dos filhos dos trabalhadores mais humildes, “de modo que possam disputar o mercado em situação comparativamente mais favorável que aquele que prevaleceu historicamente”.

A estabilidade, por sua vez, os autores apontam, “está estreitamente ligada à condução da política fiscal”. O artigo considera natural “algum acordo para viabilizar a antecipação da mudança do teto” no próximo governo, originalmente prevista para 2027, mas desde que seja substituída por outra regra, que “comporte um incremento real de despesa de não mais que 1% ou 1,5% ao ano”. “A regra do teto de gastos não se sustenta até 2026, mas a noção de restrição fiscal tem que ser mantida para que haja uma perspectiva de sustentabilidade da dívida. Aí neste contexto é possível que os juros comecem a cair no segundo semestre de 2023”, diz Giambiabi.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s