Experiência é um farol voltado para trás…

Down Jones (14/06/22) informa: as últimas semanas, altos funcionários do governo do presidente Joe Biden e do Federal Reserve (Fed, o banco central dos Estados Unidos) admitiram publicamente que cometeram erros ao lidar com a inflação. Por trás de seus erros estava uma leitura equivocada da economia.

Assessores do presidente Biden e funcionários do Fed temiam a pandemia de covid-19 e as restrições relacionadas ao evento trazerem consequências semelhantes à crise financeira de 2007-2009: demanda fraca, crescimento lento, longos períodos de alto desemprego e inflação muito baixa.

Então eles aplicaram a última cartilha à nova crise. O Fed apostou em políticas de juros baixos que acreditava terem sido eficazes e geralmente benignas, e prometeu não recuar prematuramente. Autoridades eleitas concluíram terem confiado demais no Fed anteriormente e decidiram gastar mais agressivamente desta vez, começando com o presidente Donald Trump e culminando com o US$ 1,9 trilhão em estímulos do governo Biden.

Além disso, muitos democratas viram seu controle da Casa Branca e do Congresso como uma rara oportunidade de mudar as prioridades de Washington, dos cortes de impostos defendidos pelos republicanos em direção a novos programas sociais expansivos.

Mas a economia da pandemia acabou sendo fundamentalmente diferente. Embora a crise financeira tenha prejudicado principalmente a demanda de empresas e consumidores, a pandemia reduziu a oferta, resultando em escassez persistente de matérias-primas, navios porta-contêineres, trabalhadores, chips para computadores e muito mais.

O desemprego caiu e a inflação se recuperou mais rapidamente do que os formuladores de políticas esperavam – mas eles mantiveram a velha cartilha. Isso exacerbou os descompassos de oferta e demanda e ajudou a elevar a inflação, atingindo 8,6% em maio, a maior em 40 anos.

Após a crise financeira de 2007-2009, o gasto total de consumidores, empresas e governo, não ajustado pela inflação, permaneceu abaixo da tendência pré-crise por anos. Por outro lado, no primeiro trimestre de 2022, ele disparou para 5% acima de sua tendência pré-pandemia, ou cerca de US$ 1 trilhão, anualizado, impulsionado por uma onda de estímulo federal.

Jason Furman, democrata que foi presidente do Conselho de Assessores Econômicos do presidente Barack Obama, de 2013 a 2017, disse que o esforço mais recente abordou a crise errada. “Lutamos a última guerra”, afirmou ele. “Foi uma situação complicada com poucos precedentes”, disse em maio Randal Quarles, republicano e vice-presidente do Fed para supervisão de 2017 até o final do ano passado. “Pessoas cometem erros.”

Os analistas privados e os observadores apartidários do Congresso também falharam em antecipar a magnitude e a duração da inflação mais alta.

Também houve azar, ou seja, acasos acontecem… e devem ser esperados. Novas variantes da covid-19, a invasão da Ucrânia pela Rússia e os bloqueios relacionados ao coronavírus na China pioraram uma situação já ruim.

A inflação elevada não é apenas o resultado de erros de política dos Estados Unidos: ela terminará o ano em 7,2% na Alemanha, 8,8% no Reino Unido e 6,1% no Canadá, segundo projeções feitas pelo J.P. Morgan.

A secretária do Tesouro, Janet Yellen, e outros funcionários da Casa Branca argumentaram: o estímulo valeu a pena porque ajudou a reduzir o desemprego rapidamente para menos de 4%, evitando o alto desemprego prolongado da década anterior.

“Nossa economia se recuperou mais rapidamente do que a de nossos pares em todo o mundo, com uma recuperação historicamente forte e equitativa do mercado de trabalho e reduções históricas no sofrimento humano”, disse Brian Deese, diretor do Conselho Econômico Nacional da Casa Branca.

As autoridades reconheceram ser improvável que a inflação recue rapidamente. Agora eles estão lutando para corrigir seus erros de cálculo anteriores, um processo que traz novos riscos de recessão.

Há um ano, as autoridades do Fed projetavam que a inflação, usando sua medida preferida, recuaria para 2,1% até o final deste ano. Eles agora veem o dobro disso e é improvável que retornem à meta de 2% antes de 2025.

Eles aumentaram as taxas de juros de curto prazo em 0,75 ponto percentual e estão a caminho de aumentá-las novamente em sua reunião nesta semana. É provável o Fed continuar aumentando as taxas pelo menos nesse ritmo nas próximas reuniões, o ajuste mais rápido em décadas.

As autoridades esperam um “pouso suave”, uma desaceleração que reduza a inflação sem recessão. Eles também reconhecem o quão difícil é a tarefa – e lamentam não ter começado antes. “Se você olhar para trás, sim, provavelmente teria sido melhor ter aumentado os juros mais cedo”, afirmou o presidente do Federal Reserve, Jerome Powell, em entrevista no mês passado.

Yellen ganhou as manchetes em 1º de junho quando reconheceu que ela e outros funcionários do governo Biden erraram ao garantir ao público um ano antes que uma inflação mais alta seria transitória. Em Washington, onde os formuladores de políticas raramente admitem erros, os críticos do governo atacaram o reconhecimento.

As preocupações com a inflação paralisaram as prioridades legislativas de Biden e erodiram seus índices de aprovação. A confiança do consumidor despencou. As pesquisas sugerem que os democratas podem enfrentar derrotas pungentes nas eleições de meio de mandato.

Quando partiram para enfrentar a pandemia em 2020 e 2021, os formuladores de políticas foram motivados pelas lições da expansão após a crise financeira de 2007- 2009, a mais lenta já registrada. Foram necessários seis anos para que a taxa de desemprego caísse de 10% para 5%.

O impacto inicial da pandemia e dos “lockdowns” elevou o desemprego para 14,7%. Em 2020, Trump assinou mais de US$ 3 trilhões em ajuda federal, aprovada com maiorias bipartidárias no Congresso. O Fed, implantando estratégias usadas após a crise financeira, empurrou as taxas de curto prazo para perto de zero, comprometeu-se a mantê-las lá e começou a comprar títulos para manter as taxas de longo prazo baixas.

A pandemia causou interrupções duradouras no fornecimento global de uma série de bens e serviços, causando escassez persistente e pressão ascendente nos preços que provavelmente teriam ocorrido mesmo sem estímulos. Embora a oferta tenha demorado a se recuperar, a demanda por bens e serviços se recuperou rapidamente.

Autoridades do Fed e conselheiros de Biden, muitos dos quais serviram sob Obama ou, como Yellen, no Fed durante a crise financeira, permaneceram assombrados pela lenta recuperação da década de 2010 e temores de que novas ondas de covid pudessem inviabilizar a recuperação nascente. Além disso, a inflação esteve abaixo da meta do Fed por mais de uma década.

Isso também os deixou confiantes de que tinham espaço para agir mais. “Sabemos pela expansão anterior que pode levar muitos anos para reverter os danos” do desemprego prolongado e elevado, disse Powell em um discurso em fevereiro de 2021.

Dias antes de sua posse, Biden e seus assessores mais próximos concordaram com o plano de socorro de US$ 1,9 trilhão, que incluía US$ 350 bilhões em ajuda a governos estaduais, US$ 300 por semana em benefícios extras de desemprego até a primeira semana de setembro, além de cheques de auxílio de US$ 1.400 e outros US$ 600 aprovados pelo Congresso em dezembro de 2020.

Alguns economistas alertaram que isso levaria à inflação, principalmente Lawrence Summers, da Universidade de Harvard, ex-secretário do Tesouro.

Antes da pandemia, Summers havia alertado sobre um déficit crônico de demanda e inflação baixa, uma combinação apelidada de “estagnação secular”. Mas depois que o estímulo de Biden foi aprovado em março de 2021, suas preocupações mudaram para o excesso de demanda e inflação.

O trabalho do Fed é tirar a tigela de ponche assim que a festa começa, um ex-presidente brincou uma vez. Summers comparou a nova estrutura do Fed a esperar “até vermos um bando de bêbados cambaleando”.

Summers estava em minoria. Muitos economistas profissionais, usando modelos semelhantes aos usados por Powell e Yellen, concordaram com eles de que o aumento da inflação seria transitório. Em julho de 2021, analistas privados consultados pelo “The Wall Street Journal” projetaram que a inflação cairia para 2,4% até o final de 2022. Eles agora projetam 4,8% no final do ano.

Usamos modelos econométricos estimados a partir das últimas duas décadas de dados. Durante esse período, a inflação foi próxima de 2%”, disse o presidente do Fed de St. Louis, James Bullard. “Então você tentou usar esse modelo quando teve um choque pandêmico gigantesco; não era o modelo certo a ser usado.” No final, ele disse, o Fed teve que “abandonar toda a cartilha”.

Biden não ganhou muito crédito por um mercado de trabalho forte porque o aumento da inflação reduziu os salários das famílias e muitos bens estão mais difíceis de comprar. Com a queda da confiança do consumidor, os índices de aprovação de Biden ficaram em torno de 40%.

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