Introdução do Relatório de Desenvolvimento Mundial 2022

Em 2020, enquanto comunidades ao redor do mundo lutavam para conter a disseminação da Covid-19 (causada pelo coronavírus) e gerenciar os custos humanos e sanitários da pandemia, os governos implementaram uma vasta gama de políticas em resposta à crise para mitigar os piores impactos sociais e econômicos da pandemia.

Em pouco tempo, as restrições à mobilidade, os lockdowns e outras medidas de saúde pública necessárias para enfrentar a pandemia produziram a maior crise econômica global observada em mais de um século, agravada por uma queda na demanda ligada aos efeitos da pandemia sobre o comportamento dos consumidores.

Em 2020, houve contração da atividade econômica em cerca de 90% dos países, o que excede o número de países que vivenciaram declínios semelhantes durante as duas guerras mundiais, a Grande Depressão da década de 1930, as crises da dívida de economias emergentes da década de 1980 e a crise financeira global de 2007–2009 (figura O.1).

Nesse primeiro ano da pandemia de Covid-19, a economia global encolheu cerca de 3%1, e a pobreza global aumentou pela primeira vez em uma geração2. Com o propósito de limitar os impactos da crise para famílias e empresas, diversos governos promulgaram respostas rápidas e abrangentes com uma combinação de políticas fiscais, monetárias e financeiras.

O caso da Índia, como muitos outros países, foi ter implementado uma ampla resposta emergencial à primeira onda da pandemia. Oferece bons exemplos de políticas decisivas baseadas em uma vasta gama de instrumentos para mitigar os piores efeitos imediatos da crise.

Quando a pandemia chegou à Índia em março de 2020, o governo declarou um lockdown nacional de dois meses, fechando empresas e mandando os trabalhadores para casa. O lockdown interrompeu todos os tipos de atividades econômicas e, consequentemente, houve uma queda nas receitas. As pequenas empresas e os trabalhadores de renda mais baixa, em áreas urbanas e no setor informal, foram os mais afetados.

A primeira das medidas adotadas pelo governo indiano foi um pacote de estímulo fiscal que equivalia a quase 10% do Produto Interno Bruto (PIB) e oferecia apoio direto às famílias mais pobres3. A política monetária reduziu as taxas de juros e facilitou as condições dos empréstimos de bancos e instituições financeiras não bancárias.

Políticas abrangendo o setor financeiro também fizeram parte do plano de apoio. O país instituiu uma moratória do pagamento de dívidas para famílias e empresas que ficou vigente por seis meses.

Adicionalmente, o governo indiano introduziu um grande programa de garantias com o objetivo de assegurar que as pequenas e microempresas continuassem a ter acesso ao crédito.

A resposta da Índia à crise econômica foi semelhante à de muitos outros países. A estratégia reconheceu a interconexão de diferentes segmentos da economia — famílias, empresas, instituições financeiras e governos.

Um grande choque em determinado setor pode gerar riscos de transbordamento capazes de desestabilizar a economia como um todo se a situação não for tratada prontamente e de maneira integrada. Enquanto a pandemia avançava, produzindo múltiplas ondas de infecção, muitos países estenderam suas medidas de assistência além de seu cronograma original.

Embora tais políticas tenham ajudado a mitigar os resultados econômicos mais graves da pandemia no curto prazo, elas também impuseram desafios como, por exemplo, o aumento da dívida pública e privada. Precisam ser enfrentados em breve para garantir uma recuperação econômica equitativa.

Ao se prolongarem os efeitos econômicos da pandemia, os formuladores de políticas públicas buscam um equilíbrio entre fornecer apoio suficiente para mitigar os custos humanos da crise e, ao mesmo tempo, limitar os riscos financeiros e macroeconômicos de longo prazo que podem emergir dos níveis mais elevados de dívida alcançados em decorrência da crise.

É provável tais riscos surgirem mais rapidamente nas economias emergentes e, especialmente, nos países de renda baixa. Nesses países, a capacidade de gestão da dívida pública e privada é muito menor se comparado ao das economias avançadas. Suas condições econômicas já eram, em muitos casos, desafiadoras mesmo antes da pandemia4.

Os dados disponíveis até agora indicam: os efeitos econômicos da pandemia serão mais persistentes e severos nas economias emergentes. Por exemplo, após o colapso da renda per capita ao redor do mundo em 2020 (figura O.1), 40% das economias avançadas se recuperaram em 2021, inclusive excedendo os níveis de produção de 2019.

A proporção comparável de países com alcance de renda per capita em 2021 superior aos resultados de 2019 é muito menor nos países de renda média (27%) e de renda baixa (21%). Isso indica uma recuperação mais lenta nos países mais pobres 5.

Este Relatório de Desenvolvimento Mundial examina o papel central das finanças na recuperação da crise atual, considerada única no século, e traça caminhos para uma recuperação robusta e equitativa. A “recuperação equitativa” é aquela onde todos os adultos, inclusive os grupos mais vulneráveis, como os adultos pobres, as mulheres e as pequenas empresas, são capazes de se recuperar das perdas de empregos, renda, capital humano e ativos6.

A Covid-19 aumentou a desigualdade entre os países e dentro deles. É importante superar os riscos financeiros para garantir governos e instituições financeiras poderem apoiar a recuperação, inclusive por meio de investimentos em serviços públicos, como, por exemplo, saúde e educação.

Também é fundamental as famílias e as empresas não perderem o acesso aos serviços financeiros possíveis de fortalecer sua resiliência a choques econômicos, tais como a perda de renda e as despesas imprevistas de muitos durante a pandemia. O enfrentamento bem-sucedido desses riscos ajudará a limitar os danos ao desenvolvimento sustentável e apoiar uma recuperação equitativa.

Este relatório incorpora novas pesquisas, dados coletados durante a crise e estudos de caso de diversos países para documentar os impactos financeiros e econômicos imediatos da pandemia, as respostas dos governos e os riscos já materializados ou iminentes.

Tais riscos incluem:

  1. aumentos nos empréstimos inadimplentes e estresse no setor financeiro;
  2. falta de mecanismos de insolvência formais de modo a permitirem famílias e empresas saldarem as dívidas contraídas durante a pandemia;
  3. restrições no acesso ao crédito; e
  4. níveis elevados de dívida pública.

Com o objetivo de direcionar os países a opções de modo a apoiar uma recuperação equitativa, este relatório destaca políticas capazes de responderem a alguns dos impactos adversos da crise. Mitigam a dispersão dos riscos financeiros.

1 thought on “Introdução do Relatório de Desenvolvimento Mundial 2022

  1. Republicou isto em Iso Sendacz – Brasil and commented:
    De se notar que, se mais lenta é e de se prever ser a recuperação das economias menores em face das mais desenvolvidas, um a cada quatro países com renda per capta semelhante à brasileira atingiu, em 2021, produção superior a 2019.
    O caso hindu desmistifica a falácia de o problema brasileiro ter sido o “fique em casa”. Lá, a economia foi vista depois e a ação mitigadora do Estado foi capaz de prover os mais vulneráveis durante o lock down e avançar rapidamente na recuperação.
    Se o pico histórico de retração econômica foi a crise sanitária, em segundo lugar nos 120 anos analisados não foi o período de conflagração aberta entre os países, mas a grande depressão que se seguiu à quebra da bolha especulativa da bolsa de Nova Iorque, de resto crise mais longeva do que se prevê a atual.

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