Maiores Bancos do Mundo e Maiores Bancos da América Latina

Álvaro Campos (Valor, 04/07/22) informa: os principais bancos do mundo saíram mais fortes depois do distanciamento social provocado pela pandemia, apesar do baque inicial causado por ela. No fim de 2021, pela primeira vez as mil maiores instituições financeiras globais ultrapassaram a marca de US$ 10 trilhões em capital de nível 1, de melhor qualidade, composto por ações, reservas de lucros e resultados acumulados. É o que mostra uma pesquisa da publicação especializada “The Banker”.

os bancos estão mais capitalizados do que nunca, o que é um importante sinal de solidez do sistema financeiro num momento em que se discute a possibilidade de uma recessão global. As pesadas medidas de estímulos monetário e fiscal adotadas por bancos centrais e governos e a reação rápida das instituições financeiras ao oferecer pausas nos pagamentos e renegociar as dívidas dos clientes ajudaram. A fotografia também é resultado do aumento na exigência de capital regulatório que se adotou após a crise financeira de 2008.

O reforço no capital, agora, ajudará as instituições a atravessar um outro momento. Com a redução dos estímulos, inflação e juros nos maiores níveis em décadas, guerra na Ucrânia e eleições – no caso do Brasil -, o setor bancário está diante de um cenário que impõe desafios de outra natureza.

Joy Macknight, editora da “The Banker”, afirma que os lucros dos bancos tiveram uma recuperação em 2021, com o resultado agregado antes de impostos atingindo um recorde de US$ 1,44 trilhão. Trata-se de um aumento de 53,7% em relação ao ano anterior, e isso após uma queda anual de 19,2% registrada em 2020. Grande parte dessa melhora pode ser atribuída a uma redução ou reversão das provisões para devedores duvidosos (PDD) do ano anterior, já que os calotes esperados por causa da pandemia não se materializaram.

“Nossa análise mostra que 2021 foi um ano excepcional para o setor bancário global, com resultados recordes em capital, ativos e nível de lucratividade. É importante ressaltar que os níveis de empréstimos inadimplentes diminuíram substancialmente, contrariando as expectativas do fim de 2020”, afirma.

A fotografia da pesquisa, porém, não leva em conta a guerra na Ucrânia, que começou em fevereiro deste ano, e a postura mais assertiva do Federal Reserve (Fed, o banco central americano) no combate à inflação.

Macknight admite que a inflação é um risco para os bancos, já que corrói a renda e torna mais difícil para famílias e empresas quitarem seus empréstimos. Por outro lado, o aumento de juros por parte dos bancos centrais é, em geral, benéfico para as instituições financeiras, que nos EUA e especialmente na Europa há anos lidam com taxas próximas de zero ou mesmo negativas. Só que o aperto monetário, ao mesmo tempo, tira força da economia, o que também afeta os bancos. “Nos países desenvolvidos, os juros estão subindo, mas não é tanto assim, não vão chegar a 10%.”

Na visão da executiva, o atual ciclo de aumento da inadimplência bancária também pode ser mais suave do que se previa até pouco tempo atrás. “Os bancos não esperam uma grande deterioração da inadimplência nos próximos 12 a 18 meses”, diz.

As instituições financeiras estão mais capitalizadas agora para absorver choques, refletindo as medidas adotadas após a crise de 2008, quando foi aprovado o pacote de Basileia 3. “Isso ajudou a tornar o sistema bancário global mais forte e resiliente a grandes choques”, afirma Macknight, fazendo a ressalva de que nenhuma crise é igual à outra e que, por definição, os chamados “cisnes negros” são impossíveis de prever. “O que podemos dizer é que os bancos estão mais bem preparados do que nunca e têm colchões para absorver eventuais impactos se algo assim acontecer.”

A China tem agora cinco representantes entre os dez bancos mais capitalizados, superando os Estados Unidos. No total, os americanos ainda têm mais representantes – são 186, contra 140 dos chineses. O chinês ICBC completou uma década no topo do ranking global e é o primeiro a atingir um capital de nível 1 de mais de US$ 500 bilhões. Esse indicador aumentou 15,7% em 2021, com os ativos totais subindo 8,1% e o lucro antes de impostos avançando 11,1%. A instituição agora tem mais que o dobro do capital nível 1 do maior banco dos EUA, o J.P. Morgan.

O diretor de instituições financeiras da Fitch no Brasil, Claudio Gallina, aponta que, de fato, a pandemia não acarretou tantos problemas para o setor bancário global como se esperava. A inadimplência tem subido devagar desde o fim do ano passado, no país e em outros mercados, mas segue abaixo dos níveis pré-covid. “É lógico que existem desafios, mas tudo vai depender de quanto esse ciclo de alta de juros vai durar”, afirma.

Gallina observa que os bancos cresceram em linhas mais arriscadas ao longo da crise, como crédito pessoal sem garantia e cartões de crédito e, mesmo assim, não têm enfrentado grandes problemas com inadimplência no varejo. “Eles também têm gerenciado bem o aumento nos custos de funding e conseguido gerar um mix bom de negócios, mantendo a rentabilidade.”

Apesar de os bancos brasileiros terem a fama de estar entre os mais lucrativos do mundo, a pesquisa não corrobora essa visão. O retorno sobre ativos (ROA) do Brasil ficou em 1,33% no ano passado, frente a uma média de 1,35% na América Latina e 1,94% na Europa Central e do Leste. Na América do Norte, esse indicador é de 1,18%, e na Europa Ocidental, de 0,44%.

Renan Manda, analista-chefe do setor financeiro da XP, diz que a pandemia foi um teste de fogo, mas os bancos se saíram muito bem. “Além de toda a questão econômica, houve uma mudança enorme de padrão dos clientes do dia para a noite, com todo mundo passando a fazer tudo on-line, e os sistemas dos bancos aguentaram.”

Para ele, o cenário à frente não é céu de brigadeiro, mas também não é o fim do mundo, mesmo com uma possível recessão nos EUA. “O crédito continua crescendo, a inadimplência não está explodindo. Tem a questão da competição com as fintechs, mas isso ainda não afeta de maneira significativa as receitas dos bancos.”

A avaliação de Conrado Rocha, sócio e gestor da Polo Capital, é um pouco menos otimista. Para ele, a “foto” dos bancos é boa, mas o “filme”, ou seja, para onde estão indo, não é dos melhores. “Em algum momento as famílias e as empresas vão sentir essa inflação global. O índice de cobertura dos bancos está superconfortável, mas o ciclo de aumento da inadimplência está só no começo”, afirma. “A recessão nos EUA ainda nem chegou e o aperto da Selic tem defasagem de seis a nove meses, então muito do impacto ainda está por vir.”

Rocha lembra que a crise de 2008 gerou uma onda de fusões e aquisições entre os grandes bancos globais, e agora o cenário mais difícil pode favorecer operações com instituições de menor porte.

O cenário de alta de juros também embaralha a competição com as fintechs. Para Gallina, da Fitch, algumas empresas maiores, com modelos de negócios mais robustos e que atraíram capital nos últimos anos, podem se sair melhor. Entretanto, aquelas que estão em estágios mais iniciais e que dependem de novos aportes provavelmente enfrentarão dificuldades. “Um ponto importante é como elas rentabilizam a base de clientes. Cada uma tem uma estratégia. Se dependem do crédito, é mais difícil, mas muitas atuam em pagamentos, em outros serviços”, diz.

Manda, da XP, mostra uma visão semelhante. “Tem muita gente revisando suas projeções macroeconômicas para baixo, e as fintechs, que dependem muito do crescimento futuro, têm seus valores revistos”, afirma.

Um fator que pode ajudar as fintechs – e, em menor proporção, os bancos incumbentes – é o open banking. A abertura das bases de dados pode ajudar os novos competidores a lançar novos produtos e oferecer taxas mais atrativas em determinados segmentos. “O open banking traz uma oportunidade ímpar para as fintechs, ao nivelar o campo competitivo”, diz Manda.

No entanto, Rocha, da Polo, pondera que o sucesso do open banking vai depender da adesão da população. Ele lembra que há questões culturais a ser superadas. “Não

há uma bala de prata para salvar as fintechs. O maior impacto para elas é o dos juros.”

Macknight, da The Banker, diz ainda que, se no início os bancos viam as fintechs como competidores, hoje há vários casos de colaboração. “Muitos dos grandes bancos tradicionais já veem as fintechs como uma forma de os ajudar a se modernizar”, afirma.

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