Desocupação por Nível de Escolaridade

Trabalhadores menos escolarizados estão com mais dificuldade para retornar ao mercado de trabalho, depois do choque da covid-19. O número de pessoas ocupadas sem instrução ou com ensino fundamental incompleto ainda está abaixo do nível pré-pandemia, apesar da recuperação do emprego neste ano, segundo levantamento feito por Janaína Feijó e Paulo Peruchetti, do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (FGV Ibre).

A perspectiva é que a retomada dos setores de comércio e serviços ajude a inclusão da mão de obra menos instruída, mas com salários mais baixos. Outro cenário possível é o reajuste do Auxílio Brasil adiar a reinserção desses trabalhadores no mercado, prevê Janaína.

No levantamento feito a partir de microdados da Pesquisa Nacional por Amostragem de Domicílio (Pnad) Contínua trimestral, os economistas lembram que no primeiro trimestre de 2022, quase dois anos após o início da crise sanitária, o mercado de trabalho brasileiro conseguiu voltar ao patamar anterior à pandemia. Mas a quantidade de trabalhadores com baixa escolaridade ainda não havia retornado ao nível reportado em 2020, segundo o levantamento, publicado no Boletim Macro, do FGV Ibre.

No fim do primeiro trimestre de 2022, o número de menos escolarizados trabalhando era de 20,14 milhões, ante 21,25 milhões no primeiro trimestre de 2020, 5,2% abaixo do nível pré-pandemia. O grupo é o único que não retornou aos patamares do início de 2020. Todos os outros – com ensino fundamental completo, médio completo ou superior completo – recuperaram as perdas decorrentes do choque da covid-19. O percentual de pessoas com menor nível de instrução ocupadas é ainda mais baixo no Sudeste, onde população economicamente ativa é maior.

O desemprego no Brasil no primeiro trimestre de 2020, quando a pandemia chegou ao país, era de 12,4% da população economicamente ativa, segundo a Pnad Contínua. No primeiro trimestre deste ano, chegou a 11,1%, mesmo nível do trimestre final de 2019.

“O que observamos é que na recuperação da pandemia, a partir do segundo semestre de 2021, a atividade econômica vinha puxando a recuperação do mercado de trabalho, mas inicialmente em setores relacionados à indústria, que requerem pessoas mais qualificadas”, afirma Janaína.

“Somente no fim de 2021 e no início de 2022 é que houve aceleração na atividade relacionada a serviços e comércio. Então esses trabalhadores, que conseguem estar alocados em atividades que não exigem alto nível de qualificação, começaram a retornar ao mercado, mas em um patamar ainda abaixo do nível pré-pandemia.”

Mariana Almeida, economista e superintendente da Fundação Tide Setúbal, argumenta que a pandemia reorganizou a estrutura do trabalho, aumentando a distância entre os mais instruídos e os menos. “Foi um choque que acelerou a digitalização. Muitos serviços que não eram prestados de maneira digital agora são. Com isso, é esperado que os menos escolarizados e que têm menor acesso à tecnologia no trabalho tenham mais dificuldade de retomar”, diz.

A crise também acirrou a concorrência no mercado de trabalho, argumenta Ana Tereza Santos, da consultoria IDados. “Temos uma taxa de desemprego muito alta, o que faz a escolaridade ser um fator decisivo na hora de competir por uma vaga”, diz.

“Então um emprego que antes era ocupado por alguém sem escolaridade, agora está sendo pleiteado também por quem tem maior instrução.”

O levantamento do Ibre mostra que o número de trabalhadores ocupados com ensino superior passou de 19,9 milhões no primeiro trimestre de 2020 para 21,3 milhões no primeiro deste ano.

“Desde o último ano, a recuperação heterogênea dos serviços concentrou-se em setores mais intensivos em mão de obra qualificada, como administração pública e informação, comunicação e atividades financeiras, imobiliárias, limitando a geração de empregos para os menos escolarizados, como em setores de alimentação e serviços domésticos”, diz Lucas Assis, da Tendências Consultoria.

Os números do segundo trimestre devem ser divulgados no fim de agosto pelo IBGE. Mas dados recentes da Pnad Contínua de divulgação mensal indicam expansão de postos de trabalho em serviços e comércio e também os voltados para seguimentos de serviços domésticos, o que reforça a expectativa de retorno dos menos escolarizados para o mercado de trabalho.

Notas técnicas – PNAD Contínua: Educação em 2020 e 2021; Características dos domicílios e Características adicionais do mercado de trabalho em 2020 e 2021; Características gerais dos moradores em 2020 e 2021

Foram publicadas, no Portal do IBGE, três Notas técnicas sobre a PNAD Contínua. A Nota técnica 02/2022 tem como objetivo comunicar a suspensão da divulgação do módulo anual de Educação de 2020 e 2021. A Nota técnica 03/2022 informa a suspensão da divulgação dos módulos anuais de Características dos domicílios e de Características adicionais do mercado de trabalho de 2020 e 2021. Por fim, a Nota técnica 04/2022 aborda o uso da 5ª visita para a divulgação dos resultados das Características gerais dos moradores em 2020 e 2021.
 
A íntegra das Notas técnicas pode ser acessada por meio dos links abaixo.
 
Nota 02/2022 – Sobre o módulo anual de Educação em 2020 e 2021
 
Nota 03/2022 – Sobre os módulos anuais de Características dos domicílios e de Características adicionais do mercado de trabalho em 2020 e 2021
 
Nota 04/2022 – Sobre as Características gerais dos moradores em 2020 e 2021
 
   

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