Discriminação Internacional por Nacionalidade

Simon Kuper (FT, 28/07/22) resenhou um novo livro, “Inside Qatar”, o antropólogo John McManus pede a um barista nepalês em Doha para explicar a hierarquia do país no Golfo Pérsico: “Quem está no topo?”, pergunta o escritor. “Os qatarianos, é claro”, responde o barista. “Em segundo, os países europeus e os Estados Unidos. Em terceiro, outros países árabes e nacionalidades.” E embaixo? “Sempre Nepal, Índia, Sri Lanka.” Um escalão pode ter ficado faltando, como McManus sugere: “Todos os guardas de segurança são africanos negros”.

Temos familiaridade com as noções de discriminação de raça e de gênero, mas o que está sendo descrito aqui é uma discriminação pela nacionalidade. Ela se manifesta de sua forma mais crua e descarada no Qatar, em parte porque pessoas do mundo inteiro confluem para o país. Mas ela existe em todas as cidades globais e ambientes de trabalho internacionais. Há uma sobreposição apenas parcial entre a discriminação de nacionalidade e a racial: um americano negro geralmente terá um status maior que um ganense, assim como um sueco terá um maior que um lituano. Essa hierarquia tácita de nacionalidades provoca distorções no rumo de muitas vidas.

A ideia básica é a de que uma nacionalidade é vista como uma habilidade. O escritor Alex Bellos escreve: “A frase ‘jogador de futebol brasileiro’ é como as frases ‘chef francês’ ou ‘monge tibetano’. A nacionalidade expressa uma autoridade, uma vocação inata para o trabalho — qualquer que seja essa habilidade natural”. Um jogador de futebol brasileiro será, portanto, mais valorizado que um mexicano tão bom quanto, enquanto um engenheiro alemão será contratado mais rápido que um guatemalteco.

Cada um de nós é definido, em parte, pela sua marca nacional. Nossa nacionalidade é o primeiro que muitos possíveis empregadores veem em nós. Os acadêmicos Jon Horgen Friberg e Arnfinn H. Midtbøen escrevem em seu estudo sobre os setores noruegueses de hotelaria e de processamento de peixes: “Você está se candidatando a um emprego como recepcionista de hotel? Sua ‘suecidade’ [no caso dos suecos] pode indicar a capacidade de fornecer um serviço amistoso e agradável. Candidatando-se a um emprego como embalador de peixe? Ser lituano assegura aos empregadores que você trabalhará duro e não reclamará de longos expedientes”.

Alguém com a nacionalidade “errada” não consegue galgar facilmente a um cargo correspondente a seus talentos. Um gerente de hotel norueguês contou a Friberg e a Midtbøen sobre uma antiga recepcionista de origem turca: “Ela era aplicada, educada, respondia e-mails e ajudava os hóspedes. Ainda assim, ela nunca recebia nenhum ‘feedback’ positivo dos hóspedes. Então, ela me pergunta: ‘O que há de errado?’. Eu tive que dizer a ela: ‘Quer saber, isso simplesmente não está funcionando. Você faz tudo certo, mas simplesmente é muito próximo e pessoal para você’”. Ele a transferiu para um cargo administrativo.

Outro hoteleiro norueguês explicou como se dava a contratação dos funcionários de suporte técnico, que ajudam a organizar conferências: “Eles precisam ser capazes de tranquilizar as pessoas e inspirar confiança […] Portanto, esses trabalhadores geralmente são noruegueses ou, pelo menos, da Suécia. Tivemos estrangeiros talentosos se candidatando — estudantes universitários da África ou outros —, mas isso criaria incerteza, então não podemos fazer isso.” Esses casos são uma combinação de discriminação racial e de nacionalidade.

Além disso, mesmo quando pessoas de nacionalidades de diferentes status chegam a ter trabalhos idênticos, seus salários podem divergir. Nos mesmos empregos de empresas do setor privado nos Emirados Árabes Unidos, “expatriados ocidentais tendem a ganhar mais do que expatriados árabes, que tendem a ganhar mais do que expatriados do sul da Ásia”, escrevem os acadêmicos Angela T. Maitner e Jamie DeCoster. Os ocidentais, explica McManus, são pagos em parte pela cor de pele e “a capacidade de ‘fingir’ o papel de ‘especialistas’”.

No meu próprio setor, o trabalho de especialista, os homens de um país de alto status — especialmente, até agora, os EUA ou o Reino Unido — são convidados para explicar o mundo. Os homens de um país de baixo status são chamados para explicar o país deles.

As mulheres de um país de baixo status são, na melhor das hipóteses, convidadas a explicar a situação das mulheres em seu país. Dinâmicas semelhantes têm se desenrolado na Ucrânia. Tradicionalmente, eram russos ou ocidentais de países de alto status os que interpretavam o país para o mundo. Mesmo agora, as opiniões ucranianas correm o risco de serem descartadas como parciais ou emocionais.

O historiador Timothy Snyder diz: “Para mim, isso parece uma espécie de imperialismo, quando você diz: ‘Eu posso ver a realidade e você não pode ver a realidade, porque você é [de] um país pequeno e sem importância’”.

As nacionalidades de alto status são valorizadas por sua capacidade de se adaptar bem em locais de trabalho de alto status, mas as nacionalidades de status inferior são valorizadas por sua capacidade de serem exploradas, como os trabalhadores irlandeses costumavam ser na Grã-Bretanha. Aqui temos um gerente de uma fábrica de peixes norueguesa elogiando poloneses e lituanos: “Nunca há nenhuma reclamação se eles precisam trabalhar três horas extras”. No entanto, as hierarquias nacionais podem mudar. À medida que a Polônia se torna mais rica e os imigrantes poloneses se acostumam com a Noruega, eles provavelmente terão mais confiança em reivindicar o direito a dias de licença por doença.

Como se livrar da discriminação de nacionalidade? Assim como acontece com todos os tipos de discriminação, o primeiro passo é reconhecê-la. Qualquer um que recrute mão de obra precisa aprender a reconhecer e corrigir suas suposições inconscientes de que a nacionalidade X é a “adequada” para um trabalho, enquanto a nacionalidade Y não é.

2 thoughts on “Discriminação Internacional por Nacionalidade

  1. Há discriminações intranacionais inclusive no Brasil, onde, por exemplo, um trabalhador da Bahia termina sendo menos valorizado do que um do Rio Grande do Sul.

  2. Republicou isto em Iso Sendacz – Brasil and commented:
    Em países como o Brasil, pessoas jurídicas também podem ser alvo de discriminação por nacionalidade. Parece haver favorecimento de capitais externos no controle das grandes empresas constituídas em solo brasileiro. Um tema correlato, mas distinto do artigo brindado pelo professor Fernando Nogueira.

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