Menos Mises, Mais Keynes

Menos Marx, Mais Mises: Uma Gênese da Nova Direita Brasileira (2006-2018)” é o título de uma tese de Doutorado em Ciência Política, defendida por Camila Rocha, na FFLCH-USP. Inspirou-se no slogan de jovens direitistas, apresentado em cartazes na rua, quando perderam a vergonha existente desde a ditadura militar para se manifestarem.

As ideologias políticas são um conjunto de ideias, crenças, opiniões e valores. Possuem uma relação estreita com a prática política, permeando conflitos existentes na esfera pública em torno do desenho de macro-programas a respeito de políticas sociais e econômicas, os quais mobilizam policymakers e opinião pública.

No caso dos defensores do Estado mínimo, contraditoriamente, buscam se apossar da governança dele para se omitirem diante da calamidade da saúde pública e do desemprego. Cortam orçamento inclusive da Educação Pública, Ciência e Tecnologia!

Misturam, em sua ideologia conservadora, argumentos racionais e não-racionais. São performáticos e “poéticos” nas redes de ódio. Liberalismo, conservadorismo, fascismo, socialismo, comunismo, e outras grandes ideologias, virtualmente, se confrontam como atores políticos antagônicos. Cada qual imputa o nazifascismo ao outro lado.

Camila Rocha destaca existir várias ideologias políticas relacionadas de alguma forma à macroideologia do liberalismo, como o liberalismo político, liberalismo igualitário, o libertarianismo e o liberalismo econômico, as quais podem ser conflitantes entre si. No Brasil, a difusão do liberalismo econômico, chamado de “liberismo”, precedeu a do liberalismo igualitário, como defendem os liberais de esquerda norte-americanos.

O neoliberalismo é a tentativa de reabilitação do laissez-faire econômico, depois de seu fracasso em ultrapassar a Grande Depressão dos anos 30 no século XX. Foi superado pela política econômica keynesiana, até a estagflação dos anos 70, quando este também fracassou em solucioná-la.

Ao contrário do liberalismo laissez-faire, o neoliberalismo defende um papel ativo do Estado como promotor do livre-mercado. Para os adeptos do puro laissez-faire, o Estado não deveria ter papel algum na regulação da economia. Para os neoliberais, o Estado deve atuar ativamente em seu controle, no sentido de criar um aparato jurídico-legal para fomentar o bom funcionamento do livre-mercado.

Por isso, para Camila Rocha, os economistas Milton Friedman e Friedrich Von Hayek podem ser classificados como neoliberais, mas seria mais adequado considerar Ludwig Von Mises um libertariano. O libertarianismo se caracteriza pela defesa radical do capitalismo sem restrições de qualquer tipo, associada a uma defesa moral e política da liberdade dos seres humanos de não serem coagidos uns pelos outros. São defensores de Mais Mises, os anarco-capitalistas, os objetivistas (adeptos de Ayn Rand), os minarquistas, os economistas austríacos e os liberais clássicos.

Os chamados neoliberais, vinculados à Escola de Chicago e por isso chamados de “chicaguistas” – ou “chicagões” pela esquerda –, comporiam uma corrente de pensamento à parte daquelas, componentes do libertarianismo. Os minarquistas criticam todas as instituições estatais, exceto aquelas relacionadas à justiça e à segurança pública. Os anarco-capitalistas defendem a abolição total do Estado, a manutenção da propriedade privada, o livre-mercado e a plena soberania individual.

A adoção de políticas de inspiração neoliberal por economistas Chicago’s Boys, sob o regime militar-ditatorial e genocida no Chile, acabou ganhando uma carga normativa negativa. Por esse motivo (autoimagem versus imagem pública), o termo neoliberalismo passou a ser rejeitado até pelos defensores do capitalismo de livre-mercado. Passaram a se autodenominar simplesmente como liberais, como o fizeram Friedman e Hayek.

Então, ultraliberalismo seria uma ideologia política pró-mercado mais radical em comparação com o neoliberalismo. Aliados com o objetivismo, o minarquismo, o libertarianismo e o anarco-capitalismo, os ultraliberais ressaltam com o adjetivo “ultra” tal radicalidade “pró-mercado”.

Methodenstreit foi a disputa ou a controvérsia sobre métodos epistêmicos da Economia, na década de 80 do século XIX. Ocorreu entre os seguidores da Escola Austríaca de Economia, liderados por Carl Menger (1840-1921), e os proponentes da Escola Historicista Alemã, liderados por Gustav von Schmioller (1838-1917).

A Escola Historicista Alemã sustentava a história ser a única fonte de conhecimento sobre a ação humana e sobre assuntos econômicos. Sendo assim, só com estudo dos padrões, em dados e estatísticas, a Economia poderia formular suas leis e teorias.

A Escola Austríaca de Economia, através de Ludwig von Mises, ainda sustenta a verdadeira questão consistir em definir os fundamentos epistemológicos da Ciência da Ação Humana e sua legitimação lógica. Fica no plano da Ciência Abstrata ou Teoria Pura ao rejeitar tanto o historicismo quanto o positivismo da análise da Mecânica newtoniana no plano menos abstrato da Ciência ou Teoria Aplicada.

Padece do chamado Vício Ricardiano ao desejar saltar do alto da abstração, diretamente, sem nenhuma mediação com outras áreas de conhecimento, para o “chão duro da realidade”. Por isso, não reconhece a inviabilidade social e política de suas proposições de Economia Normativa (o que deveria ser) em lugar da Economia Positiva (o que é). Política econômica tem como pré-requisito Teoria Aplicada e prática política.

Responde von Mises a essa crítica: “ao físico, pouco importa se alguém estigmatiza suas teorias como burguesas, ocidentais ou judias. Da mesma maneira, o economista [austríaco] deveria ignorar a calúnia e a difamação”. Deveria “deixar os cães latirem e não prestar atenção aos seus latidos”. O anticomunista costuma ser intolerante e agressivo – não tem abertura intelectual para um debate franco e plural de ideias.

Na tradição de Carl Menger, a Escola Austríaca se coloca “contra os exageros do pensamento reformista no campo da Economia e, principalmente, contra o socialismo. O individualismo metodológico de Menger e sua crença de suas teorias serem isentas de valores levaram à crença de as instituições e as leis existentes, no capitalismo ocidental, estarem acima de qualquer reforma.

Os esforços reformistas seriam, em sua opinião, estranhos à Ciência e socialmente prejudiciais. O individualismo de sua “Ciência” livre de valores tinha o imperativo moral de defender os interesses econômicos existentes contra os “exageros” dos socialistas.

Embora ambas sejam anticomunistas, a Escola de Chicago adota uma abordagem empírica, enquanto a Escola Austríaca segue uma abordagem racionalista. Afirma sua teoria ser Ciência Pura, isenta juízo de valor, sem qualquer julgamento normativo. Sua Ciência Econômica seria amoral e não se preocuparia com o que deveria ser.

Elas se arrogam de ser a única teoria econômica isenta de valores, capaz de explicar todos os comportamentos, em todas as sociedades, em todos os lugares, e em todas as épocas. Fingir não ter nenhuma opinião ideológica, moral e política, por ser puramente objetiva, trata-se de uma autoilusão ou um artifício para iludir os incautos vulneráveis.

Em geral, elas reduzem todo o comportamento humano a atos de troca. Quando se olha apenas para a troca, sofre-se a ilusão de o capitalismo ser justo e igualitário. Elas mantêm a fé na Lei de Say do automatismo do mercado por a oferta criar a própria demanda – e só o crédito excessivo em relação à poupança o desequilibrar.

Pela emissão excessiva de moeda fiduciária, em política keynesiana de “dinheiro barato”, qualquer instabilidade observada no capitalismo é totalmente culpa do excesso de governo. O culpado final é sempre o governo, não o capitalista, mesmo no caso de empresas monopolistas/oligopolistas dominantes por processo de fusões e aquisições de concorrentes. Se há monopólio, ele é estatal.

Segundo essas escolas reacionárias, o único bem “legitimamente” consumido de modo social, oferecido pelo governo, deveria ser a defesa de direitos de propriedade e do cumprimento dos contratos. Essa segurança pública estaria acima de tudo – e todos.

Os indivíduos podem, de fato, criar externalidades, como poluição e aquecimento climático, porque na realidade vivemos em um mundo social e não em milhões de mundinhos individuais. Daí propõem criar mercados de carbono ou direitos de poluição.

Essas escolas obscurecem as diferenças entre trabalho e capital ou classes sociais. Em sua Teoria Pura, não há trabalhadores e capitalistas, só há indivíduos a fazerem trocas justas. Todas as ações e interações humanas se reduzem a trocas voluntárias, racionais, maximizadoras de utilidade em benefício de ambos os negociadores.

Von Mises usa o termo cataláxia para se referir a essa Ciência das Trocas. Abstrai o fato de alguns agentes da troca terem maior poder de barganha e outros terem de realizar as trocas em posição de fraqueza ou até desespero. Herdadas as “dotações iniciais”, os dois agentes da troca se beneficiariam, isto é, trabalhar por qualquer salário, sob quaisquer condições, seria preferível a morrer de fome…

Publicado originalmente em: https://forum21br.com.br/menos-mises-mais-keynes

Leia mais em:

Fernando Nogueira da Costa – Von Mises e Ciclo de Crédito. agosto 2022

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