Alta dos Juros Norte-americano = Apreciação do Dólar = Depreciação das Demais Moedas Nacionais

Uma conjunção de fatores mantém o dólar nas alturas neste ano. A moeda americana está nas máximas em duas décadas, num cenário que deve se estender ao longo de 2023. O cenário reflete o aperto da política monetária dos Estados Unidos neste momento, mas também a fraqueza de outras divisas.

Segundo relatório do Bank of America (BofA), a moeda dos EUA está em seu momento mais forte desde o início dos anos 2000, em termos nominais, na métrica do índice ICE US Dollar, que compara a divisa dos Estados Unidos com uma cesta de pares globais. Quando se retira a inflação acumulada no período, a cotação atual equivale àquela vista no começo dos anos 1980, diz o banco. Além disso, a última vez em que o dólar esteve tão alto em relação ao iene japonês foi no fim dos anos 1990.

O dólar índice, que reflete o valor da divisa americana em relação a uma cesta de moedas, acumula alta de 13,6% neste ano.

A fortaleza do dólar tem como grande pilar o aumento de juro promovido pelo Federal Reserve (Fed, o banco central americano). A moeda dos EUA está forte em uma visão cíclica e tende a permanecer assim tanto quanto o Fed permanecer no modo ‘hawkish’ [inclinado ao aperto monetário]. Então, nesse sentido, em algum momento, quando o ciclo da política monetária começar a apontar para um afrouxamento, a situação do dólar tende a se normalizar. O problema nessa visão é que existem fatores estruturais na equação.”

A situação dos preços e da disponibilidade da energia, especialmente na Europa, é um componente “mais fundamental e de longo prazo”. O economista acrescenta que o cenário está se consolidando a favor do dólar porque os EUA são um exportador de energia, enquanto Europa e Ásia são importadores. A Capital Economics projeta taxa de US$ 0,95 por euro e de US$ 1,10 por libra no fim de 2022. A casa enxerga ainda um câmbio mais depreciado nos meses seguintes, alcançando uma relação de US$ 0,90 por euro e de US$ 1,05 por libra na metade de 2023.

Com o inverno chegando ao Hemisfério Norte e com o fornecimento de gás russo interrompido, muitos países da zona do euro, em especial a Alemanha, poderão ter de realizar algum movimento de redução de produção para economizar energia. Essa possibilidade de racionamento “é terrível para o euro”.

Isso ocorre quando os EUA têm uma perspectiva de desempenho econômico muito melhor que a do bloco europeu. “Se o Fed terá de restringir a atividade [nos Estados Unidos] para controlar a inflação, a Europa vai restringir porque a demanda vai colapsar”.

Um alívio parcial para o euro, no entanto, tem vindo da política monetária do bloco europeu. O BCE tem deixado claro pretender, ao menos parcialmente, alcançar o Fed, e isso faz uma diferença.

Mas existe um limite sobre o que a instituição pode fazer. O banco central enfrenta dois grandes problemas. Um é o fato de a economia do bloco estar rumando para uma recessão e quão longe pode ir antes que o sofrimento se torne demais. Outra questão é o mercado periférico de títulos de dívida, e se fizeram o suficiente [para evitar uma crise de financiamentos soberanos].”

Em menor medida, o dólar se mantém forte frente à libra esterlina porque o Reino Unido enfrenta também um cenário econômico pior quando comparado aos EUA. “Existe também [na Grã Bretanha] a questão de preços e fornecimento de energia, ainda que em menor grau considerando a União Europeia. O Banco da Inglaterra [BoE, o BC britânico] já está prevendo uma recessão e, nesse ponto, talvez não seja tão agressivo [na perspectiva de aumento de juros para combater a inflação]”.

No caso do iene, o Japão tem juros estruturalmente muito baixos e até negativos. Com a recente elevação dos juros americanos e a mudança no discurso do Fed para um tom mais duro, a divisa nipônica tende a permanecer mais fraca ante o dólar “pelo médio prazo”.

O BC dos EUA tende a puxar a taxa mais para perto de 4% ao ano. “Mas não vejo esse nível prevalecendo no médio e longo prazos, por isso, mais para a frente [quando houver um novo ciclo de afrouxamento monetário nos EUA], diminui a atração do dólar [em relação ao iene].”

O “quantitative tightening” (QT), ou seja, o processo de redução do balanço do Fed, tende a ter influência de alta sobre o dólar. Mas, pondera, é muito difícil avaliar e quantificar qualquer influência do mecanismo sobre a moeda, “uma vez que não há registros na história sobre um enxugamento de balanço dessa magnitude”.

O dólar poderia ainda se fortalecer em um futuro próximo em um cenário de escalada das tensões entre a China e Taiwan. “Em caso de uma invasão chinesa à ilha, a maior probabilidade é de ocorrer uma corrida ao dólar em busca de refúgio. No entanto, no caso de uma guerra [em Taiwan], todo mundo perderia, não importa quem se declare vencedor”.

Ao se esforçar para flexibilizar suas políticas monetárias, Japão e China colocam-se na contramão dos apertos agressivos que vêm sendo realizados no resto do mundo, principalmente nos Estados Unidos e na Europa, o que amplia a divergência na trajetória de suas moedas.

Depois que o presidente do Federal Reserve (Fed, o banco central americano), Jerome Powell, reiterou durante o simpósio de Jackson Hole, no fim de agosto, que continuará apertando os juros até colocar a inflação na meta, o presidente do Banco do Japão (BoJ), Haruhiko Kuroda, veio a público no mesmo evento para dizer que o banco central japonês manterá sua postura de juros baixos, mesmo às custas da desvalorização do iene. A moeda japonesa já perde mais de 30% em um ano, com o dólar cotado a 142 ienes, a menor cotação em 25 anos.

Na China, o banco central tem cortado os juros e a quantidade de reservas cambiais que os bancos precisam manter para evitar uma maior desvalorização do yuan frente ao dólar, em meio a medidas para acelerar a economia, que dá sinais de desaceleração.

Na queda de braço entre Ocidente e Oriente, o dólar se fortalece e acaba afetando países como o Brasil, quanto mais se amplia a divergência de política monetária entre os países. Enquanto esse diferencial se alarga, os países emergentes têm de manter juros altos, depreciando suas moedas e aumentando sua inflação.

“Esses países acabam por estender o ciclo de aperto monetário, desaquecendo suas economias. Além disso, o fortalecimento do dólar coloca pressão na moeda dos emergentes e provoca saída de capital de maneira generalizada, não só em países exportadores de commodities, como também os importadores de commodities, que sofreram um grande impacto em sua conta corrente”.

Desde Jackson Hole, em 26 de agosto, os investidores estrangeiros já sacaram quase R$ 3 bilhões do mercado secundário do B3, dos quais R$ 1 bilhão apenas em setembro, até o dia 2.

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