Efeito Autocrata: Queda do Brasil no Ranking de Liberdade

Gideon Rachman (Financial Times, 22/04/22) avalia: Putin cultivou com sucesso o apoio do conservadorismo no mundo ao denunciar o ‘politicamente correto’. Estilo político ‘antiglobalista’ fincou raízes profundas em todas as regiões do mundo em 20 anos. Pior, a ascensão de Trump nos EUA legitimou política de ‘homens de direita’ até mesmo em democracias maduras do Ocidente.

Poucas semanas antes de a Rússia invadir a Ucrânia, o premiê da Hungria, Viktor Orbán, visitou o presidente Vladimir Putin em Moscou. Enquanto outros encontros de Putin com líderes ocidentais foram tensos e antagônicos, o clima entre eles foi quase festivo.

O governo de Orbán estava no meio de um confronto com o resto da União Europeia (UE) por estar minando a democracia e o estado de direito. “Os tempos são difíceis, mas estamos em muito boa companhia”, disse Orbán na entrevista coletiva após o encontro, arrancando um sorriso de Putin. O húngaro, que é o líder mais antigo no cargo na UE, gabou-se de seus muitos encontros com Putin. “Não pretendo sair”, disse. “Tenho boas esperanças de que poderemos trabalhar juntos por muitos anos.”

A expectativa de Orbán de que continuará comandando a Hungria por muito tempo foi confirmada no início de abril. O partido Fidesz, que ele lidera, venceu as eleições – beneficiando-se de um sistema eleitoral e da mídia que são tão profundamente a favor de Orbán que a Hungria passou a ser considerada um país apenas “parcialmente livre” pela Freedom House, centro de estudos dos EUA.

A eleição na Hungria e seu domínio por Orbán são um lembrete de que o estilo político do homem forte – tão associado a Putin – tem adeptos no mundo todo, inclusive dentro de democracias estabelecidas do Ocidente.

Desde 2000, a ascensão do líder forte tornou-se uma característica da política global. Em capitais tão diversas quanto Moscou, Pequim, Nova Déli, Ankara, Budapeste, Manila, Washington, Riad e Brasília, autointitulados “homens fortes” (e, até agora, todos eles são homens conservadores e autoritários) chegaram ao poder.

Geralmente, esses líderes são nacionalistas e conservadores culturais, com pouca tolerância com minorias, dissidentes ou os interesses de estrangeiros. Internamente, eles afirmam defenderem o homem comum das elites “globalistas”. No exterior, eles se posicionam como personificação de suas nações. E, em todos os lugares que vão, eles encorajam um culto à personalidade.

É possível que a catástrofe da invasão russsa da Ucrânia desacredite o estilo de política do homem forte. Mas essa esperança deve ser vista com cautela pois este é um movimento – e um estilo político – que fincou raízes profundas nos últimos 20 anos.

A era do homem forte começou em 31 de dezembro de 1999, quando Putin tomou posse como presidente da Rússia. É muito simbólico que ele tenha assumido o poder no início do século 21 – pois Putin se tornou o arquétipo de um novo tipo de governante forte que iria reformular a política mundial na geração seguinte.

Nos 20 anos seguintes, o líder russo tornou-se um símbolo importante e até mesmo uma inspiração para uma geração de políticos autoritários que admiram seu nacionalismo, sua ousadia, sua retórica violenta e seu desprezo pelo “politicamente correto”.

Em 2003, Recep Tayyip Erdogan tornou-se premiê da Turquia. Estive com ele pela primeira vez em uma entrevista coletiva em Bruxelas, em 2004, onde Erdogan pressionava pela entrada da Turquia na UE. Quando perguntei se estava preocupado com a oposição à adesão turca, ele deu uma resposta que foi bem ajustada às sensibilidades liberais ocidentais: “Se a UE decidiu ser um clube cristão, em vez de um clube de valores compartilhados, que diga isso agora”.

Dezoito anos depois, a ideia de que Erdogan compartilha de um conjunto de valores liberais com a UE seria considerada absurda tanto na Turquia como na UE. Ao longo dos anos, o hoje presidente turco tornou-se cada vez mais autoritário e antiocidental em sua retórica. Ele prendeu jornalista e adversários políticos e agora comanda seu país de um enorme palácio presidencial construído para ele em Ankara.

Um processo parecido de desilusão ocorreu com Xi Jinping. Quando o conheci no Grande Salão do Povo em Pequim, em 2013, um ano após ele assumir o poder, a mensagem de Xi para um pequeno grupo de visitantes ocidentais foi deliberadamente tranquilizadora. Falando calmamente, com um painel enorme da Grande Muralha da China atrás dele, Xi proclamou: “O argumento de que os países fortes devem buscar a hegemonia não se aplica à China”.

Mas, em um ano, a China começou a construir bases militares nas águas disputadas do mar do Sul da China. Em casa, Xi afastou o país de um modelo de liderança coletiva e encorajou um culto à personalidade em torno de “Xi dada” (tio Xi). A mudança para a liderança de um homem forte foi consolidada quando os limites ao mandato presidencial foram abolidos em 2018 – potencialmente permitindo a Xi governar por toda a vida.

A recusa em deixar o poder é uma marca registrada do governo do homem forte. Putin e Erdogan também mudaram as Constituições de seus países para permanecerem no topo. Donald Trump “brincou” várias vezes que os EUA também

deveriam mudar sua Constituição para permitir que ele governasse por mais tempo do que os dois mandatos presidenciais permitidos. Sua recusa em aceitar a derrota eleitoral levou claramente à tentativa de partidários de Trump de invadir o Congresso dos EUA em 6 de janeiro de 2021.

Líderes fortes querem ser vistos como indispensáveis. O objetivo deles é convencer as pessoas de que só eles podem salvar o país. A distinção entre o Estado e o líder é corroída, tornando perigosa ou inconcebível a substituição do homem forte por um mortal inferior.

A Índia também seguiu o caminho do homem forte em 2014, com a eleição de Narendra Modi, líder do partido nacionalista hindu Bharatiya Janata. Assim como Putin, Modi cultivou uma imagem de machão – alardeando o tamanho de seu peito e sua disposição de usar a violência contra os inimigos da Índia. Durante sua bem- sucedida campanha à reeleição em 2019, Modi assegurou aos eleitores: “Quando você vota no Lótus [o símbolo de seu partido], você não está apertando o botão de uma máquina, e sim apertando um gatilho para atirar em terroristas”.

Os defensores de Modi classificam as críticas a esse tipo de retórica de lamúria liberal. Subrahmanyam Jaishankar, ministro das Relações Exterior da Índia, certa vez me disse com muita firmeza que os críticos internos e externos de Modi tinham que entender a profundidade da relação do premiê com o povo da Índia, que vai além da capital, Nova Déli.

Modi – assim como Xi, Putin e Erdogan – encorajou um culto à sua personalidade. As campanhas eleitorais do partido BJP se concentram em suas reivindicações de sabedoria, força e moralidade pessoal. Como disse Ramachandra Guha, um importante historiador indiano: “Desde maio de 2014 os vastos recursos do Estado têm sido dedicados a tornar o premiê o rosto de cada programa, cada anúncio, cada cartaz. Modi é a Índia, a Índia é Modi”.

Esse estilo de política já foi considerado estranho às democracias maduras do Ocidente. Mas a política do homem forte triunfou nos EUA com a eleição de Trump, que falou da “carnificina americana” e disse na convenção do Partido Republicano em 2016: “Só eu posso consertar isso”.

O poder econômico e cultural único dos EUA fez com que a ascensão de Trump mudasse a atmosfera da política mundial – fortalecendo e legitimando o estilo homem forte e dando origem a uma onda de imitadores. O próprio Trump admitiu que admirava claramente outros governantes fortes e gostava da companhia deles. Antes de uma cúpula com o líder norte-coreano, Kim Jong-un, um dos assessores de Trump me disse, com um sorriso meio tímido: “O presidente gosta de lidar cara a cara com líderes autoritários”. E, de fato, a primeira visita de Trump ao exterior foi à Arábia Saudita, em maio de 2017, onde ele se encontrou com o príncipe herdeiro Mohammed bin Salman, o líder de fato do país.

“MBS”, como ficou conhecido, foi saudado por alguns no Ocidente como o tipo de reformador forte de que a Arábia Saudita precisava – até que o assassinato e o desmembramento do jornalista dissidente Jamal Khashoggi por agentes sauditas chocou os fãs ocidentais do príncipe herdeiro. Quando MBS foi cumprimentado por um risonho Putin na reunião seguinte do G20 (grupo das principais economias globais), a imagem pareceu resumir a impunidade da Era do Homem Forte.

Como resultado desse movimento internacional em direção à política personalizada, ficou mais difícil manter uma linha clara entre os mundos autoritários e democráticos. Tradicionalmente os presidentes americanos traçam uma distinção dramática entre o “mundo livre” (liderado pelos EUA) e os países não democráticos. Mas Trump minimizou essa distinção. Quando foi colocado a ele em 2015 que Putin (que ele havia acabado de elogiar) havia matado jornalistas e políticos adversários, Trump respondeu: “Acho que nosso país também mata muito”. Como presidente, ele comentou com o jornalista Bob Woodward: “Me dou muito bem com Erdogan. Quanto mais duros e malvados eles são, melhor me dou com eles”.

A ausência de uma linha clara entre a liderança nos sistemas democráticos e autoritários tem sido um objetivo fundamental dos autoritários há décadas. No começo do longo reinado de Putin na Rússia, conheci seu porta-voz, Dmitry Peskov, no Kremlin. O protetor de tela do computador de Peskov era uma série de citações giratórias do livro “1984” de George Orwell – “guerra é paz”, “liberdade é escravidão” e assim por diante. Quando perguntei a Peskov sobre alguns dos então recentes atos repressivos de Putin, ele respondeu sorridente que “todos os nossos sistemas são imperfeitos”.

O discurso de Trump parecia confirmar essa posição russa e chinesa de longa data. Ali estava um presidente americano disposto a dizer: nós também mentimos, nós também matamos, nossa imprensa é falsa, nossas eleições são fraudadas, nossos tribunais são injustos e desonestos.

Como Putin foi o arquétipo de muitos governantes fortes que o seguiram, as consequências de seu sucesso ou fracasso serão verdadeiramente globais.

Líderes fortes frequentemente justificam seus modos implacáveis retratando seus países em crises tão profundas que eles não podem mais se dar ao luxo de respeitar ideias liberais, como o estado de direito. Os homens fortes também sempre jogam com o medo profundo de que uma maioria dominante está prestes a ser destituída – sofrendo perdas culturais e econômicas enormes no processo.

O BJP de Modi alertou para uma “jihad do amor” – um suposto complô muçulmano para corroer o status da maioria hindu da Índia por meio de casamentos interreligiosos. Orbán disse que a migração em massa representa uma ameaça à própria sobrevivência do povo húngaro. A possibilidade de os EUA se tornarem uma “minoria majoritária” até 2045 ajudou a alimentar a ansiedade social e racial que levou à ascensão da Trump.

A disposição de “ser duro” com os estrangeiros – ou grupos minoritários, como migrantes ou muçulmanos – é parte integrante do apelo dos homens fortes. Sua postura machista também os torna propensos a apelar para ideias tradicionais de força masculina e desprezo pelo feminismo e pelos direitos LGBT.

Putin cultivou com sucesso o apoio dos conservadores no Ocidente ao denunciar regularmente o que chama de loucuras do “politicamente correto” – com um foco particular nos direitos dos gays e no feminismo. Quando, em 2019, perguntei a Konstantin Malofeev, um dos ideólogos do putinismo, o que ele classificava como essência do liberalismo ocidental, ele respondeu: “A inexistência de fronteiras entre os países e a não distinção entre homens e mulheres”.

Mas provavelmente o laço mais forte entre todos os líderes fortes é o do nacionalismo nostálgico. De diferentes maneiras, quase todos usam variações da famosa promessa de Trump de “tornar os Estados Unidos grandes novamente”. A promessa do presidente Xi de “um grande rejuvenescimento do povo chinês” é, essencialmente, a promessa de tornar a China grandiosa novamente, restaurando sua posição legítima de Reino do Meio. Modi lidera um movimento nacionalista que apela para o orgulho hindu de um passado glorioso e às vezes mitificado – antes dos impérios britânico e mughal.

Orbán fala em um dia recuperar os territórios que a Hungria perdeu depois da Primeira Guerra. Erdogan busca inspiração nas glórias do Império Otomano, que colapsou também após a Primeira Guerra. Até mesmo no Reino Unido, o plano de Boris Johnson para um “Reino Unido Global” baseia-se na nostalgia do período em que o país era uma potência imperial, em vez de apenas mais um membro do clube europeu.

No entanto, a expressão mais perigosa do nacionalista nostálgico veio do próprio homem forte original: Putin. A invasão da Ucrânia foi a culminação lógica de muitos dos piores aspectos do governo dos homens fortes: o apelo a uma suposta emergência nacional que justifica uma ação radical; a veneração da força e da violência, o desprezo pelo liberalismo e pelas leis; e o governo personalizado que anula as críticas e conselhos contrários.

Como Putin foi o arquétipo de muitos governos de homens fortes que o seguiram, as consequências de seu sucesso ou fracasso serão verdadeiramente mundiais. A resposta do Ocidente à invasão da Rússia à Ucrânia foi mais rápida e mais forte do que Putin provavelmente esperava.

Isso, combinado com as dificuldades militares da Rússia, aumentou as esperanças de que ele e o estilo homem forte que ele representa possam ser permanentemente desacreditados pela guerra na Ucrânia. Quando mais tempo um governante forte estiver no poder, maior é a probabilidade de ele sucumbir à paranoia ou à megalomania.

Essas esperanças são legítimas. Mas deve-se notar que outros membros do clube internacional dos homens fortes têm permanecido cuidadosamente neutros na guerra – recusando-se a condenar Putin e evitando o esforço de sanções internacionais. Entre os que estão em cima do muro encontram-se Modi na Índia, Jair Bolsonaro no Brasil, MBS na Arábia Saudita e até mesmo Trump, que elogiou Putin como gênio estrategista às vésperas da invasão.

O aliado mais importante de Putin é Xi, que se encontrou com o líder russo em Pequim poucas semanas antes da invasão da Ucrânia. E depois há Orbán. O líder húngaro concordou com as sanções da UE à Rússia. Mas foi acusado por Iryna Vereshchuk, vice-premiê ucraniana, de bloquear fornecimentos de armas para a Ucrânia e de buscar uma posição “abertamente a favor da Rússia”. Vereshchuk chegou até mesmo a especular que Orbán poderia ter seus próprios projetos em território ucraniano e “sonhar em silêncio com a nossa Transcarpátia [região do oeste da Ucrânia que já foi parte do Império Austro-Húngaro]”.

Esses tipos de preocupações refletem o fato de que o governo do homem forte historicamente sempre esteve associado de perto à violência, conquista e anarquia internacional. A era do homem forte dos anos 30 viu Mussolini, Franco, Stálin e Hitler lançarem suas nações em guerras mundiais.

Putin agora está repetindo esse padrão mortal. Sua invasão da Ucrânia finalmente provocou os EUA e a UE a tentarem lutar contra o autoritarismo dos homens fortes. A exortação de Joe Biden, “Pelo amor de Deus, esse homem não pode permanecer no poder”, foi muito criticada. Mas reflete a crença frequentemente expressada do presidente dos EUA de que o mundo está mais uma vez envolvido em uma luta entre a autocracia e a democracia que vai definir uma era.

Há boas razões para acreditar que o mundo democrático liberal acabará prevalecendo. O governo do homem forte é um modelo inerentemente falho. Ele não consegue lidar com o problema da sucessão e carece dos freios e contrapesos que permitem às democracias abandonar políticas e governos fracassados. Quanto mais um homem forte fica no poder, maior a possibilidade de ele sucumbir à paranoia ou à megalomania. A decisão de Putin de atacar a Ucrânia exemplifica esse perigo.

Mas é muito difícil tirar os homens fortes do poder. A Era do Homem Forte se manteve ao longo de uma geração. Poderá haver muito mais turbulências e sofrimento antes de ela ser relegada à história.

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