Posto Ipiranga privatizou Posto Petrobras

A visão em curto prazo dos defensores do neoliberalismo – desincrustação do mercado da sociedade – coloca a maximização de lucro como o objetivo imediato da direção atual da Petrobras. Com essa miopia dos acionistas, ela se tornou a empresa da América Latina com maior valor de mercado, avaliada em US$ 70,6 bilhões ou R$ 401 bilhões.

O número absoluto em si pode impressionar aos leigos caso não seja relativizado comparativamente. A AEPET – Associação de Engenheiros da Petrobras, especialmente através dos artigos do Felipe Coutinho, postados em seu site, permite informações balanceadas sobre os acontecimentos recentes na empresa sob equivocada estratégia.

Elas evidenciam estar havendo uma distribuição de dividendos desproporcional face à necessidade de decisões de investimentos com efeitos em longo prazo. Os resultados históricos demonstram não ser possível sustentar lucros no futuro sem investimentos.

Esta má governança atual da Petrobrás maximiza a distribuição de lucros aos acionistas em vez de constituir reservas para autofinanciamento. Privilegia o ajuste fiscal do Tesouro Nacional ao custo da redução do Estado brasileiro ao mínimo, tornando-o inoperante na retomada de um crescimento sustentado em longo prazo.

Fica esse erro evidente ao comparar as políticas de investimentos e de distribuição de dividendos das grandes companhias petrolíferas integradas. A Petrobrás, apesar de ter a menor receita entre as seis empresas – US$ 59,7 bilhões contra US$ 199 bilhões da Exxon Mobil, US$ 186 bilhões da Shell, US$ 134 bilhões da Total, US$ 123 bilhões da Chevron, US$ 121 bilhões da BP – pagou o maior montante em dividendos até o 2º trimestre de 2022: US$ 12 bilhões contra, respectivamente, US$ 7,5 bilhões, US$ 3,8 bilhões, US$ 1,8 bilhão, US$ 5,5 bilhões e US$ 2,1 bilhões. Ao privilegiar os acionistas em detrimento do bem comum, a brasileira realizou o menor investimento líquido, apenas 11% em relação à média das demais.

A relação entre os dividendos pagos e os investimentos líquidos demonstram, claramente, como a política da atual alta direção da Petrobrás é discrepante em relação à gestão das grandes petrolíferas mundiais. A relação da Petrobrás é 25 vezes superior à média praticada pelas outras petrolíferas!

É um crime lesa pátria vender ativos rentáveis, estratégicos e resilientes à eventual queda do preço do petróleo, gerando receitas não recorrentes, ou seja, propiciadoras de fluxo de caixa apenas em dado momento, once for all (uma vez por todas). Os valores dessas privatizações não possuem uma relação direta com os lucros das operações da empresa, e por este motivo não se repetem no futuro. Mesmo assim, irresponsavelmente, são distribuídos na forma de dividendos.

Entre 2015 e 2021, foram vendidos mais de US$ 40 bilhões em ativos da Petrobrás. O segmento de Refino, Transporte, Comercialização e Distribuição teve mais de US$ 23 bilhões em ativos privatizados. Eram ativos rentáveis e estratégicos, porque seriam geradores de receita, quando os preços do petróleo entrarem em ciclo de baixa.

Tem de se “precificar” isso! Em valores atualizados pela inflação até julho de 2022, pela AEPET, o preço médio do petróleo Brent, entre janeiro e julho de 2022, foi de 104,79 US$/bbl, 45% superior à média entre 1990 e 2021 (72,03 US$/bbl), ou seja, fora da curva.

Os preços conjunturalmente altos do petróleo deveriam ser usados não para distribuição de dividendos, de acordo com a política imprudente adotada pela alta direção da Petrobrás em 2021 e 2022. Deveriam sim, em um projeto nacional consistente com o desenvolvimento socioeconômico, fazer reservas de lucros para o autofinanciamento dos investimentos necessários.

Ficou evidente para os eleitores lúcidos a manipulação eleitoreira dos preços dos combustíveis pela atual direção da Petrobrás. Faz transferência de recursos públicos para os acionistas privados, detentores de 63,25% do capital total da Companhia Aberta.

Até 1995, o Governo Federal detinha 84% do seu capital social. No Governo FHC, vendeu 36% das ações na Bolsa de Nova Iorque por um preço irrisório.

Voltou ao controle estatal majoritário, no Governo Lula, com a capitalização feita por conta da Cessão Onerosa, quando vendeu sete blocos para a Petrobras explorar. Agora, no Governo Bolsonaro, voltou para 36,75%.

Em consequência, 63,25% desse lucro derivado de venda de ativos e combustíveis com preços com paridade internacional (sujeitos à volatilidade cambial e da cotação da commodity) à custa dos consumidores brasileiros, sofrendo com a inflação importada, é distribuído para acionistas privados. Cerca de 42% deles são acionistas estrangeiros, especuladores na Bolsa de Nova Iorque.

Fernando Siqueira da AEPET comprova: nos países onde se tem monopólio estatal, todos os preços são inferiores aos da Petrobras (US$ 1,20) – variam de US$ 0,01 na Venezuela a US$ 0,72 na Rússia, ficando Irã, Angola, Kwait, Malásia, Iraque, Catar, Arábia Saudita nessa faixa. Nos países onde se tem concorrência privada, todos os preços são muito superiores aos da Petrobras: de US$ 1,34 no Canadá a US$ 2,28 na Holanda.

Então, quando o presidente passageiro, depois de fazer um discurso eleitoral no enterro da Rainha da Inglaterra, foi a um posto de gasolina propagandear o preço do litro da gasolina lá estar em US$ 1,96, mais uma vez, ele fez propaganda enganosa para eleitores desinformados. Na verdade, o preço da Petrobrás está acima de todos os preços das estatais monopolistas e abaixo do cobrado em todos os países onde o Estado não detém o monopólio.

Portanto, ao privatizar a Petrobrás aos pedaços, como fazem seus prepostos, os preços dos combustíveis vão subir, ao contrário do dito por ignorantes neoliberais como seu “Posto Ipiranga”. Por conta da ideologia desse preposto, vendeu os Postos Petrobras!

1 thought on “Posto Ipiranga privatizou Posto Petrobras

  1. Republicou isto em Iso Sendacz – Brasil and commented:
    Note-se que também nesse quesito o Brasil vai contra a tendência internacional: paga aos acionistas um dividendo muito maior, em termos absolutos e em relação à receita, que o cartel da “cinco irmãs” (aquelas que já foram sete).
    Mais de 40% deles vão diretamente para o estrangeiro. A parte do governo, ao contrário do que se espera, costuma ser “aplicada” no pagamento de mais juros, para evitar bolhas de liquidez, como costuma dizer o presidente do BCB.
    E o investimento da estatal é de apenas 11% da média da concorrência, sustentando uma drenagem de curto prazo, paga pelo consumidor brasileiro, em detrimento dos resultados recorrentes que poderiam ser obtidos no futuro.
    A Petrobrás merece e precisa de uma gestão comprometida com o interesse nacional.

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