Fortunas para Herdeiros

Adriana Cotias (Valor, 18/10/22) informa: em meio à expectativa de um movimento recorde de transferência de riqueza dos “baby boomers” para as novas gerações nos próximos anos, um mapeamento feito pelo UBS globalmente mostra que os donos das fortunas não parecem estar plenamente preparados para uma sucessão patrimonial bem sucedida.

No Brasil, alguns pontos parecem mais marcantes, com fatores emocionais e culturais pesando nessa transição. O grupo suíço ouviu 4,5 mil investidores nos Estados Unidos, América Latina, Europa e Ásia.

As estimativas são de que os nascidos entre 1946 e 1964, no pós-guerra, e a geração anterior, entre 1928 e 1945, a “silent generation”, que cresceu no período da guerra e da depressão, transfiram algo entre US$ 30 trilhões e US$ 68 trilhões quando falecerem, segundo artigo do professor Joseph Coughlin, diretor o laboratório de longevidade do Massachusetts Institute of Technology (MIT), na “Forbes”.

Enquanto os dados consolidados pelo UBS trazem que quatro em cada dez entrevistados não têm um testamento atualizado ou planejamento sucessório, no Brasil, os percentuais são de 45% e 47%, respectivamente. Em comparação, nos Estados Unidos, só 32% não oficializaram como desejam fazer a transferência dos seus bens. Os herdeiros brasileiros sequer sabem onde estão os ativos, segundo a resposta de 52% dos participantes, ante 49% nos números totais.

Entre as lideranças dos grupos familiares que planejaram a distribuição da herança, 65% delas no Brasil disseram ter otimizado tributariamente o processo, em comparação a 71% nos números consolidados – percentual que sobe para 76% nos Estados Unidos.

Dividir justamente o patrimônio é uma tarefa árdua para 82% dos brasileiros ouvidos, percentual que ficou em 66% nos dados agregados e em 48% nos EUA. Quando se questiona por que certos herdeiros devem ganhar uma fatia maior do bolo, a proximidade nos cuidados (92%) e afinidade de valores (87%) são os fatores que mais influenciam na escolha dos brasileiros ricos. No Japão e nos EUA, 58% dão importância a isso.

“A barreira de comunicação aparece em todos os países, os pais não sabem como tocar no assunto, consideram deprimente, e os filhos não querem puxar a conversa para não parecer gananciosos”, diz Ana Browne, gestora de patrimônio do UBS Consenso. “As famílias que sentam para conversar conosco não vêm perguntar sobre isso, é preciso instigar.”

O efeito colateral é que famílias que não fizeram o planejamento adequado enfrentam disputas por um bem ou outro, com uma parcela de 56% no Brasil afirmando que teve algum tipo de conflito, percentual que cai a 24% nos Estados Unidos e a 14% no Japão.

“Meu pai faleceu e tivemos o desafio de encontrar documentos. Demorou vários meses para resolver a situação da herança, que envolveu muita burocracia”, afirma uma das herdeiras brasileiras entrevistadas, conforme depoimento destacado no relatório global.

Tanto os donos originais da riqueza quanto os herdeiros concordam que uma comunicação mais aberta seria o passo para uma divisão bem sucedida. Ambos os grupos concordam que essa conversa deveria ser iniciativa dos pais.

Para driblar vieses emocionais e culturais, o UBS adotou no início de 2020 uma abordagem que divide o patrimônio em três caixas: liquidez, longevidade e legado. Na primeira, entram os recursos necessários para o custeio da família nos três anos seguintes. Na longevidade, a parcela necessária para o resto da vida, com foco em preservação do patrimônio. Na última entra aquilo que é destinado à próxima

geração, que pode comportar investimentos ilíquidos e que estejam conectados com propósitos da família. Browne diz que temas como segurança cibernética, inteligência artificial, energia limpa, educação, saúde e meio ambiente aparecem entre as preferências.

Segundo a executiva, a metodologia ajudou as famílias a atravessarem uma sequência de crises, desde a pandemia, com a escalada inflacionária e a volatilidade trazida pelos ciclos de alta de juros e queda das bolsas. Ela estima que 80% dos clientes do UBS Consenso no Brasil sentaram para fazer tal diagnóstico – a sondagem feita globalmente foi com investidores de maneira geral, não apenas do banco.

A sua leitura é que a menor eficiência tributária na transferência de riqueza, identificada entre os brasileiros, tem relação com a falta de planejamento. Mas, com o fim do processo eleitoral, temas como taxação de fortunas, dividendos e a extensão do “come-cotas” para os fundos fechados voltam à pauta.

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