Lições Históricas de 1720

Jairo Saddi, Doutor em Direito Econômico pela USP. Pós-Doutorado pela Universidade de Oxford. Bacharel em Direito pela FDUSP. Administrador de Empresas pela FGV-SP, publicou coluna (Valor, 09/01/23) sobre o ano marcante de um dos eventos precursores e frequentes dos tempos atuais: a crise financeira.

Poucos se lembram de que o ano de 1720 marca um dos eventos precursores e frequentes dos tempos atuais: a crise financeira. Foi naquele ano que os mercados de Londres, Paris e Amsterdam (e, com menor impacto, Hamburgo e Lisboa) sofreram um colapso global em razão, principalmente, da South Sea Company, companhia aberta fundada em 1711.

Nascida com o objetivo de financiar a dívida pública da Inglaterra (então de quase incalculáveis £ 9 milhões), que estava em guerra com Espanha e França, Robert Harley, ministro das finanças, e seu aliado e arquiteto de todo o esquema, John Blunt, propuseram uma consolidação da dívida mediante a dação de ações da nova companhia, outorgando-lhe, em troca, o monopólio do comércio com as colônias espanholas na América do Sul, inclusive do desumano tráfego de escravizados, em 1713, fruto do Tratado de Utrecht. Curiosamente, essa foi uma das primeiras PPPs de que se tem notícia.

Tudo começou com lojas de café. No começo do século, passaram a existir mais de dois mil desses estabelecimentos, verdadeira revolução dos hábitos sociais e gastronômicos, e foi nesses locais que muitos wits (acadêmicos, cientistas e intelectuais) se juntavam a comerciantes e negociadores para discutir temas da conjuntura política e econômica. Verdadeiros centros de informação, os cafés tornaram-se palco de transações individuais e foi no Lloyd’s Coffee House, em Londres, que, em 1691, Edward Lloyd deu início à sua lista de chegadas e partidas de navios cargueiros. Outro personagem relevante nesses cafés foi Thomas Mortimer, escritor que se tornaria muito popular com seu livro “Every Man His Own Broker”, em que afirmava, sem rodeios, que informações e comentários sobre o mercado acionário obtidos em tais cafés podiam deixar qualquer um rico.

Como consequência desse cenário, o jornalismo cresceu. Londres pode ter tido até 55 edições semanais de jornais com tiragens de cerca de 40 mil exemplares. Considerando a população londrina à época, de cerca de 674 mil habitantes, e talvez um multiplicador de leitores na ordem de 6 a 8 vezes, Richard Dale conclui em sua obra seminal sobre o tema – “The First Crash. Lessons from the South Sea Bubble”, Princeton University Press, 2004 – que uma boa parte da população adulta estava a par dos acontecimentos, ainda que negasse os fatos.

Archibald Hutcheson, membro do parlamento inglês por Hastings, advogado e autodidata em economia – e talvez o pai da análise de investimentos – foi o primeiro a entender que havia divergências gigantescas entre os preços pagos pelo mercado e os fundamentos reais da companhia. Suas premonições, como sempre acontece em casos análogos, foram ridicularizadas até que a inevitabilidade do crash ocorreu.

O frenesi especulatório com a negociação das ações fez com que seu preço passasse de £ 128 em janeiro de 1720 para £175 em fevereiro, £ 330 em março e £ 550 ao final de maio. Em junho, a ação estava cotada a £ 890 e, em agosto daquele fatídico ano, chegou a £ 1.000. Nada resume melhor a situação que a definição apócrifa publicada em um dos jornais londrinos: “a South Sea Company é uma empresa que tem como missão realizar um empreendimento de grande e importante proveito, mas ninguém sabe exatamente o que é”.

Quando surgiu a original ideia de dar crédito exclusivamente para a compra de ações da South Sea (o que é atualmente conhecido com margin loan), as ações começaram a despencar com a pressão vendedora; afinal, era preciso vendê-las para honrar seus compromissos. Como resultado prático, em setembro, as ações já valiam menos de £ 100.

A crise de 1720 não se agravou apenas por causa da South Sea Company. Muitas outras emissões de ações em outras praças sucumbiram, sendo a Mississippi Company de John Law, na França, o melhor exemplo. Aliás, o empreendimento de Law serviu como inspiração para o modelo de alavancagem da South Sea Company.

Há dois fatos reais que distorcem a análise da South Sea para além da especulação bursátil. O primeiro é a conversão da dívida pública em perpetuidades muito além do que o próprio empreendimento poderia gerar, pela interferência nefasta estatal, que gerou benefício direto ao Tesouro por redução de seu serviço de dívida.

O segundo fato importante, também relacionado ao Estado, é o papel do Legislativo. Em fevereiro daquele fatídico ano, John Hungerford, membro do Parlamento, mais tarde acusado de corrupção passiva, argumentou que companhias que levantassem recursos do público em geral não poderiam atuar fora de seus objetos sociais, caso da South Sea e da sociedade de Blunt, Hollow Sword Blade Company. O resultado do conchavo político foi a promulgação do Royal Exchange Assurance Act em que tais companhias pagaram £ 300.000 pelo privilégio da autorização, afastando qualquer concorrência e dando a (pretensa) certeza da eternização de um negócio sem bases na realidade.

Em setembro daquele ano, o inevitável colapso aconteceu. Banqueiros e ourives que haviam emprestado a muitos para participar da ciranda das ações sofreram pesada inadimplência e foram à bancarrota. Uma das consequências foi o aumento de 40% no índice de suicídios em Londres.

O recém nomeado First Lord of the Treasury, Robert Walpole, conseguiu salvar o rei (e mesmo a dinastia dos Hanovers…) e sua amante das acusações de fraude, de uso de informação privilegiada e da prática de transações ilícitas e restabeleceu a confiança no sistema financeiro, honrando a dívida do Estado e processando todos os administradores da South Sea.

Logo, em 1721, as ações nada valiam, ainda que a South Sea tenha sido reorganizada e reestruturada e duraria até 1830. A dívida pública havia crescido cerca de oito vezes. Sir Isaac Newton, que pode ter perdido £ 20.000 na bolha (equivalentes hoje a £3,68 milhões), advertiu, em resumo, sobre o ano de 1720: “Eu posso até calcular o movimento dos astros, mas não a loucura dos homens”.

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