Perfil da Massa de Manobra da Extrema-Direita

Ilustração Miguel Paiva

Assisti, no HBO Max, o documentário (150 minutos) “O Ataque ao Capitólio”. Mostra imagens detalhadas dos violentos confrontos com policiais, ocorridos em 6 de janeiro de 2021, quando uma turba da extrema-direita norte-americana invadiu o Capitólio dos Estados Unidos. Inclui entrevistas com membros do Congresso e dos invasores, além de relatos exclusivos de jornalistas, policiais e socorristas.

É muito impactante emocionalmente o recordar, face ao distanciamento histórico de dois anos e à proximidade temporal da repetição tupiniquim. Ambos foram instigados pelo não reconhecimento da derrota eleitoral pelos presidentes da República. Lá como cá, os populistas de direita não foram reeleitos e, em vez de assumir sua incompetência governamental, instigaram um quebra-quebra no Poder Legislativo.

“A história se repete, a primeira vez como tragédia e a segunda como farsa”, escreveu Karl Marx no livreto “Dezoito Brumário de Louis Bonaparte”, publicado em 1852. Talvez não existam palavras mais apropriadas para nomear o vandalismo na Praça dos Três Poderes em Brasília.

Farsa é uma modalidade burlesca de peça teatral, caracterizada por personagens e situações caricatas”. O burlesco provoca riso ou zombaria por extravagância ou ridículo.

Causa riso a caricatura de, no caso, uma revolta de um segmento social imaginada como fosse uma revolução. Os extremistas de direita deram-na um tratamento grotesco.

A palavra “burlesco” é de origem italiana. Deriva da palavra burla, com significado de “piada”, “ridículo” ou “zombaria”. Há inúmeras gravações, em vídeos encontrados no YouTube, com as cenas risíveis dos chamados “patriotários”.

Vejo-os e, logo, indago mentalmente: qual é o perfil socioeconômico dessa gente? Em suas aparências – veja em https://www.instagram.com/contragolpebrasil/ –, de imediato, vem a primeira impressão preconceituosa: como são feios! E ainda fazem caretas ou poses para as câmeras! Mas eles não se enxergam assim por causa do exacerbado narcisismo: amor pela própria imagem.

Esse transtorno de personalidade inclui opinião muito elevada sobre si mesmo, necessidade de admiração, crença de as outras pessoas (“de esquerda”) serem inferiores. Falta-lhes de empatia pelos outros: os pobres negros ou os povos originários.

Mas quem são, hein? Não sou sociólogo, nem tampouco psicólogo, mas como economista busco o conhecimento desses profissionais, tão necessário para entender a realidade de maneira transdisciplinar. Economicismo é a pressuposta determinação direta da política pela economia.

José de Souza Martins, sociólogo, professor emérito da Faculdade de Filosofia da USP, escreveu em sua coluna semanal do Valor (Eu & Fim de Semana): “A identificação dos presos em Brasília, no dia 8, faz revelações da maior importância para definir e compreender o perfil social dos envolvidos. É gente de baixa classe média, não só pelos recursos minguados da maioria visível, mas também pela ignorância sobejamente demonstrada no ataque aos palácios como se fosse ataque ao novo governo. Governo não é um prédio nem uma parede, assim como democracia não é baderna”.

Para ele, a diferença cultural e o poder da ignorância ficaram claros na mutilação e na destruição de obras de arte. Sequer examinadas, foram danificadas com ódio. Os baderneiros não viam nelas utilidade, uma categoria central na mentalidade dos toscos.

O esnobismo no caso é justificado, pois as obras de arte são expressões da civilização, não reconhecidas pela malta inculta. Nos quartéis, onde boa parte dos machos alfa prestaram serviço militar obrigatório, não se encontra arte ou cultura, só violência. A multidão ensandecida se comportou como serviçal da caserna.

Em 1976, o diretor Ettore Scola dirigiu um filme, onde traça um retrato tragicômico e grotesco da decadência moral de uma família italiana de classe média baixa. Tem um título apropriado para os protagonistas do episódio de 8 de janeiro de 2023 no DF: “Feios, Sujos e Malvados”. No filme, um patriarca italiano luta para preservar a dignidade de sua família, apesar de sua vida miserável.

Uma contumaz análise sociológica de marxistas aponta a base social do fascismo como sendo a pequena-burguesia e/ou a camada média, enquanto a do comunismo é a classe operária. Estaria na natureza daquela aspirar o sucesso pecuniário da grande burguesia e repugnar sua decadência, sentida ao se igualar ao proletariado em ascensão social.

Nesse movimento golpista contra a vitória do partido de origem trabalhista, graças aos votos dos mais pobres com renda abaixo de 2 salários-mínimos, a decadente pequena-burguesia interiorana e/ou ruralista, hoje “classe média baixa” da faixa de 2 a 5 salários-mínimos, é enganada como massa de manobra dos oportunistas. Um bilionário norte-americano, especulador imobiliário, e um milionário brasileiro, expulso do exército e enriquecido com o desvio de verba pública destinada a pagar assessores parlamentares, dominam corações e mentes da ensandecida turba de extrema-direita.

Lá, nos Estados Unidos, os “patriotários” gritavam freneticamente “USA! Trump!” e enfrentavam a polícia em corpo a corpo com poucos tiros, embora 2 policiais e 4 terroristas tenham sido mortos. Aqui, em Terrae Brasilis, gritavam “Quebra! Quebra!”. Investiam com ódio contra objetos inanimados, sem alma nem vida, como vidros, móveis, extintores de incêndio e obras de arte, mas só tinham coragem de enfrentar os poucos policiais quando os isolava. Aí a violenta covardia coletiva predominava.

Entretanto, o imaginário de ambos era estarem fazendo uma revolução popular. Lá muitos faziam alusões a 1776, a Guerra da Independência vista como revolucionária. Aqui muitos se filmavam e faziam selfies, oferecendo provas contra si na rede social. O orgulho besta de invadir Palácios ou Câmaras, onde nunca estiveram antes – e se comportarem de maneira vulgar, grotesca e destrutiva – foi comum nos dois eventos.

Alguns autores de obras clássicas foram consultados em busca de delinear o perfil cultural e psicológico desses terroristas de extrema-direita. Por exemplo, Gustave Le Bon (1841-1931) desenvolveu a visão de multidões não serem a soma de suas partes individuais. Dentro delas emerge uma nova entidade psicológica, cujas características são determinadas pelo “inconsciente coletivo”.

Há uma “influência magnética dada pela multidão”. Ela transmuta o comportamento de cada indivíduo até ele ser governado pela “mente grupal”. Rouba de cada membro individual suas opiniões, valores e crenças.

Três processos-chave criam a multidão psicológica: anonimato, contágio e sugestionabilidade. O anonimato proporciona aos indivíduos racionais um sentimento de invencibilidade e perda de responsabilidade pessoal. Eles se tornam primitivos, irracionais e odientos. Essa falta de autocontrole os permite ceder aos impulsos instintivos primitivos.

O contágio refere-se à disseminação na multidão de comportamentos antissociais, quando indivíduos se subordinam a pseudo interesse coletivo. A sugestionabilidade ocorre por a multidão se aglutinar em uma mente coletiva singular. Sugestões feitas por Trump e Bolsonaro criaram um espaço para o inconsciente guiar seu comportamento.

Nesse estágio, a multidão psicológica se torna homogênea e maleável a sugestões de seus líderes. Estes são pessoas meio perturbadas, nervosas e mórbidas, beirando à loucura, devido à perda de poder com o irremediável fracasso na tentativa de reeleição.

O escritor e pacifista israelense Amós Oz (1939-2018) possuía “expertise em fanatismo”. Atribuiu sua expansão, entre outros fatores, à renúncia ao ato de pensar e refletir. Quanto mais complexas as questões, mais as pessoas anseiam por respostas simples.

O fanático acredita: se alguém for contra seu interesse, ele deve ser extinto. Não à toa, o movimento do extremismo bolsonarista se prolifera nos segmentos policial e militar e no fundamentalismo evangélico. Os crentes ignorantes com rejeição à ciência e à educação formal, apoiam-se apenas nas suas redes sociais com viés de validação.

Embora seja um movimento integrado à extrema direita internacional, a fórmula de combate ao fanatismo sugerida pelo pacifista, segundo a leitura de Andrea Jubé, combina humor, ceticismo e argumentatividade. Oz afirma: fanáticos não têm senso de humor porque o humor corrói as bases do fanatismo, e a curiosidade o agride ao trazer à baila o risco dos questionamentos e da eventual descoberta de suas respostas estarem erradas. Reunindo-os com imaginação, é um medicamento lento e gradual, mas eficaz.

Eric Fromm explicaria a atração dos idosos pelo bolsonarismo, segundo Rudá Ricci. Deixa claro por qual razão a violência grupal, em meio a uma “guerra santa” contra inimigos imaginários (“comunistas”), é tão excitante para pessoas depressivas com uma vida pacata em rotinas entediantes.

Com o avanço da idade, elas se percebem em situação progressivamente marginal, inclusive, em termos econômicos, sociais e de sociabilidade. Trata-se, assim, de um segmento social afetado aos apelos para a revolta pública, se jogando no turbilhão das ações extremistas como protagonistas. Ressentimento e revolta se misturam às demonstrações de força selvagem.

A massa de manobra bolsonarista ou trumpista, antes aparentemente alienada, recebeu da extrema-direita a ilusão de participar de algo grandioso. Ao abraçarem esse espírito de seita, segundo Mariliz Pereira Jorge, os idosos suprem carências afetivas, encontram um novo propósito de vida, o senso de pertencimento perdido enquanto envelheciam, inclusive pelo abandono da própria família e dos colegas mais jovens.

Publicado originalmente em: https://forum21br.com.br/fernando-23012023

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