Desenvolvimentismo X Intervencionismo

Pedro Cezar Dutra Fonseca

PEDRO CEZAR DUTRA FONSECA, 61, é Professor Titular do Departamento de Economia e Relações Internacionais da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Ele contrapõe-se a analistas econômicos que estariam equivocados ao associar o intervencionismo econômico do governo Dilma ao desenvolvimentismo. Este seria uma clássica estratégia de sociedades atrasadas do mundo capitalista para deixar o atraso; aquele, uma tentativa de reagir à crise internacional. Compartilho abaixo seu artigo (FSP, 06/03/16).

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Mito-Fundador da Nação Brasileira: País Sustentado pela Agricultura

Agricultura no Brasil

Antes de ler abaixo essa matéria publicada no exterior, analise no quadro abaixo o diminuto peso relativo da agricultura brasileira na composição do PIB — 5,2%. Nunca vi um cálculo preciso, via Matriz de Insumos-Produtos, dos efeitos encadeamentos da chamada agroindústria brasileira. Há especialistas que “chutam” até mais do que a soma de seu valor agregado com o da indústria geral, superestimando sua participação no PIB.  Isso não significa que ela não seja um componente importante ao interagir com os demais em um Sistema Complexo. E que seja decisiva para as exportações brasileiras.

% Setoriais no PIB 2000-2015

“O Brasil está sendo golpeado por uma profunda recessão, uma crise política e a epidemia do vírus zika, mas numa área o país continua sendo uma potência mundial: a agricultura.

Neste ano, o Brasil deve registrar uma safra recorde de soja e uma quase recorde de milho, segundo projeções da Companhia Nacional de Abastecimento, a Conab. Os produtores brasileiros também parecem prontos para alcançar safras recorde de café e cana-de-açúcar em 2016, enquanto os criadores de gado, frango e porco anteveem novos aumentos nas exportações.

As abundantes colheitas e os numerosos rebanhos são um raro ponto positivo na economia brasileira, que em 2015 apresentou sua maior contração nos últimos 35 anos e deve encolher mais 3,7% em 2016. A agricultura foi o único setor do Brasil que se expandiu no ano passado, em 1,8%, ao passo que o produto interno bruto recuou 3,8%. Continue reading “Mito-Fundador da Nação Brasileira: País Sustentado pela Agricultura”

Estudo da Organização Mundial do Comércio (OMC): Cadeias Globais de Valor (CGV)

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Assis Moreira (Valor, 07/03/16) divulga Estudo da Organização Mundial do Comércio (OMC) que quantifica vários aspectos da dinâmica do comércio internacional e mostra como as exportações e importações de 61 economias estão conectadas globalmente. O Brasil aumenta sua participação nas cadeias globais de valor (CGV) e o setor de serviços contribui cada vez mais para a competitividade das exportações de manufaturados do país.

Segundo o diretor-geral da OMC, Roberto Azevêdo, há cada vez mais conteúdo importado nos produtos e serviços que os países exportam. Por ano, cresce em 9,9% a contribuição de insumos importados para as exportações globais. Economias em desenvolvimento estão aumentando sua participação nas cadeias globais de valor, inclusive em um ritmo mais acelerado que as economias maduras. “Importações e exportações de bens e de serviços se complementam cada vez mais”, diz Azevêdo.

Pelos dados da OMC, a participação do Brasil nas cadeias globais de valor está em alta. Cerca de 11% de tudo que o país exporta, incluindo bens e serviços, se deve a insumos importados. E cerca de 25% das exportações brasileiras são reprocessadas ou utilizadas como insumos por outras companhias no exterior e exportadas depois para terceiros mercados.

Somando os dois indicadores, o peso total das cadeias globais de valor no total exportado pelo Brasil ficou em 35% em 2011, representando alta de 14% por ano, na media, acima do crescimento de 13% nos países em desenvolvimento e de 8% nos países desenvolvidos.

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Exclusivismo Liberal

jesse souza

Criticado por Marcus Melo depois de declarar em entrevista à “Ilustríssima” que o Estado no Brasil é demonizado, Jessé Souza –55, presidente do Ipea, Professor Titular de Ciência Política da Universidade Federal Fluminense e ex-professor convidado na Universidade de Bremen — argumenta que entre nós o liberalismo tem sido uma forma pragmática e oportunista de defender o que chama de “partido da sociedade para poucos”. Para ele, essa é a questão central do país. Compartilho seu artigo (FSP, 21/02/16) abaixo. Continue reading “Exclusivismo Liberal”

Complexidade da Crise Mundial

Alpinistas

Um sistema complexo como é a economia mundial possui, no Brasil, alguns componentes ou elos da crise sistêmica. No ano passado, a volta da cartilha neoliberal “para garantir a solvabilidade do Tesouro Nacional” — leia-se: o pagamento dos juros aos rentistas — com  brutal ajuste fiscal implementado em conjunto com a política de overdose dos juros, agravou muito as consequências da explosão da bolha de commodities em setembro de 2011, cujas cotações continuaram em queda. A economia brasileira perdeu o grande ímpeto desse “motor de crescimento”: exportação de commodities agrícolas, minerais e petróleo.

No post https://fernandonogueiracosta.wordpress.com/2016/03/24/porque-parou-parou-por-que/  está outra causa da depressão bastante visível: a Operação Lava-Jato, no afã de fazer perseguição político-partidária em vez de investigar a corrupção do cartel em licitações de obras públicas, está causando um enorme ônus à economia brasileira. Simplesmente, não se contentou em prender toda a alta administração das maiores empreiteiras de obras públicas, mas atacou e imobilizou as próprias empresas responsáveis pela maior parte dos investimentos em obras de infraestrutura. Está dando um golpe duro também na economia…

Patricia Stefani e Samuel Kinoshita (Valor, 16/03/16) deram dica de três estudos publicados recentemente explicitam a complexidade e a periculosidade do quadro externo atual.

primeiro deles é um trabalho do FMI — Credit Expansion in EM: Propeller of Growth?, FMI working paper 15/212 https://www.imf.org/external/pubs/ft/wp/2015/wp15212.pdf — que nos ensina as principais características do rápido crescimento do crédito ocorrido no países emergentes nos últimos anos, bem como fornece estimativas de seu impacto sobre o crescimento, com direito a um estudo de caso para o Brasil. A conclusão é que a forte evolução do crédito teve impacto significativo sobre o crescimento no período analisado.

Crescimento do crédito 2003-12 Modalidades de Crédito 2010-12 Crédito no Brasil 1996-2012

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Porque Parou? Parou Por que?

Empreiteiras X Obras Públicas

Ontem, concedi uma longa entrevista para uma jornalista americana, escrevendo uma matéria para a revista Foreign Policy sobre o tom do debate econômico no Brasil agora e o espaço que alguns blogueiros e sites muito liberais tem ganhado. Deve-se lembrar que o sentido “liberal” para os norte-americanos significa “ideologia de esquerda”.

Ela estava buscando esclarecimentos sobre uma possível mudança do política econômica do pais. Isto vem sendo repetido também por manifestantes nas ruas, nos últimos meses. Queria conhecer minhas reflexões sobre o tom atual do debate. Repeti o que escrevo neste modesto blog pessoal.

Tem economistas golpistas que afirmam, sem envergonhar-se, que “apesar da desaceleração mundial ser uma questão adjacente e um ponto importante de risco para o cenário prospectivo, os fatores determinantes para a nossa verdadeira queda livre são, fundamentalmente, idiossincráticos, uma resultante de escolhas equivocadas de política econômica“.  Em um sistema complexo, fruto de interações de múltiplos componentes, um argumento mono causal é um reducionismo simplório que só serve para arrumar um bode-expiatório (O Governo) e fomentar uma caça às bruxas, i.é, quem pensa diferente deles.

Por exemplo, reportagem de Patricia Stefani e Samuel Kinoshita (Valor, 16/03/16) mostra outra causa bastante visível: a Operação Lava-Jato, no afã de fazer perseguição político-partidária em vez de investigar a corrupção do cartel, está causando um enorme ônus à sociedade brasileira. A relação custo (depressão e desemprego) / benefício (melhor governança no ocultamento de caixa-dois) está elevadíssima! Compartilho-a abaixo.

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Ascensão e Queda da Economia do Petróleo

Lucros e projeções de investimentos de petroleiras 2014-15Efeito desemprego na indústria de petróleo

Petroleiras instaladas no Mar do Norte estão investindo em novas técnicas de extensão da vida útil de campos antigos e de aumento da recuperação de óleo em poços em operação para aumentar a rentabilidade dos projetos, frente à dramática queda dos preços do petróleo. Com essa fórmula, que pode ser aplicada no cenário brasileiro, o custo médio de produção de petróleo na região deve cair 24% até o fim de 2016, de US$ 21 para US$ 16 o barril, de acordo com projeções da agência de óleo e gás natural do governo britânico.

As soluções aplicadas no Mar do Norte são de grande interesse para o Brasil porque a produção naquela região tem perfil semelhante à da Bacia de Campos, ainda a principal produtora do Brasil, respondendo por 65% da extração total de óleo do país hoje. Os campos do Mar do Norte têm aspectos de profundidade, temperatura e pressão parecidos com os da Bacia de Campos e, além disso, as regiões são maduras e registram declínio de produção.

No Brasil, o custo de extração (“lifting cost”) da Petrobras, em seu balanço do primeiro semestre de 2015, estava em US$ 14,36 o barril, sem a participação governamental. Estima-se que esse valor tenha recuado, principalmente devido ao aumento da produção no pré-sal, onde o lifting cost, segundo a estatal, é de US$ 8 a US$ 9 o barril, devido à alta produtividade dos poços da região.

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