Retrocesso do Rio de Janeiro: Milicianos contra Ordem e Progresso

Alessandra Saraiva (Valor, 27/09/22) informa: o Estado do Rio de Janeiro foi a unidade da federação com menor ritmo de crescimento anual no país entre 1985 e 2019. Com isso, ficou abaixo da média de crescimento econômico nacional anual para o período.

Já a economia de Mato Grosso apresentou maior cadência de alta anual do Produto Interno Bruto (PIB) – sendo quase duas vezes mais rápida face à média anual do Brasil. As economias menores crescem mais por partirem de menor patamar.

Este estudo é da economista Juliana Trece, do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (FGV Ibre), e de Marcel Balassiano, pesquisador licenciado do FGV Ibre e atualmente subsecretário de Desenvolvimento Econômico e Inovação da prefeitura do Rio de Janeiro.

No levantamento, os especialistas calculam: a taxa de crescimento real média do Rio foi de 1,5% ao ano no período, inferior a de outros Estados e abaixo da de 2,3% para Brasil em 35 anos. No entendimento dos pesquisadores, a menor atratividade do Rio para investimento, ao longo das décadas, causada por políticas públicas ineficientes, levou ao atual cenário: os milicianos corruptos afastaram os investidores! Pior, alastraram-se para o Distrito Federal!

Continuar a ler

Planejamento de Investimentos em Infraestrutura

Claudio Frischtak, sócio da consultoria Inter.B é um dos nomes mais respeitados do mercado quando se fala em infraestrutura. Ele fez o Mestrado na UNICAMP duas turmas depois da minha.

Ele informa: desde 2014, o investimento total no setor diminuiu de 2,43% para 1,66% do PIB. Tem havido estabilidade dos desembolsos privados e uma redução brutal dos aportes públicos. Na média das duas últimas décadas, os recursos aplicados em energia, transportes, telecomunicações e saneamento foram de 2,04% do PIB. Para suprir o déficit do país, deveriam ter alcançado 3,51%.

Para alcançar essa meta deve-se fazer o seguinte planejamento:

1. aumentar esses investimentos em 0,2 a 0,3 ponto percentual do PIB anualmente ao longo da próxima década;

2. fortalecer o BNDES como estruturador de projetos;

3. ampliar a participação do mercado de capitais para o financiamento;

4. rigor na escolha dos projetos, incluindo análise do custo-benefício e de sua “taxa social” de retorno;

5. defender as agências reguladoras.

Continuar a ler

Pauta de Exportação Brasileira e Maiores Empresas Exportadoras

A soja é o produto no topo do ranking das exportações brasileiras em 2020. A soja divide o pódio com outros dois produtos mais vendidos. Eles se revezaram nas segundas e terceiras posições nos últimos dois anos: o minério de ferro e do petróleo. As informações integram o sistema de dados do comércio exterior brasileiro Comex Stat, organizado pelo Ministério da Indústria, Comércio Exterior e Serviços.

O acompanhamento mensal do Comex Stat compila a base gerada pelo Sistema Integrado de Comércio Exterior (Siscomex) e dados declarados por exportadores e importadores. Em sua lista 10 produtos se destacaram entre os itens brasileiros mais comercializados para outros países no ano 2020:

  • 1º – Soja – 14%
  • 2º – Minério de ferro e concentrados – 12%
  • 3º – Óleos brutos de petróleo ou de minerais betuminosos crus – 9,4%
  • 4º – Açúcares e melaços – 4,2%
  • 5º – Carne bovina – 3,6%
  • 6º – Farelos de soja e outros alimentos para animais – 3,0%
  • 7º – Celulose – 2,9%
  • 8º – Demais produtos – Industria da transformação – 2,7%
  • 9º – Carnes de aves – 2,7%
  • 10º Óleos combustíveis de petróleo – 2,3%

Na composição desse Top 10, alguns setores têm alternado entre si posições nos resultados anuais. Mas este ranking define o perfil predominante das exportações brasileiras.

Continuar a ler

Revisão Histórica para Nova Estratégia

O noticiário do jornalismo econômico está anunciando vários fatores determinantes de novo cenário futuro. Não se trata apenas de a esperada alternância de poder ser tratada como normal, em democracia eleitoral, e como criminoso quem não a acatar.

Para enfrentar o desafio de um novo mandato presidencial progressista, em contexto distinto do acontecido entre 2003 e 2010, é necessária a revisão histórica para elaboração de uma nova estratégia social-desenvolvimentista com políticas sociais ativas e política econômico-financeira capaz de incorporar novos fatos e dados. Não devemos “brigar contra os números”!

O diretor-adjunto de redação do jornal Valor Econômico critica a chamada Nova Matriz Macroeconômica (NME) em sua coluna, semanalmente, desde a fase de demonização do governo Dilma para (de)formar uma opinião pública de maneira ela ser favorável ao golpe contra a democracia e o presidencialismo. Na última, publicada em 01/09/22, acusa algumas proposições do líder das pesquisas, o petista Luiz Inácio Lula da Silva serem itens da Nova Matriz Econômica (NME).

Embora tenha chegado a menor taxa de desemprego (4,8%) da PME (Pesquisa Mensal de Emprego realizada em seis regiões metropolitanas), ele engana os leitores ao responsabilizar a NME, supostamente porque ela “jogou o Brasil na mais longeva e profunda recessão de sua história”. Ora, a Grande Depressão ocorreu com a volta da Velha Matriz Neoliberal (VMN) através de Joaquim Levy, em 2015, e seu prosseguimento com Henrique Meirelles (2016-2018) e o inominável Posto Ipiranga (2019-2022).

Continuar a ler

200 Anos Depois: Desafio de Buscar Independência Econômica com Integração às Cadeias Globais de Valor

Amália Safatle (Valor, 02/09/22) escreveu reportagem sobre os 200 anos de Independência Política do Brasil, apesar da dependência tecnológica por causa do baixo investimento em Educação, Ciência e Tecnologia.

Em seu bicentenário de formação como nação soberana, qual independência falta ao Brasil obter? A agenda é extensa, mas há poucos elementos determinantes dos demais. Tais elementos criaram traços da identidade nacional e por isso exigem imenso esforço para serem alterados, na avaliação de historiadores e estudiosos do tema.

Continuar a ler

Desafio da Modernização da Infraestrutura no Brasil

Claudio Frischtak é meu contemporâneo no Mestrado em Economia na UNICAMP, porque entrou duas turmas após a minha em 1975, quando eu fazia a pesquisa para escrever minha dissertação. Tornou-se talvez o mais conhecido especialista em infraestrutura no Brasil, depois de uma carreira internacional. Claudio Frischtak é sócio-gestor da Inter.B Consultoria e conselheiro do CEBRI.

Publicou artigo (Valor, 29/04/22) sobre o desafio da modernização da infraestrutura no Brasil. Compartilho-o abaixo.

Investimos pouco em infraestrutura – em anos recentes menos de 2% do PIB – e não fomos além de 1,73% em 2021, e projetados 1,71% em 2022 (ver tabela). E não investimos necessariamente bem. O PAC foi um programa mal concebido e pior executado, gerando enorme desperdício de recursos; continuamos errando com projetos sem avaliação de custo-benefício, muitos de natureza paroquial e clientelista, com taxas sociais de retorno negativas ou questionáveis. O resultado é um baixo estoque de capital (37,4% do PIB em 2021, quando o necessário seria não menos do que 60% do PIB), idade média elevada dos ativos de infraestrutura, o que gera perdas significativas de eficiência e risco não trivial na sua integridade física.

Em transportes e saneamento básico (incluindo resíduos sólidos) estão os maiores hiatos entre o investimento necessário e o investimento médio setorial.

A modernização da infraestrutura irá demandar um esforço de ao menos duas décadas, e um gasto anual – público e principalmente privado – de não menos 3,6% do PIB no período. Estamos ainda distantes desse alvo, mas uma política de Estado voltada para remover as principais barreiras seria capaz de levar a um ganho incremental anual de 0,3% do PIB nesta década – não distante de outros exemplos históricos – e uma expansão do PIB potencial em 0,4% em 2030 (com base numa elasticidade PIB/estoque de capital de 0,2). Esse esforço levaria a uma taxa de investimento acima de 4% do PIB; mesmo que venha a se arrefecer, os ganhos de bem-estar seriam de primeira ordem para a população.

Continuar a ler

Alta do Investimento restrita à do Setor Privado: Necessária, mas Insuficiente

O salto da taxa de investimentos no Brasil entre 2016 e 2021, de 15,5% para 19,2% do PIB, se deve integralmente ao aumento no setor privado, cuja taxa passou de 13,6% para 17,5% do PIB no período, enquanto os investimentos públicos recuaram de 1,93% para 1,64%, mesmo patamar dos dois anos anteriores. As estimativas para 2020 e 2021 são do Centro de Estudos de Mercado de Capitais (Cemec-Fipe), com base em dados do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), das Contas Nacionais do IBGE e do Tesouro Nacional.

O Cemec lembra que, desde 2018, as taxas de investimento refletem os impactos dos critérios de contabilização de plataformas de petróleo, além de mudanças dos preços relativos entre a Formação Bruta de Capital Fixo (FBCF) e o PIB no período. “Limpando” os dados desses efeitos, a partir também de um trabalho do economista Gilberto Borça publicado no Valor, o CEMEC ainda estima que a taxa de investimentos privados, em relação ao PIB, subiu 2,9 pontos percentuais entre 2016 e 2021, acima da alta de 2,7 pontos da taxa total.

Três quartos desse aumento ocorreram entre 2019 e 2021, quando a taxa de investimento privado, com ajuste, avançou dois pontos percentuais do PIB. Nessa época, nota o Cemec, a taxa de crescimento do índice de FBCF chegou a 8% ao ano, quase o dobro da observada no período inteiro de 2016 a 2021 (4,5% ao ano). “Minha interpretação é que se trata de um ciclo de recuperação do investimento que começou em 2016-2017, após a recessão iniciada em 2014, foi interrompido pelo choque da pandemia em 2020, mas depois se recuperou fortemente”, diz Carlos Antonio Rocca, coordenador do CEMEC-FIPE.

Continuar a ler

Taxas de Investimento no Brasil: Cuidado com Autoengano

Gilberto Borça Jr. é mestre em Economia pelo IE-UFRJ e pesquisador associado ao FGV/IBRE. Publicou artigo a respeito da evolução da taxa de investimento no Brasil (Valor, 22/03/22) intitulado: Nem tudo que reluz é ouro no investimento no Brasil _ Opinião _ Valor Econômico.

O investimento é a variável mais volátil da demanda agregada. Assim, suas oscilações são mais do que proporcionais em relação às variações do PIB. Isso se explica, porque para além do custo de capital, do nível de utilização de capacidade, do ambiente institucional etc, as decisões de investimento são baseadas, sobretudo, em variáveis expectacionais, como as estimativas de demanda da produção derivada da ampliação da capacidade. Como as expectativas são voláteis e cercadas de incertezas, a determinação do investimento segue os mesmos passos.

Ao longo dos últimos 4 anos, o comportamento da Formação Bruta de Capital Fixo (doravante, FBCF) tem superado o desempenho do PIB. Nesse sentido, a taxa de investimento da economia a preços correntes (FBCF/PIB) apresentou forte trajetória de alta desde 2018, momento em que saiu do patamar mínimo da série iniciada em 1996, de 14,6% em 2017, para atingir, ao final de 2021, 19,2%. Esse nível é superior, inclusive, à média histórica da taxa de investimento durante o período de 1996-2021, que é de 18,1%.

Contudo, esses resultados devem ser vistos com cautela, pois a trajetória ascendente da taxa de investimento ao longo dos últimos anos contém alguns fatores bem específicos. Vamos tentar enumerá-los.

Continuar a ler

Fuga de Depósitos em Dólares, Risco de Bancarrota e Novo “Corralito” na Argentina

Os argentinos sacaram pouco mais de US$ 1 bilhão de depósitos em dólar do sistema bancário do país nas últimas sete semanas, segundo noticiou o jornal Valor em 24/08/22, enquanto o governo luta para convencê-los de que o peso, a moeda nacional, se estabilizará.

Os poupadores começaram a sacar seus dólares de contas bancárias em ritmo acelerado quando o ex-ministro da Economia Martín Guzmán renunciou em 2 de julho de 2022, mergulhando o governo ainda mais na crise. O terceiro ministro da economia da Argentina desde então, Sergio Massa, desfrutou de uma breve recuperação do mercado após assumir, antes que os depósitos caíssem novamente.

Embora alguns depósitos em dólar constituam uma parte das reservas de moeda forte da Argentina, que também estão em declínio, eles não são considerados parte das reservas líquidas do banco central porque normalmente não podem ser usados para sustentar a moeda.

Os depósitos totais caíram para US$ 14,55 bilhões em 16 de agosto, mostram dados do banco central, menos da metade do nível máximo de cerca de US$ 32 bilhões visto em 2019 antes de uma votação primária mostrar que o presidente Alberto Fernández viria a ganhar a eleição. Os argentinos retiraram vários bilhões de dólares em depósitos entre essa votação e a posse de Fernández.

Os depósitos oferecem um termômetro quase em tempo real das expectativas econômicas dos argentinos. No final de 2001, durante uma das piores crises do país, o governo proibiu grandes saques em caixas eletrônicos, ajudando a alimentar o caos social.

Reservas Cambiais BRA X ARG 2000-2021

Brasil e Argentina: Relações Antagônicas com o Exterior

Em continuidade ao artigo anterior, comparativo entre as economias brasileira e argentina, neste focaremos as relações comerciais e financeiras com o exterior.

O grau de abertura ao comércio internacional: exportação + importação / PIB da economia brasileira entre 1960 e 1998 com regime de câmbio fixo foi em média anual 16,2%. Entre 1999 e 2020, essa média se elevou para 26% aa, sendo o pico no último ano da série temporal: 32,3%.

Por sua vez, a Argentina de 1962 a 2001 teve um grau de abertura média de 15,5%. Entre 2002 e 2008, atingiu 40,8% aa. Caiu a partir da crise mundial (2009-2020) para a média anual de 30%.

A média anual da exportação brasileira entre 1960 e 1979 foi US$ 5,19 bilhões. Entre 1980 e 1999, elevou-se para US$ 37,29 bilhões. Com o regime de câmbio flexível e maior abertura externa, elevou-se continuamente de US$ 66,8 bilhões em 2000 até US$ 240 bilhões em 2010 – média anual de US$ 139,62 bilhões. Contando com exportação de petróleo do pré-sal, a média anual foi de US$ 266,05 bilhões entre 2011 e 2020.

Continuar a ler

Sistemas Políticos e Governança do Brasil e da Argentina

O PIB brasileiro em 1960 era US$ 188,5 bilhões e o da Argentina, US$ 150,8 bilhões. Em dólares constantes de 2010, segundo The World Bank, o brasileiro tinha se multiplicado por 10 vezes ao atingir US$ 1.868,5 bilhões em 2014. O maior argentino foi US$ 598,8 bilhões em 2017. Multiplicou-se por 4 vezes em relação ao do ano inicial dessa série temporal de 60 anos. Por qual razão houve tamanho descolamento do Brasil frente à Argentina?

É engano buscar uma única causa explicativa da perda de posição relativa entre alguns países da “periferia”. Centro-Periferia é um reducionismo binário ao tratar de maneira uniforme a complexidade de países periféricos tão distintos, embora vizinhos.

Não se deve reduzir toda a diferença seja a um problema de estrutura produtiva, como a malfadada “desindustrialização”, seja a um problema de ordem monetário-financeira, como a incompreendida “financeirização”. Nem tampouco a culpa é do “imperialismo” norte-americano ou da “hierarquia internacional das moedas”. Será da política?

Continuar a ler

Descolamento do Brasil frente à Argentina

Estima-se a economia brasileira produzir um PIB por Paridade do Poder de Compra em cerca de US$ 3 trilhões, colocando-a em 8º lugar no ranking mundial. Nesse indicador, considerando o real poder de compra em bens e serviços de cada país, o da economia argentina se aproxima de US$ 900 bilhões.

O PIB PPC Per Capita o divide pela população. Esse indicador do poder de compra médio da população mostra a menor qualidade de vida do povo brasileiro. Como US$ 14.100 / ano é uma média aritmética e há enorme concentração de renda no país, a renda mediana está bem abaixo dessa média per capita. O da Argentina é US$ 19.700.

A população brasileira está atingindo 215 milhões pessoas, sétima no mundo e metade da população sul-americana, enquanto a argentina ultrapassa 46 milhões. Ultrapassa 10% da continental.

O Brasil tem o 5º. maior território no mundo (8,5 milhões Km2). Possui 48% do território continental. A Argentina tem o segundo tamanho na América do Sul (2,8 milhões Km2) ou 15,7% dela. Os dois países representam quase 2/3 do território total sul-americano.

No ranking mundial, entre os dois vizinhos se colocam a Austrália (7,7 milhões Km2) e a Índia (3,3 milhões Km2). O Brasil é menor face à Rússia (17 milhões Km2), Canadá (10 milhões Km2), Estados Unidos (9,8 milhões Km2) e China (9,6 milhões Km2).

Grandes territórios tendem a garantir disponibilidade de recursos naturais. Ambos os países do hemisfério sul até hoje são esnobados por analistas do norte rico como meros exportadores primários de soja. Será verdade?

Continuar a ler