O Mito da Petrobras Quebrada

Cláudio Oliveira é economista aposentado da Petrobras e Felipe Coutinho é engenheiro químico e presidente da Associação dos Engenheiros da Petrobras (AEPET). Ambos escreveram um artigo esclarecedor sobre a atual situação da PetrobrasO mito da Petrobras quebrada.

Quero crer que, no bicentenário da Independência do Brasil em 2022, ou seja, daqui a meia-década, a atual depuração do sistema de financiamento corrupto das eleições de políticos profissionais já tenha sido superada. Uma nova fase da democracia se instalará no Brasil.

Em simultâneo, um superávit estrutural do balanço de transações correntes, produzido principalmente por exportações de petróleo, poderá propiciar a estabilização da taxa de câmbio e, consequentemente, da taxa de inflação.

Controlando as maiores fontes de instabilidade econômica, um Fundo Soberano de Riqueza poderá financiar Educação (75%) e Saúde (25%). Enfim, retomaremos o Projeto Social-Desenvolvimentista em outras bases de suporte político e econômico, propiciando um desenvolvimento sustentável com inclusão social.

Os investimentos no pré-sal foram feitos a partir de 2010 (vide tabela 1). A maturação dos projetos na área de petróleo levam dez anos. Logo, é de se esperar que, a partir de 2020, o retorno dos investimentos comece a aparecer. O quadro de Usos e Fontes do PNG 2017/2021 mostra isto:

Assimetria da Política Monetária de Juros

“Política monetária é como mola, serve para puxar, mas para impulsionar não é de grande valia”.

“Política monetária é como corda: você laça o touro, mas se ele se volta contra você, ela não serve para retrocedê-lo”.

“Controlar a economia com a política monetária é o mesmo que segurar um tigre por seu rabo”.

“Enxugar a liquidez da economia é o mesmo que enxugar gelo”.

“Você pode levar o cavalo à fonte, mas não pode obrigá-lo a beber, assim como pode dar liquidez à economia, mas não consegue expandi-la”.

O que há de comum entre essas metáforas? Todas tratam do papel assimétrico exercido pela política monetária e creditícia, no controle e na criação de liquidez, para o sistema econômico. Essa política, no sentido contracionista, sem dúvida, tem o significado de contrair a liquidez real, se, efetivamente, limita a capacidade de criação de poder de compra ex-nihilo pelos bancos. Mas a política monetária e creditícia expansionista pode não expandir a liquidez do sistema, se não forem acompanhadas de decisões de gastos dos agentes econômicos.

O Brasil experimentou recentemente juro real muito menor que o vislumbrado pelos “economistas videntes” agora e, nem por isso, assistiu a um ciclo consistente de crescimento. Em 2012, no mais profundo ciclo de alívio monetário do país, o juro real ficou perto de 2%. No ano seguinte, o PIB cresceu 3%. Mas esse movimento não se sustentou por causa da seca (quebra de oferta) e do golpismo alarmista: em 2014, a economia avançou apenas 0,40%, com juro real perto de 4%. Com sua elevação, para algo em torno de 8% aa, mostrou contração de 3,77% em 2015 e repetiu a queda em 2016, acumulando -7,2% em dois anos.

Esse episódio confirma que juros baixos não contratam, necessariamente, crescimento, embora juros altos contraiam a economia. A combinação de inflação sem controle e baixa confiança na política monetária e, principalmente, na fiscal é dado como explicação macroeconômica ortodoxa — O Estado e não O Mercado é sempre a causa perversa — para a incapacidade da atividade de responder ao estímulo monetário. Isto é “meia-verdade” se não se observa as expectativas microeconômicas relacionadas a fatores objetivos como grau de endividamento, queda de vendas e lucros, capacidade produtiva ociosa, carência de inovação tecnológica, etc.

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Decisão de Investimento: Exigência de Estabilidade Regulatória, Institucional e Política

Quando eu estava na Diretoria Executiva da FEBRABAN, entre 2003 e 2007, representando a Caixa Econômica Federal, escutei de um grande banqueiro brasileiro:  — “Que diferença! Eu já não aguentava mais aquele lenga-lenga do Pedro Malan… Eu quero é isto: o governo me diga claramente o que pode e o que não pode. E que não mude as regras durante o jogo. Senão, caso eu tenha prejuízo, não terei como me justificar perante meus acionistas estrangeiros”.

No entanto, voltou o reformismo neoliberal pró ativo, ou melhor dito, pró mercado. Desta feita, usa o oportunismo de maneira mais apressada, pois sabe que será apeado do Poder Executivo na próxima eleição presidencial. O que ele cria é apenas instabilidade regulatória, institucional e econômica.

Victória Mantoan e Fernanda Pires (Valor, 05/05/17) informam que, enquanto o governo temeroso testa modelos para impulsionar os investimentos em infraestrutura com atração do capital estrangeiro, investidores e especialistas têm um consenso sobre o ponto mais sensível na tomada de decisão para entrar ou não em um projeto do setor no Brasil: estabilidade regulatória. Tanto em âmbito federal como nos Estados.

Outras questões, como alternativas de financiamento, mecanismos de seguro cambial, alocação de risco, ainda que sejam consideradas importantes, aparecem depois da regulação.

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Necessidade de Infraestrutura e Indiferença Passiva Governamental: Queda do Investimento Público

Roberto Rockmann (Valor, 05/05/17) avalia que, para reduzir as deficiências na área de infraestrutura, a saída para o Brasil e outros países da América Latina não é gastar mais na área, mas investir melhor e nos setores certos. Os países da América Latina, incluindo o Brasil, investem 2,8% do PIB em infraestrutura, menos que os 7,7% do Sudeste Asiático ou dos 6,9% do Oriente Médio.

A crise fiscal terá impacto sobre a região, em que um terço do financiamento à infraestrutura é oriundo de entidades públicas e metade dos contratos com o setor privado exige garantias de entes estatais. A restrição nos orçamentos torna difícil enxergar um acréscimo dos investimentos em infraestrutura acima de 3% do PIB nos próximos anos na região. Aqui não há iniciativa privada!

Para reduzir o déficit de infraestrutura, será preciso seguir duas estratégias:

  1. assegurar que o gasto seja bem orientado e
  2. que ele seja eficiente.

Essas duas conclusões são lugares-comuns típicos de estudo do Banco Mundial, no caso, o “Repensando a infraestrutura na América Latina e Caribe”, divulgado no dia 4 de maio de 2017 em São Paulo durante o seminário “Infraestrutura na América Latina e no Caribe – Experiência e lições de políticas para o futuro“.

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Ranking da Felicidade em Países

A felicidade está ganhando atenção como indicador socioeconômico. Em discurso recente, a diretora do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (UNDP) defendeu o indicador como uma arma contra a ‘tirania’ do Produto Interno Bruto (PIB).

O índice da felicidade é composto de sete quesitos:

  1. Produto Interno Bruto (PIB) per capita;
  2. assistência social;
  3. expectativa de vida saudável;
  4. liberdade para as escolhas de vida;
  5. generosidade;
  6. percepção da corrupção; e
  7. distopia (este último indicador une os outros seis em um país hipotético com a pior situação).

Curiosamente, o Brasil está em 22o. lugar e a percepção da corrupção por parte da população é, relativamente, baixa. Isto apesar do contínuo bombardeio de manchetes escandalosas da mídia…

As Nações Unidas defendem o uso do World Happiness Report 17-3-2017 para além do ranking. Na publicação de 2017, por exemplo, o documento se aprofundou no tema da felicidade no trabalho e na situação da China e do continente africano. Para 2018, o tema será o da migração. Continue reading “Ranking da Felicidade em Países”

Investidores Institucionais e Risco Privado

FonteEFPC – ABRAPP Consolidado Estatístico_12_2016

Juliana Schincariol (Valor, 07/04/17) avalia que a queda de juros vai forçar os fundos de pensão a ampliar o risco de suas carteiras, a fim de garantir o cumprimento da meta atuarial. Levantamento da consultoria financeira Aditus, com base nas políticas de investimento entre 2017 e 2021 de 115 fundações com R$ 202 bilhões em ativos, mostra que a alocação em renda variável – direta ou via fundos de ações – deve passar dos atuais 5% para 7% do patrimônio ainda em 2017.

Pode até parecer pouco, mas isso representa um aumento de 20% da alocação, que soma R$ 5 bilhões.

O estudo da Aditus leva em conta os 115 maiores fundos de pensão do país – com patrimônio entre R$ 500 milhões e R$ 10 bilhões -, mas exclui gigantes como a Previ (funcionários do Banco do Brasil) e Petros (Petrobras), que passam por mudança na política de investimento. Essas fundações, que têm participação relevante em empresas, buscam agora reduzir a exposição em renda variável para ter mais liquidez conforme aumenta o número de participantes que se aposentam.

Conforme as taxas de juros se aproximam de um dígito, os fundos de pensão ficam com dificuldade para cumprir as metas de rentabilidade aplicando majoritariamente em dívida pública. As fundações estão no ponto mínimo de alocação em renda variável apesar da alta da bolsa no ano passado. Mas já há um movimento de volta para ativos de maior risco, como ações e títulos de dívida privada.

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Privatização Gradual do Banco do Brasil

Nada tão parecido com o triste fim do governo FHC — e decorrentes quatro derrotas eleitorais seguidas por seus apoiadores neoliberais — como o governo temeroso, imposto à Nação através de um golpe parlamentarista no presidencialismo. Os golpistas retomaram a agenda privatizante pró-mercado, sem apoio eleitoral nas urnas, apressadamente. O script é o mesmo.

Primeiro passo é justificar que “a necessidade de austeridade fiscal impõe a venda de ativos públicos”. Vinícius Pinheiro e Edna Simão (Valor, 08/05/17) informam que a União vai ficar próxima ao limite da participação mínima necessária para manter o controle acionário do Banco do Brasil. O Tesouro determinou a venda das ações do banco público detidas pelo Fundo Soberano. A operação será realizada ao longo dos próximos 24 meses, antes da eleição democrática de um novo governo legítimo.

Após a negociação, a participação da União no capital do BB cairá de 54,4% para 50,73%. O Fundo Soberano detém 3,67% das ações do banco BB, o equivalente a pouco menos de R$ 3,5 bilhões, com base na cotação de fechamento na bolsa no dia 05/05/17. Os recursos com a venda vão ajudar no cumprimento da meta de primário pelo governo central, mas ainda não é possível saber se o efeito da medida será mais concentrado neste ano ou em 2018. O Tesouro recomendou que a operação de venda aconteça de forma gradualista para evitar pressões sobre o preço das ações do BB.

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