Prioridades para um Novo Governo Desenvolvimentista

Carlos Luque é professor da FEA- USP e presidente da Fipe. Simão Silber é professor da FEA-USP Roberto Zagha foi professor assistente na FEA-USP nos anos 1970 e no Banco Mundial a partir de 1980, onde encerrou a carreira em 2012 como Secretário da Comissão sobre o Crescimento e o Desenvolvimento, e diretor para a Índia. Eles escrevem bons artigos desenvolvimentistas, fugindo do lugar-comum neoliberal contumaz na imprensa brasileira. Desta vez (Valor, 24/04/18) defenderam quatro prioridades para um novo governo.

“Em janeiro 2019 um novo governo tomará as rédeas de uma economia com renda per capita 9% abaixo do seu nível de 2014 e desemprego em dois dígitos. Inflação e juros baixos, excelentes notícias, serão insuficientes para tirar o país do fundo do poço. As perspectivas continuarão desanimadoras: o PIB per capita de 2014 será atingido em 2023. As projeções do Ministério da Fazenda e da OCDE para os próximos 40 anos são de que a renda per capita do brasileiro terá um distanciamento cada vez maior em relação à dos países avançados.

Não é acidente. Por várias décadas o governo descuidou do crescimento. Em anos recentes, ignorou tanto a teoria econômica como a experiência de outros países e se convenceu que o controle do gasto público é em si uma estratégia de crescimento. Introduziu a Emenda Constitucional “do teto”, pouco pragmática, e investiu capital político em reformas tangencialmente relacionadas ao crescimento (previdência e mercado do trabalho). Fundamentalmente, ignorou que problemas fiscais não podem ser resolvidos sem crescimento.

A aposta não deu certo. O resultado tem sido queda do PIB e uma dívida pública descontrolada: 57% do PIB em janeiro de 2015, 74% em janeiro de 2018, e 93% previstos para 2021. Continue reading “Prioridades para um Novo Governo Desenvolvimentista”

Apoio Popular a Estado Desenvolvimentista

Ricardo Mendonça (Valor, 08/05/18) informa sobre pesquisa de opinião:

  • A economia do país deve ser regulada mais pelo Estado do que pelo mercado.
  • O Estado deve ser dono das empresas mais importantes do país.
  • Ser também o responsável pelo bem-estar da população e pela redução das variadas manifestações de desigualdade.
  • Sem margem para dúvida, tem de garantir as aposentadorias aos mais velhos e ser o principal provedor dos serviços de saúde e educação.

Em síntese, essa é a opinião média do brasileiro a respeito do papel do Estado na economia e na sociedade, mostra pesquisa quantitativa nacional feita em março de 2018 pelo Instituto da Democracia e da Democratização da Comunicação, parte do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia (INCT). O estudo mostra valorização e desejo de um Estado grande, forte, presente e interventor.

O levantamento foi feito entre os dias 15 e 23 de março com 2,5 mil entrevistas domiciliares em 179 municípios de 25 Estados e do Distrito Federal (exceção foi o Amapá). A margem de erro do estudo é de dois pontos para mais ou para menos.

Na apuração, os entrevistados eram convidados a estabelecer valor numa escala de 1 a 10 em diversos temas. As notas inicias eram associadas à maior presença do Estado nas questões propostas. As notas maiores, à maior participação do setor privado. Continue reading “Apoio Popular a Estado Desenvolvimentista”

Programa Social-Desenvolvimentista do Partido dos Trabalhadores

Sérgio Lamucci (Valor, 15/05/18) informa: a recuperação do crescimento e do emprego é a prioridade emergencial para economistas que participam das discussões para o programa de governo do PT, envolvendo ideias como o uso do excedente das reservas internacionais para estimular o investimento e a renegociação de dívidas de empresas e famílias.

Na visão de Marcio Pochmann, um dos coordenadores do plano de governo do partido, e de Ricardo Carneiro, da Unicamp, a retomada será o principal fator para ajudar a resolver a situação fiscal no curto prazo, ainda que não o único. Uma reforma da Previdência mais ampla em 2019 não faz parte das propostas desses economistas, uma divergência em relação às ideias do ex-ministro Nelson Barbosa, que participa de algumas reuniões e dá sugestões.

À diferença do que ocorre com o ex-governador Geraldo Alckmin (PSDB) e o deputado Jair Bolsonaro (PSL), que apontaram Persio Arida e Paulo Guedes como seus coordenadores do programa econômico, o PT ainda tem um grupo grande de economistas discutindo como será o plano de seu candidato. O partido insiste na candidatura de Luiz Inácio Lula da Silva, líder disparado em todas as pesquisas eleitorais, mais do dobro do segundo colocado da extrema-direita. Continue reading “Programa Social-Desenvolvimentista do Partido dos Trabalhadores”

GeoEconomia e Custo de Transporte

Sempre achei, em Geoeconomia, que a localização e, portanto, o custo de transporte é ainda uma das dificuldades relativas superiores do comércio externo do Brasil. É a maior economia do hemisfério Sul, mas isso dificulta a concorrência com o Norte.

Fernanda Pires (Valor, 13/03/18) informa que os fretes marítimos de importação entre a China e o Brasil, uma das principais rotas do comércio exterior brasileiro, subiu quase seis vezes nos últimos dois anos e fecharam 2017 com a média mais alta do mundo na comparação com outros destinos.

Conforme dados levantados pela consultoria Solve Shipping, o frete spot referência de um contêiner de 20 pés (Teu) saindo do porto de Xangai para o de Santos encerrou 2017 em US$ 2,7 mil em média. É mais que o dobro do registrado na segunda rota mais cara, entre Xangai e a Costa Leste dos Estados Unidos.

A explicação é simples. De um lado, caiu à metade, para três, o número de serviços de navegação entre Ásia e Brasil de outubro de 2015 a dezembro de 2017. Uma medida deliberada dos armadores (donos de navios) após anos de superoferta no transporte marítimo que derrubaram os fretes e afetaram seus balanços. Além disso, houve queda nas importações brasileiras em virtude da crise.

De outro lado, está a falta de infraestrutura nos portos brasileiros, impedindo que os grandes navios sejam usados à plena capacidade. Consequentemente, a economia de escala por contêiner transportado é menor do que a de outras rotas.

Junta a isso ao histórico domínio mafioso do líder do MDB sobre o porto de Santos e… estamos entendidos! Continue reading “GeoEconomia e Custo de Transporte”

Dependência de Trajetória: Seca-Choque Tarifário-Choque Inflacionário-Choque de Juros

Confira no gráfico acima que os neoliberais (1995-2006 e 2015-2016) liberam os preços administrados  e os desenvolvimentistas (2007-2014) colocam as empresas de serviços de utilidade pública trabalhando em favor do seu público-alvo: o povo brasileiro. Os esnobes acionistas minoritários dessas empresas criticam essa postura como “populista”. E golpeam o governo social-desenvolvimentista!

De janeiro de 1995 a maio de 2016, o conjunto dos preços administrados do IPCA avançou 664,1%, enquanto o conjunto dos preços livres aumentou 301,3%. Entre os preços administrados que mais subiram, destacam-se os preços de gás de botijão (1257,8%) e plano de saúde (820,4%).

No período mais recente, de janeiro de 2015 a maio de 2016, a inflação dos preços administrados (19,7%) também foi maior que a inflação dos preços livres (12,0%). Esse comportamento antes do golpe parlamentarista foi o contrário do que ocorreu nos anos imediatamente anteriores (2012 a 2014), refletindo um realinhamento daquela em relação a esta. No segundo semestre de 2017, os preços administrados foram elevados, significativamente, enquanto os preços livres, por causa da deflação de alimentos, despencavam.

O  texto FAQ 05 – Preços Administrados integra a série Perguntas Mais Frequentes (PMF), editada pelo Departamento de Relacionamento com Investidores e Estudos Especiais (Gerin) do Banco Central do Brasil (BCB). Aborda temas econômicos de interesse de investidores e do público em geral. 

No Brasil, o termo “preços administrados por contrato e monitorados” – doravante simplesmente preços administrados – refere-se aos preços que são menos sensíveis às condições de oferta e de demanda porque são estabelecidos por contrato ou por órgão público. Como esses contratos preveem, muitas vezes, reajustes de acordo com a inflação passada, pode-se afirmar que essa indexação parcial à inflação ocorrida torna esses preços efetivamente “dependentes do passado” e pouco sensíveis ao ciclo econômico.  Continue reading “Dependência de Trajetória: Seca-Choque Tarifário-Choque Inflacionário-Choque de Juros”

4a. Revolução Industrial Chinesa

A CARTA IEDI 827 analisa o planejamento chinês para a 4a. Revolução Industrial. Enquanto, os neoliberais defendem aqui sua crença ideológica iluminista pré-1a. Revolução Industrial inglesa: os múltiplos auto interesses individualistas serão conduzido pelo laissez faire – laissez passer para uma ordem espontânea equilibrada! Mesmo com o brutal desequilíbrio social, resultante da concentração de renda e riqueza, um bando de crentes idiotas, pois não têm consciência do mal que fazem a si e aos outros, segue essa doutrina!

A indústria mundial está à beira da próxima revolução tecnológica. A combinação de máquinas inteligentes, comunicação moderna, big data e computação em nuvem está criando uma mudança disruptiva na produção industrial. As expressões “Manufatura Inteligente”, “Indústria 4.0” e “Internet Industrial” são rótulos diferentes para a próxima transformação. Governos e indústrias em todo o mundo reconhecem que este novo paradigma tecnológico irá reformular a dinâmica e as regras da concorrência mundial. A corrida para a produção industrial avançada poderá decidir o destino das grandes corporações e até mesmo o desenvolvimento global de economias inteiras.

Este trabalho analisa a estratégia da China neste ambiente de disrupção tecnológica que, para o governo chinês, surge como uma excelente oportunidade para equiparar o país tecnologicamente e economicamente aos países industrializados. Para isso, foi utilizada a versão em inglês do documento oficial Made in China 2025, publicada em julho de 2015, pelo Conselho de Estado da China. Essas informações oficiais foram complementadas pelas análises produzidas pelos pesquisadores do think tank alemão Merics – (WÜBBEKE, Jost e outros. Made in China 2025: The making of a high-tech superpower and consequences for industrial countries), pela Câmara de Comércio dos Estados Unidos (Made in China 2025: Global ambitions build on local protection) e pela OCDE (QIAN Dai. China and the next production revolution. In: OECD – The Next Production Revolution: Implications for governments and business. 

Na avaliação do Conselho de Estado chinês, após décadas de rápido crescimento, a escala de produção industrial da China tornou-se a maior do mundo. O sistema de produção industrial, abrangente e independente, da China tornou-se a pedra angular do desenvolvimento econômico e social do país, e uma força importante da economia mundial. Em 2014, a produção industrial da China representou 19% do valor adicionado da indústria mundial e 35,9% do Produto Interno Bruto (PIB), liderando o mundo pelo quinto ano consecutivo. Além disso, as últimas décadas, os principais setores de exportação da China registraram aumento no valor agregado doméstico nas exportações brutas. Continue reading “4a. Revolução Industrial Chinesa”

Processo de Desmanche do BNDES… e do Desenvolvimento do País

Bruno Villas Bôas, Catherine Vieira e Fernando Torres (Valor, 15/03/18) informam que o peso do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) nos investimentos do país está no menor nível em, pelo menos, 13 anos.

Os economistas ortodoxos abominam o crédito ir além da poupança pré-existente porque, de acordo com a Lei de Say pré-keynesiana, pressupõem que ele desequilibra a demanda agregada com a oferta agregada, causando inflação. Por isso, desmancham o Estado desenvolvimentista brasileiro através da descapitalização dos bancos públicos que propiciaram o ingresso do País no grupo BRIC dos grandes países emergentes. Praticam um crime lesa-pátria!

Mas estão tão felizes quanto “pinto-no-lixo” com os gráficos abaixo e acima. A economia caminha para um “equilíbrio” com 12,3 milhões de desempregados… Viva o Keynes! Morte ao Hayek! 🙂

Os desembolsos do banco responderam por 5,3% do financiamento da formação bruta de capital fixo (FBCF, conta que mede os investimento na economia) em 2017, após três anos em queda. Para especialistas, o financiamento de longo prazo passa por um processo de transição de fontes, e o BNDES deixa de ser um forte termômetro dos investimentos.

Levantamento realizado por Carlos Antonio Rocca, diretor do Centro de Estudos do Mercado de Capitais (Cemec) da Fipe, mostra que os desembolsos do BNDES representavam 15,2% dos investimentos em 2014. Naquele ano, as liberações somaram R$ 187,8 bilhões, lideradas pela infraestrutura. No ano seguinte, o governo reduziu repasses ou empréstimos ao banco. Desde então, essa proporção recuou paulatinamente: 11% (2015), 6% (2016) e 5,3% (2017). E a taxa de investimento despencou do patamar de 20% para 15,6% do PIB. Coloquem como responsabilidade da ortodoxia a existência do desemprego de 12,3 milhões pessoas no fim de 2017. Continue reading “Processo de Desmanche do BNDES… e do Desenvolvimento do País”