Apresentação do do Relatório de Desenvolvimento Mundial 2022

Carmem M. Reinhart, Vice-presidente sênior e economista-chefe   Banco Mundial, escreveu a seguinte apresentação do Relatório do Desenvolvimento Mundial 2022.

Em meio a uma incerteza excepcional, formuladores de políticas públicas ao redor do mundo viram-se obrigados a lidar com a delicada tarefa de reduzir as medidas de apoio econômico implementadas durante os estágios iniciais da pandemia de Covid-19 (causada pelo coronavírus), incentivando, ao mesmo tempo, a criação das condições necessárias para restaurar a atividade econômica e o crescimento.

Um desafio significativo é a falta de transparência — criada ou reforçada pela pandemia e (involuntariamente) exacerbada por ações políticas — sobre os riscos embutidos nos balanços patrimoniais dos setores público e privado.

A recessão de 2020, induzida pela pandemia, levou ao maior aumento anual da dívida global em décadas. Antes da pandemia, a dívida privada já havia alcançado níveis recorde em muitas economias avançadas e emergentes, deixando muitas famílias e empresas despreparadas para resistir a um choque adverso de renda.

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World Bank. Relatório de Desenvolvimento Mundial 2022: Finanças a Serviço de uma Recuperação Equitativa

Uma nova edição do Relatório de Desenvolvimento Mundial traça um roteiro para enfrentar as vulnerabilidades financeiras criadas pela crise da Covid-19. Vou reproduzi-lo em uma série de posts com tradução para o português.

O novo Relatório de Desenvolvimento Mundial tem seu foco nos riscos econômicos inter-relacionados das famílias, empresas, instituições financeiras e governos ao redor do mundo, enfrentados em consequência da crise da Covid-19. O relatório oferece novos insights de pesquisas sobre os vínculos entre balanços patrimoniais e potenciais dispersões entre os setores.

Além disso, oferece recomendações de políticas com base nesses insights. Mais especificamente, trata de como reduzir os riscos financeiros decorrentes das políticas extraordinárias adotadas em resposta à crise da Covid-19, apoiando uma recuperação equitativa.

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Promoção de Setores Estratégicos na China

Financial Times 17/06/22) publicou a seguinte reportagem sobre promoção de setores estratégicos na China.

Quando Xi Jinping revelou seu primeiro grande manifesto político após assumir o comando do Partido Comunista da China, ele eletrizou o mundo das finanças com uma postura pró-mercado, defendendo o recuo das empresas estatais para que os mercados passassem a representar um papel “decisivo” na segunda maior economia do mundo.

Mas nos anos que se seguiram, ondas de volatilidade nos mercados de ações e moeda da China, a ameaça de ruptura financeira dos magnatas do setor de tecnologia e os temores de que a abertura de capital das empresas chinesas no exterior pudessem violar a segurança dos dados, serviram para reforçar o argumento entre as autoridades de que se os mercados iriam desempenhar um “papel decisivo”, então o papel do Partido Comunista deveria ser ainda mais decisivo.

“Os líderes chineses acham que sabem mais do que o mercado e muitas de suas ações causaram danos reais ao mercado e à economia”, disse Weijian Shan, um dos financistas mais experientes e bem-sucedidos da China, em uma videoconferência com brokers durante o recente lockdown contra a covid-19 em Xangai. Shan disse que seu grupo de private equity PAG, com foco na Ásia e que gerencia mais de US$ 50 bilhões, se diversificou para fora da China.

As duras críticas de Shan, há muito um grande defensor de Pequim, vieram num momento crítico para os mercados de capitais do país. Uma repressão regulatória na China reduziu em US$ 2 trilhões o valor de mercado dos grupos de tecnologia de capital aberto nos últimos 12 meses, enquanto Xi protestava contra a “expansão desordenada do capital”.

No lugar dos mercados abertos, o cenário para a captação de recursos que emergiu na China é cada vez mais moldado pelas prioridades estratégias mais amplas de Xi – focadas em tecnologias consideradas fundamentais para a disputa econômica com o Ocidente, dirigidas pelo Estado e marcadas por suspeitas de influências externas.

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O que a Folha pensa: Mudam os Fatos, Muda a Opinião Pública, mas continua obtusa em defesa do Neoliberalismo contra as Diretrizes do Programa Eleitoral do Lula

O Editorial da FSP (04/05/22) seria até engraçado, para rir, caso o leitor não ficasse pasmado por o jornal permanecer tão obtuso. Obtuso é utilizado no dia-a-dia como um adjetivo pejorativo, para designar um indivíduo ignorante, sem capacidade de raciocínio, incapaz de compreender qualquer coisa mais difícil. Obtuso também pode ser uma pessoa grosseira, rude, estúpida e indelicada.

Confira abaixo os argumentos obstinados contra “o intervencionismo estatal”. Defendem o Estado Mínimo mesmo em um país atrasado, cultural e historicamente, como o Brasil! Alguém acha a iniciativa privada estrangeira ser capaz de construir o País? Ou as empresas tupiniquins?!

Essa ideia de Mercado desincrustrado da sociedade, expandindo-se sem apoio do Estado, é uma imbecilidade ímpar! Muitos órfãos do neoliberalismo brasileiro ainda comungam (e pregam) esse credo…

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Debate sobre Programa Econômico de Lula: Entrevista de Guilherme Mello

Fernando Canzian (FSP, 11/05/22) informa: as primeiras diretrizes do plano de governo da chapa Lula-Alckmin preveem o fim do teto de gastos e a revogação da reforma trabalhista, mudanças aprovadas no governo Temer (2016-1018).

Segundo o professor da Unicamp Guilherme Mello, 39, coordenador do Núcleo de Acompanhamento de Políticas Públicas – Economia do PT (que compartilha a função com Aloizio Mercadante), um eventual governo Lula buscará um novo regime fiscal, baseado em experiências internacionais, que priorize o gasto social, dinamize a economia e reduza a relação dívida/PIB —principal indicador de solvência do país.

“Temos 33 milhões de pessoas passando fome. A prioridade é atender essas pessoas com políticas públicas” diz Mello. “Do ponto de vista do economista, isso é gasto. Mas há o impacto multiplicador desse gasto.”

Mello defende que o PT foi e voltará a ser responsável fiscalmente. “Se tem alguém que pode falar em responsabilidade fiscal, esse alguém é o Lula.”

Sobre a reforma trabalhista, afirma que não se trata de “voltar para a antiga CLT (Consolidação das Leis do Trabalho)” e que nem tudo na área que foi aprovado no governo Temer “não presta”.

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Macroeconomia 2023-2026

Lucianne Carneiro (Valor, 27/05/22) informa: a construção de um grande pacto político para os próximos anos, baseada em alguns pontos de consenso para a economia, pode ajudar a trazer a confiança e as condições necessárias para garantir uma retomada de crescimento sustentado em ritmo em torno de 2% ao ano, aproveitando a capacidade ociosa da economia, mesmo diante das restrições macroeconômicas atuais do país.

O cenário é detalhado no artigo “A macroeconomia de 2023/2026″, que abre o livro “O labirinto visto de cima: saídas para o desenvolvimento do Brasil” (Editora Lux), organizado pelos economistas Fabio Giambiagi e Ricardo de Menezes Barbosa.

A publicação reúne textos de técnicos de diferentes áreas do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) com propostas para o futuro do país e acaba de ser lançada em homenagem aos 70 anos da instituição – que serão completados no mês que vem – como um projeto pessoal de alguns funcionários de carreira. O livro não reflete o pensamento do BNDES e deve ser interpretado como uma contribuição dos técnicos do banco para a agenda econômica e socioambiental do país neste ano eleitoral.

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Oportunidade para Alteração da Política Monetária

Alessandra Saraiva (Valor, 25/05/22) coloca para o debate público uma novidade: mudar do Regime de Tripé Macroeconômico para o Regime de Flutuação “Suja” do Câmbio e Meta de Crescimento com o fim do Teto de Gastos, Câmbio Livre e Meta de Inflação.

A economia brasileira poderia crescer mais, caso efetuasse mudanças na política monetária atual. A tese é defendida pelos economistas Ricardo de Menezes Barboza e Maurício Busnello Furtado no estudo “Dez propostas para a política monetária”, a ser publicado no livro “O labirinto visto de cima: saídas para o desenvolvimento do Brasil”.

As linhas de ação defendidas pelos especialistas são ousadas e incluem até mesmo alterar composição do Conselho Monetário Nacional (CMN) para definição de metas de inflação. Mas as mudanças, mesmo grandes, são necessárias, no entendimento dos economistas. Para eles, do jeito que estão montadas hoje, a política monetária, bem como regime de metas inflacionária, funcionam como espécie de “freio” para crescimento maior da economia.

“Quando você tira os ‘freios´, você permite crescimento mais alto. Deveríamos parar de colocar a política monetária como forma de combater a inflação apenas“, resumiu Barboza, pesquisador associado do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (FGV Ibre).

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Protecionismo X Necessidade de Integração às Cadeias Produtivas e Comerciais Globais

Anais Fernandes (Valor, 27/05/22) publicou reportagem relevante para o debate público de um programa para o próximo governo Lula.

O Brasil perdeu o bonde da globalização e, agora, se quiser se integrar mais efetivamente às cadeias de valor, precisa dar um passo quase na contramão do mundo, alertam especialistas. Enquanto no mundo o debate de trazer a produção de volta (reshoring) ou para regiões mais próximas (nearshoring) ganha espaço entre países e empresas, a economia brasileira precisa de mais abertura. Esse movimento, dizem eles, é preferível à busca por políticas ainda mais protecionistas. “É mais difícil, tem um pouco de portas fechadas nesse momento no mundo”, reconhece a economista Fernanda De Negri, do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), minha ex-aluna.

Quando analistas comentam que o risco de protecionismo globalmente está aumentando, trata-se de uma situação muito diferente da observada no Brasil. “O mundo convergiu, a partir da década de 1990, para um movimento de liberalização, mas o Brasil ficou à margem”, diz Sandra Rios, diretora do Centro de Estudos de Integração e Desenvolvimento (Cindes) e sócia da Ecostrat Consultores. Por aqui, segundo ela, o risco é que o protecionismo venha sobre níveis vigentes de abertura econômica baixos e que praticamente não mudaram ao longo das décadas.

Dados da Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento (Unctad, da sigla em inglês) mostram que a participação do Brasil nas exportações globais em 2021 foi de 1,3%, e o peso nas importações foi de 1%. “Não é que não participamos do comércio internacional, mas o percentual é muito aquém do tamanho da nossa economia”, afirma Rios.

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Prioritária Retomada do Crescimento

Carlos Luque é professor da FEA- USP e presidente da Fipe. Simão Silber é professor da FEA-USP
Francisco Vidal Luna é professor da FEA aposentado. Roberto Zagha foi professor Assistente na FEA-USP nos anos 1970 e no Banco Mundial a partir de 1980, onde encerrou a carreira em 2012 como Secretário da Comissão sobre o Crescimento e o Desenvolvimento, e diretor para a Índia. Compartilho abaixo o artigo semandal (Valor, 25/05/22) desenvolvimentista.

Em janeiro 2023, um novo governo herdará uma tripla crise econômica.

A primeira é uma crise de conjuntura: um PIB per capita 10% abaixo do que foi atingido em 2013, uma inflação acima da meta central, desemprego em dois dígitos, e um contexto internacional ameaçador.

A segunda crise é estrutural. O milagre econômico que por 4 décadas assombrou o país e o mundo transformou-se nas 4 décadas seguintes numa economia estagnada que perdeu a capacidade de crescimento acelerado, o crescimento do emprego formal, os ganhos de integração na economia mundial, taxas de investimento altas, e industrialização.

Apesar da agropecuária, que se desenvolveu com rapidez imprevista, progressos importantes nas áreas de nutrição, saúde e educação, e alguns segmentos industriais se destacaram mundialmente em termos de produtividade e inovação tecnológica, as perspectivas para a economia continuarão desanimadoras: as projeções do Ministério da Economia, do FMI e da OCDE para os próximos 40 anos são de que a renda per capita do brasileiro terá um distanciamento cada vez maior em relação à dos países avançados.

A terceira crise é a crise das ideias econômicas que nos levaram a essa situação. A situação que vivemos não foi o resultado do acaso ou da má sorte, mas o resultado das convicções e das políticas econômicas que guiaram a economia.

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PIB nominal cresce abaixo da Variação dos Preços dos Bens de Investimento: Consequência é Alta da Taxa de Investimento

Anaïs Fernandes (Valor, 18/05/22) informa: o salto da taxa de investimentos no Brasil entre 2016 e 2021, de 15,5% para 19,2% do PIB, se deve integralmente ao aumento no setor privado, cuja taxa passou de 13,6% para 17,5% do PIB no período, enquanto os investimentos públicos recuaram de 1,93% para 1,64%, mesmo patamar dos dois anos anteriores. As estimativas para 2020 e 2021 são do Centro de Estudos de Mercado de Capitais (Cemec-Fipe), com base em dados do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), das Contas Nacionais do IBGE e do Tesouro Nacional.

Porém, a inflação de bens de investimentos foi maior se comparada à do PIB.

O Cemec lembra que, desde 2018, as taxas de investimento refletem os impactos dos critérios de contabilização de plataformas de petróleo, além de mudanças dos preços relativos entre a Formação Bruta de Capital Fixo (FBCF) e o PIB no período. “Limpando” os dados desses efeitos, a partir também de um trabalho do economista Gilberto Borça publicado no Valor, o Cemec ainda estima que a taxa de investimentos privados, em relação ao PIB, subiu 2,9 pontos percentuais entre 2016 e 2021, acima da alta de 2,7 pontos da taxa total.

Três quartos desse aumento ocorreram entre 2019 e 2021, quando a taxa de investimento privado, com ajuste, avançou dois pontos percentuais do PIB. Nessa época, nota o Cemec, a taxa de crescimento do índice de FBCF chegou a 8% ao ano, quase o dobro da observada no período inteiro de 2016 a 2021 (4,5% ao ano). “Minha interpretação é que se trata de um ciclo de recuperação do investimento que começou em 2016-2017, após a recessão iniciada em 2014, foi interrompido pelo choque da pandemia em 2020, mas depois se recuperou fortemente”, diz Carlos Antonio Rocca, coordenador do Cemec-Fipe.

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Política Cambial e Crescimento

Carlos Luque é professor da FEA- USP e presidente da Fipe.
Simão Silber é professor da FEA-USP
Francisco Vidal Luna é professor da FEA aposentado
Roberto Zagha foi professor Assistente na FEA-USP nos anos 1970 e no Banco Mundial a partir de 1980, onde encerrou a carreira em 2012 como Secretário da Comissão sobre o Crescimento e o Desenvolvimento, e diretor para a Índia.

Como de hábito semanal, publicaram artigo (Valor, 18/05/22) desenvolvimentista. Compartilho-o abaixo.

Criou-se a convicção de que um real forte é positivo para o país. Há um sentido de euforia quando o real se aprecia frente ao dólar, de desânimo quando se deprecia.

Quando o real se aprecia os ganhos são muitos. Os brasileiros podem importar produtos estrangeiros a preços mais baixos. As empresas podem importar máquinas e equipamentos a preços mais baixos. E, já que os preços dos alimentos são determinados em dólares no mercado internacional, seus preços caem em reais, um ganho significativo para o consumidor nacional. Os brasileiros poderão viajar ao exterior a preços mais baixos em reais, acumular ativos no exterior em melhores condições e financiar atividades no exterior a um custo menor. Esses ganhos são consideráveis e valiosos.

Infelizmente, como a economia nos ensina, tudo tem um custo. Obtido de uma maneira artificial, o custo de um real forte se reflete no crescimento.

Um real forte significa que a indústria local deve competir com produtos importados mais baratos, e que as exportações de produtos manufaturados se tornam menos atraentes. O efeito é poderoso. Até os anos 1980 o Brasil era um exportador importante de produtos manufaturados e a indústria doméstica produzia um terço do PIB. A apreciação do real, e sua instabilidade, a partir dos meados dos anos 1990, é um dos principais fatores responsáveis pela desindustrialização do país e pela queda da participação dos manufaturados nas exportações. O impacto sobre o emprego formal foi considerável. A informalidade no mercado de trabalho aumentou a taxas altas.

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Investimentos da China no Brasil

As relações Brasil-China tiveram pelo menos quatro áreas marcantes nas últimas décadas:

1) O programa CBERS para construção e lançamento de satélites foi pioneiro entre países emergentes no campo aeroespacial;

2) As exportações brasileiras ao parceiro asiático se multiplicaram em 44 vezes desde 2001, quando a China entrou na OMC;

3) O estoque dos investimentos chineses no Brasil já era de US$ 66 bilhões, em 176 empreendimentos, até 2020;

4) A partir daquele ano, os esforços se concentraram na “diplomacia da saúde”, com a transferência de insumos e de tecnologia para a produção de vacinas, no auge da pandemia.

Hoje existem muito mais perguntas do que respostas sobre a perspectiva de novos saltos no relacionamento bilateral. Em 2015, durante visita do primeiro-ministro Li Keqiang à então presidente Dilma Rousseff, foi assinado memorando para a criação de um fundo de desenvolvimento da capacidade produtiva. A previsão era aportar US$ 20 bilhões – US$ 15 bilhões da China e US$ 5 bilhões do Brasil.

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