Perda de Intensidade Tecnológica e Déficit Comercial na Indústria Brasileira

Ana Conceição (Valor, 04/02/19) informa: a indústria brasileira vem perdendo participação no Produto Interno Bruto (PIB) há décadas. Um estudo mostra seus segmentos mais avançados tecnologicamente terem tido uma perda de peso prematura – e por isso mais grave.

O peso dos setores industriais de alta intensidade tecnológica chegou a quase 10% do PIB em 1980, no seu melhor momento, e caiu a 5,8%, a preços de 2016. O segmento de elétrica, informática e eletrônicos saiu de 1,1% do PIB e caiu para 0,9% no mesmo período. Esse setor, que nunca chegou a ter grande fatia na economia nacional, caminhou na contramão global, já que ganhou importância na indústria e no comércio internacionais nas últimas décadas.

No agregado, o peso da indústria brasileira no PIB chegou a 21,3% em 1980 e reverteu a tendência a partir de 1981. Desde então, deixou de ser “o motor” do crescimento. Em 2016, chegou a 12,5%.

Os números foram calculados pelo economista e pesquisador Paulo César Morceiro, do Núcleo de Economia Regional e Urbana da Universidade de São Paulo (Nereus/USP), autor do estudo ao lado de Joaquim José Martins Guilhoto. O trabalho criou séries inéditas, a preços constantes, da participação de 13 segmentos no PIB entre 1970 e 2016, a partir de dados oficiais do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Eles foram reunidos em dois grupos, de alta e baixa intensidade tecnológica. Continuar a ler

Crônica da Crise da Dívida Anunciada

Assis Moreira (Valor, 21/01/19) informa: com a dívida global perto de US$ 250 trilhões, o mundo nunca esteve tão endividado. A discussão atual é como os tomadores de empréstimos e os mercados emergentes “irão desarmar suas bombas-relógio”.

A dívida global é agora três vezes maior que o tamanho da economia mundial. Cresceu mais de 12% (US$ 27 trilhões) desde 2016, alcançando US$ 244 trilhões no terceiro trimestre de 2018. É equivalente a 318% do PIB, ligeiramente inferior ao pico de 320% no terceiro trimestre de 2016, conforme o Instituto Internacional de Finanças (IIF), entidade que representa as instituições financeiras.

O endividamento de governos e companhias chegou a níveis recordes relativo ao PIB, atraindo a atenção dos bancos centrais ao redor do mundo. Os dois segmentos representam mais de 75% do aumento da dívida global desde 2008.

A dívida total dos governos passou de US$ 65 trilhões em 2018, de US$ 37 trilhões há uma década, concentrado sobretudo entre países desenvolvidos. No mesmo período, a fatura a pagar das companhias não financeiras passou de US$ 27 trilhões a US$ 72 trilhões, sendo 92% do PIB, sobretudo nos mercados emergentes.

A elevação da dívida em outros setores tem sido menor: o crédito para as famílias cresceu mais de 30% para US$ 46 trilhões, e do setor financeiro aumentou 10% para US$ 60 trilhões.

Segundo o IIF, desde 2016 o endividamento cresceu mais rapidamente nas famílias nos mercados emergentes, totalizando US$ 12 trilhões. A China é responsável por 45% ou US$ 6,8 trilhões em termos normais. O crédito também explodiu para famílias na Índia, México, Coreia, Malásia e República Tcheca, além de países desenvolvidos como a França, Bélgica e Finlândia.

De acordo com o IIF, no caso da Brasil a dívida das famílias equivale a 27,2% do PIB, das empresas não financeiras fica em 40,6%, do governo chega a 87,3% e do setor financeiro é de 35,1% do PIB. O grosso dessas dívidas é em real. No caso específico das corporações não financeiras, 16,8% da dívida é em moeda estrangeira. Continuar a ler

Desmanche dos Bancos Públicos e Fim do Crédito Direcionado: E a Retomada do Crescimento Econômico?

Silvia Rosa e Talita Moreira (Valor, 14/01/19) informam: para cumprir o objetivo de reduzir distorções e impulsionar o mercado de crédito, o governo terá de atacar não apenas subsídios do Tesouro, mas rever, de forma ampla, as operações com taxas reguladas. Do estoque de R$ 1,487 trilhão em crédito direcionado no país em novembro de 2018, 89,8% referem-se a empréstimos com taxas de juros limitadas por normas específicas e que não podem ser livremente pactuados pelo mercado. Essas operações embutem alguma forma de subsídio, seja concedida pelo governo ou, indiretamente, pela sociedade.

Isso significa que 41,7% do volume de crédito no Brasil não tem preço definido pelo mercado. Por isso, a economia brasileira com absurdas taxas de juros de mercado com recursos livres ainda funciona!

O financiamento imobiliário e as linhas do BNDES constituem o grosso (81,5%) do saldo desses empréstimos. São áreas em que os subsídios do Tesouro já vêm em queda, mas que continuam sendo beneficiadas, respectivamente, por fontes de funding mais baratas, como as do FGTS e do Fundo de Amparo ao Trabalhador (FAT).

O BNDES sempre concedeu empréstimos com taxas inferiores às de mercado livre. Mas passou por uma mudança contra o subsídio no crédito no ano passado. Foi quando substituiu a Taxa de Juros de Longo Prazo (TJLP), que era fixada pelo Conselho Monetário Nacional e subsidiada, pela Taxa de Longo Prazo (TLP), que deve se igualar à remuneração dos títulos públicos atrelados à inflação (NTN-B) em cinco anos. Isso ajudou a reduzir a diferença entre o custo de captação do Tesouro e a taxa concedida nos empréstimos. A TLP está hoje em 6,96%, ainda abaixo do custo médio do Tesouro, de 10,11% ao ano em novembro. Continuar a ler

Privatização do Mercado de Crédito

Vamos desestatizar o mercado de crédito.” A enfática afirmação foi feita pelo ministro da Economia, Paulo Guedes, ex-banqueiro de negócios, cuja doutrina neoliberal vem da Escola de Chicago, mas foi recauchutada pela direita com a ultraliberal Escola Austríaca.  Em discurso na cerimônia quando formalmente assumiu o cargo, de imediato, sinalizou a transferência do mercado de crédito para o mercado de capitais do setor privado.

Em todo o tempo o novo comandante da economia enfatizou a importância de uma guinada liberal no Brasil após décadas de gestão baseada na linha social-democrata. Ele criticou a política de empréstimo praticada pelas instituições federais até o ano de 2015.

“Os bancos se perderam nos grandes programas em que piratas privados,
burocratas corruptos e criaturas do pântano político se associaram contra o
povo brasileiro”, sentenciou Guedes, associando o que chamou de
centralização de poder do estatal à corrupção e ao baixo crescimento econômico do país nas últimas décadas.

Ele questionou a real necessidade de haver crédito público, mas apontou que, dada a realidade de que o Brasil dispõe dessas instituições, elas deveriam priorizar o financiamento para as empresas de menor porte, deixando as grandes companhias buscarem o mercado privado.

Nesse sentido, apontou que pretende retomar todos os recursos que o Tesouro Nacional emprestou ao Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). Para Guedes, essa política expulsou investimentos e premiou rentistas. E para a turma de Chicago’s Oldies é BNDE sem S! Continuar a ler

Entre a Benção e a Maldição do Petróleo

Lívia Ferrari (Valor, 28/01/19) informa: especialistas do setor de petróleo são unânimes em prever cenário de “grande volatilidade” nos preços do produto neste ano. Eles evitam fazer estimativas sobre valor médio do óleo em 2019, e preferem trabalhar com projeções de intervalos de variações entre US$ 50 e US$ 70 o barril. Os preços caíram muito rapidamente no fim do ano passado e estão subindo neste início de ano; aumentaram 20% em janeiro, atingindo cerca de U$ 50 o barril.

Por trás de tanta incerteza está o planeta conturbado. São muitas as zonas de conflito que contribuem para a instabilidade dos preços. Há tensão comercial entre Estados Unidos e China, sanções econômicas ao Irã, a crise migratória na Europa, a insegurança da Grã-Bretanha com o Brexit, a pressão sobre a Venezuela.

Somam-se a isso projeções de menores taxas de crescimento dos grandes players da economia mundial, o que deprime a demanda de petróleo e não permite vislumbrar altas significativas nos preços do produto. Previsões do Banco Mundial (Bird) apontam para crescimento global de 2,9% em 2019 – abaixo das projeções anteriores – e para 2,8% em 2020-21. Também o Fundo Monetário Internacional (FMI) reviu para baixo suas previsões de expansão da economia mundial.

Do lado da oferta, o quadro é igualmente nebuloso. Há dúvidas sobre o comportamento da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep). Se ela e países aliados, liderados pela Rússia, terão capacidade para cumprir o acordo de redução de produção, firmado no fim do ano passado. Ainda assim, e apesar da gangorra do mercado, serão possíveis preços mais altos, ao longo do ano, em média, que o atual patamar.

A trajetória dos preços internacionais do petróleo pode ser dividida em quatro principais “macro fases”. Continuar a ler

Corta tudo, vende tudo: good business para “os parças” de O Mercado

Francisco Góes (Valor, 11/12/18) informa: a meta do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) de vender este ano R$ 12 bilhões em participações acionárias da carteira da subsidiária BNDESPar é possível de ser atingida, mas não será feita a qualquer custo.

De janeiro a setembro de 2018, a BNDESPar vendeu R$ 6,4 bilhões em ações e obteve ganho de R$ 4,78 bilhões com essas operações. A venda a mercado de ações de Vale e de Petrobras e o desinvestimento integral da posição do banco em Eletropaulo responderam por quase todo o resultado da BNDESPar com alienações até setembro.

Sua diretoria neoliberal estava trabalhando para atingir a meta de R$ 12 bilhões em vendas de ações em 2018, mas dependia das condições de mercado. O banco não tinha a obrigação de vender todo esse valor naquele ano. Caso as condições de mercado não fossem favoráveis, o banco poderia esperar um melhor momento para fazer a venda, talvez no começo do ano de 2019.

No imaginário neoliberal, no ano de 2019 o banco vai ter boa perspectiva, com a recuperação da economia, para desinvestir de ativos maduros na carteira. Há metas de desinvestimento em discussão, mas o mais relevante é se o novo governo ultraliberal e o futuro presidente neoliberal do banco, Joaquim Levy, vão se entender para encontrar políticas estruturadas na BNDESPar com a finalidade de vender as ações com mercado e compradores “parceiros” do ex-banqueiro de negócios no comando da economia. Continuar a ler

Cenário 2019: Política Externa

Assis Moreira (Valor, 12/12/18) avalia: o próximo ano promete confusões na cena internacional, dependendo de como vai evoluir a relação entre os Estados Unidos e a China, as maiores potências globais. De seu lado, o governo de Jair Bolsonaro quer recuperar influência brasileira no exterior. No entanto, sua política externa deverá navegar na defensiva.

Na campanha, Bolsonaro usou uma retórica inflamada, sugerindo alinhamento com os EUA, jogou suspeita sobre fluxos de investimento e comércio da China, assumiu postura de confrontação com Venezuela e Cuba, defendeu a revisão do Acordo de Paris (sobre mudanças climáticas) e a transferência da embaixada brasileira em Israel para Jerusalém.

A retórica diminuiu de tom, uma vez eleito. Mas retrocessos retóricos ou práticos têm um custo. Não basta a percepção sobre a política econômica – que é boa, até agora. A imagem do Brasil estará muito associada, sobretudo nas democracias ocidentais, a temas como ambiente e direitos humanos. A capacidade de o país gerar simpatia deteriorou-se. Os primeiros ataques mais incisivos contra o novo governo certamente virão de fora, de uma oposição bem aparelhada no exterior desde o impeachment de Dilma Rousseff.

Bolsonaro chega ao poder num contexto de reconcentração do poder no mundo. Primeiro, com certos elementos da volta de bipolaridade, em que os EUA e a China ocupam espaços de potências diferentes dos demais.

No imediato segundo plano vem a Rússia, graças a seu arsenal de mísseis nucleares. Vladimir Putin continua a praticar uma política geopolítica ofensiva pelo qual restabelece parte do poder que a União Soviética tinha em sua zona de influência.

Vem em seguida outro grupo, em que a Europa tem força econômica, soft power, mas está enfraquecida. Atravessa uma crise política que não deixa um bom presságio. Ninguém sabe quanto tempo mais Angela Merkel poderá governar a Alemanha. Emmanuel Macron perdeu a credibilidade para fazer grandes reformas depois das reações violentas de rua na França. Com Theresa May, que enfrenta contestação ao acordo sobre o Brexit (saída do Reino Unido da União Europeia), a questão é se ela ainda será a chefe de governo na semana seguinte. A Itália está nas mãos de populistas de direita que causam tremores no mercado.

No patamar seguinte estão emergentes como Índia e Brasil, cada um com momentos diferentes. A Índia cresce bem economicamente, mas enfrenta sempre muitas debilidades decorrentes da pobreza em que vive. E a tensão é permanente com a China.

Na América Latina, há uma orientação mais de centro-direita. Já o México vai na direção oposta do Brasil pela primeira vez em décadas, com um governo de esquerda populista. E não se pode excluir as chances de Cristina Kirchner voltar ao poder na Argentina.

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