Cenário Promissor para o Plano Lula com Haddad

Jonathan Wheatley, um dos principais colunistas e jornalistas cobrindo mercados emergentes para o Financial Times, jornal econômico acompanhado por grande parte de O Mercado (e ex-correspondente no Brasil), afirmou em podcast (20/09/18) no jornal.

“Fernando Haddad é um moderado que governou São Paulo por quatro anos, foi fiscalmente responsável e adotou ideias progressistas para transporte público que foram apoiadas pela classe média alta. Mas vem de um partido que se radicalizou muito por causa do impeachment e, economicamente, o partido quer levar o país para onde estava oito anos atrás, com Lula, um governo de grandes gastos dependente do boom das commodities, Vai ser difícil para um governo Haddad lidar com as pressões do PT e do Congresso, que certamente será hostil ao PT. Sera um equilíbrio difícil, não sei se ele tem experiência para isso.”

Os estrangeiros formadores da opinião especializada de economistas neoliberais enxergam tudo de bom ocorrido no governo Lula tenha sido “obra e graça da sorte”, isto é, ter sido “um governo de grandes gastos dependente do boom das commodities“. Mito, mentira, ignorância. Confira acima o menor fluxo de comércio exterior em relação ao PIB do Brasil, demonstrando a maior importância relativa do mercado interno, para seu desenvolvimento, e abaixo o superávit primário de 2003 a 2013:

O cenário a partir de 2019 é otimista com o retorno de governo social-desenvolvimentista mesmo porque a taxa de inflação e a taxa de juros estarão muito menores do que estavam no início de 2003. Com políticas sociais ativas, política de crédito e investimento público, maiores gastos públicos compensados com o fim de subsídios e desonerações fiscais em benefício apenas de empresas sem contrapartida de investimentos e recebedores de lucros e dividendos, haverá retomada do mercado interno com o crescimento da renda e do emprego.

Quanto à solidez das contas externas do Brasil, nos 12 meses até agosto de 2018, o déficit em conta corrente ficou em US$ 15,5 bilhões, o que corresponde a 0,8% do PIB. É mais que o piso de 0,44% do PIB nos 12 meses até janeiro, mas está longe de ser um número alarmante. Continue reading “Cenário Promissor para o Plano Lula com Haddad”

Hipótese de Desigualdade Regional baseada em Diferenças nas Instituições e Estruturas

A ideia de que diferenças na qualidade das instituições podem explicar desigualdades nos níveis de desenvolvimento entre países, e obviamente também entre regiões, tem sido objeto de atenção dos economistas nos últimos anos, principalmente após o importante trabalho apresentado por Acemoglu e Robinson (2012). Essa nova valorização do papel das instituições teve uma base empírica forte, mas também encontra suporte teórico. Basicamente, segundo leitura de Alexandre Rands Barros, no livro “Desigualdades Regionais no Brasil”, argumenta-se as instituições liberais como as norte-americanas darem suporte à iniciativa privada e assegurarem maior eficiência e engajamento de esforço produtivo nos investimentos em capital humano e em pesquisa e desenvolvimento tecnológico.

Alguns estudos realizados no passado enfatizavam algumas características dos arranjos institucionais no Nordeste. Eles poderiam ser prejudiciais a seu desenvolvimento e por tal poderiam responder, pelo menos parcialmente, pelo atraso relativo dessa região.

Esses estudos enfatizam duas possíveis fragilidades institucionais como empecilhos ao desenvolvimento regional.

A primeira se constitui a partir das relações de poder em nível local, nos municípios, que seriam no passado bastante influenciadas pelo fenômeno do coronelismo.

A segunda seria a apropriação dos governos estaduais e das instituições federais atuantes na região pelas elites locais. Elas se desviavam de objetivos desenvolvimentistas para gerar benefícios próprios, de forma lícita ou ilícita.

Em ambos os fenômenos, a essência era a mesma: o aparato de Estado e seu poder de atuação na economia e na sociedade tinham suas ações distorcidas a fim de gerar benefícios a alguns segmentos sociais, cujos interesses poderiam revelar-se contrários ao desenvolvimento.

Em consequência dessas distorções institucionais, os investimentos em educação pelo setor público estariam abaixo do socialmente ótimo. A burocracia estatal e os aparatos de fiscalização e arrecadação viesavam suas ações para beneficiar empresas de baixo investimento em desenvolvimento tecnológico e recursos humanos, prejudicando, assim, esses investimentos no agregado social. Além disso, a migração de capital para a região também era prejudicada por incertezas geradas pela fragilidade das instituições. Continue reading “Hipótese de Desigualdade Regional baseada em Diferenças nas Instituições e Estruturas”

Hipótese de Disparidades Regionais a partir das Diferenças de Capital Social e de Amenidades

É recorrente o Apelo à Opinião de uma Autoridade Irrelevante ou Vaga no livro de Alexandre Rands Barros, “Desigualdades Regionais no Brasil”: “há uma literatura recente que enfatiza o papel do capital social para o crescimento e o desenvolvimento econômicos. Essa literatura começou a ser desenvolvida na Sociologia, mas, recentemente, foi incorporada à Economia. (…) Em consequência, seria de se esperar que logo surgissem versões para o Brasil dessa explicação, dadas as disparidades regionais existentes no país”.

O objetivo é explicar as disparidades regionais a partir das diferenças de capital social nas diversas regiões do país. O conceito de capital social ainda não é muito preciso na literatura acadêmica.

Há quatro diferentes características que poderiam ser consideradas os principais componentes do capital social. São elas:

  • a confiança que os indivíduos têm uns nos outros;
  • as redes de relacionamento que os indivíduos constroem na vida;
  • as organizações voluntárias que existem nas comunidades; e
  • a propensão dos indivíduos a cooperarem.

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Hipóteses Incompletas para Desigualdades Regionais no Brasil

Alexandre Rands Barros, no livro “Desigualdades Regionais no Brasil”, diz: “as hipóteses classificadas aqui como incompletas são aquelas às quais nunca se deu a atenção necessária para que possam realmente explicar a origem do fenômeno. Normalmente se faz algum estudo ou apenas uma avaliação de diferenças em atributos existentes entre as regiões, e credita-se a elas a disparidade regional. Uma consequência disso é que, muitas vezes, não se analisa, da forma devida, a origem dessas diferenças ou se realmente elas têm capacidade de gerar disparidades regionais como as encontradas no Brasil”.

Daí ele faz uma discussão das principais hipóteses identificadas para justificar a desigualdade regional brasileira – e descartadas por ele para ficar só com a primeira. Comete aí a petição de princípio: sua conclusão está tomada, implícita ou explicitamente, em sua premissa.

Esta é a hipótese baseada nas diferenças em capital humano. Sua ideia-fixa é existir uma grande diferença no estoque de capital humano per capita entre as regiões brasileiras, principalmente quando se comparam o Nordeste e o Sudeste. Lógico, a diferença entre médias de escolaridade salta aos olhos de qualquer observador concentrado na análise das desigualdades regionais no país. Continue reading “Hipóteses Incompletas para Desigualdades Regionais no Brasil”

Proposta Demagógica para Correção da Desigualdade Regional Brasileira

Esforço-me para não incorrer em uma Falácia Genética, ou seja, um apego emocional, no caso negativo, à origem do emissor de uma ideia. Evito desvalorizar um argumento (ou defendê-lo) não por seu mérito, mas somente por causa da origem da pessoa que o defende. Não pretendo atacar a pessoa, em vez da opinião dela, com a intenção de desviar a discussão e desacreditar a proposta desse oponente.

Confesso essa postura perante Alexandre Rands Barros, autor do livro “Desigualdades Regionais no Brasil”, não ser fácil. Por que? Por causa de seu ataque ao IE-UNICAMP, durante a campanha eleitoral de 2014, querendo atingir à Presidenta Dilma.

Mas agora desejo analisar sua (parca) ideia a respeito da desigualdade regional brasileira: as desigualdades regionais explicam-se pelas diferenças em capital humano encontradas nas diversas regiões brasileiras.

Neste post-resenha vou avaliar sua análise de algumas hipóteses alternativas para explicar o surgimento das desigualdades regionais. Espanto-me o modo como ele descartou todas elas. Seu foco maior, claro, foi na hipótese de Celso Furtado, porque ainda hoje é a mais completa e bem estruturada explicação existente para o fenômeno analisado. Entretanto, sua ambição era furtar sua reputação, ocupando seu lugar como intelectual renomado.

Percebeu em relação a Furtado que, “apesar do brilhantismo de exposição, essa teoria basicamente transplanta para a questão regional local modelos de interpretação do desenvolvimento que já não têm apelo teórico ou empírico na academia internacional e mesmo nacional, sobrevivendo apenas em pequenos guetos, que insistem em se manter isolados do restante do mundo, encapsulando-se em conchas formadas por arrogância intelectual, que se alimentam da exploração da ignorância acadêmica da maioria das pessoas preocupadas com o problema”.

Reconhecem esse ter sido o ataque repetido em 2014 contra o IE-UNICAMP? Ele publicou o livro com essa crítica pretenciosa antes, em 2012. Eu não o conhecia. Mas a postura de Barros é a típica de um intelectual provinciano ao superestimar seu estudo nos Estados Unidos. Graduou-se em Ciências Econômicas em 1984, aos 21 anos, na Universidade Federal de Pernambuco – UFPE. Virou Ph.D. [Phdeus, sic] em Economia pela Universidade de Illinois em Urbana-Champaign (EUA) em 1990. Parece ter se deslumbrado com a sapiência de lá. Tamanha erudição e excesso de conhecimentos sem sequer citarem o pensamento latino-americano! 🙂

Daí Barros deduz o pensamento cepalino “não tem apelo teórico ou empírico na academia internacional e mesmo nacional, sobrevivendo apenas em pequenos guetos”. Um desses “guetos” estaria na Escola de Campinas, espécie de aldeia de Asterix: “Estamos no ano 50 antes de Cristo. Toda a Gália foi ocupada pelos romanos … Toda? Não! Uma aldeia povoada por irredutíveis gauleses ainda resiste ao invasor.” Continue reading “Proposta Demagógica para Correção da Desigualdade Regional Brasileira”

Desigualdades Regionais no Brasil

Dando continuidade ao meu estudo da Complexidade Brasileira — título do livro em elaboração por mim — sob a ótica de autores contemporâneos, li o livro Alexandre Rands Barros. “Desigualdades Regionais no Brasil: natureza, causas, origens e solução”, (Rio de Janeiro: Elsevier, 2012). Seu reducionismo desse fenômeno macrossocial a uma única causa – diferenças entre o capital humano médio das regiões – é método oposto ao adotado por mim: a Economia como Sistema Complexo emerge de interações entre múltiplos componentes com pesos diferenciados — e não de uma média uniformizadora.

Por definição, os heterodoxos leem os ortodoxos para os criticar. Faço uma análise crítica no sentido de salientar as qualidade e/ou defeitos do livro, expressando-me através de um texto escrito, e não atacando o autor em uma entrevista. Ressaltar pressupostas imperfeições de uma instituição ou de alguém sem a conhecer pessoalmente é leviano. No caso, tentarei não falar mal ou depreciar Barros por causa de seu comportamento.

Conheci o caráter desse autor na campanha eleitoral de 2014. Ele disse: “hoje em dia existem alguns consensos na teoria econômica. Estão em todas as universidades americanas, em 98% das europeias, em 95% das asiáticas e 97% das brasileiras. Só uma universidade aqui não tem articulação internacional, não traz e não manda ninguém para o exterior: a de Campinas (Unicamp). Ela é endógena. No entanto, tem uma força no governo Dilma que não tinha no de Lula, que era muito mais próximo do que Marina defende hoje. Os economistas de Campinas não consideram todo o desenvolvimento da teoria econômica desde a década de 1960. Dilma pensa com a cabeça de Campinas, que hoje é um lugar isolado, fora do mundo. Uma ilha que parou no tempo. Pela primeira vez, cada candidato tem propostas de desenvolvimento baseada em concepções diferentes.”

Curioso, não? Se o IE-UNICAMP não tivesse importância, ele não se importaria conosco. Freud explica o complexo de inferioridadeContinue reading “Desigualdades Regionais no Brasil”

JBS: “Campeã Nacional” ou Multinacional de Origem Brasileira?

Um dos méritos dos dirigentes do JBS, esnobados pela elite paulistana como “os açougueiros de Goiás”, é terem gravado e denunciado, sob pressão da PF/MP, a corrupção do golpista. Ficou clara para toda a Nação o propósito da armação do golpe.

Mas a imprensa brasileira foi incapaz de fazer uma boa análise econômica do grupo JBS naquele momento de atordoamento pelo desmascaramento de sua cumplicidade com os golpistas. Só recentemente saiu uma análise mais informativa a propósito de resultado concreto da muito criticada “política de escolha de vencedores” do BNDES. Na gestão do Luciano Coutinho, a meta estratégica do banco desenvolvimentista era conceder empréstimos subsidiados para dar competitividade internacional a grandes empresas brasileiras exportadoras de commodities. A finalidade era gerar superávit comercial e capacidade de importação de produtos com tecnologia embarcada não disponível no País, afastando o risco de crise cambial com grandes reservas internacionais. Não deu certo?!

Faltou, porém, a imprensa medir esse impacto no balanço de pagamentos. O chamado “complexo carne” exportou no ano (até agosto de 2018), US$ 9,2 bilhões, depois de “soja”(US$ 31,250 bi), “material de transportes” (US$ 21,6 bi), “petróleo” (US$ 19,4 bi), “minérios metalúrgicos” (US$ 14,8 bi), “produtos metalúrgicos” (US$ 9,9 bi). O total estava em US$ 158,9 bilhões. Em 2017, atingiu US$ 217,7 bilhões. O “complexo de carnes” chegou no ano passado a US$15 bilhões.

Detalhe importante: entre as 22.238 exportadoras apenas 266 empresas exportam acima de US$ 100 milhões. Em 2015, a JBS era a sexta maior empresa exportadora do Brasil, abaixo só da Vale, Petrobras, Bunge Alimentos, Cargill, Embraer. Exportava cerca de US$ 4 bilhões ou 2% do total exportado pelo país.  Continue reading “JBS: “Campeã Nacional” ou Multinacional de Origem Brasileira?”