Retrocesso na Cidadania Financeira

fgc-por-faixas-jun-2016produtas-bancarios-de-ricos-dez15-jun16Uma conquista da Era Social-Desenvolvimentista (2003-2014) foi o acesso popular a bancos e crédito. Através de contas bancárias o “dinheiro de pobre” podia ter proteção contra a inflação. Com crédito ao consumidor de baixa renda, a aquisição de bens domésticos propiciava mobilidade social e melhor qualidade de vida. Essa inclusão no mercado, deixando de ser um “cidadão de segunda categoria” ao não ter esse direito econômico, era uma conquista de cidadania financeira.

A significativa queda (-3,7% no ano) da relação crédito / PIB de 54,1% em janeiro para 50,8% em setembro de 2016, segundo o Banco Central, já alertava para o impacto da volta da Velha Matriz Neoliberal. Durante o governo FHC tinha caído de 36,6% em 1994 para 24,7% em 2003, indicando que os neoliberais, em sua obsessão de apenas cortar gastos, para via depressão diminuir a inflação e o risco da eutanásia dos rentistas, não se utilizam de política de crédito para incentivar o crescimento da renda e do emprego.

O número de contas bancárias se elevou de 87,630 milhões no final de 2002 até 221,295 milhões em dezembro de 2015. No primeiro semestre do ano corrente, segundos dados do FGC, esse total já diminuiu -1,43%, ou seja, 3,154 milhões contas bancárias a menos. Cerca de 1,8 milhão foram contas na faixa até R$ 5.000,00. Na verdade, em todas as faixas até R$ 150.000,00 (99,36% do total), perderam-se clientes. Em outras palavras, apenas nas faixas acima desse valor (0,64% do total) abriram-se 25.855 novas contas. Continue reading “Retrocesso na Cidadania Financeira”

Dossiê Petrobras: Nacionalismo X Entreguismo

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A pergunta-chave sobre a Petrobras é: ela é uma empresa para servir, prioritariamente, ao Brasil ou aos seus acionistas minoritários, ou seja, O Mercado?

O Mercado sabotou o nacionalismo com uma reação política que atingiu o valor de mercado das ações da companhia. Depois do golpe contra o governo nacionalista, passou a se justificar, dizendo que, “frente às melhorias no perfil de liquidez da estatal e no ambiente regulatório do Brasil, a agência de classificação de riscos Moody’s elevou a nota de crédito da Petrobras de “B3” para “B2″ e mudou a perspectiva da companhia de negativo para estável”.

O valor de mercado da companhia, por sua vez, saltou 92,8% em cinco meses, de R$ 123,3 bilhões em primeiro de junho de 2016 para R$ 237,8 bilhões em 31 de outubro 2016! Essa trajetória de valorização tem relacionamento com mudanças em seus fundamentos econômicos ou  apenas reflete os efeitos do fim do processo de golpe parlamentarista contra a Presidenta eleita Dilma Rousseff?  

Foi ainda na administração Bendine que algumas das bases da gestão Parente começaram a ser estruturadas, dentre elas o início das negociações de uma série de desinvestimentos em curso e o foco na desalavancagem, a partir de cortes de investimentos e custos. Um dos principais avanços, nesse sentido, foi a aprovação, este ano, da reestruturação do modelo de governança da estatal, que prevê economia de R$ 1,8 bilhão por ano, a partir do corte no número de cargos de funções gerenciais. O reconhecimento da herança de seu antecessor se traduz na decisão de Parente de manter Ivan Monteiro, homem de confiança de Bendine, à frente da diretoria financeira.

Os especuladores com a ação da empresa apontam que um dos destaques do início da gestão é a transparência e comunicação com O Mercado e a mensagem de menor interferência do controlador. A divulgação de política de preços dos combustíveis em meados de outubro de 2016, por dar mais lucro à empresa, e assim atender pleito dos acionistas minoritários. Eles sofrem de miopia, só enxergando seus interesses em curto prazo e não vendo longe, i.é, a estratégia da empresa.

Os especuladores gananciosos dizem em tucanês: “isso pode ser transformador em geração de valor para a companhia, porque estamos falando de uma empresa que deixará de ser precificadora para seguir preços de mercado.” Ora, isso significa o preço do combustível oscilar de acordo com a volatilidade cambial e da cotação internacional do petróleo, estipulada pelo cartel da OPEP. Com uma taxa de inflação descontrolada e as decorrentes variações da taxa de juros Selic, a população brasileira que se dane em benefício dos especuladores!

O ponto crítico será subir os preços dos combustíveis. Baixar os preços — sem abaixar “na bomba-de-gasolina” — é mais fácil para o populismo de direita do que aumentar. A empresa terá autonomia para arrebentar a política antiinflacionária?!

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Padrão Político da América Latina

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Ernesto Talvi é professor visitante do programa Mundial de Economia e Desenvolvimento do Brookings Institution e diretor da Iniciativa Latino-Americana Brookings Global-Ceres de Política Econômica e Social. Publicou interessante artigo (Valor, 01/11/16) sobre um suposto padrão político pendular, mecanicista e economicista na América Latina. Confira abaixo. Depois, leia também:

Entrevista de Pedro Dutra da Fonseca à Carta Capital sobre Risco de Destruição do Legado Varguista

“A hegemonia dos governos de centro-esquerda e populistas na América Latina durante a maior parte dos últimos dez anos parece agora estar chegando ao fim, com a ascensão ao poder de partidos de centro-direita na Argentina, Brasil, Guatemala, Paraguai e Peru.

Não deveríamos nos surpreender com o refluxo da “maré vermelha” da América Latina. Evidências históricas dos últimos 40 anos mostram que:

  1. os ciclos políticos na região são altamente sincronizados e
  2. tendem a refletir surtos de crescimento e desaquecimento econômicos.

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“Política dos Vencedores” e Transnacionalização de Empresas

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Acho que a esquerda, que defende políticas públicas em busca de igualitarismo social, deve repensar — a partir de experiências concretas — a chamada “política de vencedores” sob proteção estatal. O que ganha o igualitarismo com a transformação de empresas brasileiras em grandes multinacionais? Temos de refletir e debater a respeito…

Entre os tapuias neoliberais, há um estranhamento tanto da intervenção e regulação governamental em defesa da concorrência quanto dos auxílios estatais via incentivos fiscais-creditícios para empresas de origem brasileira tornarem-se vencedoras na concorrência multinacional. Porém,  no Brasil não se fez ainda uma pesquisa aprofundada sobre os efeitos reais dos incentivos, estudando casos, p.ex., da Friboi-JBS e comparando com o caso da gigante belgo-brasileira Anheuser-Busch InBev NV. Em quanto elas beneficiam o comércio exterior brasileiro, o recebimento de lucros pelos país e a geração de empregos no solo nacional?

Pelo  contrário, aqui-e-agora, só se obtemos informações através de notícias de “página policial”, i.é, a criminalização de negócios típicos da economia de mercado em escala global. Só aqui, neste país tropical, se acha que há “capitalismo sem riscos“. Negócios dão certo ou não, muitas vezes, de maneira involuntária, devido à mudança da conjuntura econômica mundial. Não é crime o fracasso em previsões de bons negócios.

Apresentamos abaixo um dossiê de notícias de jornal a respeito da tentativa da JBS se tornar um empresa multinacional que podem ajudar os estudos de casos pelo pesquisador que se apresentar.

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Golpe dentro do Golpe: Esvaziamento do BNDES e o Pato Amarelo da FIESP

padra%cc%83o-de-financiamento-dos-investimentos-2-t-2016O TCU deu aval para os parlamentares golpistas derrubarem um governo eleito, democraticamente, com base na falsa alegação de “pedalada fiscal”: empréstimos dos bancos públicos ao seu controlador. Consumado o golpe, agora, o próprio TCU dá aval à espécie de Antecipação de Receita Orçamentária (ARO) de R$ 100 bi do BNDES ao Tesouro Nacional!

Ora, isto agora não é “pedalada fiscal”?! É “despedalada”?! Não, a verdade “nua (pelada) e crua” é que os membros do TCU são da mesma laia dos parlamentares golpistas

O ponto central da avaliação sobre a legalidade da operação foi o enquadramento no Artigo 37 da Lei de Responsabilidade Fiscal (LRF), que veda a antecipação de recursos de empresas públicas para a União. O diagnóstico foi de que, no caso específico das operações entre o BNDES e o Tesouro, isso não ficou configurado! O que?!

O TCU abriu uma auditoria específica para fiscalizar os quase R$ 500 bilhões captados pelo Tesouro com captação de funding em longo prazo, via lançamento de títulos de dívida pública com risco soberano, para gerar fontes de financiamento para o banco de fomento, durante os anos de atuação anticíclica no governo petista. O PT socorreu os associados da FIESP e foi golpeado! Casta ingrata…
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Concentração na Pauta de Exportações Brasileiras e Especulação com Commodities

concentracao-na-pauta-de-exportacoesOs colunistas cultivadores de mitos, assim como o próprio Ministro da Fazenda, dizem que “a nossa crise decorre de razões domésticas; não se trata de consequência de uma crise externa“. De fato, a causa da atual depressão está no “aqui-e-agora”:  a volta da Velha Matriz Neoliberal em 2015 e seu aprofundamento no ano corrente com o governo golpista!

Sérgio Lamucci (Valor, 13/10/16) informa que um grupo de cinco commodities responde por mais de 40% das exportações brasileiras, mesmo com a forte queda dos preços básicos registrada desde o pico atingido há cinco anos, após a concentração ocorrida como efeito da crise mundial de 2008. Nos primeiros nove meses de 2011 — a explosão da “bolha de commodities” data de setembro de 2011 — e também de 2014, esses cinco produtos haviam respondido por quase 47% das exportações totais.

De janeiro a setembro deste ano (2016), as vendas de minério de ferro, complexo soja, óleos brutos de petróleo, açúcar e complexo carnes foram responsáveis por 41,4% do total destinado ao exterior. Embora os preços tenham caído muito desde 2011, a participação desse grupo de commodities nas vendas externas do país recuou pouco nos últimos anos em parte porque o volume exportado seguiu em alta.

Números da Fundação Centro de Estudos de Comércio Exterior (Funcex) mostram que as cotações dos produtos básicos recuaram quase 48% quando se compara o período de janeiro a agosto de 2011 com o mesmo intervalo de 2016. Ao mesmo tempo, as quantidades vendidas ao exterior desses bens subiram 33,6%.

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