O Processo de Formação de Preços na Economia Brasileira

Frequência de mudançs de preçosFatores para decisões de preços

Este boxe, publicado no Relatório da Inflação de dezembro de 2015, apresenta alguns resultados do artigo “Price-Setting Behavior in Brazil: Survey Evidence” de autoria de Arnildo Correa, Myrian Petrassi e Rafael Santos, a ser divulgado na Série Trabalhos para Discussão do Banco Central do Brasil.

A forma como a política monetária afeta a economia real e a inflação depende, pelo menos no curto prazo, das características do processo de ajuste de preços. Em particular, os efeitos macroeconômicos de choques nominais mensurados em modelos frequentemente usados por bancos centrais para análise de política monetária dependem da hipótese de rigidez de preços assumida na modelagem. Por essa razão, a fixação de preços na economia tem sido objeto de estudo de extensa literatura.

Embora a exploração de grandes bases de dados microeconômicos mensurando o comportamento dos preços tenha produzido resultados importantes para a caracterização da rigidez nominal, existem ainda aspectos da decisão de preços que não estão completamente compreendidos.

Vários artigos têm explorado dados qualitativos produzidos por entrevistas com dirigentes de firmas sobre as práticas de reajuste de preços. Essas informações qualitativas complementam os estudos baseados em micro dados e ajudam a compreender a decisão de reajuste por parte das firmas, e, portanto, o processo de formação de preços na economia. Continue reading “O Processo de Formação de Preços na Economia Brasileira”

China: Crescimento Sustentado pelo Consumo e Investimento Domésticos

Crescimento chinês

Está caindo o mito de que o crescimento chinês, economia de grande mercado interno como os demais países emergentes, é orientado para as exportações. Isto embora a economia chinesa seja a maior exportadora mundial.

Sérgio Lamucci (Valor, 23/11/15) informa que as exportações chinesas têm perdido fôlego nos últimos anos, em um quadro de valorização significativa do yuan, mas a desaceleração da China não parece se dever ao impacto da moeda mais forte sobre as vendas externas do país. O investimento e o consumo explicam muito mais o comportamento da economia chinesa do que o setor externo, segundo estudo da economista Paulina Restrepo-Echavarria, do Federal Reserve de St. Louis.

“A evidência sugere que a apreciação do yuan não é a culpada pela desaceleração da China“, diz Paulina. Uma decomposição do PIB chinês feita pelo Barclays mostra de fato que a contribuição do setor externo para o crescimento tem sido pequena, indicando não ser o principal motivo para a expansão mais lenta do país asiático. Continue reading “China: Crescimento Sustentado pelo Consumo e Investimento Domésticos”

Chi-Bra?

Apesar da queda no preço do minério, a Vale continua o projeto de expansão da mina de ferro Carajás, a maior do mundo.

Apesar da queda no preço do minério, a Vale continua o projeto de expansão da mina de ferro Carajás, a maior do mundo.

Niall Ferguson criou o neologismo Chimérica para designar a integração complementar das economias chinesa e americana. Chibra seria neologismo análogo?

Compartilho abaixo uma “visão cristã” de culpa que tem de ser purgada para se chegar ao paraíso, isto é, integrar-se de maneira subordinada a um livre-comércio com a América do Norte… É uma visão de plena determinação exógena do desempenho da economia brasileira.

JOHN LYONS e PAUL KIERNAN, São Paulo (WSJ, 28 de Agosto de 2015) avaliam que, até pouco tempo atrás, o Brasil era considerado o principal exemplo de como um país em desenvolvimento pode ganhar proeminência global aproveitando o boom de commodities liderado pela China.

Agora, o Brasil parece simbolizar algo bastante distinto: o hábito de países ricos em recursos naturais de acabar com seus ciclos de prosperidade com estouros espetaculares.

O mercado de ações do Brasil caiu 22% nos últimos doze meses. O real se depreciou mais de 30% em relação ao dólar e o governo divulgou que sua economia encolheu 1,9% no segundo trimestre em relação ao anterior. De fato, economistas têm expressado temores de uma recessão que durará muito anos.

A China tem causado turbulência financeira em muitos países, mas nenhum deles foi mais abalado que o Brasil, um dos principais fornecedores de matérias-primas para um país cujo apetite voraz por commodities vem arrefecendo. A dor que a desaceleração chinesa infligiu ao Brasil não é só uma questão de mercados financeiros, como em alguns países, mas atinge o coração da economia real.

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Um Novo Capítulo na História da Globalização: Fim do Bônus Demográfico Chinês

KATHY CHUBOB DAVIS, de Zhongshan, China (WSJ, 26 de Novembro de 2015) contam que, há trinta anos, a empresa americana de vestuário Levi Strauss & Co. começou a produzir seu icônico jeans na China, ansiosa para aproveitar a aparentemente inesgotável fonte de trabalhadores dispostos a cerzir por alguns centavos a hora. Agora, essa fonte está começando a secar.

Nas próximas décadas, uma escassez de mão de obra irá forçar a Levi’s e muitas outras empresas ocidentais a reformular suas operações na China ou deixar o país. As mudanças irão marcar um novo capítulo na história da globalização, onde:

  1. a automação será dominante,
  2. a proximidade do mercado consumidor será vital e
  3. as vidas de trabalhadores e consumidores em todo o mundo serão novamente reordenadas.

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Demografia Mundial: Queda da PIA – População em Idade Ativa

GREG IP (WSJ, 24 de Novembro de 2015) informa que, desde a crise financeira global, economistas têm tentado explicar por que os Estados Unidos e outros países vêm apresentando um crescimento econômico constantemente decepcionante. Após culparem desde a austeridade fiscal até a crise europeia, eles agora estão concluindo que um dos maiores obstáculos é a questão demográfica.

No próximo ano, as economias mais avançadas do mundo vão atingir um marca crítica. Pela primeira vez desde 1950, o total de sua população em idade de trabalhar vai diminuir, segundo projeções da Organização das Nações Unidas. Até 2050, essa população vai encolher 5%. O número de trabalhadores também vai cair em importantes mercados emergentes, como a China e a Rússia. Ao mesmo tempo, a proporção de pessoas com mais de 65 anos vai disparar em todos esses países.

As gerações passadas se preocupavam com o excesso de pessoas no mundo. Hoje, o problema é a falta delas.

Essa mudança reflete duas tendências há muito estabelecidas:

  1. o aumento da expectativa de vida e
  2. a queda da fertilidade ou fecundidade.

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Capitalismo Neoliberal Já Era

Se você quer encontrar pessoas que ainda acreditam no “sonho americano” — o ideal sedutor que qualquer pessoa pode construir uma vida melhor para si e sua família, não importam as circunstâncias — o melhor a fazer talvez seja ir a Mumbai. Metade dos indianos concordou, numa pesquisa recente, que “a próxima geração será provavelmente mais rica, mais segura e mais saudável que a última”.

Os indianos são os mais otimistas entre os mais de mil adultos consultados em cada um de sete países pela firma de pesquisas de mercado YouGov, numa pesquisa feita no início de setembro para o instituto londrino Legatum. O percentual de otimismo cai para 42 na Tailândia, 39 na Indonésia, 29 no Brasil, 19 no Reino Unido e 15 na Alemanha. Mas não são países do velho mundo, como Grã-Bretanha ou Alemanha, os mais pessimistas sobre o futuro. É nos EUA, no novo mundo, que apenas 14% dos pesquisados acham que a vida será melhor para seus filhos e 52% discordam. Continue reading “Capitalismo Neoliberal Já Era”

Desindustrialização Prematura nos Países Semi-industriais

RAYMOND ZHONG, de Rajkot, Índia (WSJ, 1 de Dezembro de 2015) conta a história pessoal que, por quase meio século, Laljibhai Gajjar chefiou fábricas que produziam motores a diesel e peças na calma cidade industrial de Rajkot, na Índia. Mas, depois que os produtos chineses começaram a conquistar o mercado, o empresário achou um novo meio de vida. Ele demitiu 100 funcionários e começou a vender carros Hyundai.

Atrás de um movimentado showroom, está o que restou de suas operações fabris: uma oficina em ruínas onde cerca de 20 funcionários agora montam máquinas de estamparia de metal. As encomendas estão cada vez menores. Gajjar diz que, num dia desses, terá que fechar a oficina também.

O caso de Gajjar ilustra um fenômeno que está ocorrendo na Índia e em outros países pobres — justamente onde o crescimento da população é mais acelerado — e preocupando muitos economistas.

Os Estados Unidos e a Europa — e mais recentemente o Leste Asiático — ficaram ricos primeiramente devido a suas fábricas. Com o tempo, a renda cresceu, suas economias se sofisticaram e eles migraram para serviços modernos, como assistência médica e finanças.

Hoje, porém, partes do Sul da Ásia, África e América Latina não estão conseguindo criar setores industriais prósperos, ainda que os salários continuem baixos. Em vez disso, o emprego e a produção de suas indústrias estão atingindo um pico e seus níveis de renda e desenvolvimento caem de forma muito mais acelerada que os apresentados por países desenvolvidos no passado.

O receio dos economistas é que o modelo do progresso liderado por fábricas — o qual por mais de um século ofereceu o caminho mais rápido para sair da pobreza — simplesmente não esteja mais disponível para os países mais pobres de hoje. Continue reading “Desindustrialização Prematura nos Países Semi-industriais”