Dossiê Petrobras: Nacionalismo X Entreguismo

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A pergunta-chave sobre a Petrobras é: ela é uma empresa para servir, prioritariamente, ao Brasil ou aos seus acionistas minoritários, ou seja, O Mercado?

O Mercado sabotou o nacionalismo com uma reação política que atingiu o valor de mercado das ações da companhia. Depois do golpe contra o governo nacionalista, passou a se justificar, dizendo que, “frente às melhorias no perfil de liquidez da estatal e no ambiente regulatório do Brasil, a agência de classificação de riscos Moody’s elevou a nota de crédito da Petrobras de “B3” para “B2″ e mudou a perspectiva da companhia de negativo para estável”.

O valor de mercado da companhia, por sua vez, saltou 92,8% em cinco meses, de R$ 123,3 bilhões em primeiro de junho de 2016 para R$ 237,8 bilhões em 31 de outubro 2016! Essa trajetória de valorização tem relacionamento com mudanças em seus fundamentos econômicos ou  apenas reflete os efeitos do fim do processo de golpe parlamentarista contra a Presidenta eleita Dilma Rousseff?  

Foi ainda na administração Bendine que algumas das bases da gestão Parente começaram a ser estruturadas, dentre elas o início das negociações de uma série de desinvestimentos em curso e o foco na desalavancagem, a partir de cortes de investimentos e custos. Um dos principais avanços, nesse sentido, foi a aprovação, este ano, da reestruturação do modelo de governança da estatal, que prevê economia de R$ 1,8 bilhão por ano, a partir do corte no número de cargos de funções gerenciais. O reconhecimento da herança de seu antecessor se traduz na decisão de Parente de manter Ivan Monteiro, homem de confiança de Bendine, à frente da diretoria financeira.

Os especuladores com a ação da empresa apontam que um dos destaques do início da gestão é a transparência e comunicação com O Mercado e a mensagem de menor interferência do controlador. A divulgação de política de preços dos combustíveis em meados de outubro de 2016, por dar mais lucro à empresa, e assim atender pleito dos acionistas minoritários. Eles sofrem de miopia, só enxergando seus interesses em curto prazo e não vendo longe, i.é, a estratégia da empresa.

Os especuladores gananciosos dizem em tucanês: “isso pode ser transformador em geração de valor para a companhia, porque estamos falando de uma empresa que deixará de ser precificadora para seguir preços de mercado.” Ora, isso significa o preço do combustível oscilar de acordo com a volatilidade cambial e da cotação internacional do petróleo, estipulada pelo cartel da OPEP. Com uma taxa de inflação descontrolada e as decorrentes variações da taxa de juros Selic, a população brasileira que se dane em benefício dos especuladores!

O ponto crítico será subir os preços dos combustíveis. Baixar os preços — sem abaixar “na bomba-de-gasolina” — é mais fácil para o populismo de direita do que aumentar. A empresa terá autonomia para arrebentar a política antiinflacionária?!

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Concentração na Pauta de Exportações Brasileiras e Especulação com Commodities

concentracao-na-pauta-de-exportacoesOs colunistas cultivadores de mitos, assim como o próprio Ministro da Fazenda, dizem que “a nossa crise decorre de razões domésticas; não se trata de consequência de uma crise externa“. De fato, a causa da atual depressão está no “aqui-e-agora”:  a volta da Velha Matriz Neoliberal em 2015 e seu aprofundamento no ano corrente com o governo golpista!

Sérgio Lamucci (Valor, 13/10/16) informa que um grupo de cinco commodities responde por mais de 40% das exportações brasileiras, mesmo com a forte queda dos preços básicos registrada desde o pico atingido há cinco anos, após a concentração ocorrida como efeito da crise mundial de 2008. Nos primeiros nove meses de 2011 — a explosão da “bolha de commodities” data de setembro de 2011 — e também de 2014, esses cinco produtos haviam respondido por quase 47% das exportações totais.

De janeiro a setembro deste ano (2016), as vendas de minério de ferro, complexo soja, óleos brutos de petróleo, açúcar e complexo carnes foram responsáveis por 41,4% do total destinado ao exterior. Embora os preços tenham caído muito desde 2011, a participação desse grupo de commodities nas vendas externas do país recuou pouco nos últimos anos em parte porque o volume exportado seguiu em alta.

Números da Fundação Centro de Estudos de Comércio Exterior (Funcex) mostram que as cotações dos produtos básicos recuaram quase 48% quando se compara o período de janeiro a agosto de 2011 com o mesmo intervalo de 2016. Ao mesmo tempo, as quantidades vendidas ao exterior desses bens subiram 33,6%.

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Fim da Civilização do Automóvel e/ou do Petróleo?

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As ações da Petrobras subiram mais de 15%, no início do mês de outubro de 2016, levando a estatal de petróleo passar o Itaú em valor de mercado na Bovespa e assumir a segunda posição, segundo a Economatica. A companhia fechou o pregão do dia 10/10/16 com valor de mercado de R$ 218,289 bilhões, ante R$ 212,241 bilhões do Itaú. A primeira colocada segue sendo a AmBev, com R$ 308,946 bilhões em valor de mercado. Segundo a consultoria, em fevereiro deste ano, a Petrobras chegou a ser a quarta maior empresa em valor de mercado, ficando atrás da Ambev, Itaú e Bradesco. A última vez que Petrobras foi a segunda maior empresa do mercado foi em 18 de junho de 2015, quando o valor de mercado atingiu R$ 185,4 bilhões, ante R$ 183,9 bilhões do Itaú.

A Petrobras já foi a maior empresa da Bovespa. Isso aconteceu no dia 15 de outubro de 2014, quando o valor de mercado da companhia foi de R$ 254,4 bilhões, contra R$ 247,7 bilhões da Ambev.

O próximo objetivo gráfico na tendência de alta do Ibovespa está na casa dos 63.500 pontos ou 64 mil pontos. Com essa alta, logo, os investidores estrangeiros, que dominam a Bolsa de Valores brasileira, poderão fazer alguma realização de lucro, mas isso não deve ocorrer se o fluxo financeiro continuar forte. Se continuar entrando dinheiro de estrangeiro, o fluxo absorve essa pressão vendedora. O investidor estrangeiro colocou no início do mês de outubro, o fluxo já é positivo em R$ 1,554 bilhão, revertendo boa parte das perdas de setembro, que foram de R$ 1,9 bilhão. No ano, o fluxo é positivo em R$ 14,597 bilhões.

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Indústria 4.0 (por David Kupfer)

Indústria 4.0

David Kupfer é diretor do Instituto de Economia da UFRJ e pesquisador do Grupo de Indústria e Competitividade (GIC-IE/UFRJ). Especialista em Economia Industrial, publicou artigo (Valor, 08/08/16) que permite a um leigo como eu uma atualização sobre as perspectivas da indústria. Compartilho seu artigo abaixo.

“De alguns anos para cá vem ganhando crescente visibilidade conceitos como “Manufatura Avançada” e “Indústria 4.0”. O conceito de Manufatura Avançada entrou em evidência após ancorar um plano estratégico publicado pelo governo americano (A National Strategic Plan for Advanced Manufacturing, Executive Office of the President and National Science and Technology Council, fevereiro de 2012). Já Indústria 4.0, como prefere denominar o governo alemão, ganhou vida como uma iniciativa conjunta do Ministério de Economia e Energia com empresas líderes, universidades e centros de pesquisa do país quando também em 2012 lançou as bases de um ousado programa de reconversão tecnológica da indústria germânica com essa marca (The Vision: Industrie 4.0, Federal Ministry for Economic Affairs and Energy, 2012).

Ambos os termos traduzem visões da indústria em um futuro próximo no qual fábricas inteligentes usam tecnologias de informação e comunicação para digitalizar os processos industriais em direção a níveis inimagináveis de eficiência, qualidade e “customização”. Manufatura Avançada ou Indústria 4.0 nada mais são do que um elenco de técnicas que dependem do uso coordenado de informação, automação, computação, software, sensoriamento e conexão em rede.

Conjugadas, essas técnicas proporcionam inovações:

  1. em robótica e eletrônica embarcada, que propiciam um super- barateamento da automação flexível;
  2. em manufatura aditiva, que estende as fronteiras de descentralização e fragmentação da produção; e, ainda,
  3. em computação em nuvem, internet das coisas, big data e interfaceamento, que alargam os horizontes dos experimentos de inteligência artificial.

O resultado é um salto evolutivo nas formas de organização da produção, em que se aprofunda sobremaneira a capacidade de interação M2M (máquina-máquina) sem a intervenção humana.

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Locaute Golpista: Industriais “pagam o pato”

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Estimativas recentes da UNIDO permitem analisar o desempenho da indústria de transformação mundial em 2015. Percebe-se, nitidamente, que o Brasil ficou “fora-da-curva”, ou seja, destoou do restante do mundo de forma abrupta. Tal paralisia não foi devido apenas a fatores econômicos. Para explicar, é necessário considerar os fatores políticos que levaram à essa “parada-súbita”.

Dados dessa nova revisão das informações industriais realizada pela UNIDO (Organização de Desenvolvimento Industrial das Nações Unidas) colocam em evidência a perigosa desindustrialização que vem ocorrendo no Brasil. Contudo, são também reveladores de que a posição brasileira no contexto mundial ainda conserva certa relevância. Em outras palavras, o fenômeno tem dimensão mundial e a Carta IEDI N. 749 destaca a especificidade brasileira.

comparacoes-do-vti-brasil-x-renda-media-alta-x-mundoNo início da atual década, por exemplo, a participação do país na manufatura mundial, em torno de 3%, aproximava-se à de um país que é referência para processos de industrialização bem-sucedidos, a Coréia do Sul. Naquela época, o Brasil detinha a 6ª maior indústria do mundo. Em 2015, ano em que a indústria nacional declinou quase 10% e o país passou a representar apenas 2,3% do PIB manufatureiro global, caímos para a 9ª posição.

Ainda assim, mesmo diante de tantos reveses e de efeitos tão adversos de políticas executadas nas últimas décadas, a exemplo da política cambial, o fato é que o Brasil ainda tem presença no mapa industrial mundial, figurando entre as maiores indústrias do planeta.

Em seu relatório mais recente, a UNIDO também mostra que, de 2014 para 2015, não houve mudança na relação dos países entre os 15 maiores produtores industriais, embora se destaque a queda de posição do Brasil. Este foi sobrepujado pela Índia, pela Itália e pela França, caindo da 6ª para a 9ª colocação.

[Efeito do locaute empresarial pregado pela FIESP GOLPISTA com a campanha para os ricos empresários industriais “não pagarem o pato”, isto é, não ser revogada a Lei nº 9.249 de 1996, na Era Neoliberal, quando os lucros ou dividendos passaram a ser isentos.]  Continue reading “Locaute Golpista: Industriais “pagam o pato””

Carência de “Motor-de-Crescimento”: Capacidade Ociosa

Desempenho da Indústria de AutomóveisOciosidade Elevada

Arícia Martins (Valor, 26/07/16) informa que, assim como observado na indústria, houve importante aumento da ociosidade nos setores de serviços e construção civil ao longo da crise, mas os últimos números mostram estabilização da tendência de recuo, com ligeira alta da utilização dos fatores produtivos nos serviços. A partir das sondagens de julho de 2016, o Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (Ibre-FGV) vai divulgar dados mensais do uso da capacidade instalada para esses dois importantes setores da economia, além da indústria.

Em abril de 2013, quando os índices começaram a ser calculados, o Nível de Utilização da Capacidade Instalada (Nuci) era de 88,4% nos serviços, pico da série. Até maio deste ano, recuou 6,2 pontos percentuais, para 82,2% – nível mais baixo da pesquisa. De maio para junho, o Nuci de serviços interrompeu uma sequência de nove retrações mensais e subiu para 82,7%, voltando ao patamar de fevereiro.

Devido à heterogeneidade dos serviços, que representam mais de 70% do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro, e à dificuldade de medir a “produção” do segmento, que é intangível, o Nuci estimado para o setor é uma aproximação, explica Aloisio Campelo, superintendente-adjunto para ciclos econômicos do Ibre-FGV.

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Recuperação da Petrobras

Déficit da Petrobras

Flávia Lima (Valor, 12/07/16) avalia que o estrago causado por um conjunto de problemas que atingiram a Petrobras nos últimos anos foi grande, espalhado e seus efeitos ainda parecem longe de um desfecho. Queda vertiginosa dos preços do petróleo no mercado internacional, uso da empresa como instrumento de controle da inflação e Lava-Jato figuram entre as principais variáveis que afetam – ou afetaram – a empresa e seu entorno.

Mas notícia a favor de si, como um efeito negativo menor do recuo dos investimentos da estatal sobre o Produto Interno Bruto (PIB) ou preços de combustíveis ainda vendidos bem acima do mercado externo, além do entusiasmo de O Mercado com a nova direção nas mãos do executivo Pedro Parente podem ser os primeiros sinais de que os estragos da estatal sobre a macroeconomia tendem a ser menos desastrosos daqui para frente.

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