Dependentes de Commodities com Desindustrialização da Pauta de Exportações

Marta Watanabe (Valor, 01/04/21) informa: a exportação brasileira ficou mais dependente de commodities na última década. A participação dos produtos da indústria de transformação caiu de 63,3% em 2010 para 55,1% no ano passado. Intensificada pela pandemia, a perda, dizem analistas, revela como o país ficou para trás num período em que a concorrência no comércio internacional aumentou.

Embora o embarque de commodities tenha garantido superávits comerciais e reflita uma vantagem competitiva do país, apontam, a diversificação da pauta e de destinos é o caminho para integrar o país ao comércio internacional nos próximos dez anos. Isso tornaria o Brasil menos sujeito a oscilações de preços de commodities e para possibilitar à indústria tirar proveito sustentável da esperada retomada do comércio mundial.

É preciso recuperar a economia e fazer com que esse crescimento possa ser levado para o setor industrial, para melhora da competitividade, para que as recuperações não sejam circunstanciais, apenas reação momentânea à demanda. É preciso uma decisão de política econômica para ter setor industrial forte. Isso não foi feito e hoje a economia brasileira sofre.

A perda de participação da indústria na exportação na última década não se deu apenas em razão do crescimento em ritmo mais acelerado de produtos não industrializados. Os dados mostram o valor embarcado em manufaturados ter encolhido. De 2010 para 2020, houve perda de valor de exportação em dólares da indústria de transformação, com queda de US$ 129 bilhões para US$ 114 bilhões. Os dados são do Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (Iedi).

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Vírus da Desindustrialização

Pedro Cafardo (Valor, 30/03/21) dá um sopro de esperança ao jornalismo econômico brasileiro por retomar os temas caros aos desenvolvimentistas.

É difícil neste momento desesperador fugir do tema da pandemia. Mas alguém precisa pensar em outro paciente moribundo no país, a indústria, atingida também por um poderoso vírus que vem destruindo sua capacidade de produção há décadas. Agora, a doença se agravou. A Ford, há um século no país, vai embora. A Mercedes suspende a produção de sua fábrica no Brasil. A Sony sai correndo de Manaus.

É o avanço da desindustrialização. Alguns analistas dizem se tratar de um processo mundial de transição da economia industrial para a de serviços. O processo existe, mas, no caso brasileiro, é acelerado e se dá antes de o país atingir a maturidade no setor.

Há pelo menos três décadas a indústria brasileira agoniza

A participação brasileira na indústria mundial, tendo chegado a 2,8% em 2005, recuou para 1,8% agora. E a indústria tem hoje participação no PIB nacional de 11% – tinha 17,8% em 2004 e 35% em meados dos anos 1980. Ou seja, há pelo menos três décadas a indústria brasileira agoniza, sem respiradores nem UTIs.

Esses números e outros abaixo mostram um processo de desindustrialização evidente. Embora a tragédia da pandemia dificulte raciocínios sobre futuro, a coluna colheu opiniões de dois grandes economistas desenvolvimentistas não submissos ao mercado financeiro e estudiosos da indústria. A pergunta foi: como reverter esse processo?

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Explicação pelos Interesses dos Detentores do Poder Político

A segunda linha de argumentação, apresentada por John Zysman, no livro Governments, Markets, and Growth (Cornell University Press, 1983), sustenta, enquanto os problemas confrontados por cada país definem os termos pelos quais as escolhas devem ser feitas, as diferentes decisões de ações de um governo dependem das personalidades governantes e da natureza de seus objetivos. Portanto, devemos considerar o papel das coalizões, grupos de interesse e interesses políticos.

Uma coalizão governante – uma “grande maioria” na expressão de Charles Lindbloom – define a gama de finalidades para as quais a máquina estatal pode ser usada. Se as coalizões nacionais devem delimitar a gama de políticas, em um conjunto de setores, deve haver políticas capazes de restringir as escolhas a serem feitas dentro de cada setor ou em uma situação onde muitos dos mesmos atores são envolvidos nas decisões em cada setor. Ambos podem ser o caso. 

Por exemplo, acordos gerais para reduzir as tarifas podem tornar mais difícil para as empresas de uma indústria específica obterem proteção contra as importações.

Em um sistema centralizado como o da França ou do Japão, os mesmos burocratas têm participação na política de muitos setores econômicos. De acordo com esta linha de argumentação, então, as mudanças nas coalizões governantes quanto à filiação partidária ou o poder relativo dos constituintes da coalizão partidária são os elementos explicativos das mudanças nas direções básicas da política.

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Quatro Visões do Estado e da Economia

John Zysman, no livro Governments, Markets, and Growth (Cornell University Press, 1983), situa o problema das finanças de acordo com cada especificidade nacional.

A literatura contemporânea contém quatro linhas de argumentação, cada uma com uma ênfase distinta, na tentativa de explicar como o governo e os negócios se relacionam entre si

  1. a primeira linha de argumento enfatiza a natureza do problema econômico a ser resolvido por um país
  2. a segunda destaca os interesses dos grupos políticos detentores do poder;
  3. o terceiro enfatiza os arranjos institucionais da política e da administração pública; e 
  4. o quarto enfatiza as ideologias e a visão de mundo dos políticos, burocratas e empresários sobre os papéis da indústria e do Estado

Alguns estudiosos propõem uma quinta abordagem. Ela enfatiza a tradição histórica como uma linha distinta de argumento. Na verdade, no entanto, uma tradição histórica de relações particulares entre governo e negócios, como o legado francês de intervenção estatal, deve ser sustentada por uma continuidade dos interesses, instituições, ou ideologias daqueles governantes ao longo do tempo. Tradição histórica não é uma essência mística e não pode constituir uma categoria separada de explicação.

As três primeiras explicações foram consideradas nos estudos de caso, realizados anteriormente, e são incorporados na seguinte análise do comportamento do Estado.

Zysman deixa de lado a quarta categoria, ideologias e visões de mundo, por razões explicadas brevemente neste ponto. Ideologias fornecem mapas daquilo possível e adequado na vida política. Elas constituem visões de mundo e lentes através das quais a experiência é ordenada. Burocratas nos Estados com tentativas de forçar o desenvolvimento de suas economias terão ideologias e visões de mundo diferentes das dos burocratas em Estados longe da economia. 

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Finanças, Ajuste e Crise Política

John Zysman, no livro Governments, Markets, and Growth (Cornell University Press, 1983), argumenta as diferenças estruturais nos sistemas financeiros nacionais contribuírem para as diferentes capacidades dos governos de intervir na economia industrial. Nos países ocidentais avançados, os mercados financeiros, assim como as instituições, atuam para restringir a escolha política. 

Mercados são organizados por preço em resposta à oferta e demanda, enquanto as instituições são organizadas por hierarquia política ou administrativa, mas ambos influenciam a política de maneira semelhante. A organização dos mercados para as finanças ajuda a moldar as escolhas enfrentadas por um governo, influenciando assim as políticas adotadas e o processo político pelo qual a mudança industrial ocorre.

Três tipos distintos de sistemas financeiros, cada um com políticas e implicações específicas, foram descritas no primeiro capítulo. Os três são: 

(1) um sistema baseado no mercado de capitais com recursos alocados por cotações estabelecidas pela avaliação predominante dos participantes; 

(2) um sistema baseado em crédito com juros administrados; e 

(3) um sistema baseado em crédito e dominado por bancos. 

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Modelo Geral: Alternativo aos Tipos Específicos de Sistema Financeiro Nacional

Segundo John Zysman, no livro Governments, Markets, and Growth (Cornell University Press, 1983), um argumento alternativo ao seu sustenta um modelo geral de um “sistema financeiro” poder ser usado para prever o comportamento de qualquer caso. Basta variar as quantidades dos mercados de cada sistema para fazer previsões para qualquer caso particular. Formalizando a questão, podemos dizer a escolha ser entre: 

(1) um conjunto de modelos, cada um dos quais se baseia em um conjunto diferente de equações expressivas do comportamento de cada sistema financeiro, e 

(2) um único conjunto de equações podem variar as quantidades em cada caso nacional para prever os resultados do sistema.

A literatura existente não ajuda muito a testar a proposição de existir vários sistemas financeiros estruturalmente distintos. Há uma extensa literatura institucional, mas enfoca as peculiaridades das instituições de cada sistema, não as distinções no funcionamento de seus mercados financeiros. 

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Três Modelos de Finanças

Os três modelos financeiros descritos por John Zysman, no livro Governments, Markets, and Growth(Cornell University Press, 1983), destacam o relacionamento entre características específicas de um sistema financeiro e resultados políticos. Embora os detalhes de um sistema financeiro particular não correspondam a nenhum um desses três modelos, precisamente, suas características estruturais importantes são representadas. 

Não tenta demonstrar estes serem os únicos sistemas possíveis. No entanto, parece haver um número limitado de arranjos possíveis, certamente, empiricamente e talvez teoricamente.

O papel do governo, os mercados significativos, os mecanismos pelos quais preços são fixados e as ligações entre finanças e indústria parecem interconectados. Cada agrupamento forma um subsistema. 

A lógica de eliminar possibilidades simplesmente não vale o esforço. Todos nós realmente precisamos estabelecer os subsistemas serem distintos uns dos outros de formas politicamente significativas.

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Breve Esboço dos Sistemas Financeiros Nacionais Existentes no Mundo

Segundo John Zysman, no livro Governments, Markets, and Growth (Cornell University Press, 1983), a etapa final neste breve esboço de sistemas financeiros é considerar as várias maneiras pelas quais os governos operam nos mercados financeiros.

Em primeiro lugar e mais obviamente, os governos gerenciam a criação de dinheiro para atingir as metas de taxa de juros ou de oferta de moeda. Esses objetivos são perseguidos por meio de técnicas de comprimento de braço, como manipular o nível de reservas exigido para um banco deve manter, ou por meios mais diretos, tais como o estabelecimento de limites quantitativos sobre o que cada banco pode emprestar. 

Segundo, os governos administram e regulam os sistemas financeiros para garantir a estabilidade e a solvência das instituições individuais. Para este fim, os bancos centrais atuam como credores de último recurso para garantir as incompatibilidades de fundos ou a falta de liquidez no sistema não desencadearem uma crise.

Na Grã-Bretanha e nos Estados Unidos, o papel do Banco Central é essencialmente para atuar como um estabilizador marginal, enquanto na França e no Japão o Banco Central facilita a criação de dinheiro, fornecendo amplo acesso a seus próprios fundos e, portanto, influenciam a alocação de fundos. Para nossa discussão inicial, não importa se o Banco Central tem a responsabilidade mais imediata, se está realmente sob o controle do governo, como na França, ou independente, como na Alemanha e o Estados Unidos. 

Terceiro, na gestão dos governos do sistema financeiro pode estabelecer regras de modo a favorecerem implicitamente um tipo de instituição sobre outro tipo. Tais vieses podem equivaler a subsídios a certos mutuários ou credores: se os vieses são impostos por regras de modo a não dizerem respeito a recursos para alocação, mas sim com as condições de competição, por exemplo, em regras para reger as associações de poupança e empréstimo nos Estados Unidos, então, a lógica de os mercados definirem os preços não será alterada.

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Economia de Mercado de Capitais e Economia de Endividamento Bancário

Segundo John Zysman, no livro Governments, Markets, and Growth (Cornell University Press, 1983), a existência desses dois sistemas diferentes – economia de mercado de capitais e economia de endividamento bancário, público ou privado – é evidente em uma comparação dos mercados de títulos francês e americano. 

França tem um sistema baseado em crédito onde os mercados de títulos ou capitais são de importância secundária. Na América, os mercados de capitais são cruciais para as finanças das empresas, um corolário das quais é a grande importância de investir em ações via instituições. A poupança individual é canalizada por meio de bancos de investimento, nos mercados de capitais, em maior medida nos Estados Unidos. Finalmente, na França, instituições de crédito de longo prazo com bases de depósito limitadas (nota passivos) emprestam extensivamente a empresas (observe as reivindicações). Eles afunilam fundos de instituições de poupança em empréstimos.

A seguir, Zysman distingue os sistemas financeiros pela forma como os preços são definidos nos três tipos de mercados financeirosmercados de capitais, mercados de empréstimos e mercados monetários. A noção básica dos mercados financeiros é os preços (juros ou cotações) serem definidos pelos esforços dos credores para obter o maior retorno (dado a sua tolerância ao risco) e os esforços dos usuários para obter o dinheiro mais barato para seus diferentes projetos. 

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Demanda por Fundos de Empréstimos em Curto ou em Longo Prazo

Até o capítulo 3, John Zysman, no livro Governments, Markets, and Growth (Cornell University Press, 1983), se concentrou na oferta de fundos de investimento e nas formas desses fundos poderem assumir. Vai considerar por um momento o problema da demanda por fundos ou, mais precisamente, a forma pela qual uma empresa escolherá buscar esses fundos. 

A escolha do instrumento para a obtenção de fundos externos dependerá de

  1. o preço do dinheiro, em diferentes formas, 
  2. a preferência da própria empresa por dívida ou capital, e 
  3. a preferência dos participantes do mercado pelo equilíbrio (ou não) entre investimento em dívida ou capital (patrimônio líquido) na empresa. 

Se tiver um projeto de investimento em longo prazo de maturação, a firma não desejará o dinheiro ser retirado na metade do projeto. Portanto, optará pela venda de ações (uma ação da empresa) ou de um título de dívida direta (um empréstimo de longo prazo com isenção fiscal de juros pagos). 

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Reservas Compulsórias ou Voluntárias

John Zysman, no livro Governments, Markets, and Growth (Cornell University Press, 1983), apresenta as reservas compulsórias ou voluntárias contra as quais os empréstimos bancários são feitos. Servem a dois propósitos. 

Primeiro, reservas são uma proteção prudente, uma garantia de as reivindicações não excederem os fundos disponíveis. No curso normal de negócios, haverá períodos de grandes retiradas ou saques de empréstimos. Para os bancos rurais, a estação de plantio é um desses períodos. Sobrecarrega as reservas. 

Segundo, reservas fornecem um meio pelo qual o governo pode regular a quantidade de dinheiro emprestado os bancos. O governo aumenta as taxas de reserva compulsória para forçar uma redução no total de empréstimos bancários. 

Um banco pode encontrar reservas para manter seus empréstimos existentes, mas deve obtê-los em algum lugar a mais nos mercados financeiros. Assim, a manipulação do governo das exigências de recolhimento de reserva afetará o volume de empréstimos no sistema como um todo.

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Indústria Financeira

John Zysman, no livro Governments, Markets, and Growth (Cornell University Press, 1983), afirma os sistemas financeiros servirem para transformar poupança em investimento e para alocar esses fundos entre os usuários concorrentes. Neste capítulo, ele irá considerar os tipos de mercado úteis para realizar essa transformação e a forma como os preços são definidos nesses mercados. Sua preocupação central é demonstrar como o setor empresarial da economia é financiado.

O vocabulário de Finanças muitas vezes adiciona mistério e confusão ao leitor. Para fornecer algum vocabulário básico, devemos distinguir: 

  • primeiro, entre agentes financeiros e intermediários financeiros e, 
  • em segundo lugar, entre instituições financeiras bancárias e não bancárias. 

As instituições financeiras, agrupadas em mercados pelo tipo de serviço prestado, situam-se entre os poupadores e investidores, atuando como corretores-agentes ou como intermediários na transferência de fundos. Na linguagem comum, corretor e intermediário significa quase a mesma coisa, mas na linguagem especializada de Finanças, eles representam atividades bastante diferentes. 

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