Investimentos das Grandes Petroleiras Mundiais e da Petrobras

David Sheppard e Anjli Raval (FT, 25/07/18) informam: pressionado por um investidor desiludido para responder com a “mão no coração” se a Royal Dutch Shell estava mais preocupada com “a sustentabilidade da companhia ou com a sustentabilidade do planeta”, o executivo-chefe da petrolífera, Ben van Beurden, reconheceu as mudanças climáticas serem “o desafio decisivo” diante da indústria de petróleo nos anos por vir.

Em seguida, descreveu os benefícios proporcionados pelas fontes de energia
como “muitas vezes uma questão de vida ou morte ” para milhões de pessoas
pelo mundo. O executivo podia muito bem estar falando de seu próprio setor,
que, segundo alguns, acaba de sair de uma retração brutal para agora se deparar com um desafio ainda mais grave: a indústria petrolífera precisa decidir se deve continuar a investir em petróleo em uma era na qual as preocupações com o clima podem levar a demanda a atingir seu pico talvez já na década de 2020.

É uma dúvida que domina a indústria de energia e vai determinar o futuro da Shell, a BP e outras grandes petrolíferas. No passado recente, pressionada por investidores e precisando cortar custos depois de a cotação do petróleo ter caído pela metade, a indústria petrolífera em grande medida desistiu de novos investimentos nos megaprojetos que eram seu forte em outros tempos, como a exploração no Ártico ou nas areias betuminosas do Canadá.

Na segunda metade desta década, os investimentos totais em bens de capital dos grandes grupos de petróleo e gás deverão ter caído quase 50% para US$ 443,5 bilhões, em comparação aos US$ 875,1 bilhões gastos entre 2010 e 2015, segundo a consultoria norueguesa Rystad Energy. O declínio, embora tenha sido influenciado em parte pela diminuição dos custos para desenvolver campos petrolíferos, também coincidiu com a propensão dos grandes grupos de passar a investir mais capital em projetos de curto prazo, que dão retorno mais rápido, como os de fontes renováveis de energia. Essas movimentações chegam alicerçadas na crença de que os veículos elétricos representam ameaça para o reinado do petróleo. Continue reading “Investimentos das Grandes Petroleiras Mundiais e da Petrobras”

Tabelas do Sistema de Contas Nacionais: Brasil 2010-2016

Gráfico acima: crescimento do PIB em volume acumulado entre dois anos – Brasil – 1947-2016  (em formato xls e ods)

Tabelas Completas: Sumário das Tabelas em formato pdf

Tabelas sinóticas – 2010-2016

Tabela 1 – Visão sintética do panorama econômico, mundial e nacional, segundo os principais indicadores – 2010-2016 (em formato xls e ods)

Tabela 2 – Economia nacional – Conta de bens e serviços – 2010-2016 (em formato xls e ods)

Tabela 3 – Economia nacional – Contas de produção, renda e capital – 2010-2016 (em formato xls e ods)

Tabela 4 – Economia nacional – Conta das transações do resto do mundo com a economia nacional – 2010-2016 (em formato xls e ods)

Tabela 5 – Componentes do Produto Interno Bruto sob as três óticas, valores correntes e constantes e variação de volume, preço e valor – 2010-2016 (em formato xls e ods)

Tabela 6 – Produto Interno Bruto, Produto Interno Bruto per capita, população residente e deflator – 1996-2016 (em formato xls e ods) Continue reading “Tabelas do Sistema de Contas Nacionais: Brasil 2010-2016”

2016: Ano do Golpe e da Grande Depressão

O Produto Interno Bruto (PIB) atingiu R$ 6,267 trilhões em 2016 e a sua queda percentual em relação a 2015 foi revisada de -3,5%para -3,3%. O resultado de 2016 decorreu de uma queda de 2,9% do Valor Adicionado Bruto – VAB e de um decréscimo de 5,6% dos Impostos sobre produtos, líquidos de subsídios.

Os três setores econômicos mostraram quedas: agropecuária (-5,2%), indústria (-4,6%) e serviços (-2,3%). Com isso, o PIB per capita foi de R$ 30.548, com queda em volume de 4,1%).

O consumo das famílias, que representa 62,8% do PIB, caiu pelo segundo ano consecutivo: em 2016 (-3,8%)e em 2015 (- 3,2%). Por outro lado, a despesa de consumo final do governo cresceu 0,2% em 2016, após recuar em 2015 (-1,4%).

De 2015 para 2016, a taxa de investimento caiu de 17,8% para 15,5%, chegando ao seu menor percentual na série histórica iniciada em 1995.

Em 2016, o setor externo novamente contribuiu positivamente para o PIB, com as exportações subindo 0,9%, uma variação ainda positiva, embora menor do que os 6,8% de 2015. A queda nas importações (-10,3%) foi menos intensa que a de 2015 (-14,2%).

Pela primeira vez na série do Sistema de Contas Nacionais do Brasil – referência 2010, o setor empresas não financeiras mostrou capacidade de financiamento (R$ 20,7 bilhões).

Em relação às empresas do setor financeiro, o valor adicionado bruto teve crescimento nominal de 16,7% e alcançou R$423,4 bilhões. Contribuiu para esse resultado o aumento da Selic, que fechou o ano no patamar médio de 14,2% a.a, contra 13,5% a.a em 2015.

Essas e outras informações integram o Sistema de Contas Nacionais 2010-2016 – referência 2010, que agrega novos dados, mais amplos e detalhados, do próprio IBGE e fontes externas, além de atualizações metodológicas, que revisam os resultados divulgados pelas Contas Nacionais Trimestrais. O material de apoio está disponível nos seguintes links:

Revisão do PIB de 2016 mostra queda de 3,3% em relação ao ano anterior

Publicação das Contas Nacionais 2016

https://www.ibge.gov.br/estatisticas-novoportal/economicas/contas-nacionais/9052-sistema-de-contas-nacionais-brasil.html

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Hipótese de Desigualdade Regional baseada em Diferenças nas Instituições e Estruturas

A ideia de que diferenças na qualidade das instituições podem explicar desigualdades nos níveis de desenvolvimento entre países, e obviamente também entre regiões, tem sido objeto de atenção dos economistas nos últimos anos, principalmente após o importante trabalho apresentado por Acemoglu e Robinson (2012). Essa nova valorização do papel das instituições teve uma base empírica forte, mas também encontra suporte teórico. Basicamente, segundo leitura de Alexandre Rands Barros, no livro “Desigualdades Regionais no Brasil”, argumenta-se as instituições liberais como as norte-americanas darem suporte à iniciativa privada e assegurarem maior eficiência e engajamento de esforço produtivo nos investimentos em capital humano e em pesquisa e desenvolvimento tecnológico.

Alguns estudos realizados no passado enfatizavam algumas características dos arranjos institucionais no Nordeste. Eles poderiam ser prejudiciais a seu desenvolvimento e por tal poderiam responder, pelo menos parcialmente, pelo atraso relativo dessa região.

Esses estudos enfatizam duas possíveis fragilidades institucionais como empecilhos ao desenvolvimento regional.

A primeira se constitui a partir das relações de poder em nível local, nos municípios, que seriam no passado bastante influenciadas pelo fenômeno do coronelismo.

A segunda seria a apropriação dos governos estaduais e das instituições federais atuantes na região pelas elites locais. Elas se desviavam de objetivos desenvolvimentistas para gerar benefícios próprios, de forma lícita ou ilícita.

Em ambos os fenômenos, a essência era a mesma: o aparato de Estado e seu poder de atuação na economia e na sociedade tinham suas ações distorcidas a fim de gerar benefícios a alguns segmentos sociais, cujos interesses poderiam revelar-se contrários ao desenvolvimento.

Em consequência dessas distorções institucionais, os investimentos em educação pelo setor público estariam abaixo do socialmente ótimo. A burocracia estatal e os aparatos de fiscalização e arrecadação viesavam suas ações para beneficiar empresas de baixo investimento em desenvolvimento tecnológico e recursos humanos, prejudicando, assim, esses investimentos no agregado social. Além disso, a migração de capital para a região também era prejudicada por incertezas geradas pela fragilidade das instituições. Continue reading “Hipótese de Desigualdade Regional baseada em Diferenças nas Instituições e Estruturas”

Hipótese de Disparidades Regionais a partir das Diferenças de Capital Social e de Amenidades

É recorrente o Apelo à Opinião de uma Autoridade Irrelevante ou Vaga no livro de Alexandre Rands Barros, “Desigualdades Regionais no Brasil”: “há uma literatura recente que enfatiza o papel do capital social para o crescimento e o desenvolvimento econômicos. Essa literatura começou a ser desenvolvida na Sociologia, mas, recentemente, foi incorporada à Economia. (…) Em consequência, seria de se esperar que logo surgissem versões para o Brasil dessa explicação, dadas as disparidades regionais existentes no país”.

O objetivo é explicar as disparidades regionais a partir das diferenças de capital social nas diversas regiões do país. O conceito de capital social ainda não é muito preciso na literatura acadêmica.

Há quatro diferentes características que poderiam ser consideradas os principais componentes do capital social. São elas:

  • a confiança que os indivíduos têm uns nos outros;
  • as redes de relacionamento que os indivíduos constroem na vida;
  • as organizações voluntárias que existem nas comunidades; e
  • a propensão dos indivíduos a cooperarem.

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Hipóteses Incompletas para Desigualdades Regionais no Brasil

Alexandre Rands Barros, no livro “Desigualdades Regionais no Brasil”, diz: “as hipóteses classificadas aqui como incompletas são aquelas às quais nunca se deu a atenção necessária para que possam realmente explicar a origem do fenômeno. Normalmente se faz algum estudo ou apenas uma avaliação de diferenças em atributos existentes entre as regiões, e credita-se a elas a disparidade regional. Uma consequência disso é que, muitas vezes, não se analisa, da forma devida, a origem dessas diferenças ou se realmente elas têm capacidade de gerar disparidades regionais como as encontradas no Brasil”.

Daí ele faz uma discussão das principais hipóteses identificadas para justificar a desigualdade regional brasileira – e descartadas por ele para ficar só com a primeira. Comete aí a petição de princípio: sua conclusão está tomada, implícita ou explicitamente, em sua premissa.

Esta é a hipótese baseada nas diferenças em capital humano. Sua ideia-fixa é existir uma grande diferença no estoque de capital humano per capita entre as regiões brasileiras, principalmente quando se comparam o Nordeste e o Sudeste. Lógico, a diferença entre médias de escolaridade salta aos olhos de qualquer observador concentrado na análise das desigualdades regionais no país. Continue reading “Hipóteses Incompletas para Desigualdades Regionais no Brasil”

Proposta Demagógica para Correção da Desigualdade Regional Brasileira

Esforço-me para não incorrer em uma Falácia Genética, ou seja, um apego emocional, no caso negativo, à origem do emissor de uma ideia. Evito desvalorizar um argumento (ou defendê-lo) não por seu mérito, mas somente por causa da origem da pessoa que o defende. Não pretendo atacar a pessoa, em vez da opinião dela, com a intenção de desviar a discussão e desacreditar a proposta desse oponente.

Confesso essa postura perante Alexandre Rands Barros, autor do livro “Desigualdades Regionais no Brasil”, não ser fácil. Por que? Por causa de seu ataque ao IE-UNICAMP, durante a campanha eleitoral de 2014, querendo atingir à Presidenta Dilma.

Mas agora desejo analisar sua (parca) ideia a respeito da desigualdade regional brasileira: as desigualdades regionais explicam-se pelas diferenças em capital humano encontradas nas diversas regiões brasileiras.

Neste post-resenha vou avaliar sua análise de algumas hipóteses alternativas para explicar o surgimento das desigualdades regionais. Espanto-me o modo como ele descartou todas elas. Seu foco maior, claro, foi na hipótese de Celso Furtado, porque ainda hoje é a mais completa e bem estruturada explicação existente para o fenômeno analisado. Entretanto, sua ambição era furtar sua reputação, ocupando seu lugar como intelectual renomado.

Percebeu em relação a Furtado que, “apesar do brilhantismo de exposição, essa teoria basicamente transplanta para a questão regional local modelos de interpretação do desenvolvimento que já não têm apelo teórico ou empírico na academia internacional e mesmo nacional, sobrevivendo apenas em pequenos guetos, que insistem em se manter isolados do restante do mundo, encapsulando-se em conchas formadas por arrogância intelectual, que se alimentam da exploração da ignorância acadêmica da maioria das pessoas preocupadas com o problema”.

Reconhecem esse ter sido o ataque repetido em 2014 contra o IE-UNICAMP? Ele publicou o livro com essa crítica pretenciosa antes, em 2012. Eu não o conhecia. Mas a postura de Barros é a típica de um intelectual provinciano ao superestimar seu estudo nos Estados Unidos. Graduou-se em Ciências Econômicas em 1984, aos 21 anos, na Universidade Federal de Pernambuco – UFPE. Virou Ph.D. [Phdeus, sic] em Economia pela Universidade de Illinois em Urbana-Champaign (EUA) em 1990. Parece ter se deslumbrado com a sapiência de lá. Tamanha erudição e excesso de conhecimentos sem sequer citarem o pensamento latino-americano! 🙂

Daí Barros deduz o pensamento cepalino “não tem apelo teórico ou empírico na academia internacional e mesmo nacional, sobrevivendo apenas em pequenos guetos”. Um desses “guetos” estaria na Escola de Campinas, espécie de aldeia de Asterix: “Estamos no ano 50 antes de Cristo. Toda a Gália foi ocupada pelos romanos … Toda? Não! Uma aldeia povoada por irredutíveis gauleses ainda resiste ao invasor.” Continue reading “Proposta Demagógica para Correção da Desigualdade Regional Brasileira”