Hipótese de Desigualdade Regional baseada em Diferenças nas Instituições e Estruturas

A ideia de que diferenças na qualidade das instituições podem explicar desigualdades nos níveis de desenvolvimento entre países, e obviamente também entre regiões, tem sido objeto de atenção dos economistas nos últimos anos, principalmente após o importante trabalho apresentado por Acemoglu e Robinson (2012). Essa nova valorização do papel das instituições teve uma base empírica forte, mas também encontra suporte teórico. Basicamente, segundo leitura de Alexandre Rands Barros, no livro “Desigualdades Regionais no Brasil”, argumenta-se as instituições liberais como as norte-americanas darem suporte à iniciativa privada e assegurarem maior eficiência e engajamento de esforço produtivo nos investimentos em capital humano e em pesquisa e desenvolvimento tecnológico.

Alguns estudos realizados no passado enfatizavam algumas características dos arranjos institucionais no Nordeste. Eles poderiam ser prejudiciais a seu desenvolvimento e por tal poderiam responder, pelo menos parcialmente, pelo atraso relativo dessa região.

Esses estudos enfatizam duas possíveis fragilidades institucionais como empecilhos ao desenvolvimento regional.

A primeira se constitui a partir das relações de poder em nível local, nos municípios, que seriam no passado bastante influenciadas pelo fenômeno do coronelismo.

A segunda seria a apropriação dos governos estaduais e das instituições federais atuantes na região pelas elites locais. Elas se desviavam de objetivos desenvolvimentistas para gerar benefícios próprios, de forma lícita ou ilícita.

Em ambos os fenômenos, a essência era a mesma: o aparato de Estado e seu poder de atuação na economia e na sociedade tinham suas ações distorcidas a fim de gerar benefícios a alguns segmentos sociais, cujos interesses poderiam revelar-se contrários ao desenvolvimento.

Em consequência dessas distorções institucionais, os investimentos em educação pelo setor público estariam abaixo do socialmente ótimo. A burocracia estatal e os aparatos de fiscalização e arrecadação viesavam suas ações para beneficiar empresas de baixo investimento em desenvolvimento tecnológico e recursos humanos, prejudicando, assim, esses investimentos no agregado social. Além disso, a migração de capital para a região também era prejudicada por incertezas geradas pela fragilidade das instituições. Continue reading “Hipótese de Desigualdade Regional baseada em Diferenças nas Instituições e Estruturas”

Hipótese de Disparidades Regionais a partir das Diferenças de Capital Social e de Amenidades

É recorrente o Apelo à Opinião de uma Autoridade Irrelevante ou Vaga no livro de Alexandre Rands Barros, “Desigualdades Regionais no Brasil”: “há uma literatura recente que enfatiza o papel do capital social para o crescimento e o desenvolvimento econômicos. Essa literatura começou a ser desenvolvida na Sociologia, mas, recentemente, foi incorporada à Economia. (…) Em consequência, seria de se esperar que logo surgissem versões para o Brasil dessa explicação, dadas as disparidades regionais existentes no país”.

O objetivo é explicar as disparidades regionais a partir das diferenças de capital social nas diversas regiões do país. O conceito de capital social ainda não é muito preciso na literatura acadêmica.

Há quatro diferentes características que poderiam ser consideradas os principais componentes do capital social. São elas:

  • a confiança que os indivíduos têm uns nos outros;
  • as redes de relacionamento que os indivíduos constroem na vida;
  • as organizações voluntárias que existem nas comunidades; e
  • a propensão dos indivíduos a cooperarem.

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Hipóteses Incompletas para Desigualdades Regionais no Brasil

Alexandre Rands Barros, no livro “Desigualdades Regionais no Brasil”, diz: “as hipóteses classificadas aqui como incompletas são aquelas às quais nunca se deu a atenção necessária para que possam realmente explicar a origem do fenômeno. Normalmente se faz algum estudo ou apenas uma avaliação de diferenças em atributos existentes entre as regiões, e credita-se a elas a disparidade regional. Uma consequência disso é que, muitas vezes, não se analisa, da forma devida, a origem dessas diferenças ou se realmente elas têm capacidade de gerar disparidades regionais como as encontradas no Brasil”.

Daí ele faz uma discussão das principais hipóteses identificadas para justificar a desigualdade regional brasileira – e descartadas por ele para ficar só com a primeira. Comete aí a petição de princípio: sua conclusão está tomada, implícita ou explicitamente, em sua premissa.

Esta é a hipótese baseada nas diferenças em capital humano. Sua ideia-fixa é existir uma grande diferença no estoque de capital humano per capita entre as regiões brasileiras, principalmente quando se comparam o Nordeste e o Sudeste. Lógico, a diferença entre médias de escolaridade salta aos olhos de qualquer observador concentrado na análise das desigualdades regionais no país. Continue reading “Hipóteses Incompletas para Desigualdades Regionais no Brasil”

Proposta Demagógica para Correção da Desigualdade Regional Brasileira

Esforço-me para não incorrer em uma Falácia Genética, ou seja, um apego emocional, no caso negativo, à origem do emissor de uma ideia. Evito desvalorizar um argumento (ou defendê-lo) não por seu mérito, mas somente por causa da origem da pessoa que o defende. Não pretendo atacar a pessoa, em vez da opinião dela, com a intenção de desviar a discussão e desacreditar a proposta desse oponente.

Confesso essa postura perante Alexandre Rands Barros, autor do livro “Desigualdades Regionais no Brasil”, não ser fácil. Por que? Por causa de seu ataque ao IE-UNICAMP, durante a campanha eleitoral de 2014, querendo atingir à Presidenta Dilma.

Mas agora desejo analisar sua (parca) ideia a respeito da desigualdade regional brasileira: as desigualdades regionais explicam-se pelas diferenças em capital humano encontradas nas diversas regiões brasileiras.

Neste post-resenha vou avaliar sua análise de algumas hipóteses alternativas para explicar o surgimento das desigualdades regionais. Espanto-me o modo como ele descartou todas elas. Seu foco maior, claro, foi na hipótese de Celso Furtado, porque ainda hoje é a mais completa e bem estruturada explicação existente para o fenômeno analisado. Entretanto, sua ambição era furtar sua reputação, ocupando seu lugar como intelectual renomado.

Percebeu em relação a Furtado que, “apesar do brilhantismo de exposição, essa teoria basicamente transplanta para a questão regional local modelos de interpretação do desenvolvimento que já não têm apelo teórico ou empírico na academia internacional e mesmo nacional, sobrevivendo apenas em pequenos guetos, que insistem em se manter isolados do restante do mundo, encapsulando-se em conchas formadas por arrogância intelectual, que se alimentam da exploração da ignorância acadêmica da maioria das pessoas preocupadas com o problema”.

Reconhecem esse ter sido o ataque repetido em 2014 contra o IE-UNICAMP? Ele publicou o livro com essa crítica pretenciosa antes, em 2012. Eu não o conhecia. Mas a postura de Barros é a típica de um intelectual provinciano ao superestimar seu estudo nos Estados Unidos. Graduou-se em Ciências Econômicas em 1984, aos 21 anos, na Universidade Federal de Pernambuco – UFPE. Virou Ph.D. [Phdeus, sic] em Economia pela Universidade de Illinois em Urbana-Champaign (EUA) em 1990. Parece ter se deslumbrado com a sapiência de lá. Tamanha erudição e excesso de conhecimentos sem sequer citarem o pensamento latino-americano! 🙂

Daí Barros deduz o pensamento cepalino “não tem apelo teórico ou empírico na academia internacional e mesmo nacional, sobrevivendo apenas em pequenos guetos”. Um desses “guetos” estaria na Escola de Campinas, espécie de aldeia de Asterix: “Estamos no ano 50 antes de Cristo. Toda a Gália foi ocupada pelos romanos … Toda? Não! Uma aldeia povoada por irredutíveis gauleses ainda resiste ao invasor.” Continue reading “Proposta Demagógica para Correção da Desigualdade Regional Brasileira”

Desigualdades Regionais no Brasil

Dando continuidade ao meu estudo da Complexidade Brasileira — título do livro em elaboração por mim — sob a ótica de autores contemporâneos, li o livro Alexandre Rands Barros. “Desigualdades Regionais no Brasil: natureza, causas, origens e solução”, (Rio de Janeiro: Elsevier, 2012). Seu reducionismo desse fenômeno macrossocial a uma única causa – diferenças entre o capital humano médio das regiões – é método oposto ao adotado por mim: a Economia como Sistema Complexo emerge de interações entre múltiplos componentes com pesos diferenciados — e não de uma média uniformizadora.

Por definição, os heterodoxos leem os ortodoxos para os criticar. Faço uma análise crítica no sentido de salientar as qualidade e/ou defeitos do livro, expressando-me através de um texto escrito, e não atacando o autor em uma entrevista. Ressaltar pressupostas imperfeições de uma instituição ou de alguém sem a conhecer pessoalmente é leviano. No caso, tentarei não falar mal ou depreciar Barros por causa de seu comportamento.

Conheci o caráter desse autor na campanha eleitoral de 2014. Ele disse: “hoje em dia existem alguns consensos na teoria econômica. Estão em todas as universidades americanas, em 98% das europeias, em 95% das asiáticas e 97% das brasileiras. Só uma universidade aqui não tem articulação internacional, não traz e não manda ninguém para o exterior: a de Campinas (Unicamp). Ela é endógena. No entanto, tem uma força no governo Dilma que não tinha no de Lula, que era muito mais próximo do que Marina defende hoje. Os economistas de Campinas não consideram todo o desenvolvimento da teoria econômica desde a década de 1960. Dilma pensa com a cabeça de Campinas, que hoje é um lugar isolado, fora do mundo. Uma ilha que parou no tempo. Pela primeira vez, cada candidato tem propostas de desenvolvimento baseada em concepções diferentes.”

Curioso, não? Se o IE-UNICAMP não tivesse importância, ele não se importaria conosco. Freud explica o complexo de inferioridadeContinue reading “Desigualdades Regionais no Brasil”

Vale Comparar Minério e Petróleo

Outra exportação de commodity fundamental para o balanço comercial brasileiro é o de minérios pela Vale.

Renato Rostás (Valor, 29/06/18) informa: as matérias-primas industriais continuam sujeitas à geopolítica. De um lado, o nervosismo em torno da guerra comercial de Estados Unidos à China, promovida pelo presidente americano Donald Trump, derrubou os preços do minério de ferro em junho de 2018. Do outro, a decisão da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep) de elevar a produção de petróleo chegou a deixar a cotação instável, mas a percepção de que o mercado segue equilibrado deixou a commodity no azul.

O minério, inclusive, tem contrariado os próprios fundamentos econômicos de seu mercado. A China, maior compradora do insumo no mundo, bateu recorde histórico de produção mensal de aço no mês passado, com 81,1 milhões de toneladas. O minério é o principal ingrediente da fabricação do aço. Ao mesmo tempo, a oferta global diminuiu, principalmente com:

  1. a parada do Minas-Rio, da Anglo American, e
  2. a “força maior” da Casa de Pedra, da Companhia Siderúrgica Nacional (CSN) – ambos, do Brasil.

Mesmo assim, os preços se encaminham para queda em junho de 2018. No fim do mês, terminaram em US$ 64,44 a tonelada, segundo a “Metal Bulletin“, queda de 1,3% no acumulado do mês. No primeiro semestre, já caem 11,3%. A referência é o produto com pureza de 62% entregue no porto chinês de Qingdao. Continue reading “Vale Comparar Minério e Petróleo”

Petrobras: Reajuste Aparente

O que restou da Petrobras após a Gestão (A)Parente?

André Ramalho e Ivo Ribeiro (Valor, 13/07/18) mostra a continuidade administrativa. Há pouco mais de um mês no cargo de presidente da Petrobras, Ivan Monteiro, ex-diretor financeiro da estatal, assumiu o comando com a missão de pisar no acelerador e entregar ao mercado, ainda neste ano, os compromissos de venda de ativos e redução de dívidas.

Ao mesmo tempo, o executivo tem pela frente um debate público em torno da política de preços dos combustíveis. Após um ano de reajustes diários serviu de pano de fundo para a greve dos caminhoneiros, em maio de 2018, e levou à saída o então presidente, Pedro Parente.

Monteiro afirma a empresa reconhecer o impacto que tem sobre a sociedade. Está aberta ao debate, mas alerta: a artificialidade dos preços é incompatível com a missão da empresa de desenvolver o pré-sal.

“A Petrobras tem um impacto muito grande para a economia como um todo e tem de estar aberta a ouvir a sociedade. Mas não vamos abrir mão de ter uma política comercial realista“, disse.

A seguir, os principais trechos da entrevista concedida ao Valor. Depois, o quadro atual da desalavancagem financeira da Petrobras.

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