O Mito da Petrobras Quebrada

Cláudio Oliveira é economista aposentado da Petrobras e Felipe Coutinho é engenheiro químico e presidente da Associação dos Engenheiros da Petrobras (AEPET). Ambos escreveram um artigo esclarecedor sobre a atual situação da PetrobrasO mito da Petrobras quebrada.

Quero crer que, no bicentenário da Independência do Brasil em 2022, ou seja, daqui a meia-década, a atual depuração do sistema de financiamento corrupto das eleições de políticos profissionais já tenha sido superada. Uma nova fase da democracia se instalará no Brasil.

Em simultâneo, um superávit estrutural do balanço de transações correntes, produzido principalmente por exportações de petróleo, poderá propiciar a estabilização da taxa de câmbio e, consequentemente, da taxa de inflação.

Controlando as maiores fontes de instabilidade econômica, um Fundo Soberano de Riqueza poderá financiar Educação (75%) e Saúde (25%). Enfim, retomaremos o Projeto Social-Desenvolvimentista em outras bases de suporte político e econômico, propiciando um desenvolvimento sustentável com inclusão social.

Os investimentos no pré-sal foram feitos a partir de 2010 (vide tabela 1). A maturação dos projetos na área de petróleo levam dez anos. Logo, é de se esperar que, a partir de 2020, o retorno dos investimentos comece a aparecer. O quadro de Usos e Fontes do PNG 2017/2021 mostra isto:

Queda nas Reservas de Petróleo

Rodrigo Polito (Valor, 10/04/17) informa que a queda do volume de reservas de petróleo e gás natural da Petrobras em 2016, ante o ano anterior, não é algo específico da estatal brasileira. Levantamento feito pelo Valor com dados das principais petroleiras mundiais indica que praticamente todas as grandes empresas do setor tiveram redução do número de reservas no ano passado, em comparação com 2015. A exceção foi a petroleira anglo-holandesa Shell, que adquiriu no ano passado a britânica BG e registrou aumento de 12,7% do volume de reservas em 2016, para 13,2 bilhões de barris de óleo equivalente (boe) de petróleo e gás.

Em janeiro, a Petrobras reportou o total de suas reservas em 31 de dezembro de 2016, de 12,5 bilhões de boe, pelo critério da Agência Nacional do Petróleo Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) e da Society of Petroleum Engineers (SPE), e de 9,6 bilhões de boe, pelo critério da Securities and Exchange Commission (SEC). Os números representaram quedas, em relação a 2015, de 5,7% e 8%, nos dois critérios, respectivamente.

Entre as grandes petroleiras mundiais, o destaque em termos de queda foi a gigante americana ExxonMobil, cujas reservas em 2016 recuaram expressivos 19,3%, para 19,974 bilhões de boe. Já a também americana Chevron, a francesa Total e a norueguesa Statoil, sofreram reduções mais leves de suas reservas de 0,4%, 0,5% e 0,9%, respectivamente.

Segundo especialistas, o principal motivo para a redução do volume de reservas das petroleiras foi a queda do nível de investimentos em exploração de petróleo e gás, que resulta em menos descobertas. De acordo com dados da consultoria Bain & Company, os investimentos globais em exploração de petróleo recuaram de US$ 148 bilhões, em 2014, para US$ 71 bilhões, em 2016.

A redução dos investimentos é explicada pelo baixo preço do petróleo, sobretudo no início de 2016. De acordo com dados do Valor Data, a média de preços do barril do Brent em 2016 (US$ 45,68) foi 16% inferior em relação a de 2015 (US$ 54,33).

Continue reading “Queda nas Reservas de Petróleo”

Brasil eleva contribuição para oferta global de petróleo

Renato Rostás (Calor, 23/03/17) informa que o Brasil foi um dos principais contribuintes para o excesso de oferta global do petróleo nos últimos 12 meses. A excetuar o Irã – um caso específico pois volta ao mercado após anos de sanções do Ocidente -, a média de aumento mensal na produção do país foi a maior do mundo, mostram dados da Agência Internacional de Energia (AIE).

Em um ano até fevereiro de 2017, a extração brasileira da commodity subiu, em média, 27 mil barris por dia a cada mês. Depois do Brasil aparecem gigantes como a Rússia – que elevou o volume em 18 mil barris por dia todo mês – e os principais produtores não convencionais – como o Canadá, com 16 mil barris diários.

Ao mesmo tempo, maior participante de um acordo costurado entre a Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep) e outras nações de alta relevância no mercado global, a Arábia Saudita cortou, em média, 30 mil barris por dia a cada mês dessa análise. Mais que ela, considerando os protagonistas internacionais, só aparece a Nigéria, com 34 mil barris diários.

Dois motivos podem explicar o status de produtor em ascensão:

  1. a atividade de extração de petróleo em águas profundas se acelerou em um momento de maturação dos investimentos feitos nos Governos Lula e Dilma;
  2. o mercado doméstico encolheu com a Grande Depressão, provocada pela volta da Velha Matriz Neoliberal, o que fez com que as exportações subissem.

Protecionismo através de Tarifas de Importação

Marta Watanabe (Valor, 10/04/17) avalia que o clima mais positivo em relação a um acordo entre União Europeia (UE) e Mercosul pode trazer também novas perspectivas para a evolução das tarifas brasileiras de importação. Em 20 anos a tarifa média de importação no Brasil caiu 0,76 ponto percentual, o que dá ao país a menor redução dentro de um grupo de 25 países, atrás somente da Bolívia, que na verdade teve elevação de 0,44 ponto percentual na taxa.

O número mostra tendência inversa em relação a países importantes como parceiros comerciais para o Brasil. No mesmo grupo, doze países tiveram redução de tarifas entre 3,2 e 8,5 pontos percentuais em igual período. Um dos fatores que facilitam a redução de tarifas, apontam especialistas, são os acordos comerciais.

O levantamento que mostra a evolução do Brasil e dos parceiros comerciais importantes é do Bradesco. O estudo compara tarifa média de 1996 ou 1997 com a de 2015 ou o último dado disponível. Os dados são do Banco Mundial e levam em consideração somente o imposto de importação.

Continue reading “Protecionismo através de Tarifas de Importação”

Economia de Serviços: Ocupa Gente Desempregada pela Desindustrialização

Definição de “Serviços“: aquela atividade cujo produtor está diretamente em contato com o consumidor. Por exemplo, eu presto Serviço Educacional em aulas para muitos alunos: altíssima produtividade! 🙂

A economia brasileira, assim como outras economias de capitalismo maduro, todas elas em que a “Sociedade dos Ricaços” não faz empreendimentos que expandem a capacidade produtiva e gera empregos industriais se tornaram Economia de Serviços.

Sérgio Lamucci (Valor, 13/03/17) informa que a já elevada participação dos serviços no valor adicionado anualmente na economia brasileira cresceu ainda mais nos últimos anos, atingindo o equivalente a 73,3% em 2016, quase dez pontos percentuais a mais que os 64,7% de 2004.

O aumento se deu em boa parte à custa da indústria de transformação, que viu a sua parcela no valor adicionado cair de 17,8% em 2004 para 11,7% no ano passado.

Como reflexo da queda dos preços de commodities, a participação da indústria extrativa mineral também encolheu, recuando para apenas 1%, quando em 2012 o número era de 4,5%. Os dados fazem parte das Contas Nacionais, divulgadas em março, que mostraram uma retração do PIB de 3,6% em 2016.

Resultado da volta da Velha Matriz Neoliberal e não, como querem fazer crer os pregadores neoliberais (“colunistas chapa-branca”), da invenção de uma “bomba-relógio” programada perfeitamente para explodir no segundo mandato de Dilma, ou seja, “no próprio colo”…

O peso dos Serviços no valor adicionado, que já era alto, subiu para um nível bem acima de outros emergentes:

  • na China, o número está um pouco acima de 50%;
  • no Chile, é de quase 64%;
  • na Índia, fica em 45%.

Uma preocupação é que o setor em geral tem baixa produtividade, inferior à da indústria, o que afeta a capacidade de o país de crescer a taxas mais elevadas de modo sustentável.

Continue reading “Economia de Serviços: Ocupa Gente Desempregada pela Desindustrialização”

Desempenho das Empresas Não-Financeiras em 2016

Em 2016, houve alguma recomposição das margens de lucro líquida das empresas não financeiras. Este movimento foi expressivo para a indústria, cuja margem saiu de 3,7% para 6,6% entre 2015 e 2016.

A informação deriva de um levantamento preliminar com dados contábeis para 2016 de 107 empresas não financeiras, cujos principais resultados serão apresentados nesta Análise IEDI. Este trabalho dá continuidade à avaliação que o IEDI vem fazendo do desempenho econômico-financeiro das empresas na atual crise econômica (Carta IEDI n. 738 e Carta IEDI n. 754). A partir de maio, com a publicação de um número maior de balanços, uma versão completa do trabalho será realizada levando em conta uma amostra com mais empresas, assim como foi feito nas Cartas anteriores.

Cabe lembrar que em um contexto de crise prolongada como o que temos vivido, as empresas vêm enfrentando grandes dificuldades para equilibrar seus orçamentos e proteger seus balanços, especialmente diante de uma fase de aceleração inflacionária e expressiva elevação das taxas de juros pelo Banco Central, que durou até há muito pouco, e de desvalorização cambial, que especialmente em 2015 elevou muito o endividamento em moeda estrangeira de algumas empresas. Para 2016 especificamente, foram constatadas as seguintes tendências:

Continue reading “Desempenho das Empresas Não-Financeiras em 2016”

Desafios da Política Industrial na Atualidade (Carta IEDI 779)

A importância da política industrial ontem e hoje
Sumário

Para quem acha que políticas industriais são coisas do passado, o IEDI vem mostrando, por meio da síntese de trabalhos de importantes instituições e de economistas reconhecidos mundialmente, que este tema continua em voga no debate internacional e que medidas de política industrial continuam sendo adotadas pelos países.

Neste intuito, a Carta IEDI 779 resume dois trabalhos recentemente publicados que não apenas atestam a importância dessas políticas na promoção do desenvolvimento econômico, como também mostram que a política industrial voltou a ser amplamente adotadas por inúmeros países nos últimos anos.

O primeiro desses trabalhos refere-se a um artigo do ex-economista-chefe e vice-presidente sênior do Banco Mundial, Justin Lin, intitulado “Política industrial revisitada”, que foi publicado no final de 2016 como capítulo do livro “Efficiency, Finance, and Varieties of Industrial Policy”, organizado pelo prêmio nobel Joseph Stiglitz em parceria com Akbar Noman.

Já o segundo trabalho é uma sessão do relatório da OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico) Science, Technology and Innovation Outlook de 2016, dedicada exclusivamente ao tema da política industrial e denominada “Novas Políticas Industriais”.

Continue reading “Desafios da Política Industrial na Atualidade (Carta IEDI 779)”