Deterioração dos Termos de Troca

Termos de Troca 2001-2015

Os termos de troca (relação entre preços dos produtos exportados e preços dos importados) caíram 10,8% no primeiro bimestre de 2015 em relação a igual período do ano passado. Com as cotações das principais commodities exportadas pelo Brasil em baixa, a relação entre os preços de exportação e de importação caiu em fevereiro para o menor nível desde agosto de 2009, para 105,6 pontos. Em relação ao pico observado na última década, em setembro de 2011, antes da explosão da “bolha de commodities”, a queda é de 20,4%. Os dados são da Fundação Centro de Estudos do Comércio Exterior (Funcex).

Nem mesmo o recuo de 31% do preço de importação de combustível neste início de ano foi suficiente para compensar o menor valor dos bens básicos vendidos ao exterior pelo Brasil. A piora recente dos termos de troca reduz o poder de compra do país, já que igual quantidade de itens exportados vale menos no mercado externo e, portanto, compra menos importados.

É o contrário do cenário observado até 2011, quando os termos de troca estavam no maior nível da última década. Essa reversão é parte da explicação para a desvalorização do câmbio nos últimos anos. O dólar, que em 2011 chegou a valer R$ 1,55, encerrou o mês de março de 2015 cotado em torno de R$ 3,25. Essa gradativa depreciação da moeda nacional, acumulada em quatro anos, foi de quase 110%. Porém, a taxa de inflação ainda não se elevou de maneira significativa como ocorreu depois dos choques das maxidesvalorizações de dezembro de 1979 e fevereiro de 1983!

Como se alterou a estrutura produtiva industrial brasileira com maior consumo de máquinas, equipamentos e insumos importados, ao contrário do que afirmam os novos-desenvolvimentistas, essa maxidepreciação não levará, automaticamente, a indústria de transformação brasileira ao “estado-da-arte tecnológica mundial”, tornando-a competitiva. Na verdade, desconhece-se as defasagens dos impactos cambiais sobre a taxa de inflação e a taxa de investimento para substituição de importações.

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Rotatividade de Mão-de-Obra por Setor

Rotatividade da mão-de-obra por setor

A alteração na regra de concessão do seguro-desemprego atinge em cheio atividades como construção civil e agricultura, onde a rotatividade é crônica e é muito difícil permanecer por 18 meses em um ou mais empregos com carteira assinada no prazo de 24 meses, como define a nova regra. Esses setores já estão se movimentando para forçar uma mudança na nova proposta de legislação.

Juntas, construção civil e agricultura representaram, entre janeiro e novembro de 2014, 3,6 milhões de demissões, ou quase 20% do total de 19,4 milhões de desligamentos que ocorreram no período no país. Os dados são do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged).

As medidas anunciadas pelo governo atingem as pessoas mais vulneráveis. É claro que há distorções e abusos em algumas situações. Mas é difícil aceitar novas regras de acesso ao seguro-desemprego sob o ponto de vista de reduzir rotatividade, pois nesse caso o efeito é nulo.

Nos últimos anos, houve benefícios para diversos setores como, por exemplo, a desoneração da folha de pagamento e redução do IPI (Imposto sobre Produtos Industrializados) de carros. Agora, a “lógica do mercado” quer fazer ajuste fiscal em cima da parcela mais vulnerável.

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Indústria ou Serviços? Servindústria!

Participações percentuais das atividades 2000-2014

Grau de Urbanização e Estrutura Produtiva

Há certo tempo, postei neste modesto blog um artigo em que defendi uma nova expressão para expressar a mudança na estrutura produtiva brasileira: Servindústria Brasileira. Jorge Arbache, professor da UnB, publicou artigo exatamente sobre o que eu queria dizer, naturalmente, com mais brilhantismo por parte dele. Compartilho-o abaixo. Continuar a ler

Produtividade no Setor de Serviços

Produtividade por Setor 1950-2005

Pode estar no nível da expansão do setor de serviços sobre o Produto Interno Bruto (PIB) e sua
composição a dificuldade que a economia brasileira passou nos últimos anos para alavancar o investimento e aumentar a produtividade. Essa é uma das principais constatações do estudo “Produtividade no Setor de Serviços” no Brasil liderado pelo professor da UnB, Jorge Arbache. Em dez anos, o peso de serviços no PIB saltou de 60% para 70% na estimativa para 2014.

O trabalho mostra, baseado na análise de dados de mais de um milhão de empresas na última década, que:

  1. o setor de serviços no Brasil tem baixa produtividade,
  2. é formado por empresas com apenas cinco funcionários em média,
  3. não tem fôlego para aumentar os investimentos, carece de incentivos para se modernizar e
  4. é um dos responsáveis pela perda de competitividade da indústria nacional.

Tal quadro foi gestado pelo tipo de crescimento da economia na última década, que desenvolveu demanda por serviços de baixo valor agregado ligados à expansão da renda, como cabeleireiro, telefonia celular e internet, ao passo que a parte de serviços sofisticados encolheu junto com a indústria e sua perda de densidade.

Como resultado, há um gigantismo precoce. O setor de serviços:

  • concentra hoje cerca de 74% da força de trabalho no país e
  • foi responsável por 83 de cada 100 novos postos formais de trabalho nos últimos anos.

Portanto, as condições observadas no setor afetam todas as outras áreas da atividade. Se há pouco investimento ou tecnologia, não há ganho de produtividade aproveitado por quem necessita de algum serviço para produzir. Essa estrutura é o principal empecilho ao aumento da competitividade da economia brasileira.

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Produtividade e Armadilha do Lento Crescimento

Taxas anuais do crescimento do PIB 1950-2014

O quarto captítulo do livro Produtividade no Brasil : Desempenho e Determinantes (organizadores: Fernanda De Negri, Luiz Ricardo Cavalcante. – Brasília : ABDI : IPEA, 2014) — “Produtividade e Armadilha do Lento Crescimento* é de autoria do excelente econometrista Regis Bonelli (IBRE-FGV-RJ). Eu fui apresentado a ele por minha primeira chefe do Departamento de Estudos Econômicos e Estatísticas Derivadas (DESDE-IBGE), Magdalena Goés, como um bom (e raro) exemplo de economista que respeita os dados e os fatos.

Aprecio bastante seus trabalhos, mesmo que tenha, em alguns casos, uma linha analítica distinta da minha. Mas Bonelli me faz pensar a respeito de outras razões explicativas cabíveis. No caso desse capítulo, eu (FNC) vou resumir abaixo os pontos mais interessantes e suas conclusões. Observo antes que o trabalho foi escrito antes da divulgação das novas séries temporais do SCN com metodologia atualizada, cujas estimativas do PIB e da FBCF tem alterações significativas. Continuar a ler

Dilemas e Desafios da Produtividade no Brasil

PIB per capita e produtividade do trabalho 1992-2011Produtividade do trabalho comparada internacionalmente - 1960 e 2011Participação dos setores nas ocupações - 1995 e 2012Diferencial da produtividade do trabalho Brasil X Outros - vários anos

Fernanda De Negri é minha (excelente) ex-aluna no Mestrado do IE-UNICAMP. Não só por isso ( :) ), é Diretora da Diretoria de Estudos e Políticas Setoriais de Inovação, Regulação e Infraestrutura – DISET / Ipea. Luiz Ricardo Cavalcante é Consultor Legislativo do Senado Federal. Ambos foram os organizadores do livro Produtividade no Brasil : Desempenho e Determinantes / organizadores: Fernanda De Negri, Luiz Ricardo Cavalcante. – Brasília : ABDI : IPEA, 2014. e autores do primeiro capítulo-resumo, cuja conclusão compartilho abaixo.

Download do livroProdutivivade_no_Brasil_IPEA-ABDI

Antes de apresentar o resumo das principais conclusões, eu (FNC) devo alertar que tenho algumas dúvidas a priori a respeito da medição desse indicador macroeconômico. Ele é elaborado a partir do conceito de uma função da produção e seus “fatores de produção” (trabalho, capital, recursos naturais e capacidade técnica), cuja origem está no pensamento econômico neoclássico.

Qualquer proxy desse conceito, tipo PIB / PO (população ocupada), em vez de ser causa, não será um resultado ex-post pro-ciclo da produção ou contra-ciclo do emprego, isto é, a produtividade nacional cairá quando o PIB cair, mas, devido às políticas anticíclicas, o nível de emprego se sustentar?  Nessa fase (temporária), emprega-se “demasiadamente” (segundo o ponto-de-vista dos empresários) e, então, mantem-se elevados os salários reais, dado o melhor poder-de-barganha sindical. Vice-versa, logo que o desemprego for elevado, produzir-se-á mais com menos. Então, a produtividade não se elevará?

Outra coisa que me incomoda é a medição da produtividade em setor de Serviços, por exemplo, em um multibanco cujos funcionários lidam com múltiplos produtos e cujo “faturamento” (VP) é dado pela soma de RBIF (Resultado Bruto de Intermediação Financeira que é um diferencial de juros dependente de decisões discricionárias) e RPS (Receita por Prestação de Serviços). Aumenta sua “produtividade” de acordo com a política discricionária de juros?!

Além disso, para ressalvar só em atividades que mais conheço, o caso do Serviço Educacional. Um professor é mais “eficiente” quando dá aulas para mais alunos em uma só turma?! Certamente que sim para uma IES (Instituição de Ensino Superior) privada que não se atenta para a qualidade do ensino.  Interessa-lhe, particularmente, a quantidade de alunos matriculados / professor, explorando-o mais. Porém, creio que sua produtividade em termos de qualidade de ensino cairá…

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Perspectivas do Agronegócio Brasileiro

Exportação de Soja para ChinaExportação de carnes pelo Brasil

Assis Moreira (Valor, 27/04/15) informa que o crescimento da economia da China deverá declinar de 7%, em 2015, até 4,2% em 2024. Essa desaceleração, entre outros reflexos, reduzirá em alguns bilhões de dólares o ritmo de expansão das exportações agrícolas brasileiras. Esse é o cenário traçado pela FAO (agência para agricultura e alimentação das Nações Unidas) e pela Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) em uma versão preliminar do relatório conjunto que as entidades divulgarão com as perspectivas para o agronegócio global nos próximos dez anos. Esse relatório, cuja versão definitiva será divulgada no segundo semestre, inclui um capítulo de mais de 50 páginas sobre o setor no Brasil, o quinto maior país agrícola do mundo.

A crescente importância da Ásia para as exportações de produtos brasileiros do agronegócio deriva essencialmente da demanda da China. Em 2000, o país era o 11o maior mercado para os embarques setoriais do Brasil. Importou menos de US$ 500 milhões, ou 3% do total. Em 2012, os chineses já foram os maiores importadores, com quase US$ 16 bilhões (19% do total). Naquele ano, as compras dos EUA somaram US$ 5 bilhões.

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