Retrocesso Industrial: Excepcionalidade Brasileira

A indústria brasileira não precisou passar por uma de suas piores crises no período 2014-2016 – da qual ainda não se restabeleceu completamente – para retroceder na estrutura produtiva do país. Ao contrário, o setor industrial vem perdendo participação no PIB do Brasil desde os anos 1980.

As dificuldades dos últimos anos apenas aprofundaram o problema, levando ao menor patamar em que a nossa indústria já ocupou desde 1947, como mostrou a Análise IEDI de 26/03/2019. Em 2018, a indústria de transformação representou apenas 11,3% do PIB, isto é, quase a metade dos 20% registrados em 1976 a preços constantes. Temos passado por um processo de regressão industrial dos mais intensos do mundo, o que tem resultado em baixo crescimento econômico e atrasos tecnológicos importantes.

Esta Carta IEDI, realizada a partir do estudo dos economistas Paulo Morceiro (USP) e Joaquim J. M. Guilhoto (OCDE), disponibilizado na íntegra no site no IEDI, analisa em maior detalhe a chamada “desindustrialização” brasileira, pela qual temos passado há décadas. Regra geral, este processo não significa o encolhimento absoluto da indústria, mas sua perda de participação na economia, decorrente de seu baixo crescimento.

Os autores avaliaram o declínio relativo da indústria de transformação setorialmente, comparando-o com a evolução do restante do mundo. Isto é, todos os setores manufatureiros perderam participação no PIB? Todos ao mesmo tempo e na mesma intensidade? Recuaram mais os de alta intensidade tecnológica ou os de baixa? O encolhimento relativo da indústria brasileira é mais uma de nossas “jabuticabas”?

Algumas das evidências empíricas da análise de Morceiro e Guilhoto podem ser resumidas nos seguintes pontos: Continuar a ler

Crise Imobiliária no Brasil

O setor imobiliário vivia um boom até 2013, com uma profusão de novos empreendimentos e incorporadoras surgindo país afora. As grandes instituições financeiras bancaram essa expansão. A política de juros baixos imposta pelo governo aos bancos públicos o estimulou, aumentando a competitividade dos depósitos de poupança, atraindo mais mutuários.

Veio a crise econômica com a volta da Velha Matriz Neoliberal e o ciclo virou. Muita gente comprou imóveis mas não conseguia mais pagar, por causa do desemprego, ou não queria mais pagar, por conta da queda dos preços. Eram eram investidores especulativos com a expectativa de revender com ganho de capital. e começou a devolvê- los às incorporadoras.

Os chamados distratos desestabilizaram o setor, deixando empresas com um imenso estoque anteriormente vendido em oferta. Os bancos, tendo concedido crédito imobiliário tendo como garantia a alienação fiduciária desses bens, começaram a retomar os imóveis à medida que a inadimplência disparou. Ao mesmo tempo, as instituições financeiras cortaram a oferta de financiamento à compra da casa própria e à construção.

O crédito ao setor só começou a ser retomado na segunda metade do ano passado. Ainda assim, o foco dos bancos tem recaído sobre as pessoas físicas. Estas oferecem risco menor e spreads mais elevados. O financiamento a obras permanece muito restritivo.

Aos poucos, as operações problemáticas vão diminuindo nas carteiras de crédito. De acordo com o Relatório de Estabilidade Financeira mais recente divulgado pelo Banco Central, as operações de financiamento imobiliário inadimplentes, reestruturadas ou de maior risco representavam 4,33% do total no fim de dezembro. O pico, de 5,47%, foi registrado em abril de 2017.

Arícia Martins (Valor, 21/02/19) informa: a construção civil foi o ramo de atividade com maior perda de empregos e representatividade na população ocupada durante a crise. Entre 2014 e 2018, o número de ocupados no setor, entre formais e informais, encolheu 14,4%, maior retração entre os segmentos que compõem a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) Contínua, do IBGE. Ao diminuir de 7,8 milhões para 6,7 milhões, os empregos na construção passaram a responder por 7,3% da mão de obra no país, ante 8,5% há quatro anos. Continuar a ler

Economia brasileira aprofunda a recessão e neoliberais não se importam

Aloisio Campelo Jr. e Claudio Considera do IBRE-FGV destacaram hoje (Valor, 26/03/19): ao final deste primeiro trimestre de 2019 completa-se o triste aniversário de cinco anos desde o início da recessão de 2014-16. Com o ciclo quinquenal da seca, iniciada no fim de 2012, impulsionando a inflação de alimentos, houve a retomada do crescimento da taxa de juros em abril de 2013 para atingir 14,25% aa em junho de 2015 e se manter neste patamar até outubro de 2016. Depois, vieram as “gloriosas” jornadas de junho de 2013. O resultado foi os golpistas saírem do armário e o locaute empresarial se iniciar. Na “armadilha do golpe” eles se enredaram e até hoje a economia brasileira não saiu da estagnação.

Passados dois anos (2017 e 2018) com crescimento de 1,1% aa, a economia brasileira havia recuperado, até o final do ano passado, apenas 42% do produto perdido desde o início da recessão no segundo trimestre de 2014.

Durante a depressão (2015-2016), o PIB caiu 8,1%. Nos oito trimestres (dois anos) com crescimento de 1,1% aa, cresceu apenas 3,4%. Com isso, a queda acumulada entre o primeiro trimestre de 2014 e o último de 2018 foi de 5%, o pior resultado de todas as recessões brasileiras desde 1980.

Apesar da dificuldade de se comparar ciclos históricos, do ponto de vista estrito do crescimento econômico, estes últimos cinco anos foram os mais difíceis de nossa história recente. A relação do golpe da direita com a economia foi um atraso histórico. O gráfico acima explicita isso: somente em 1992 o crescimento quinquenal havia se aproximando de números próximos a -5%, e ainda assim, por pouco tempo.

A essa longa crise conjuntural se somou uma crise estrutural de desindustrialização já com início de fuga da indústria automobilística do País através da Ford.

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Política de Emprego

Jorge Arbache é vice­-presidente de Setor Privado do Banco de Desenvolvimento da América Latina (CAF). Publicou artigo (Valor, 14/02/19) se perguntando: de onde virão empregos?

“Uma das mais ruidosas preocupações deste início de século é de onde virão os empregos. A preocupação é pertinente em razão das evidências de que tecnologias como inteligência artificial, robôs e serviços prestados de forma remota poderão destruir empregos. Há estimativas para todo gosto. Independentemente da estimativa, há consenso de que os impactos serão grandes.

Mas o que ainda não está claro é se e como as tecnologias e serviços afetarão países com características distintas. Haverá ganhadores e perdedores? Este ponto é importante, pois tem implicações econômicas, sociais e até políticas.

Parece haver dois grupos de efeitos das novas tecnologias no emprego.

De um lado, estariam os efeitos na criação e destruição de empregos associados ao uso de tecnologias e serviços remotos. Eles se referem, por exemplo, ao uso de inteligência artificial em atividades fabris e ao uso de plataformas digitais de serviços.

De outro lado, estariam os efeitos associados à criação de empregos relacionados ao desenvolvimento, gestão e distribuição de novas tecnologias e serviços. Essas tecnologias requerem verdadeiros exércitos de profissionais e técnicos especializados e atividades necessárias para se gerir e operar negócios com atuação global. Continuar a ler

Desemprego Tecnológico e Políticas Públicas

Dani Rodrik publicou excelente artigo (Valor, 11/02/19) sobre o desafio de criar bons empregos. Compartilho-o abaixo.

“No mundo inteiro, atualmente, o principal desafio para conquistar a prosperidade econômica inclusiva é a criação de números suficientes de “bons empregos“. Sem emprego produtivo e confiável para a vasta maioria da população em idade ativa de um país, ou o crescimento da economia continua fugaz ou seus benefícios acabam concentrados em uma minoria insignificante. A escassez de bons empregos também solapa a confiança nas elites políticas, o que alimenta a reação adversa autoritária e nativista que afeta muitos países atualmente.

A definição de um bom emprego depende, evidentemente, do nível de desenvolvimento econômico do país em questão. É, normalmente, um cargo estável no setor formal que vem acompanhado de salvaguardas trabalhistas essenciais, como:

  1. condições de trabalho seguras,
  2. direitos de barganha coletivos e
  3. regulamentações contra demissões arbitrárias.

Isso possibilita, no mínimo, manter um estilo de vida de classe média, de acordo com os padrões do país em questão, com renda suficiente para moradia, alimentação, transportes, educação e outros gastos da família, além de alguma poupança.

Como argumenta há muito tempo Zeynep Ton, do MIT, as estratégias de “bons empregos” podem ser tão lucrativas para as empresas quanto o são para os trabalhadores. [Salário é custo e demanda ao mesmo tempo.] Continuar a ler

Perda de Intensidade Tecnológica e Déficit Comercial na Indústria Brasileira

Ana Conceição (Valor, 04/02/19) informa: a indústria brasileira vem perdendo participação no Produto Interno Bruto (PIB) há décadas. Um estudo mostra seus segmentos mais avançados tecnologicamente terem tido uma perda de peso prematura – e por isso mais grave.

O peso dos setores industriais de alta intensidade tecnológica chegou a quase 10% do PIB em 1980, no seu melhor momento, e caiu a 5,8%, a preços de 2016. O segmento de elétrica, informática e eletrônicos saiu de 1,1% do PIB e caiu para 0,9% no mesmo período. Esse setor, que nunca chegou a ter grande fatia na economia nacional, caminhou na contramão global, já que ganhou importância na indústria e no comércio internacionais nas últimas décadas.

No agregado, o peso da indústria brasileira no PIB chegou a 21,3% em 1980 e reverteu a tendência a partir de 1981. Desde então, deixou de ser “o motor” do crescimento. Em 2016, chegou a 12,5%.

Os números foram calculados pelo economista e pesquisador Paulo César Morceiro, do Núcleo de Economia Regional e Urbana da Universidade de São Paulo (Nereus/USP), autor do estudo ao lado de Joaquim José Martins Guilhoto. O trabalho criou séries inéditas, a preços constantes, da participação de 13 segmentos no PIB entre 1970 e 2016, a partir de dados oficiais do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Eles foram reunidos em dois grupos, de alta e baixa intensidade tecnológica. Continuar a ler

Entre a Benção e a Maldição do Petróleo

Lívia Ferrari (Valor, 28/01/19) informa: especialistas do setor de petróleo são unânimes em prever cenário de “grande volatilidade” nos preços do produto neste ano. Eles evitam fazer estimativas sobre valor médio do óleo em 2019, e preferem trabalhar com projeções de intervalos de variações entre US$ 50 e US$ 70 o barril. Os preços caíram muito rapidamente no fim do ano passado e estão subindo neste início de ano; aumentaram 20% em janeiro, atingindo cerca de U$ 50 o barril.

Por trás de tanta incerteza está o planeta conturbado. São muitas as zonas de conflito que contribuem para a instabilidade dos preços. Há tensão comercial entre Estados Unidos e China, sanções econômicas ao Irã, a crise migratória na Europa, a insegurança da Grã-Bretanha com o Brexit, a pressão sobre a Venezuela.

Somam-se a isso projeções de menores taxas de crescimento dos grandes players da economia mundial, o que deprime a demanda de petróleo e não permite vislumbrar altas significativas nos preços do produto. Previsões do Banco Mundial (Bird) apontam para crescimento global de 2,9% em 2019 – abaixo das projeções anteriores – e para 2,8% em 2020-21. Também o Fundo Monetário Internacional (FMI) reviu para baixo suas previsões de expansão da economia mundial.

Do lado da oferta, o quadro é igualmente nebuloso. Há dúvidas sobre o comportamento da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep). Se ela e países aliados, liderados pela Rússia, terão capacidade para cumprir o acordo de redução de produção, firmado no fim do ano passado. Ainda assim, e apesar da gangorra do mercado, serão possíveis preços mais altos, ao longo do ano, em média, que o atual patamar.

A trajetória dos preços internacionais do petróleo pode ser dividida em quatro principais “macro fases”. Continuar a ler