Bancarização e Financeirização

FGC 1999-2015

Por mais que eu seja francófilo, não gosto da contraparte do anglicismo, isto é, a galofilia que traduz mondialisation (“l’anglicisme globalisation est parfois aussi employé”) pelo português mundialização. Daí foi um passo só para estender o conceito para financeirização, suposta fase do capitalismo em que as transações e mercados financeiros ganham força no sistema econômico mundial.

A “financeirização no capitalismo contemporâneo” vem das teorias de dois pensadores marxistas sobre o fenômeno: François Chesnais, economista francês, e David Harvey, geógrafo inglês radicado nos Estados Unidos. É uma nova palavra para designar um velho fenômeno socioeconômico. A I e a II Guerra Mundial interromperam com destruição e protecionismo um processo em curso de grande abertura comercial e financeira para o exterior. Foi apenas um intervalo histórico.

Na verdade, o encontro do capital-dinheiro com a força de trabalho livre para se vender por um salário caracteriza a relação de produção capitalista desde que a acumulação primitiva se concluiu no século XVIII. Por definição, nunca o capital-dinheiro ficou ausente das decisões capitalistas. Os donos do capital sempre levaram em conta considerações financeiras para decidir a respeito de sua inserção no processo de acumulação. Nada disso é novidade histórica.

O que é novidade na história bancária brasileira é o processo de “bancarização” (perdão pela francofilia) que ocorre desde a virada do século XX para o XXI. Significa o acesso popular a bancos e, portanto, a crédito. É um importante mecanismo institucional de defesa do poder aquisitivo em uma economia que se caracteriza por volatilidade cambial e inflacionária. Busca encerrar a fase de distinção entre “dinheiro de pobre” e “dinheiro de rico” que vigorou fortemente entre 1964 e 1998. Continue reading “Bancarização e Financeirização”

O BNDES e o Tesouro Nacional  (por Luciano Coutinho)

Principais Fontes de Financiamento para o BNDES

Custo Líquido de Empréstimo do TN ao BNDESA atuação anticíclica da atuação do BNDES foi muito bem sucedida, seja em manutenção da FBCF em cerca de 20% do PIB até 2014, seja em alcançar a menor taxa de desemprego da história moderna da economia brasileira (4,5% da PEA), apesar da crise mundial. Entretanto, os congressistas golpistas quiseram tirar proveito de suposto “escândalo” — a escolha de projetos “vencedores” para conceder o crédito — e montaram um CPI sobre essa atuação, que deveriam elogiar, para sugerir manchetes para a imprensa sensacionalista. Seu presidente, meu ex-professor no Mestrado, Luciano Coutinho, enfrenta muito bem essa vaga golpista que refluirá quando verificarem que o BNDES merece sim elogios. Reproduzo abaixo seu artigo publicado na Folha de S.Paulo no dia 26 de agosto de 2015.

“Manchete da Folha do último dia 9 diz que o custo fiscal dos empréstimos do Tesouro Nacional ao BNDES [veja o aumento na participação em seu funding no gráfico acima] seria de R$ 184 bilhões nas próximas quatro décadas.

O valor é relevante, embora em termos relativos corresponda a 0,1% do PIB do período. Mais importante, ainda que em tese correta, a estimativa é incompleta, pois desconsidera os benefícios, isto é, o retorno do banco e os impactos sobre o investimento e sobre a geração de tributos.

A projeção de R$ 184 bilhões se baseia nas estimativas do custo futuro da dívida pública, aproximado pela taxa Selic, e da TJLP, referência dos financiamentos do BNDES. É relevante notar que, em quarenta e cinco anos, pequenos desvios na diferença entre essas taxas provocam grandes impactos no resultado final.

Nesse sentido, é mais apropriado comparar a Selic com a TJLP acrescida da margem de lucro do BNDES. O ganho do banco se reverte ao Tesouro na forma de impostos e dividendos ou retenção de resultado de uma empresa integralmente da União. Por exemplo, de 2009 a 2014, o BNDES pagou cerca de R$ 100 bilhões entre dividendos e tributos, a valores atuais corrigidos pela Selic.

Além disso, os empréstimos de longo prazo do BNDES financiam investimentos que em boa medida não ocorreriam na ausência desse crédito. Isso origina venda de máquinas e insumos, que elevam a arrecadação. Esse efeito fiscal também precisa ser levado em conta. Continue reading “O BNDES e o Tesouro Nacional  (por Luciano Coutinho)”

Poupança Privada e o Financiamento Corporativo de Longo Prazo

BNDES: Principais Fontes de Recursos ao ano (em % )

Principais Fontes de Financiamento para o BNDES

Ernani Torres Teixeira Filho foi apresentado no Fórum sobre Bancos Públicos, organizado pelas Brasilianas de Luís Nassif, como o economista-símbolo do BNDES: “basta dar um Google que os dois aparecerão juntos”. Ele já se aposentou, tanto do BNDES, quanto da UFRJ.

Nos somos coautores de um artigo justamente sobre “BNDES e o Financiamento do Desenvolvimento“: http://www.scielo.br/pdf/ecos/v21nspe/v21nspea11.pdf.

Ernani Teixeira Torres FilhoFoi ótimo trabalhar com ele via Skype: eu começava uma frase-ideia e ele imediatamente deduzia o que eu queria dizer — e vice-versa. Escrevemos rapidamente o artigo porque nos entendemos muito bem.

No Fórum, realizado em São Paulo, no dia 12 de novembro de 2015, mais uma vez presenciei uma brilhante exposição dele. Mostrou ótimos quadros estatísticos reveladores da atuação anticíclica fundamental do BNDES. Como somos discípulos e amigos da nossa mestra Maria da Conceição Tavares, nos aprendemos o que ela ensinou: “nunca diga nada sem comprovação empírica!”

Ernani enviou, gentilmente, sua palestra: Poupança Privada e Financiamento Corporativo de Longo Prazo – Ernani Torres nas Brasilianas de Luis Nassif 12.11.2015.

Nela, ele salienta que o BNDES teve papel relevante no financiamento de longo prazo, principalmente pós-2008, graças ao financiamento do Tesouro Nacional (veja acima)Porém, os bancos privados também se beneficiaram disso, pois cerca da “metade” dos creditos do BNDES são originados e mantidos em carteira pelos bancos comerciais, ou seja, estes fazem a avaliação do risco do cliente e o repasse dos recursos. Um banco de desenvolvimento como o BNDES é classificado como de “segunda linha” por causa disso: conta com bancos que têm rede de agências.

Além disso, ele destacou que os Títulos Corporativos, principalmente debêntures, foram um destaque em termos de crescimento (veja abaixo o estoque de ativos financeiros em % de PIB), mas a maior parte das operações constituíram de arbitragem fiscal e regulatória dos bancos. Estes são os principais atores na originação como funding de suas operações de leasing (arrendamento mercantil), mas também na aquisição. Eles os encarteiram, seja em carteira própria, seja em recursos administrados para terceiros (fundos), recebendo isenção fiscal para essa operação de autofinaciamento.

Brasil: Estoque de Ativos Financeiros (em % do PIB)

Estoque de Ativos Financeiros em PIB

Fonte: ANBIMA

Paradoxo da Parcimônia (publicado no Valor, 5 de novembro de 2015)

G15 - Renda Consumo e PoupançaColocações no Ranking G15 Y C SGráfico G15 S C FCFoi publicado hoje um artigo de minha autoria no jornal Valor: FERNANDO COSTA Paradoxo da Parcimônia – Valor 05.11.2015. Compartilho-o abaixo. Em seguida, está o artigo publicado por Aquiles Mosca (Valor, 14.10.2015), para download, que me motivou a escrever o meu.

No ranking dos quinze países com maiores PIB por paridade do poder de compra (G15), o Brasil tem uma das menores poupanças brutas (16,2% do PIB), acima só da inglesa (12,2%) e logo abaixo da norte-americana (17,9%). Será esse “consumismo” brasileiro resultante da colonização cultural inglesa no século XIX e da norte-americana no século XX? É puro efeito demonstração por parte de “novos-ricos” brasileiros em busca de exibição de status esnobe com seu consumo suntuário? Ou será um comportamento geral do nosso povo?

Na verdade, se para investimento o que de fato importa é financiamento, pouco importa essa poupança que equilibra (ex-post) as Contas Nacionais. É apenas uma variável residual entre o fluxo de renda e o fluxo de consumo durante certo período. Não é objeto de decisões individuais. Portanto, não será com mudança nos comportamentos individuais, provocada por um “empurrãozinho” (nudge em inglês), por exemplo, deixando automática ou inercial a adesão de empregados a fundos de pensão, que irá se agregar poupança na Contabilidade Social. Continue reading “Paradoxo da Parcimônia (publicado no Valor, 5 de novembro de 2015)”

BNDES, Fragilidade Financeira e Vulnerabilidade Externa

BNDES X FBCF

Conheci. recentemente, o trabalho de Felipe Rezende é PhD e professor assistente do Departamento de Economia de Hobart e William Smith Colleges, em Genebra:

WHY DOES BRAZIL’S BANKING SECTOR NEED PUBLIC BANK? WHAT SHOULD BNDES DO?

Reproduzo abaixo um excelente artigo que ele publicou no Valor (15/09/15). Como citador de Hyman Minsky, provavelmente, é um pós-keynesiano. E não sendo dogmático e/ou fundamentalista, isto é ótimo! Continue reading “BNDES, Fragilidade Financeira e Vulnerabilidade Externa”

Rentabilidade Patrimonial de Empresas Não-Financeiras X CDI

Retorno X PL X CDI

Obs.: no primeiro gráfico acima, publicado no Valor (03/09/15), parece-me que as legendas estão trocadas: a curva azul (tendência crescente) é a da variação do CDI.

Quer entender uma das raízes do discurso de ódio contra o Governo Social-Desenvolvimentista por parte de “empresários perdedores”?

Rocca (2015: 2) afirma que “a maior parte [da queda da taxa de investimento] foi ocorrida nas empresas não financeiras. Tudo indica que a queda da taxa de retorno sobre o capital investido para níveis inferiores ao custo médio da dívida dessas empresas, desde 2012, seja um dos fatores mais relevantes para explicar esse desempenho. Especialmente no setor industrial, o problema aparece na forma de redução de margens, que resulta da dificuldade de repassar aos preços de venda os aumentos de custos, especialmente do custo unitário do trabalho que se elevou muito acima do preço em reais dos produtos importados, estes reduzidos pela valorização do real”.

Ele acha que “a recente correção de preços relativos, inclusive câmbio, contribui para a recuperação de margens, enquanto que o sucesso do ajuste fiscal pode sustentar mais adiante a redução do custo de capital. Este movimento, sendo combinado com a criação de condições favoráveis à participação privada em infraestrutura, pode ajudar na reversão do cenário em favor da retomada do investimento”.

A rentabilidade média do capital próprio das empresas de capital aberto e das maiores fechadas, como registra a Nota CEMEC 3 (12/03/2015), entre 2012 e 2014, é inferior à taxa de inflação e, portanto, ficou negativa em termos reais. “Nesse período, essa taxa ficou muito abaixo da taxa de juros de uma aplicação em títulos públicos federais, com risco de crédito praticamente nulo e alta liquidez”.

As constatações de Rocca (2015) sugerem que um dos fatores de inibição dos investimentos na indústria a partir de 2010 resulta da estagnação da produtividade que resultou no aumento do custo unitário do trabalho combinado com a valorização real do câmbio, resultando em redução da relação câmbio/salário. Os preços em moeda estrangeira dos produtos industriais importados crescem ao longo de todo o período, com um ciclo curto de redução em 2009, mas a evolução de seus preços em reais é limitada pela apreciação da moeda nacional.

Fernando Torres (Valor, 03/09/15) confirma que apenas um terço das companhias abertas brasileiras deu retorno contábil aos seus acionistas acima da rentabilidade da renda fixa, conforme levantamento feito pelo Valor com base em dados do Valor Empresas.

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Relatório de Efetividade do BNDES

Atuação Anticíclica do BNDESBNDES X FBCFO BNDES está divulgando seu primeiro Relatório de Efetividade, em conjunto com ações de ampliação de transparência. Este é um instrumento de demonstração das ações do Banco para a sociedade e uma ferramenta para aprendizado interno.

São apresentados no relatório indicadores de “entregas físicas” e de efeitos gerados pela atuação do Banco com ênfase nas prioridades corporativas.‎ Também estão disponíveis um conjunto de avaliações de efetividade.

O endereço é:
http://www.bndes.gov.br/SiteBNDES/export/sites/default/bndes_pt/Galerias/Arquivos/conhecimento/efetividade/relatorio_efetividade_2007_2014.pdf.