Crise de Crédito: Fase de Desalavancagem Financeira Atrasada

John Plender (Financial Times, apud Valor 06/03/2020) informa: o choque provocado pelo coronavírus nos mercados internacionais coincide com um cenário financeiro de crise, marcado pelo forte crescimento do endividamento mundial. Segundo o Instituto Internacional de Finanças (IIF, na sigla em inglês), a associação mundial do setor bancário, a taxa de endividamento em relação ao Produto Interno Bruto (PIB) mundial chegou ao recorde de 322% no terceiro trimestre de 2019, e a dívida total a quase US$ 253 trilhões.

A implicação é, se o vírus continuar a se disseminar, qualquer fragilidade do sistema financeiro terá potencial para desencadear uma nova crise no mercado de títulos de dívidas.

No curto prazo, o comportamento dos mercados de crédito será crucial. Apesar das quedas do rendimento dos bônus e dos custos de captação desde que os mercados se assustaram com o vírus, as condições financeiras ficaram mais difíceis para as empresas mais vulneráveis que precisam captar recursos. Seu acesso ao mercado de títulos ficou mais difícil.

Continuar a ler

Recessionistas contra Crédito: Aversão ao Risco do Capitalismo pela confusão entre fluxos e estoques

Economistas-chefes de bancos buscam “fazer a cabeça” de seus patrões contra o crédito! Não lhes custa nada o excesso de cautela por aversão ao risco atávica. A preferência pela liquidez ocupa seus “corações e mentes” em lugar da alavancagem financeira. Esta aumenta a economia de escala, logo, a produtividade e o lucro. Eles se esquecem: a preferência pela rentabilidade define o capitalismo!

Flávia Furlan (Valor, 11/12/2019) avalia: o crédito à pessoa física acelerou no último ano — e vem crescendo acima da tendência histórica. Bastou essa retomada para acender um “sinal amarelo” diante de:

  1. o endividamento ainda elevado das famílias,
  2. a deterioração dos indicadores de inadimplência e
  3. a lenta recuperação do mercado de trabalho.

Esse tom mais alarmista não avalia a relação entre fluxos de juros e renda. Eles mesmo fazem (falsas) projeções de recuperação mais forte da economia em 2020, acima de 2%, e não confiam na manutenção de juros nas mínimas históricas ser repassado para novo crédito?!

Levantamento realizado pela economista-chefe da XP Investimentos mostra a carteira de crédito para indivíduos ter atingido o recorde de 27,5% do Produto Bruto Interno (PIB) em outubro de 2019, ficando 0,62 ponto percentual acima da tendência, segundo série iniciada em 2002. Oh!!!

O indicador, conhecido como “hiato do crédito”, sinaliza aquecimento do mercado de empréstimos e financiamentos [?!]. Isto porque o avanço do estoque em relação ao PIB está pouco acima da tendência de longo prazo!

Hiatos positivos indicariam aumento da inadimplência em dois a três trimestres. Automatismo de cérebro Tico-e-Teco (“2 neurônio” sem S) funciona assim tipo gangorra…

Continuar a ler

Mercado de Capitais dependente de Juros Baixos

A crítica sistemática feita por economistas desenvolvimentistas ao elevado patamar relativo da taxa de juros básica brasileira está comprovando seu acerto. Mercado de Capitais só emerge com juros baixos, ou seja, quando títulos de dívida pública deixam de ser atraentes face às suas operações estruturadas de lançamento de debêntures.

Lu Aiko Otta (Valor, 27/11/2019) informa: dados parciais do mês de novembro de 2019 mostram o volume de debêntures incentivadas de infraestrutura emitidas em 2019 ter batido recorde histórico desde a criação do papel, em 2012.

O saldo parcial estava no fim do mês em R$ 25,9 bilhões. Com isso, foi superado o volume emitido no ano passado, que foi R$ 23,890 bilhões e a maior marca até agora.

O dado parcial de novembro mostra também terem sido 78 emissões em 2019, ante 76 em todo o ano de 2018.

Com isso, o volume de debêntures incentivadas se aproxima cada vez mais daqueles desembolsados pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) para financiar a infraestrutura. Em cálculo enganador por não comparar o montante da queda dos desembolsos do BNDES, em relação ao seu patamar de 2009-2014, não ter sido exatamente substituído por uma migração do financiamento público para o privado, os neoliberais auto enganam ao afirmar “o aumento das debêntures vem com o decréscimo do BNDES.”

Se as debêntures desbancarão o BNDES já em 2019, é algo possível de se saber só em janeiro de 2020. Usualmente o banco de fomento faz desembolsos grandes no fim do ano. No entanto, houve também uma forte emissão de papéis incentivados pelas empresas.

Continuar a ler

Debêntures Pouca Diferença Fizeram no Crédito Ampliado

Em outubro de 2019, o crédito ampliado alcançou R$ 10 trilhões (140,8% do PIB), redução de 0,6% no mês, refletindo principalmente a retração na dívida externa (-2,8%), em função do impacto da apreciação cambial de 3,8%. Na comparação interanual, o crédito ampliado cresceu 10,2%, destacando-se os títulos de dívida (+13,6%), seguido da dívida externa (+10,1%) e dos empréstimos e financiamentos (+6,4%).

O crédito ampliado a empresas e famílias totalizou R$ 5,6 trilhões (78,6% do PIB), variações de -0,4% no mês e de 10,6% em doze meses. No mês, houve expansão do saldo dos títulos privados (1,5%, refletindo o desempenho das debêntures) e dos empréstimos e financiamentos (0,4%), contrabalançados pela redução de 3% na dívida externa, decorrente da variação cambial.

O saldo das operações de crédito do SFN totalizou R$ 3,4 trilhões em outubro (aumento só de 0,3% no mês), acompanhando crescimento na carteira de pessoas físicas (1,1%, saldo de R$ 2 trilhões). Na carteira de empresas, ocorreu queda de 0,8% no mês (saldo de R$ 1,4 trilhão), considerados os efeitos de amortizações sazonais em modalidades com recursos livres e da apreciação cambial.

Na comparação interanual, o crescimento da carteira total ampliou-se de 5,8% para 6,3%, mantendo a expansão de 11,3% no crédito às famílias, com o crédito às empresas permanecendo estagnado.

Continuar a ler

Desalavancagem e Novo Ciclo de Alavancagem Financeira de Pequenas e Médias Empresas

Edna Simão (Valor, 27/11/2019) informa: a aversão dos donos de micro e pequenas empresas à tomada de empréstimos teve uma redução de 2018 para 2019 devido à melhora de indicadores de confiança e expectativa de retomada da economia. Neste ano, 23% dos pequenos negócios estavam reticentes a pegar dinheiro emprestado neste ano devido à falta de credibilidade na política econômica, medo de não conseguir pagar ou não gostar de empréstimos, ante 32% em 2018 e 41% em 2017, segundo pesquisa do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae).

O levantamento aponta ter havido aumento – de 29% em 2018 para 31% em 2019 – da proporção de empreendedores sem dificuldade na obtenção de empréstimos neste ano. Além disso, 63% dos empresários em busca de obter um empréstimo novo tiveram sucesso.

Mesmo com a melhora dos números em relação a pesquisas anteriores, mais da metade dos entrevistados (56%) considera os serviços de empréstimo e financiamento oferecidos pelas instituições financeiras como ruim ou muito ruim. No ano passado, foram 61% – um recorde desde que o levantamento teve início, em 2013. Os problemas com os bancos dizem respeito a

  1. relacionamento,
  2. dificuldade de acesso ao crédito, considerado muito caro, e
  3. burocracia. Continuar a ler

Destruição do BNDESPAR para Ganhos no Mercado de Capitais

Maria Luíza Filgueiras (Valor, 04/11/2019) anuncia: o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), presidido por Gustavo Montezano, quer extinguir sua carteira de participações acionárias em três anos, zerando os quase R$ 120 bilhões geridos hoje pela subsidiária BNDESPar. 

A proposta da nova administração não é eliminar a subsidiária, mas alterar substancialmente seu modelo de investimentos – com maior atuação com capital semente (“seed money”) e via fundos de investimento, por exemplo, reduzindo consideravelmente o risco financeiro diário da instituição.

A proposta é um pouco mais ambiciosa do que o governo vinha falando até agora. Não se tratava apenas de redução das grandes posições em ações. No modelo atual, o banco é um hedge fund, diz uma fonte graduada ligada à instituição, referindo-se ao fato de a carteira de ações ser superior ao patrimônio do banco. Em três anos, a carteira tem de estar mais próxima de zero possível, fazendo com que o resultado do banco de fomento seja monótono, previsível, e não especulativo.

Detalhe: vender o estoque de ações é “once-for-all”, ou seja, de uma vez por todas. Dá lucro de imediato e depois o Tesouro Nacional não mais receberá os dividendos acostumados a receber do BNDES. Confira nos quadros acima.

Continuar a ler

Continua a Obsessão Neoliberal de Destruição do BNDES

Francisco Góes (Valor, 04/11/2019) mostra como a administração de Gustavo Montezano (amigo do filho, i.é, nomeado por filhotismo) ao completar 100 dias à frente da instituição está destruindo o apoio aos projetos de infraestrutura como área de atuação do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). O BNDES terá uma participação bem menor em relação à do passado recente da Era Social-Desenvolvimentista no financiamento ao setor. Será uma parcela bastante minoritária no crédito.

Ao fazer o banco diminuir sua participação no financiamento a projetos em áreas como energia, transporte e logística, Montezano aprofunda a mudança começada em 2017, quando a economista neoliberal Maria Silvia Bastos Marques, então presidente do BNDES no governo Michel Temer, alterou as fatias máximas de crédito a projetos do setor. À época, os financiamentos ainda eram atrelados à subsidiada Taxa de Juros de Longo Prazo (TJLP), depois substituída pela Taxa de Longo Prazo (TLP), de mercado.

Na ocasião, a participação do banco em financiamentos para a área de energia, rodovias e mobilidade caiu de 70% para 50%. O percentual de crédito do banco em projetos de saneamento, logística (ferrovias e hidrovias) e transporte de gás não sofreu grandes alterações, sendo fixada em 80% (antes era de 70% a 80% dependendo do setor). Mas houve casos, como projetos de transmissão de energia elétrica, em que a participação do banco em crédito foi zerada.

Agora não se fala em zerar o crédito à infraestrutura, mas de manter baixo esse percentual de financiamento. A lógica da nova gestão do BNDES – ao privatizar o mercado de crédito – é participar de operações de crédito de forma completar ao capital privado. Continuar a ler