Destruição do BNDESPAR para Ganhos no Mercado de Capitais

Maria Luíza Filgueiras (Valor, 04/11/2019) anuncia: o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), presidido por Gustavo Montezano, quer extinguir sua carteira de participações acionárias em três anos, zerando os quase R$ 120 bilhões geridos hoje pela subsidiária BNDESPar. 

A proposta da nova administração não é eliminar a subsidiária, mas alterar substancialmente seu modelo de investimentos – com maior atuação com capital semente (“seed money”) e via fundos de investimento, por exemplo, reduzindo consideravelmente o risco financeiro diário da instituição.

A proposta é um pouco mais ambiciosa do que o governo vinha falando até agora. Não se tratava apenas de redução das grandes posições em ações. No modelo atual, o banco é um hedge fund, diz uma fonte graduada ligada à instituição, referindo-se ao fato de a carteira de ações ser superior ao patrimônio do banco. Em três anos, a carteira tem de estar mais próxima de zero possível, fazendo com que o resultado do banco de fomento seja monótono, previsível, e não especulativo.

Detalhe: vender o estoque de ações é “once-for-all”, ou seja, de uma vez por todas. Dá lucro de imediato e depois o Tesouro Nacional não mais receberá os dividendos acostumados a receber do BNDES. Confira nos quadros acima.

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Continua a Obsessão Neoliberal de Destruição do BNDES

Francisco Góes (Valor, 04/11/2019) mostra como a administração de Gustavo Montezano (amigo do filho, i.é, nomeado por filhotismo) ao completar 100 dias à frente da instituição está destruindo o apoio aos projetos de infraestrutura como área de atuação do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). O BNDES terá uma participação bem menor em relação à do passado recente da Era Social-Desenvolvimentista no financiamento ao setor. Será uma parcela bastante minoritária no crédito.

Ao fazer o banco diminuir sua participação no financiamento a projetos em áreas como energia, transporte e logística, Montezano aprofunda a mudança começada em 2017, quando a economista neoliberal Maria Silvia Bastos Marques, então presidente do BNDES no governo Michel Temer, alterou as fatias máximas de crédito a projetos do setor. À época, os financiamentos ainda eram atrelados à subsidiada Taxa de Juros de Longo Prazo (TJLP), depois substituída pela Taxa de Longo Prazo (TLP), de mercado.

Na ocasião, a participação do banco em financiamentos para a área de energia, rodovias e mobilidade caiu de 70% para 50%. O percentual de crédito do banco em projetos de saneamento, logística (ferrovias e hidrovias) e transporte de gás não sofreu grandes alterações, sendo fixada em 80% (antes era de 70% a 80% dependendo do setor). Mas houve casos, como projetos de transmissão de energia elétrica, em que a participação do banco em crédito foi zerada.

Agora não se fala em zerar o crédito à infraestrutura, mas de manter baixo esse percentual de financiamento. A lógica da nova gestão do BNDES – ao privatizar o mercado de crédito – é participar de operações de crédito de forma completar ao capital privado. Continuar a ler

Crédito Rural e Recuperações Judiciais no Agronegócio

José Roberto Mendonça de Barros é economista e sócio-diretor da MB Associados consultoria econômica. Escreveu artigo (Valor, 30/10/19) sobre o novo quadro de expansão do crédito rural com recursos livres, i.é, juros de mercado.

O agronegócio brasileiro é um enorme sucesso. No decorrer das últimas décadas o país construiu um setor agrícola dinâmico, pautado pelos ganhos de produtividade e pela inserção no mercado internacional. O país tem hoje o maior saldo comercial agrícola do mundo. Em todas as projeções futuras feitas pelos principais organismos internacionais o Brasil desponta como aquele cuja agricultura mais haverá que contribuir para atender as demandas por alimentos, energia e fibras de toda população mundial.

Não há dúvida que parcela importante do processo foi a criação de um amplo Sistema de Crédito Rural que possibilitou ao setor avançar por décadas nos investimentos que contou com apoio intenso do Estado, fazendo uso de amplas linhas de crédito apoiadas por recursos orçamentários que objetivavam reduzir a taxa de juro paga pelo setor. A oferta de crédito garantiu o crescimento da agricultura de maneira impressionante. Estudo econométrico feito pela MB Associados mostra com clareza que a elasticidade entre o crédito e a produção agrícola é praticamente igual a 1. Ou seja, para cada 10% de expansão do crédito se associa 10% de crescimento da oferta agrícola. O inverso se dará para o caso de uma redução.

As dificuldades fiscais por que passa o governo federal impõem que as transferências para o crédito rural se reduzam progressivamente. No ano corrente houve significativa queda na participação do crédito rural oriundo da política pública (juro controlado) comparado ao de juro livre. Até 2018 a participação do juro livre no crédito era da ordem de 20%. No Plano Safra de 2019 a participação saltou para 40%, com 60% oriundo de juro controlado. Este movimento deve crescer nos próximos anos. Assim, fica evidente que o setor privado terá papel central no financiamento da safra brasileira. Esse crédito virá do sistema financeiro e de diversas empresas que se conectam ao agronegócio como as grandes comercializadoras internacionais, empresas de insumos agrícolas, revendas. Continuar a ler

Elevação do grau de endividamento medido pela relação entre o endividamento líquido e o capital próprio do conjunto de empresas não-financeiras

Esta Carta IEDI traz a atualização do acompanhamento realizado pelo Instituto nos últimos anos sobre o desempenho econômico-financeiro das grandes empresas não financeiras no país. Nesta edição foram compilados os balanços patrimoniais e as demonstrações de resultados de 307 grandes empresas com informações para os primeiros semestres de 2016 a 2019 e para os dois primeiros trimestres de 2019. Edições anteriores deste levantamento podem ser consultadas, por exemplo, nas Cartas IEDI n. 927 e n. 877.

Na primeira metade de 2019 nota-se uma melhora generalizada da rentabilidade líquida das grandes empresas não financeiras. Para o total da amostra, a margem líquida de lucro subiu de 5,7% para 6,6% entre os primeiros semestres de 2018 e 2019. Este avanço deveu-se em sua maior parte ao resultado do 2º trimestre de 2019 quando o indicador saltou para a faixa de 10,1%.

Para a indústria, a recuperação da lucratividade foi ainda mais significativa, embora tenha permanecido em um patamar inferior ao total da amostra. A margem líquida de lucro da indústria (exceto Petrobras e Vale) dobrou da primeira metade de 2018 para o mesmo período de 2019, de 1,9% para 3,8%. Cabe observar, porém, dois aspectos. Primeiro, que o lucro de jan-jun/18 foi negativamente impactado pela greve dos caminhoneiros e pela desvalorização cambial; e segundo, que a reação em jan-jun/19 foi muito concentrada no 2º trimestre do ano (margem líquida de 5,3%).

A despeito deste avanço recente da rentabilidade industrial, não foi em intensidade suficiente para que o indicador de margem líquida voltasse a patamares anteriores à crise. A margem de lucro da indústria (exceto Petrobras e Vale) permanece em linha com a marca alcançada em 2016, depois da forte deterioração registrada em 2014-2015.

Uma importante causa para a reação restringida do retorno industrial foi a evolução da rentabilidade operacional no setor. Neste caso, houve retrocesso: de 10,1% no 1º sem/18 para 8,7% no 1º sem/19 tomado o conjunto de empresas industriais exceto Petrobras e Vale. Funciona como alento o fato de que essa redução concentrou-se no período jan-mar/19 (8,2%) e esteve menos associada ao desempenho de abr-jun/19 (9,1%), o que abre uma perspectiva de melhora adicional na segunda metade do ano.

Neste contexto, a retomada da rentabilidade líquida no primeiro semestre de 2019 decorreu mais de aspectos financeiros do que operacionais. Foi a expressiva queda das despesas financeiras o motivo do incremento do lucro líquido no período. Este movimento foi constatado tanto no caso das empresas industriais como na amostra total de empresas não financeiras.

De todo modo, o indicador EBIT/Despesas Financeiras, medindo o grau de cobertura das despesas financeiras pela geração de lucro operacional, melhorou para o conjunto das empresas, inclusive industriais. Para o total da amostra, este índice atingiu 1,5 no 1º semestre de 2019, e na indústria o resultado foi de 1,3 – o melhor patamar desde 2016. Os lucros advindos da operação das empresas conseguiram cobrir com certa folga, os custos financeiros. Vale lembrar: no caso da indústria, isso não ocorria na primeira metade de 2018, porque o indicador se encontrava abaixo de 1.

O menor valor atingido pelas despesas financeiras em 2019 reflete tanto a redução do custo de financiamento, devido a um nível menor de juros básicos (Selic) da economia brasileira, como o processo de renegociação de passivos e estratégias de alteração do perfil de financiamento das empresas iniciado já em 2016.

Com isso, nota-se aumento da parcela de longo prazo na estrutura de dívidas das grandes empresas, inclusive com expansão da utilização de debêntures de longo prazo neste processo de reestruturação dos passivos. Para o total da amostra de empresas não financeiras, o valor de debêntures de longo prazo aumentou 33% do 1º sem/18 para o 1º sem/19, chegando a R$ 217,1 bilhões. No caso da indústria (exceto Petrobras e Vale), a alta foi ainda mais expressiva: +40%, chegando a R$ 31,8 bilhões.

Embora muitas empresas tenham conseguido alongar seu passivo, os dados do levantamento mostram ainda existir dificuldade para reduzir o montante de dívidas no atual contexto de fraco crescimento econômico. Para o conjunto das empresas não financeiras, o grau de endividamento medido pela relação entre o endividamento líquido e o capital próprio subiu de 83% em jan-jun/18 para 85,9% em jan-jun/19. No caso da indústria (exceto a Petrobras e a Vale), houve um declínio, ao passar de 96,5% para 91,5% no mesmo período, mas ainda assim permanece muito superior ao nível de 2016 (83,6%)

O levantamento do IEDI mostra existirem diferenças setoriais importantes do ponto de vista do grau de endividamento. Em muitos setores, como eletroeletrônicos, metalurgia, têxtil e vestuário, as empresas conseguiram reduzi-lo para um nível mais próximo da média histórica. Em outros, o patamar de dívidas continua em elevação, como construção civil, petróleo e gás, autopeças, calçados etc., demonstrando menor capacidade de se ajustar ao cenário de baixo dinamismo econômico.

O cenário geral de alto endividamento, além das frustrações recentes com o nível de dinamismo geral da economia, dificulta a contratação de dívidas adicionais para o financiamento de novos investimentos, minando as condições para um crescimento mais robusto do PIB no curto prazo.

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Em busca da “caixa-preta” do BNDES: onde está o pedido de desculpas do presidente aos funcionários?

Arthur Koblitz é presidente da Associação dos Funcionários do BNDES. Publicou hoje artigo em O Globo, mostrando: como era esperado, simplesmente não há evidências de malfeitos, de esquemas de corrupção, por mais que o presidente da República tenha nomeado mais um preposto, cujo único credencial é ser amigo de seu filho, para aparelhar o Banco — e denunciar seus funcionários. Os neoliberais aliados com neofascistas fazem tudo para criminalizar as instituições desenvolvimentistas do país. E não entregam nada, nenhum bem-estar social, aos brasileiros!

“Mais um presidente do BNDES, o quinto num período de três anos, entra no Banco com mandato para encontrar malfeitos e falcatruas, e conclui que elas não existem. Nenhum outro presidente do Banco de Desenvolvimento teve um mandato mais explícito nesse sentido do que Gustavo Montezano. Seu antecessor, Joaquim Levy, foi grosseiramente defenestrado do cargo sob a acusação, entre outras, de que tinha se recusado a abrir a “caixa-preta” do BNDES.

Principal objeto de calúnias, a exportação de serviços de engenharia acaba de merecer uma nota oficial da nova administração, na qual não consta qualquer registro que justifique a aplicação do termo “caixa-preta” às atividades realizadas por empregados do Banco de Desenvolvimento.

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Crime Lesa Pátria: Desmanche Neoliberal do BNDES

Francisco Góes (Valor, 19/06/19) entrevistou o ex-presidente da instituição de fomento, Paulo Rabello de Castro, a respeito da nomeação do engenheiro Gustavo Montezano. Amigo de baladas de um dos filhos do capitão-miliciano, foi apontado para ser o novo presidente do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES).

Ele terá de enfrentar uma “escolha de Sofia” – uma decisão difícil, tomada sob pressão -, no entendimento do e “A escolha se dará entre ser um gestor público, honrando o nome do pai dele [Roberto Montezano] ou ser mais um pau mandado“, disse Rabello, que presidiu o BNDES no governo de Michel Temer.

Devolução de recursos potenciais para financiamento deve ganhar rapidez com novo presidente Montezano. O pau-mandado foi indicado pelo governo para presidir o BNDES com duas prioridades bem definidas.

  1. Uma delas é a devolução de “empréstimos perpétuos” ao Tesouro Nacional: isto não é “pedalada fiscal”?!
  2. A outra prioridade do governo preocupado só com perseguição político-ideológica, com a mesma retórica desde a campanha eleitoral, cobra a fake-news divulgada por ele: abertura da “caixa-preta” do BNDES, em especial em relação aos contratos de apoio à exportação de serviços para Cuba e Venezuela. Continuar a ler

Entraves na Desalavancagem Financeira das Empresas Não-Financeiras

Arícia Martins (Valor. 03/05/19) informa: o cenário de reação fraca da atividade em 2018 teve reflexo na rentabilidade das empresas industriais. Elas mostraram resultados inferiores aos de outros ramos da economia, tendência a se repetir este ano, se a retomada não deslanchar. Segundo levantamento do Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (IEDI), os indicadores de lucratividade do setor melhoraram no ano passado, mas de forma concentrada e insuficiente para dar início a um novo ciclo de investimentos produtivos.

No agregado de 318 companhias não financeiras com dados contábeis disponíveis, a margem líquida de lucro (relação entre lucro líquido e receita líquida) subiu de 4,3% para 7,6% entre 2017 e 2018, superando com folga o percentual de 2,7% registrado em 2014, ano anterior à recessão. Mesmo excluindo Petrobras, Eletrobras e Vale da amostra – que, pelos seus tamanhos, distorcem os resultados -, a margem líquida aumentou 1,4 ponto na passagem anual, para 5,9%, também acima do patamar de cinco anos atrás (5,6%).

Para a indústria, porém, a melhora foi bem mais tímida. No conjunto de 131 empresas do setor, desconsiderando Petrobras e Vale, o indicador avançou 0,9 ponto em 2018 sobre o ano anterior, para 4,6%. Com essa evolução, a margem líquida das companhias industriais ainda está 1,1 ponto abaixo do nível de 2014. Continuar a ler