Por que o sistema financeiro tornou-se tão poderoso? (Debate com Luiz Carlos Bresser-Pereira)

Bobo-da-corte

Certa vez, em intervalo para almoço de um seminário realizado no BNDES, tive o prazer de trocar ideias com o Professor Luiz Carlos Bresser-Pereira, meu caro amigo e prefaciador do meu primeiro livro (Ensaios de Economia Monetária, publicado pela Bienal-Educ em 1992), a respeito do poder dos “economistas-chefe” de bancos. Como provocação, disse-lhe que “eles são como os bobos-da-corte: imaginam que dão as cartas na corte (sistema bancário), mas cumprem apenas o papel de ideólogos da casta dos mercadores-financistas. São os sábios-pregadores em defesa da Economia de Livre-Mercado. Em última instância, quem os controla, de fato, são os patrões-banqueiros. Estes apoiam (e recebem apoio de) os governos e os bancos centrais que seus economistas-chefe desancam diariamente nos jornais, para a corte rir”.

Bobo da corte, bufão, bufo é o nome pelo qual era chamado o “funcionário” da Monarquia encarregado de entreter o rei e rainha e fazê-los rirem. Muitas vezes eram as únicas pessoas que podiam criticar o rei sem correr riscos, uma vez que sua função era fazê-lo rir, assim como os palhaços fazem nos dias atuais.

Recebi artigo do Bresser-Pereira, onde ele levanta a hipótese de que “o sistema financeiro deve empregar mais de 80% dos macroeconomistas políticos existentes nos países”. E pela importância que a política macroeconômica recebe, desde a Era Keynesiana, esses “macroeconomistas políticos” tornaram o sistema financeiro tão poderoso! É como os “bobos-da-corte” dessem o Poder à Monarquia!

Menos, menos… Como materialista, não aceito a hipótese da filosofia idealista de que “as ideias criam o mundo real”. No meu livro, Brasil dos Bancos (EDUSP, 2012), narrei a história de como ocorreu, de fato, a criação do poder dessa fração da classe dominante — a bancária –, desde 1888, quando D. João VI aqui aportou e logo cuidou de criar o primeiro Banco do Brasil. Ela se descolou do capital cafeeiro, que reunia todas as demais frações, em um conjunto unificado, a partir da década dos 20 no século XX, quando se criou pelo menos quatro componentes básicos que interagem para a emergência do multiplicador monetário em um sistema bancário complexo e poderoso:

  1. uma rede de agências relacionada à expansão da urbanização, que ganhou dimensão nacional apenas após a II Guerra Mundial, cujos gerentes eram espécie de “cabos-eleitorais”;
  2. o uso generalizado de cheques pelos clientes com a criação de uma Câmara de Compensação;
  3. a criação de uma Carteira de Redescontos, no BB (semi autoridade monetária na época), que protegia o sistema contra “corridas bancárias”;
  4. a inserção política dos banqueiros, seja diretamente na vida pública, seja via financiamento de campanhas de políticos.

Continue reading “Por que o sistema financeiro tornou-se tão poderoso? (Debate com Luiz Carlos Bresser-Pereira)”

Falta Projeto, Sobra Dinheiro…

FGTS 2012-2015

Como já disse, neste modesto blog, em geral, a economia brasileira não tem problema de funding, tem sim de demanda de crédito, isto é, que possa efetivar a oferta potencial. As prefeituras dos municípios pobres brasileiros não tem corpo técnico para elaborar projetos adequados, tecnicamente, nem são capazes de contratar terceiros para isso. Os governos estaduais não podem se endividar demasiadamente.

Edna Simão (Valor, 12/01/16) confirmou que dados do FGTS mostram que a falta de projetos viáveis, atendimento de parâmetros de risco de crédito e elevado endividamento dos entes públicos representam os principais problemas para a execução de parcela maior dos recursos destinados aos investimentos. As aplicações em mobilidade urbana foram prejudicadas ainda pela retração dos investimentos públicos.

Apesar das deficiências do país em saneamento básico e infraestrutura urbana, boa parte do orçamento do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS) para tais áreas não foi usada em 2015. Na área do saneamento básico, conforme informações do Ministério das Cidades, o valor inicial do orçamento de 2015 era de R$ 7,5 bilhões, valor reduzido para R$ 5,1 bilhões no decorrer do ano. As contratações, segundo o ministério, somam R$ 2,138 bilhões, o que representa execução de 42,2%.

“Quanto ao percentual de contratação verificado até o momento, o mesmo ocorreu em função de não ter havido novos processos seletivos de empreendimentos ao longo de 2015, priorizando-se os empreendimentos já selecionados, além de fatores como a necessidade de os tomadores atenderem aos parâmetros de risco de crédito; e no caso dos tomadores públicos, às dificuldades de endividamento”, explicou o ministério, por meio da assessoria.

Continue reading “Falta Projeto, Sobra Dinheiro…”

Financiamento do BNDES: 1/5 das Obras Públicas Latino-americanas

Peso das Carteiras nas Receitas do BNDES

Luiz Sérgio Guimarães (Valor, 04/12/15) informa que o Brasil, por meio do BNDES, detém hoje 18% do mercado latino-americano de financiamento de grandes obras públicas, ficando atrás apenas da Espanha, com cerca de 30% do volume de empréstimos de infraestrutura aos países da região. Mas a posição brasileira de vice-liderança está sendo ameaçada pela China, hoje com 15%. O crescimento chinês vem sendo bancado por estratégias e condições agressivas. O país pode perder a segunda colocação também como efeito secundário da diminuição de negócios das empreiteiras nacionais em decorrência da Operação Lava-Jato.

Os financiamentos do BNDES a obras realizadas no exterior por empresas brasileiras não representam mais do que 1,5% dos desembolsos totais do banco, de R$ 105,5 bilhões entre janeiro e outubro de 2015. “É um equívoco imaginar que o banco deixa de investir na infraestrutura doméstica para destinar recursos a obras no exterior”, diz a superintendente da área de comércio exterior do BNDES, Luciene Machado.

O aporte externo, feito em dólares ao contratante internacional para que compre serviços e equipamentos de empresas brasileiras, é considerado “marginal” em face do montante direcionado ao financiamento da infraestrutura interna, que, no acumulado de 2015, na casa de R$ 40,8 bilhões, equivaleu a 39% dos desembolsos totais. Continue reading “Financiamento do BNDES: 1/5 das Obras Públicas Latino-americanas”

Bancarização e Financeirização

FGC 1999-2015

Por mais que eu seja francófilo, não gosto da contraparte do anglicismo, isto é, a galofilia que traduz mondialisation (“l’anglicisme globalisation est parfois aussi employé”) pelo português mundialização. Daí foi um passo só para estender o conceito para financeirização, suposta fase do capitalismo em que as transações e mercados financeiros ganham força no sistema econômico mundial.

A “financeirização no capitalismo contemporâneo” vem das teorias de dois pensadores marxistas sobre o fenômeno: François Chesnais, economista francês, e David Harvey, geógrafo inglês radicado nos Estados Unidos. É uma nova palavra para designar um velho fenômeno socioeconômico. A I e a II Guerra Mundial interromperam com destruição e protecionismo um processo em curso de grande abertura comercial e financeira para o exterior. Foi apenas um intervalo histórico.

Na verdade, o encontro do capital-dinheiro com a força de trabalho livre para se vender por um salário caracteriza a relação de produção capitalista desde que a acumulação primitiva se concluiu no século XVIII. Por definição, nunca o capital-dinheiro ficou ausente das decisões capitalistas. Os donos do capital sempre levaram em conta considerações financeiras para decidir a respeito de sua inserção no processo de acumulação. Nada disso é novidade histórica.

O que é novidade na história bancária brasileira é o processo de “bancarização” (perdão pela francofilia) que ocorre desde a virada do século XX para o XXI. Significa o acesso popular a bancos e, portanto, a crédito. É um importante mecanismo institucional de defesa do poder aquisitivo em uma economia que se caracteriza por volatilidade cambial e inflacionária. Busca encerrar a fase de distinção entre “dinheiro de pobre” e “dinheiro de rico” que vigorou fortemente entre 1964 e 1998. Continue reading “Bancarização e Financeirização”

O BNDES e o Tesouro Nacional  (por Luciano Coutinho)

Principais Fontes de Financiamento para o BNDES

Custo Líquido de Empréstimo do TN ao BNDESA atuação anticíclica da atuação do BNDES foi muito bem sucedida, seja em manutenção da FBCF em cerca de 20% do PIB até 2014, seja em alcançar a menor taxa de desemprego da história moderna da economia brasileira (4,5% da PEA), apesar da crise mundial. Entretanto, os congressistas golpistas quiseram tirar proveito de suposto “escândalo” — a escolha de projetos “vencedores” para conceder o crédito — e montaram um CPI sobre essa atuação, que deveriam elogiar, para sugerir manchetes para a imprensa sensacionalista. Seu presidente, meu ex-professor no Mestrado, Luciano Coutinho, enfrenta muito bem essa vaga golpista que refluirá quando verificarem que o BNDES merece sim elogios. Reproduzo abaixo seu artigo publicado na Folha de S.Paulo no dia 26 de agosto de 2015.

“Manchete da Folha do último dia 9 diz que o custo fiscal dos empréstimos do Tesouro Nacional ao BNDES [veja o aumento na participação em seu funding no gráfico acima] seria de R$ 184 bilhões nas próximas quatro décadas.

O valor é relevante, embora em termos relativos corresponda a 0,1% do PIB do período. Mais importante, ainda que em tese correta, a estimativa é incompleta, pois desconsidera os benefícios, isto é, o retorno do banco e os impactos sobre o investimento e sobre a geração de tributos.

A projeção de R$ 184 bilhões se baseia nas estimativas do custo futuro da dívida pública, aproximado pela taxa Selic, e da TJLP, referência dos financiamentos do BNDES. É relevante notar que, em quarenta e cinco anos, pequenos desvios na diferença entre essas taxas provocam grandes impactos no resultado final.

Nesse sentido, é mais apropriado comparar a Selic com a TJLP acrescida da margem de lucro do BNDES. O ganho do banco se reverte ao Tesouro na forma de impostos e dividendos ou retenção de resultado de uma empresa integralmente da União. Por exemplo, de 2009 a 2014, o BNDES pagou cerca de R$ 100 bilhões entre dividendos e tributos, a valores atuais corrigidos pela Selic.

Além disso, os empréstimos de longo prazo do BNDES financiam investimentos que em boa medida não ocorreriam na ausência desse crédito. Isso origina venda de máquinas e insumos, que elevam a arrecadação. Esse efeito fiscal também precisa ser levado em conta. Continue reading “O BNDES e o Tesouro Nacional  (por Luciano Coutinho)”

Poupança Privada e o Financiamento Corporativo de Longo Prazo

BNDES: Principais Fontes de Recursos ao ano (em % )

Principais Fontes de Financiamento para o BNDES

Ernani Torres Teixeira Filho foi apresentado no Fórum sobre Bancos Públicos, organizado pelas Brasilianas de Luís Nassif, como o economista-símbolo do BNDES: “basta dar um Google que os dois aparecerão juntos”. Ele já se aposentou, tanto do BNDES, quanto da UFRJ.

Nos somos coautores de um artigo justamente sobre “BNDES e o Financiamento do Desenvolvimento“: http://www.scielo.br/pdf/ecos/v21nspe/v21nspea11.pdf.

Ernani Teixeira Torres FilhoFoi ótimo trabalhar com ele via Skype: eu começava uma frase-ideia e ele imediatamente deduzia o que eu queria dizer — e vice-versa. Escrevemos rapidamente o artigo porque nos entendemos muito bem.

No Fórum, realizado em São Paulo, no dia 12 de novembro de 2015, mais uma vez presenciei uma brilhante exposição dele. Mostrou ótimos quadros estatísticos reveladores da atuação anticíclica fundamental do BNDES. Como somos discípulos e amigos da nossa mestra Maria da Conceição Tavares, nos aprendemos o que ela ensinou: “nunca diga nada sem comprovação empírica!”

Ernani enviou, gentilmente, sua palestra: Poupança Privada e Financiamento Corporativo de Longo Prazo – Ernani Torres nas Brasilianas de Luis Nassif 12.11.2015.

Nela, ele salienta que o BNDES teve papel relevante no financiamento de longo prazo, principalmente pós-2008, graças ao financiamento do Tesouro Nacional (veja acima)Porém, os bancos privados também se beneficiaram disso, pois cerca da “metade” dos creditos do BNDES são originados e mantidos em carteira pelos bancos comerciais, ou seja, estes fazem a avaliação do risco do cliente e o repasse dos recursos. Um banco de desenvolvimento como o BNDES é classificado como de “segunda linha” por causa disso: conta com bancos que têm rede de agências.

Além disso, ele destacou que os Títulos Corporativos, principalmente debêntures, foram um destaque em termos de crescimento (veja abaixo o estoque de ativos financeiros em % de PIB), mas a maior parte das operações constituíram de arbitragem fiscal e regulatória dos bancos. Estes são os principais atores na originação como funding de suas operações de leasing (arrendamento mercantil), mas também na aquisição. Eles os encarteiram, seja em carteira própria, seja em recursos administrados para terceiros (fundos), recebendo isenção fiscal para essa operação de autofinaciamento.

Brasil: Estoque de Ativos Financeiros (em % do PIB)

Estoque de Ativos Financeiros em PIB

Fonte: ANBIMA

Paradoxo da Parcimônia (publicado no Valor, 5 de novembro de 2015)

G15 - Renda Consumo e PoupançaColocações no Ranking G15 Y C SGráfico G15 S C FCFoi publicado hoje um artigo de minha autoria no jornal Valor: FERNANDO COSTA Paradoxo da Parcimônia – Valor 05.11.2015. Compartilho-o abaixo. Em seguida, está o artigo publicado por Aquiles Mosca (Valor, 14.10.2015), para download, que me motivou a escrever o meu.

No ranking dos quinze países com maiores PIB por paridade do poder de compra (G15), o Brasil tem uma das menores poupanças brutas (16,2% do PIB), acima só da inglesa (12,2%) e logo abaixo da norte-americana (17,9%). Será esse “consumismo” brasileiro resultante da colonização cultural inglesa no século XIX e da norte-americana no século XX? É puro efeito demonstração por parte de “novos-ricos” brasileiros em busca de exibição de status esnobe com seu consumo suntuário? Ou será um comportamento geral do nosso povo?

Na verdade, se para investimento o que de fato importa é financiamento, pouco importa essa poupança que equilibra (ex-post) as Contas Nacionais. É apenas uma variável residual entre o fluxo de renda e o fluxo de consumo durante certo período. Não é objeto de decisões individuais. Portanto, não será com mudança nos comportamentos individuais, provocada por um “empurrãozinho” (nudge em inglês), por exemplo, deixando automática ou inercial a adesão de empregados a fundos de pensão, que irá se agregar poupança na Contabilidade Social. Continue reading “Paradoxo da Parcimônia (publicado no Valor, 5 de novembro de 2015)”