Corta tudo, vende tudo: good business para “os parças” de O Mercado

Francisco Góes (Valor, 11/12/18) informa: a meta do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) de vender este ano R$ 12 bilhões em participações acionárias da carteira da subsidiária BNDESPar é possível de ser atingida, mas não será feita a qualquer custo.

De janeiro a setembro de 2018, a BNDESPar vendeu R$ 6,4 bilhões em ações e obteve ganho de R$ 4,78 bilhões com essas operações. A venda a mercado de ações de Vale e de Petrobras e o desinvestimento integral da posição do banco em Eletropaulo responderam por quase todo o resultado da BNDESPar com alienações até setembro.

Sua diretoria neoliberal estava trabalhando para atingir a meta de R$ 12 bilhões em vendas de ações em 2018, mas dependia das condições de mercado. O banco não tinha a obrigação de vender todo esse valor naquele ano. Caso as condições de mercado não fossem favoráveis, o banco poderia esperar um melhor momento para fazer a venda, talvez no começo do ano de 2019.

No imaginário neoliberal, no ano de 2019 o banco vai ter boa perspectiva, com a recuperação da economia, para desinvestir de ativos maduros na carteira. Há metas de desinvestimento em discussão, mas o mais relevante é se o novo governo ultraliberal e o futuro presidente neoliberal do banco, Joaquim Levy, vão se entender para encontrar políticas estruturadas na BNDESPar com a finalidade de vender as ações com mercado e compradores “parceiros” do ex-banqueiro de negócios no comando da economia. Continuar a ler

Livro da FEBRABAN sobre Juros

Talita Moreira e Flávia Furlan (Valor, 17/12/18) informam: no início do mês, a Federação Brasileira de Bancos (Febraban) lançou um livro sobre taxas de juros das operações de crédito. Download emFebraban. Condições para Juros Baixos no Brasil. 2018.

É um dos temas mais sensíveis ao bolso, mas também para a imagem das instituições. “Para avançar na sociedade, temas complexos precisam ser discutidos amplamente”, afirma o presidente da entidade, Murilo Portugal.

A nova cruzada de Portugal, executivo que atuou nos setores público e
privado e no Fundo Monetário Internacional (FMI), é convencer governantes
e sociedade de que ineficiências e anacronismos do Brasil são as principais
causas dos spreads elevados, e não o lucro dos bancos ou uma suposta falta de
competição. Entre os fatores que mais pesam, segundo o dirigente, estão:

  1. a dificuldade de recuperar créditos,
  2. a carga de impostos,
  3. as distorções tributárias do país, e
  4. a multiplicidade de leis sobre segurança das agências bancárias.

Portugal reconhece haver concentração no setor bancário, mas rechaça a visão de ela inibir a competição e a entrada de concorrentes. “Existe essa ideia de que [banco] é tão lucrativo que é um pouco incompatível com o fato de que os que estavam aqui estão saindo, como o HSBC e o Citi “, disse, em entrevista ao Valor.

A seguir, os principais trechos da conversa: Continuar a ler

JBS: “Campeã Nacional” ou Multinacional de Origem Brasileira?

Um dos méritos dos dirigentes do JBS, esnobados pela elite paulistana como “os açougueiros de Goiás”, é terem gravado e denunciado, sob pressão da PF/MP, a corrupção do golpista. Ficou clara para toda a Nação o propósito da armação do golpe.

Mas a imprensa brasileira foi incapaz de fazer uma boa análise econômica do grupo JBS naquele momento de atordoamento pelo desmascaramento de sua cumplicidade com os golpistas. Só recentemente saiu uma análise mais informativa a propósito de resultado concreto da muito criticada “política de escolha de vencedores” do BNDES. Na gestão do Luciano Coutinho, a meta estratégica do banco desenvolvimentista era conceder empréstimos subsidiados para dar competitividade internacional a grandes empresas brasileiras exportadoras de commodities. A finalidade era gerar superávit comercial e capacidade de importação de produtos com tecnologia embarcada não disponível no País, afastando o risco de crise cambial com grandes reservas internacionais. Não deu certo?!

Faltou, porém, a imprensa medir esse impacto no balanço de pagamentos. O chamado “complexo carne” exportou no ano (até agosto de 2018), US$ 9,2 bilhões, depois de “soja”(US$ 31,250 bi), “material de transportes” (US$ 21,6 bi), “petróleo” (US$ 19,4 bi), “minérios metalúrgicos” (US$ 14,8 bi), “produtos metalúrgicos” (US$ 9,9 bi). O total estava em US$ 158,9 bilhões. Em 2017, atingiu US$ 217,7 bilhões. O “complexo de carnes” chegou no ano passado a US$15 bilhões.

Detalhe importante: entre as 22.238 exportadoras apenas 266 empresas exportam acima de US$ 100 milhões. Em 2015, a JBS era a sexta maior empresa exportadora do Brasil, abaixo só da Vale, Petrobras, Bunge Alimentos, Cargill, Embraer. Exportava cerca de US$ 4 bilhões ou 2% do total exportado pelo país.  Continuar a ler

Futuro do BNDES e do Mercado de Capitais no Brasil

A questão do financiamento das empresas e especialmente de seus investimentos assume relevância ímpar para a economia brasileira no atual momento. O modelo de financiamento dos investimentos privados que prevaleceu nos últimos anos, com participação predominante do BNDES, apresenta profundas dificuldades de seguir operando nas mesmas bases, dada a substituição da TJLP pela TLP e a antecipação da amortização dos recursos concedidos ao BNDES pelo Tesouro.

Nesse cenário, o desenvolvimento de um novo modelo de financiamento do investimento, especialmente para projetos de infraestrutura e setores industriais mais intensivos em capital, é prioritário e urgente. Por essa razão, o IEDI vem divulgando estudos de pesquisadores da área, com avaliações e sugestões para que sejam acionados novos mecanismos de financiamento de médio e longo prazo e haja uma reformulação do papel do BNDES, que precisa ser mantido e revigorado para servir como importante agente de nosso desenvolvimento. Essas contribuições são sintetizadas na Carta IEDI 873, que faz parte de uma série de trabalhos que subsidiaram a formulação da estratégia industrial do IEDI a ser divulgada em breve.

Os estudos, cujos principais argumentos e conclusões estão aqui reunidos, compreendem:

“O BNDES em uma encruzilhada: como evitar sua desmontagem” (Carta IEDI n. 828  de 30/1/18) preparado pelo economista Ernani Teixeira;

“Para um novo desenvolvimento, um novo BNDES” (Carta IEDI n. 834 de 5/3/18) realizado pelo consultor do IEDI, João Furtado;

“A importância do BNDES no acesso ao crédito e na produtividade das empresas brasileiras” (Análise IEDI de 1/6/18), de autoria de Filipe Sousa e Gianmarco Ottaviano;

“Financiamento do investimento no Brasil e o papel do mercado de capitais” (Carta IEDI n. 850 de 6/6/18), de Carlos Rocca e

“BNDES Relevante” (Carta IEDI n. 857 de 29/6/18), de João Carlos Ferraz. Continuar a ler

Bancos Públicos Federais: Necessidade de Capitalização para Alavancagem Financeira do Crescimento

A tabela 1, elaborada por LCMB, mostra a taxa média de crescimento do PIB nos períodos: 1996 a 2002, 2002 a 2014 e 1996 a 2018. Incorporou também à tabela uma projeção até 2022, usando previsões de analistas econômicos. Considerando apenas o crescimento do consumo, os números desse período são os da tabela 2.

Em um período de 22 anos, entre a estabilização do Plano Real em 1996 e o fim do mandato golpista, o crescimento médio será de apenas 2,4 % ao ano, ou seja, pouco mais de 1% aa per capita. Se considerarmos a natureza injusta da distribuição de renda no Brasil, para grande parte da população o crescimento per capita é ainda menor.

Daí a prioridade número 1, a única capaz de contemplar a todos os interesses dispersos pela sociedade, conciliando o conflito movido por intolerância ou discursos de ódios mútuos, é o crescimento econômico gerador de empregos e renda. Sem ele o mercado interno definha e todos, inclusive os empresários, perdem.

Então, a questão-chave passa a ser: como induzir a retomada do crescimento? Via instrumentos de política econômica — monetário-creditícia, fiscal-tarifária, cambial e de controle de capital, salarial — em curto prazo? Através de planejamento indicativo em médio e longo prazo?

O que parece certo é necessário dar um basta no “discurso de sacrifício” da casta dos mercadores-rentistas,  predominante desde o golpe de 2016. Este deu espaço prioritário para uma agenda de reformas neoliberais (trabalhista, previdenciária, encarecimento do crédito direcionado, etc.) e imposição de sacrifícios à população com corte de direitos sociais conquistados anteriormente. Basta de “austeridade”! Continuar a ler

Emissões no Mercado de Capitais e no Mercado Externo: Sem Compensação da Redução do Crédito do BNDES

O Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) teve este ano o pior volume de desembolsos entre janeiro e junho para um primeiro semestre neste século. O desempenho da instituição reflete a dificuldade de recuperação da economia brasileira e os problemas encontrados no início do ano na mudança da Taxa de Juros de Longo Prazo (TJLP) para a Taxa de Longo Prazo (TLP). Entre janeiro e junho, o banco de fomento emprestou R$ 27,8 bilhões, acima apenas dos R$ 20,9 bilhões dos seis primeiros meses de 2000.

O montante ainda fica 17% abaixo dos R$ 33,5 bilhões desembolsados no primeiro semestre do ano passado. Um alento veio das consultas: subiram 3,5% na comparação com os seis primeiros meses de 2017, para R$ 49,7 bilhões. Já os enquadramentos somaram R$ 47,5 bilhões, aumento de 9,19% ante primeiro semestre de 2017 e as aprovações atingiram R$ 30,3 bilhões, 10,08% abaixo de igual período no ano passado.

Fabio Graner (Valor, 09/07/18) deduz: as captações de recursos por empresas nos mercados de capitais local e internacional mostraram-se insuficientes para compensar a redução do crédito do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) e alavancar o crescimento e o investimento em bases mais elevadas. Isso mostram os dados apresentados pelo Banco Central (BC) em boxe no último Relatório de Inflação (junho de 2018). A autoridade monetária e a equipe econômica neoliberal vêm fazendo esforço para chamar atenção para o aumento da participação de fontes alternativas de financiamento — e “tampar o sol com peneira”!

O chamado “financiamento amplo” tomado por um grupo de companhias selecionadas pelo BC – que considera, além das operações com empresas feitas pelo BNDES e pelo sistema financeiro nacional, as captações no mercado de capitais e no exterior – cresceu 3,2% no período de 2016 a maio de 2018 (considerado na análise do BC), menos que a inflação, de 4,6% do período.

Além disso, parte relevante da expansão nominal registrada nessa amostragem foi efeito meramente contábil da desvalorização cambial sobre o estoque da dívida feita pelas empresas no exterior. Só entre o fim do ano passado e maio deste ano, a dívida externa das empresas selecionadas pelo BC cresceu R$ 79 bilhões, sendo que R$ 29,1 bilhões foram de captações feitas entre janeiro e maio deste ano. Ou seja, o restante foi variação da dívida por conta de efeito cambial – até maio, o dólar tinha subido quase 13% ante o real.

Parte do dinheiro captado pelas empresas no mercado de capitais, antes dispondo de abundância de recursos a juro mais baixo, foi para trocar dívida cara por mais barata, dada a queda da Selic abaixo da antiga TJLP, além de reduzir o nível de endividamento. As empresas vêm em um processo de desalavancagem financeira desde a recessão iniciada no fim de 2014. Continuar a ler

Financiamento do Investimento no Brasil e o Papel do Mercado de Capitais

Em contraponto neoliberal, outro estudo encomendado pelo IEDI, elaborado por Carlos A. Rocca (Financiamento do Investimento no Brasil e o Papel do Mercado de Capitais. São Paulo: IEDI; junho/2018), analisa as condições de financiamento dos investimentos no Brasil e o potencial do mercado de capitais como principal fonte de recursos de longo prazo. Faz as seguintes observações.

Existe evidencia considerável demonstrando condições macroeconômicas adversas, caracterizadas principalmente por elevadas taxas de juros, serem o principal fator de inibição do desenvolvimento do mercado de capitais brasileiro, pelo menos desde o Plano Real, em 1994. A ampliação da politica de concessão de crédito com taxas subsidiadas pelo BNDES a partir de 2010 introduziu uma forte competição com as fontes de recursos do mercado de capitais, especialmente em relação às empresas de maior porte e mais qualificadas para captar recursos nesse mercado.

Um novo cenário mais favorável para o desenvolvimento do mercado de capitais surge após o golpe e o oportunismo neoliberal. Dada a desinflação de alimentos, maior componente do IPCA, depois de um longo ciclo de seca, esse índice caiu significativamente para patamar abaixo de 2,5% aa e propiciou condições para a redução da taxa real de juros para níveis mais próximos dos internacionais.

Com dirigentes neoliberais, houve a mudança de posicionamento do BNDES em favor do mercado de capitais com a adoção de taxas de financiamento referenciadas a taxa de mercado (TLP) da NTN-B de 5 anos. Passa a ser uma referência de custo de oportunidade, ou seja, o custo do funding possível de ser captado pelo Tesouro Nacional e ser transferido para alavancagem financeira do BNDES sob o risco de elevação da dívida bruta pública. Continuar a ler